Afinal, quem guarda os guardas?

(José Pendão, in Facebook, 06/05/2026, Revisão da Estátua)


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Vinte e quatro polícias detidos. Três operações em dez meses. Segundo a acusação do Ministério Público e a decisão instrutória do Tribunal Central de Instrução Criminal, o que se passou dentro das esquadras do Rato e do Bairro Alto inclui tortura, violação, sodomização com bastões e cabos de vassoura.

Vítimas algemadas, obrigadas a cantar os parabéns enquanto choravam. Murros com luvas de boxe – como se os detidos fossem sacos de treino. Rastas cortadas com a faca apreendida ao próprio agredido. Gás pimenta na cara e depois a pergunta, em tom de gozo: “Tá a arder? Até a mim tá!” Tudo filmado. Tudo partilhado em grupos de WhatsApp e Telegram com dezenas de outros agentes. E depois, nos mesmos grupos, os comentários: “Foi pena não ter morrido esse paneleiro”. “Eu metia o gajo no Tejo”.

Os alvos, segundo o MP, eram invariavelmente os mesmos: toxicodependentes, sem-abrigo, imigrantes, estrangeiros em situação irregular. Os que ninguém procura. Os que ninguém reclama. Os que, quando denunciam, ninguém acredita — e eles sabiam-no. Uma das vítimas, cidadão marroquino, nunca apresentou queixa porque pensou que ninguém iria acreditar nele “por ser imigrante e toxicodependente”. Tinha razão. Só que, desta vez, os algozes filmaram-se a si próprios. A vaidade foi mais forte do que a prudência. E a impunidade, que durante meses os protegeu, converteu-se em prova.

A decisão instrutória do tribunal concluiu que motivações racistas e xenófobas podem estar na origem destes crimes. Não foi um episódio. Não foi um excesso pontual de dois agentes num mau dia. A acusação descreve uma prática reiterada, com múltiplos participantes, múltiplas vítimas, e um pacto de silêncio que o ministro da Administração Interna, Luís Neves, admitiu ter existido.

Vinte e quatro agentes envolvidos. Três operações. Esquadras do Rato e do Bairro Alto. E ninguém — nenhuma chefia, nenhum colega, nenhum graduado de serviço — viu nada. Ou melhor: viram os vídeos, partilharam os vídeos, riram-se com os vídeos, e calaram-se. Um deles, quando um agente tentava sodomizar um detido com um bastão, limitou-se a mandá-los “parar com aquilo”. Depois, silêncio.

Isto é o que aconteceu. Estes são os factos. São públicos, estão documentados, estão em acusações do Ministério Público e em decisões de pronúncia do TCIC. E é precisamente neste ponto — neste instante em que a gravidade dos factos exigiria de qualquer responsável político um mínimo de decência, ou pelo menos de silêncio envergonhado — que André Ventura se levanta do seu lugar e faz o que faz melhor: grita…berra.

Ventura não gritou de indignação com a tortura. Não gritou de horror com a violação. Não gritou de vergonha pelo que agentes do Estado fizeram a seres humanos indefesos dentro de esquadras da República. Ventura gritou contra o ministro que está a investigar, a deter e a punir os torturadores.

Leia-se de novo, devagar, porque a frase é tão obscena que o cérebro a quer rejeitar: o líder do partido que construiu a sua carreira inteira sobre a “lei e ordem”, sobre o “respeito pela autoridade”, sobre a exigência de “tolerância zero” com o crime — esse mesmo líder olhou para vinte e quatro agentes detidos por tortura e violação e decidiu que o problema é o ministro que os mandou deter.

“Anúncios infelizes”, chamou-lhe Ventura. Infeliz é a palavra que escolheu para descrever a atuação de um ministro que, pela primeira vez em décadas, tratou a tortura policial como aquilo que é: um crime. “Esses casos acontecem com polícias e acontecem com todas as outras corporações”, acrescentou, com aquela naturalidade blasé de quem desvaloriza a sodomização de um ser humano com um bastão como se fosse uma infração administrativa. “Há gente melhor e gente pior em todas as profissões”. Sim, disse isto. Disse-o de peito feito, em conferência de imprensa, no dia em que quinze novos mandados de detenção foram executados. A banalização do horror como estratégia retórica.

E depois, a frase que deveria ser emoldurada e pendurada em todos os manuais de hipocrisia política que alguma vez se vierem a escrever: “O que não podemos ter é um governo e um ministro que falam mais em expulsar polícias, em perseguir polícias, em tirar-lhes a autoridade, do que propriamente em garantir que temos uma polícia eficaz, forte e capaz de combater a criminalidade”.

Releiam. O homem que quer penas mais duras para quem rouba um telemóvel acha que punir polícias que violam e torturam é “perseguir polícias”. O homem que exige “mão dura” contra a criminalidade acha que a mão dura não se aplica quando o criminoso usa farda. O homem que vocifera contra imigrantes acusando-os de trazerem violência para Portugal acha que quando são os agentes do Estado a praticar violência com requintes de malvadez contra esses mesmos imigrantes, o problema é “a narrativa” do ministro.

É preciso parar e olhar para o mecanismo, porque ele é tão transparente quanto cínico. Ventura sabe exatamente o que está a fazer. A base eleitoral do Chega inclui um segmento significativo das forças de segurança e das suas famílias. Defendê-las é transacional: em troca de votos, oferece cobertura. Cobertura incondicional. Cobertura que não distingue entre o agente que cumpre a lei e o agente acusado de sodomizar um homem algemado com um cabo de vassoura. Para Ventura, ambos são “polícias” — e criticar um é atacar o outro.

A nuance é o inimigo. A distinção é o perigo. E por isso, quando o Estado finalmente funciona — quando a PSP denuncia, o MP investiga, o tribunal pronuncia e o ministro atua — Ventura não aplaude. Ataca. Porque cada polícia preso por tortura é um voto que corre o risco de se desprender. Cada detenção é uma fissura na narrativa de que a “autoridade” é sempre boa e a “insegurança” vem sempre de fora — de fora das esquadras, de fora das fronteiras, de fora da raça certa.

É isto que Ventura faz. Não defende a polícia. Defende a impunidade de quem veste farda. E ao fazê-lo, ofende profundamente os milhares de agentes que cumprem o seu dever sem algemas aos bancos, sem luvas de boxe nos detidos, sem vídeos de humilhação partilhados em grupos do WhatsApp. Esses — os que fazem o trabalho honesto, nas esquadras silenciosas, sem tortura e sem aplausos — são os primeiros a serem traídos por um discurso que recusa distinguir entre polícia e criminoso fardado. Mas Ventura não lhes fala. Ventura fala aos que viram os vídeos e se calaram. Aos que partilharam e riram. Aos que acham que a autoridade inclui o direito de espancar quem não tem quem o defenda. É a esses que promete proteção. É por esses que grita.

Resta o ministro e a sua frase sobre os “factos isolados que não espelham os 20 mil agentes”.

 É a frase ritual, a frase de protocolo, a frase que todos os ministros de todos os governos de todas as democracias dizem quando a polícia é apanhada a fazer o que não devia. É uma frase necessária — porque é verdade que 20 mil agentes não são 24 criminosos. Mas é também uma frase perigosa se servir para fechar a porta a perguntas maiores. Porque vinte e quatro agentes não operam no vazio. Operam numa cultura. Numa estrutura. Num sistema de supervisão que falhou, num circuito de denúncia que não existiu, num “pacto de silêncio” que o próprio ministro reconheceu. Os factos podem ser isolados. As condições que os tornaram possíveis — o facilitismo, a ausência de controlo, a seleção de vítimas invisíveis, a certeza de que ninguém acreditaria num toxicodependente marroquino contra um agente da PSP — essas não são isoladas. São estruturais. E merecem mais do que uma frase de circunstância.

O que aconteceu na esquadra do Rato não se resolve com penas exemplares para meia dúzia de criminosos fardados. Resolve-se com supervisão real, com mecanismos de denúncia que funcionem, com câmaras nas esquadras, com uma cultura institucional que trate a tortura como o que ela é — não como um “comportamento desviante” mas como um crime contra a humanidade cometido em nome do Estado.

E resolve-se, sobretudo, com a recusa de tratar como “infeliz” a única coisa que neste caso funcionou: a investigação, a detenção, e a promessa de julgamento.

Quanto a André Ventura, esse fez o que sempre faz: olhou para os vídeos, para os bastões, para as vítimas algemadas a cantar os parabéns enquanto lhes batiam — e decidiu que o inimigo é o ministro. Não há adjetivo que faça justiça a esta escolha. Procurei. Todos ficam aquém.

O que há é um facto, e o facto é simples:

Quando chegou a hora de escolher entre a dignidade humana e a clientela eleitoral, André Ventura não hesitou. Nem sequer pestanejou. E as câmaras lá estavam, como estão sempre, porque o truque — velho, gasto, transparente — continua a render. Muda o horror, fica o oportunismo. Muda a tragédia, fica o megafone. E onde um país inteiro deveria sentir nojo, Ventura fareja uma oportunidade. Essa é, talvez, a única competência que ninguém lhe pode negar.

Odeias o socialismo mas nem sabes o que estás a odiar

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 05/05/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada po IA

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Este ano, tu vais descobrir tarde demais que votar para perseguir imigrantes e proteger bilionários tem um preço. E esse preço não fica nos discursos. Vai aparecer no supermercado, nos lares, nos incêndios, na economia, nas reformas, na escola pública, no SNS, na habitação e nas rendas.

As políticas desta coligação de vontades entre o PSD e a extrema-direita vão começar a sair dos vídeos, dos slogans e das redes sociais — e vão entrar na tua vida. E nem estou a falar apenas do roubo da estabilidade, do trabalho e do dinheiro de quem trabalha para enriquecer os de cima. Nem dos pacotes laborais que pisam os de baixo e protegem os de cima. Nem da transformação dos serviços públicos em negócios para os grandes grupos económicos lucrarem à custa da tua saúde, da educação dos teus filhos, do suor do teu trabalho, da tua família e do teu futuro. Estou a falar de coisas concretas. Coisas que vais sentir na pele.

Este ano, teremos um verão complicado ao nível dos incêndios. Não há mão-de-obra suficiente para limpar as florestas, que estão, neste momento, transformadas num autêntico barril de pólvora. Os imigrantes foram escorraçados, e estas políticas vão ter custos em área ardida e em vidas humanas.

Os lares de terceira idade, sem mão-de-obra, veem os custos disparar, e serás tu, se tiveres pais ou avós num lar, a pagar a fatura.

A saúde pública continua a ver sair os seus profissionais para os negócios dos privados, enquanto tu ficas a olhar para a porta trancada das urgências.

Os custos nos supermercados disparam, não só para alimentar os lucros recorde dos grandes retalhistas, mas também porque a falta de mão-de-obra na agricultura começa a ter custos elevados.

Há alunos sem professores, mas ninguém sabe exatamente quantos, porque, no meio do caos deste Governo, não há grande interesse em que se saiba.

Os médicos de família têm listas de espera de seis meses. Exames essenciais já nem aceitam marcações — para a lista não parecer grande demais.

A economia, que precisava de 100 mil imigrantes todos os anos, começa a encravar. Os anos de ouro do crescimento económico de António Costa estão a terminar, e o que vem a seguir vai doer.

Pior do que a pandemia e a guerra na Ucrânia, que não nos colocaram de joelhos, bastaram dois anos de extrema-direita a condicionar o Governo para tudo começar a desabar.

A extrema-direita, em pânico, ao perceber que tu podes começar a ver o truque, grita que basta aumentar os salários para preencher essas vagas. Mas, quando há três postos de trabalho vagos e apenas dois trabalhadores disponíveis, por muito que aumentes os salários, um dos postos continuará por preencher — e essa empresa sofrerá com isso.

A seguir, dizem-te que, se aumentarmos muito os ordenados, os emigrantes que estão na Suíça voltam. Esquecem-se de te dizer que, se em Portugal triplicássemos o salário de quem trabalha num lar de terceira idade, esse lar teria de repercutir esse custo nas famílias que lá têm os seus familiares. E sabes quem pagaria? Tu. Mas, para a extrema-direita, isso é indiferente. O que interessa é ganhar poder à custa da tua revolta, da tua frustração e dos slogans fáceis que te meteram na cabeça.

Isto não apareceu do nada. Foi uma longa propaganda, bem financiada, em jornais, televisões e centenas de grupos nas redes sociais. Foi aí que foram buscar ao fundo dos buracos o pior do sistema, para mudar a mentalidade deste país e ensinar pessoas comuns, como tu, a odiar cegamente, sem sequer perceberem porquê.

Odeias não ter lugar na creche para o teu filho e culpas o imigrante — mas não culpas o corte do IRC aos mais poderosos, dinheiro que daria para garantir creches para todos os que precisam.

Ao mesmo tempo que odeias esse “socialismo”, esqueces que foi precisamente esse “socialismo” que te deu essas creches.

Odeias que as urgências de obstetrícia estejam fechadas e culpas a mulher imigrante que teve um filho em Portugal — esquecendo que temos hoje menos nascimentos do que há dez anos.

Não foi a pressão do número de grávidas. Foi a pressão do lucro privado que roubou médicos ao SNS, e o aumento de 20% da população idosa. Mas isso os bilionários não querem que tu saibas. É melhor para os bolsos deles que culpes o trabalhador imigrante e não penses muito no assunto.

Odeias o imigrante que aluga um quarto e atribuis-lhe o aumento do custo da habitação — quando, na verdade, sem ele não haveria quem construísse habitação nem quem reabilitasse casas para arrendar. A falta de mão-de-obra é uma das principais razões pelas quais os custos da habitação dispararam, e com eles as rendas.

Odeias o imigrante porque ele é visível…senta-se ao teu lado no autocarro. Já, os milionários estrangeiros que vieram comprar casas e arrendá-las a preços exorbitantes; os que desviaram a construção da classe média para o segmento de luxo e turismo; os especuladores imobiliários; os grandes fundos com benefícios fiscais que atraem ainda mais capital predatório — esses são invisíveis.

Odeias um milhão de imigrantes que entraram ao longo de dez anos, mas fechas os olhos aos 30 milhões de visitantes que invadem o país todos os anos, pressionando o mercado imobiliário e empurrando os residentes dos grandes centros urbanos para a periferia.

O que não sabes é que hoje 12,5% da habitação é comprada por empresas, não por famílias. Mas o culpado de tudo, disseram-te eles, é o rapaz que veio do Bangladesh e que divide a casa com mais quatro pessoas.

Odeias os imigrantes que te constroem casas, tratam dos teus idosos, te servem no café e colhem os alimentos que compras no supermercado. Dizes que eles são os culpados, que pressionam os serviços públicos — mas ninguém te explicou que a população, mesmo com imigração, apenas aumentou 3,7% em 10 anos, Isso porque vivemos num país envelhecido e a morrer.

Odeias o socialismo que não existe, mas foi dele que nasceu quase tudo o que hoje consideras um direito adquirido: a escola pública, o SNS, o direito a um mês de férias pagas, o direito ao descanso, o abono de família, os manuais escolares gratuitos, o subsídio de desemprego e a reforma. Na verdade, odeias e nem sabes o que estás a odiar.

Odeias o aumento da criminalidade que vês em vídeos nas redes sociais, quando os números indicam que a criminalidade violenta tem vindo a diminuir de forma consistente. No tempo de Passos Coelho, quando André Ventura andava no PSD, a criminalidade violenta era 25% superior — mas ele andava caladinho.

Odeias e culpas grupos de imigrantes porque te olham, porque foste doutrinado para sentir medo de caras com tons de pele mais escuros. Mas os crimes que estão a aumentar são os dos jovens radicalizados.

O crime de ódio, o número recorde de chamadas da polícia às escolas e o facto de 20% dos violadores, segundo o RASI, terem menos de 20 anos mostram outra realidade. Não é o desconhecido na rua. É o namorado. O conhecido. O familiar.

Até ao nível dos crimes rodoviários, o que se vê é o individualismo do “cada um por si”, com o Estado desinteressado em formar bons condutores.

Odeias os dependentes de subsídios e achas que os imigrantes vivem deles porque os vês na praça durante o dia — mas ninguém te explica que eles são a força de trabalho mais precária em Portugal: trabalham algumas semanas e ficam outras à espera do próximo trabalho.

Odeias os subsídios para os pobres, mas não sabes que os 20% mais ricos recebem mais subsídios do que os 20% mais pobres.

Odeias os partidos que te defendem para ficares ao lado de quem se ri de ti no campo de golfe. É assim que acabas a votar contra ti próprio. Quando vives com medo e em paranoia permanentes, já não votas em quem te protege. Votas em quem te promete castigar alguém. Esse é o golpe.

Tu podes ganhar o salário mínimo, não ter dinheiro para pagar um seguro de saúde, não conseguir pôr os teus filhos numa escola privada, receber abono de família, precisar do SNS, precisar da escola pública, precisar da reforma, precisar dos direitos laborais que outros conquistaram antes de ti — e, mesmo assim, foste convencido a odiar o centro-esquerda como se fosse ele o teu inimigo.

Fizeram-te acreditar que os abonos de família que recebes não te tornam “subsídio-dependente”, mas que o apoio dado a alguém mais pobre do que tu já é um escândalo.

Fizeram-te acreditar que o problema do país era o pobre que recebe pouco, o imigrante que trabalha muito e a mulher de lenço.

Muitos votaram porque viram muitos videozinhos nas redes sociais.

Votaram porque acharam que a grande insegurança no país era uma mulher islâmica com um lenço na cabeça e uma máscara cirúrgica no rosto, que foi levar o filho à escola.

Votaram porque acreditaram que, talvez, castigando outros pobres, conseguissem viver melhor.

Votaram na mudança, sem perceber que essa mudança era voltar para o passado, quando o país vivia na miséria.

Mal sabes que és usado pelos bilionários que financiam esses partidos. E que, depois de os poderosos “controlarem” os imigrantes, serás tu o próximo a ser controlado… Aliás, já estás a ser controlado.

Montenegro e os “planos da pólvora seca”

(José Pendão, in Facebook, 04/05/2026, Revisão da Estátua)


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É preciso reconhecer o génio. E Luís Montenegro é, sem margem para dúvida razoável, o maior génio que a administração pública portuguesa produziu desde que Salazar inventou o formulário em triplicado. Não no campo menor da execução — essa atividade mecânica, subalterna, que consiste em fazer coisas — mas no campo nobre, luminoso, verdadeiramente artístico do anúncio.

Montenegro não governa. Montenegro apresenta. Montenegro não resolve problemas. Montenegro revela planos. E fá-lo com uma convicção tão inabalável, uma solenidade tão ensaiada, um brilho tão genuíno nos olhos, que por breves instantes — aqueles instantes mágicos entre a conferência de imprensa e a verificação dos factos — quase acreditamos que o plano é a solução.

Na terça-feira passada, o primeiro-ministro superou-se. Apresentou o PTRR — Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência — numa cerimónia no Parque das Nações que teve tudo o que um plano de respeito deve ter: 22,6 mil milhões de euros, 96 medidas, 15 domínios, três pilares, um horizonte de nove anos e uma sigla com quatro letras maiúsculas que soa vagamente a um medicamento para a tensão arterial — o que, pensando bem, talvez seja apropriado, porque há planos que fazem subir a tensão e há planos que se limitam a medi-la, e este faz as duas coisas.

Mas antes de mergulharmos neste esplêndido monumento à ambição burocrática, convém fazer o inventário do que veio antes. Não por crueldade — a crueldade é a última ferramenta do analista sem argumentos — mas por rigor. Porque o PTRR não nasce no vazio. Nasce numa linhagem. Pertence a uma família. É, se quisermos ser generosos, o herdeiro mais novo de uma dinastia de planos que, no espaço de dois anos, atingiu proporções quase habsburguianas.

Comecemos pelo primogénito: o Plano de Emergência e Transformação na Saúde, batizado em Maio de 2024 com 54 medidas, cinco eixos estratégicos e a promessa — feita com aquele olhar de escuteiro que é a especialidade do primeiro-ministro — de que os resultados seriam visíveis em 60 dias. Seiscentos dias depois, o SNS continua com urgências que abrem e fecham com a previsibilidade de um semáforo avariado, listas de espera que já constituem uma forma alternativa de envelhecimento, e um INEM cuja crise de Novembro ficou associada à morte de pelo menos 11 pessoas enquanto aguardavam atendimento. A ministra da Saúde sobreviveu a tudo — às mortes, aos escândalos, às demissões em catadupa de administrações hospitalares, ao conflito de interesses do secretário de Estado.

Em Portugal, a resiliência dos ministros é inversamente proporcional à resiliência dos serviços que tutelam. Ana Paula Martins deveria ser estudada pela NASA — qualquer material com aquela resistência à pressão tem aplicações na exploração espacial.

Depois veio o Construir Portugal — o pacote para a habitação. Isenção de IMT para jovens. Garantia pública para crédito a 100%. Tudo medidas do lado da procura, o que, em economia, é o equivalente a combater um incêndio com gasolina e depois queixar-se do calor. O Bloco avisou que ia aumentar os preços. A própria ministra da Juventude admitiu o risco. O Governo avançou na mesma, com aquela coragem específica de quem ignora os avisos não por bravura, mas por surdez seletiva. Em Setembro, os preços tinham subido. As rendas atingiram o que um deputado descreveu, com precisão poética, como “a Champions do imobiliário”. Dois mil e trezentos euros por mês. Por um T2. Em Lisboa. Para referência: a mensalidade de um T2 em Lisboa já custa mais do que uma assinatura anual de todos os streamings existentes, um ginásio premium e uma terapia semanal para lidar com o stress de pagar a renda.

Seguiu-se o Trabalho XXI — a reforma laboral que propõe, com a delicadeza de um dentista sem anestesia, devolver ao patronato instrumentos que tinham sido retirados em 2019 por serem excessivos. Banco de horas individual, enfraquecimento dos sindicatos, precariedade normalizada — tudo embrulhado na expressão “Economia 4.0”, que é a forma que este governo encontrou de dizer “século XIX” em linguagem de startup. Resultado: a primeira greve geral conjunta da CGTP e da UGT desde 2013, uma segunda já convocada, e o próprio Montenegro a admitir, com aquele desprendimento de quem comenta o tempo, que “o país não acaba” se a reforma não avançar. E tem razão — o país não acaba. Acaba é o contrato a prazo de quem nele trabalha.

E agora — rufem os tambores, iluminem o palco, ajustem os microfones — o PTRR. O vigésimo quinto plano, segundo a contabilidade do PS (outros brincalhões). Um plano a cada quinze dias. Há quem colecione selos. Há quem colecione vinhos. Este governo coleciona planos com o entusiasmo de um filatelista e a taxa de sucesso de um jogador de raspadinhas.

Mas o que é, exatamente, o PTRR? Pergunta legítima. Pergunta que, aliás, a oposição inteira — da esquerda à direita, numa unanimidade que em qualquer outra circunstância deveria preocupar o Governo — não se cansou de fazer.

Para Montenegro, é um “desígnio nacional” — e quando um primeiro-ministro usa esta expressão, o cidadão experiente deve agarrar-se à carteira com as duas mãos, porque nenhuma frase que começa com “desígnio nacional” termina com “e não lhe vai custar nada”. Três pilares: Recuperar os estragos das tempestades. Proteger o país contra futuras catástrofes. Responder melhor às emergências. Tudo muito organizado. Tudo muito arrumado. Até já tem versão de perguntas e respostas, para o caso de alguém se atrever a fazer perguntas impertinentes — como, por exemplo, “e os outros planos?”

Para a oposição, é uma operação de marketing. Eurico Brilhante Dias, do PS, chamou-lhe “embrulhar de forma diferente o que já era conhecido”. O PCP chamou-lhe “fraude política”. A IL — por uma vez com o bisturi afiado no ângulo certo — acusou o Governo de “fazer planos em cima de planos para corrigir planos falhados”. E Ventura, num daqueles momentos em que um relógio avariado marca a hora certa, dispensou toda a subtileza: “Não precisamos de um Governo, precisamos de uma seguradora. Saiam todos e metam aí a Fidelidade.”

(Confesso que esta frase me provocou um desconforto particular. Não pela imprecisão — que é total — mas pela possibilidade remota de Ventura ter razão sobre alguma coisa. É o tipo de experiência existencial que nos obriga a reavaliar certezas fundamentais.)

Ah, mas o PTRR tem uma jóia da coroa. Uma medida que, pela sua beleza conceptual, merece ser contemplada com a atenção que se dedica a uma obra de arte menor: o seguro obrigatório contra catástrofes.

A ideia é simples. O país foi devastado por tempestades. Casas destruídas. Telhados arrancados. Pessoas desalojadas. E o Governo, perante este cenário de destruição, perante famílias que perderam tudo, olhou para os escombros e disse — com aquela serenidade de quem anuncia a previsão do tempo — que “o Estado não pode pagar tudo a todos a todo o tempo” e que, portanto, os cidadãos devem fazer um seguro. É a versão governamental de visitar um doente no hospital e aconselhar-lhe que da próxima vez tenha mais cuidado com a saúde. Tecnicamente correto. Humanamente obsceno. Politicamente suicida — ou seria, se este governo não tivesse desenvolvido uma imunidade à vergonha que merece estudo clínico.

Metade das habitações do país não tem qualquer seguro. A cobertura contra sismos não chega aos 20%. E o Governo, em vez de perguntar por que razão metade dos portugueses não tem seguro — será porque não podem pagar? será porque o mercado segurador nunca se preocupou em torná-lo acessível? — decidiu que a solução é torná-lo obrigatório. Como quem resolve o problema da fome tornando obrigatório o almoço.

Mas o detalhe mais delicioso — o detalhe que revela a alma profunda deste governo com a clareza de um raio-X — é outro.

O documento oficial do PTRR faz questão de explicar que este plano “não interrompe” os planos anteriores. Não os substitui. Não os corrige. Não os reconhece como falhados. Empilha-se em cima deles. É uma camada nova num bolo que ninguém come, mas que fica cada vez mais alto, cada vez mais decorado, cada vez mais impressionante na montra da pastelaria governativa.

O Plano de Emergência da Saúde continua “em execução” — embora as urgências continuem a fechar. O Construir Portugal continua “em vigor” — embora as casas continuem inacessíveis. O Trabalho XXI continua “em negociação” — embora os trabalhadores tenham respondido com greves gerais. E agora o PTRR coroa o edifício com os seus 22,6 mil milhões e o seu horizonte de 2034 que, por feliz coincidência, se estende muito para além de qualquer mandato deste governo.

É uma matrioska. Abre-se o PTRR e lá dentro está o PETS. Abre-se o PETS e lá dentro está o Construir Portugal. Abre-se o Construir Portugal e lá dentro está o Trabalho XXI. Abre-se o Trabalho XXI e lá dentro não está nada — apenas o eco suave de uma conferência de imprensa e o cheiro residual de um Powerpoint recém-fechado.

E repare-se na elegância de prometer para 2034. Quando as metas não forem cumpridas, Montenegro estará a dar conferências sobre liderança em hotéis de cinco estrelas. O problema será de outro. A culpa será de outro. O plano, esse, continuará tecnicamente “em execução” — essa expressão maravilhosa que em português de governo significa “abandonado, mas sem comunicado oficial de óbito”.

Saramago, que conhecia a alma burocrática portuguesa como poucos, escreveu que o caos é uma ordem por decifrar. Montenegro inverteu a fórmula: o que ele oferece é uma ordem que produz caos. Documentos impecáveis, com pilares e domínios e verbas alocadas, que se empilham sobre uma realidade que continua teimosamente desarrumada. É o triunfo do planeamento sobre o plano. Da forma sobre o conteúdo. Da embalagem sobre o produto.

Há um nome para isto. Não é governação. Não é incompetência — que, apesar de tudo, pressupõe uma tentativa. É algo mais sofisticado, mais português, mais nosso: é a arte de parecer que se faz enquanto se garante que nada muda. É a tradução política do velho ditado que Lampedusa pôs na boca do Príncipe de Salina: é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma.

Só que, no Leopardo, era a aristocracia a proteger os seus privilégios. Em Portugal, em 2026, é um governo que prometeu reformar tudo e não reformou nada — mas que tem, isso sim, um plano para cada promessa não cumprida, uma sigla para cada fracasso, e uma conferência de imprensa para cada plano que substituiu o plano que deveria ter substituído o plano anterior.

O vigésimo sexto plano, esse, vai ser diferente. Vai funcionar. Vai transformar o país. Vai — como gosta de dizer o primeiro-ministro, com aquela convicção de vendedor de enciclopédias que é o seu timbre inconfundível — “preparar Portugal para o futuro”.

O futuro. Sempre o futuro. José Mário Branco, no palco em 1981, já gritava o que muitos portugueses sentem hoje sem conseguir articular: “Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã?”

Sempre o raio do futuro — e nós, os que estamos aqui agora, que temos telhados por reparar e urgências por abrir e rendas por pagar? O que somos? Para que servimos neste país de planos magníficos e presentes miseráveis? O presente não tem plano. O presente nunca tem.