Sejamos claros, isto recorda-nos velhos tempos. O nome dela é Maria do Rosário Palma Ramalho. O cargo não é apenas Ministra do Trabalho. É, com uma ironia que roça o SADISMO, Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
Mas solidariedade com QUEM? Vamos aos FACTOS, porque a realidade não precisa de adjetivos para ser escandalosa.
Segundo a declaração entregue no Tribunal Constitucional, a mulher que decide o valor do teu salário e as horas do teu descanso acumula um PATRIMÓNIO superior a 5,3 milhões de euros. Leste bem. Cinco. Vírgula. Três. MILHÕES.
Ela não é apenas uma académica. Ela é a ELITE FINANCEIRA personificada. A teia familiar explica a quem ela deve lealdade. O seu marido é António Ramalho. Soa-te familiar? É o EX-CEO do Novo Banco, o homem que geriu a instituição enquanto nós, contribuintes, injetávamos lá milhares de MILHÕES.
Onde está o marido dela agora? É o chairman da Lusoponte. Percebem o ciclo? O marido gere as pontes onde tu PAGAS portagem para ir trabalhar. A mulher gere as leis que permitem que tu sejas EXPLORADO quando chegas ao trabalho. O dinheiro sai do teu bolso e do teu tempo. Fica tudo em CASA DELES.
Não pensem que o CONTROLO se fica pelos bancos e pelas portagens, pois a TEIA fecha-se sobre si mesma. Enquanto a mãe dita as regras de como o teu trabalho deve ser flexível, a FILHA, Inês Palma Ramalho, senta-se na cúpula do PSD como vice-presidente do partido que sustenta o governo, selando o Dinheiro, o Governo e o Partido numa SANTÍSSIMA TRINDADE do poder.
Com um ECOSSISTEMA natural feito de administrações bancárias e partidárias, como pode alguém que acumula mais de 5 milhões de euros legislar sobre o salário mínimo?
Passou a vida inteira nos corredores seletos e asséticos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e em presidências de associações de elite, trancada numa TORRE DE MARFIM a escrever os manuais que ensinam como a lei pode SERVIR o patrão.
Há notícias que passam rapidamente pelos ecrãs, consumidas entre um comentário político, uma guerra distante e a próxima distração digital. Mas algumas deixam algo demasiado incómodo, quase físico, porque tocam numa região moral profunda da condição humana. O abandono de crianças é uma delas.
Recentemente, em Portugal, duas crianças foram encontradas no Alentejo em circunstâncias difíceis de compreender sem um arrepio interior: menores, vulneráveis, deixados à sorte, dependentes apenas do acaso e da consciência de desconhecidos que decidiram parar, olhar e chamar ajuda. Num tempo em que tantos seguem caminho sem ver ninguém, foram precisamente “gente comum” que impediu que aquela história pudesse ter terminado em tragédia.
A justiça tratará do resto. Haverá processos, relatórios sociais, avaliações psicológicas, eventual perda das responsabilidades parentais e integração institucional. O Estado moderno conhece bem os seus mecanismos administrativos. Mas permanece sempre uma sensação amarga de insuficiência. Porque abandonar uma criança não é apenas violar um artigo do Código Penal. É romper um dos pactos mais antigos da civilização.
Uma criança nasce radicalmente dependente. Não escolhe onde nasce, quem a acolhe, qual a língua que ouvirá, se terá pão, afeto ou proteção. O primeiro universo da criança são os braços que a recebem. Quando esses braços desaparecem deliberadamente, não ocorre apenas um crime jurídico – produz-se uma espécie de colapso moral primário.
Talvez por isso estes casos provoquem uma indignação tão visceral. Há crimes que atacam património, interesses ou normas sociais. O abandono infantil atinge algo mais fundo: a própria ideia de humanidade organizada.
E, no entanto, este fenómeno não existe isolado. Vivemos numa época estranha, contraditória, quase esquizofrénica na sua arquitetura moral. Enquanto em Gaza, no Sudão ou noutras geografias de sofrimento coletivo milhares de crianças morrem sob bombas, fome ou deslocações forçadas, noutras partes do mundo algumas são descartadas pelos próprios pais em sociedades teoricamente estáveis e protegidas.
Mudam os cenários mas a vulnerabilidade permanece.
Num caso, a infância é esmagada pela maquinaria da guerra e pelos interesses geopolíticos. No outro, dissolve-se dentro da desagregação familiar, da pobreza extrema, da alienação social ou do vazio emocional de sociedades cada vez mais fragmentadas. Em ambos os casos, porém, há uma pergunta: que espécie de civilização estamos a construir quando tantas crianças ficam entregues ao acaso?
Portugal, como muitas democracias europeias, possui uma tradição jurídica relativamente humanista. O sistema penal procura compreender contextos: miséria, doença mental, dependências, exclusão social. E isso é importante, porque a justiça sem compreensão transforma-se facilmente em vingança institucionalizada. Mas existe também o risco oposto: o de transformar a compreensão em banalização moral.
A sociedade aceita – e bem – que o foco principal seja salvar a criança. Mas dificilmente aceita que o sofrimento imposto a menores indefesos pareça gerar consequências penais vistas como residuais. Há uma diferença entre compreender causas sociais e diluir responsabilidades individuais.
Porque uma criança abandonada leva consigo marcas invisíveis que raramente aparecem nos processos judiciais: a erosão da confiança básica no mundo, o medo do abandono, a perceção precoce de que a existência pode depender apenas da sorte. E nenhuma sentença mede isso verdadeiramente.
Talvez o problema mais profundo seja outro: habituámo-nos a viver rodeados de tragédias até perdermos capacidade de espanto. O sofrimento infantil tornou-se paisagem de fundo da modernidade. Surge nos telejornais, nos relatórios humanitários, nos bairros esquecidos, nas fronteiras, nos hospitais destruídos, nas instituições saturadas. E quando o horror se torna rotina, a civilização começa lentamente a anestesiar-se.
Por isso, abandonar crianças não é apenas um crime. É um sinal de falha coletiva. Falha da família, por vezes; do Estado, noutras; de comunidades desfeitas, de economias desumanizadas, de culturas que proclamam progresso mas deixam muitos dos seus filhos sem chão afetivo ou material. Uma sociedade revela a sua verdadeira natureza não pela grandiosidade dos seus discursos, mas pela forma como protege aqueles que nada podem oferecer em troca.
As crianças são esse espelho absoluto.
E talvez o mais inquietante do nosso tempo seja precisamente isto: continuamos capazes de construir máquinas sofisticadas, mercados globais e inteligências artificiais, mas ainda não aprendemos plenamente a garantir o essencial – que nenhuma criança tenha de olhar o mundo sentindo-se abandonada por ele.
Estamos literalmente amarrados a soluções do passado, tendo desperdiçado os tempos de calmaria e abundância para agora enfrentarmos um mundo que se estilhaça à vista de todos.
Já aqui desabafei que é absolutamente inacreditável como é que em tão pouco tempo o planeta inteiro ficou nas mãos de um louco perigoso e ignorante, em roda livre perante uma caterva de líderes mundiais quase todos acobardados e complacentes com o louco. Todos, à vez, convidam-no, vão visitá-lo, humilham-se a seus pés, tentam adoçar-lhe a boca de lobo faminto. Tudo em vão: quanto mais cedem e rastejam, mais ele quer. Primeiro foi Zelensky, quase insultado à vista do mundo por se ter atrevido a pedir mais armas. Depois foi Von der Leyen, em representação da Europa, humilhada e obrigada a aceitar um acordo desastroso para que ele não continuasse a sua demencial guerra de tarifas contra os europeus. Depois, o secretário-geral da NATO, serventuário obediente, que lhe manda bilhetes privados com elogios e que ele, educado como é, logo trata de tornar públicos. Depois foram os ingleses, recebendo-o em Windsor com as honras devidas ao rei que ele imagina ser e apenas para ganharem um desconto de velhos amigos nas tarifas. Seguiram-se, em fila obediente, alemães, franceses, italianos, japoneses, árabes e a Prémio Nobel da Paz e confessa admiradora do homem, que julgava obter a bênção dele para suceder na presidência da Venezuela ao raptado Maduro e acabou por vê-lo escolher antes uma marioneta que lhe faz todas as vontades — a última das quais a entrega para julgamento nos EUA do ministro da Indústria, extraditado à revelia da Constituição e sem sequer passar por um tribunal local. Os únicos que não se curvaram aos mandos e desmandos do louco foram o primeiro-ministro do Canadá, que ele ameaçou tornar o 51º estado da União, e o primeiro-ministro de Espanha, que, ao contrário dos restantes membros da NATO, não aceitou a ordem para passar a gastar 5% do PIB em Defesa e também recusou ceder as bases espanholas como plataforma do ataque ao Irão — enquanto ele vai retirando tropas da defesa europeia para as alocar a outras guerras que mantém ou que cogita. E, claro, Putin e Xi Jinping, pois que, como é sabido, este grande homem é forte com os fracos e fraco com os fortes. Estamos literalmente tramados.
Ilustração Hugo Pinto
Quanto a nós, portugueses, recebemos do secretário de Estado Marco Rubio, primeiro, a honra de integrar a shortlist dos países amigos que não tinham falhado com apoio à aventura militar no Irão — um extraordinário case study de incompetência, ignorância e impreparação da maior potência militar e económica do mundo. E depois, há dias, a honra de sermos apontados solitariamente como o país que cedeu uma base essencial à aventura sem sequer perguntar para quê. E a troco de nada, nem um descontozinho nas tarifas, nem uma gratificação, ainda que simbólica, pelo uso das Lajes. O infeliz Paulo Rangel, que se toma pelo chefe de uma coisa inexistente, que é a nossa política externa, assim duas vezes humilhado publicamente, quis vir esclarecer, com toda a “clareza”, a declaração “não literal” de Rubio. Uma coisa, diz ele, foi a utilização das Lajes antes da ofensiva contra o Irão, outra coisa foi depois disso. Mas, tanto quanto se percebeu, antes não perguntámos para que queriam utilizar a base e autorizámos e depois de sabermos continuámos a autorizar. Literalmente. E até se dá este facto irónico: enquanto as Lajes albergam 15 gigantescos aviões KC-30, que abastecem em voo os aviões que vão atacar o Irão, as mesmas Lajes ficaram dias sem jet fuel para os voos comerciais com a ilha. Mas já nada me surpreende nesta profunda e profícua relação de amizade com os nossos “aliados” do Atlântico Norte: não é verdade que depois de os ucranianos terem mostrado ao mundo inteiro que um drone, que custa uns €20 mil, é mais eficaz como arma defensiva e arma ofensiva, ao solo, ao ar ou ao mar, do que um caça F-35, que custa €100 milhões (fora as peças e os upgrades), nós nos preparamos para comprar ao fiel amigo umas esquadrilhas de F-35 para os quais nem sequer sabemos se teremos pilotos? E isto num país que tem uma das melhores empresas de fabrico de drones, bastamente usados na Ucrânia, e que tem em construção na Roménia um porta-drones encomendado pela visão de Gouveia e Melo? Somos, literalmente, o mais fiel dos aliados.
Um bom exemplo do brilhantismo da visão de futuro dos líderes europeus, de cujo conclave fazemos parte, foi a condecoração de Cavaco Silva com a Ordem Europeia de Mérito pelo seu papel na “política de coesão europeia”. Não sei ao certo em que terá consistido tal papel, que, pelos vistos, impressionou os seus pares, mas do fundamental que retenho da década de governação cavaquista fica a construção de milhares de quilómetros de auto-estradas, a par do desmantelamento ou abandono de mil quilómetros de via férrea, a aposta total na eucaliptização do país, que a seguir pagamos com incêndios e o abandono da agricultura e do interior, ou no turismo de massas como alavanca principal da economia, mas à mercê de crises cíclicas demolidoras: pandemias, falta de combustível, incapacidade de resposta nos aeroportos. Uma visão de futuro, pois. Quanto à “coesão europeia”, que nos valeu milhões a perder de vista, e agora que o ciclo de recebedores líquidos parece estar a chegar ao fim, fica-nos o saldo de um país cuja produtividade laboral por hora está nos €29, contra os €44 da média na União Europeia, e um Estado que, em consequência, se substitui à falta de dinamismo da sociedade, transformando-se no maior gastador de riqueza do país para sustentar uma população de subsidiodependentes. Hoje somos uma sociedade onde nada do que é público funciona decentemente e tudo o que é privado só funciona à custa do trabalho imigrante. Claro, não foi Cavaco Silva o responsável por tudo isso: a seguir a ele vieram outros, socialistas ou centristas, que prolongaram ou até agravaram o estilo e o destino da governação. Mas foi ele quem deixou que se instalasse a mentalidade do facilitismo, de viver à sombra da bananeira dos dinheiros europeus e de optar sempre pelas soluções mais fáceis, atractivas para a próxima eleição, desastrosas para o futuro.
Estamos literalmente amarrados a soluções do passado, tendo desperdiçado os tempos de calmaria e abundância para agora enfrentarmos um mundo que se estilhaça à vista de todos. Sem regras, sem princípios, sem concertação quanto aos problemas comuns, ocupado em guerras sem sentido e numa irresponsável corrida às armas, que faz a felicidade dos seus fabricantes, enquanto o Ártico se derrete, a Amazónia seca e os pobres entre os pobres foram abandonados à sua sorte, porque os ricos precisam do dinheiro para armas, para pagar os custos da aventura iraniana ou do massacre dos palestinianos. E governados ou por criminosos ou pelos seus vassalos.
2 Mão amiga deu-me conhecimento de uma notícia da CNN online de que existe uma escuta que me envolve com, presumo, algum eventual suspeito no processo chamado Monte Branco. Se bem me lembro, o referido processo investigava um senhor que se dedicava a transferir fortunas para o estrangeiro ilegalmente. E a dita escuta ficou lá a germinar mais de 12 anos, à espera de qualquer coisa mais que pudesse aparecer pelo chamado “método de arrasto” da investigação. No DCIAP aplica-se a lei de Lavoisier: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Porém, no meu caso concreto bem podem esperar sentados: nunca tive um tostão que fosse no estrangeiro e do Monte Branco só conheço a montanha suíça. Mas já nada me espanta depois de ouvir o procurador-geral da República e ex-chefe do DCIAP declarar, imperturbável, que sete anos de investigação preliminar a José Sócrates, no Processo Marquês, lhe parece um “prazo razoável”. Assim como, presumo, os quatro anos de investigação que já leva o Processo Influencer: dois ex-primeiros-ministros publicamente apresentados como suspeitos de corrupção no exercício de funções — num caso até conduzindo à sua demissão e subsequente queda de um Governo de maioria absoluta. É assim que eles vêem a missão da Justiça e as regras de conduta de quem investiga para acusar. E estamos literalmente à sua mercê.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia