Tudo pode mudar

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 04/06/2026, Revisão da Estátua)


Para explicar o dia de ontem é preciso não ter medo das palavras, nem mentir a nós próprios (a mentira mais perfeita porque parece verdade). Quero contar-vos o que a direita vai tentar fazer, e tocar nas nossas feridas, as feridas da esquerda.

Só a verdade é revolucionária. Porque quero, como vocês, vencer. E dedicar-me às minhas paixões, aos que amo, à história, jardinagem, literatura, bicicleta, e não a lutas sistemáticas por direitos elementares.

Warren Buffett disse à CNN a seguir às medidas “anticrise”, em 2011: “Claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está a  lutar e a ganhar”. Quando se retira a luta de classes, não se percebe nada. E fica-se na mão de comentadores superficiais, que repetem o discurso do PS da “dignidade do trabalho” e da “produtividade é culpa dos patrões” ou de mentirosos compulsivos, e patéticos, que atuam nas TVs pagos para tal pelos empresários de uma comunicação social que deixou de informar ou pensar. Primeiro, existem classes sociais e cada vez mais só existem duas classes (a burguesa, ou capitalista, e a trabalhadora, a nossa). A outra palavra é a Política, a única palavra que nos pode salvar, porque ela é a estratégia, para vencer. Porque podemos ser derrotados.

A burguesia portuguesa é fraca, nasceu de certa forma de um braço da burguesia inglesa, no século XIX. Há quem ache que nasceu dos artesãos da cidade e da expansão no século XV, não é o nosso caso. Mas esse é um debate, historiográfico, que não muda as conclusões seguintes que aqui avanço.

O capitalismo nasce no século XIX como um sistema inovador de concorrência que promove a inovação e a ciência e aumenta a produção. E que, rapidamente, se transforma em monopólio, a partir de 1870, concentrando as empresas que nas crises vão sendo engolidas. Isso explode na I Guerra Mundial, em 1910 – quando acaba a concorrência entre empreendedores que arriscavam, e passam os Estados, agigantados, a ser uma super concentração de grandes empresas, capitais financeiros, poder e força bruta, polícias e exércitos.

Mesmo hoje – tirando pequenas empresas familiares – , a maioria das chamadas PMEs são, na verdade, subcontratadas de grandes monopólios, da banca – onde estão asfixiadas -, de distribuição alimentar, da comunicação, da energia, ou de indústrias pujantes como a metalúrgica, das armas  e da aviação dos países centrais.

Nenhum dinheiro produz dinheiro, sem trabalho vivo. Turismo não produz capital – faz circular o capital -; comércio não produz capital, circula. Se colocarem milhões de euros e olharem para eles muito tempo e os perfumarem e taparem com um cobertor quente ou “investirem” na bolsa ou em casas, nada acontece. Alguém – aqui ou noutra parte do mundo – vai ter de trabalhar produtivamente (transformação de natureza) para esse capital se valorizar.

 Se venderem uma casa pelo dobro, camas de hotéis cheias, ou comprarem acções da Galp, alguém vai ter que produzir minério, mesas de madeira ou armas, sabões ou batatas, e alguém vai ter que transportar esses bens, e alguém vai ter que formar esses trabalhadores e tratá-los quando estão doentes (professores e pessoal de saúde).

A burguesia portuguesa, quando começa a fase imperialista, dos monopólios, vai para África capturar trabalhadores forçados (2 milhões até 1974) que apanham sisal, café, algodão, ouro (mineiros moçambicanos na África do Sul, entregavam até 60% do salário ao Estado português).

Para isso precisa de derrotar o sindicalismo revolucionário, o que faz em 1926, com uma ditadura, que proibia sindicatos, partidos e jornais livres. Ao mesmo tempo as mulheres deviam parir muitos filhos no mundo rural, onde se cavam as batatas que alimentam os operários da CUF.

Matérias-primas de África gratuitas, operários sem ter direito à greve e sem jornais alimentados a baixo custo pelos camponeses pobres, paridos às dezenas por mulheres, muitas mortas no parto. Era este o Portugal de Salazar.

É curioso ver que, se não erro, Passos Coelho, a Ministra do Trabalho, Ventura, a líder da IL, Gouveia e Melo, malta do CDS, toda esta gente é retornada, são colonos – é o retorno do reprimido. “Ai que saudades das colónias e da ditadura”.

A razão é só uma: a burguesia portuguesa depois de 1974 morreu. O que a salvava no quadro mundial, como Estado (a burguesia e o Estado são o mesmo) – ou seja, a possibilidade de competir mundialmente – era a ditadura do trabalho barato. Sem isso, Portugal não existe. Por isso os socialistas como eu são internacionalistas, não cantamos o hino no 10 de Junho, cantamos o Grândola no 25 de Abril.

A entrada da UE, depois da contra revolução em 1976, foi já um negócio de desespero – entregar o pouco que havia de produção em troca de investimentos na banca com juros artificialmente baixos (falida em 2008) – banca salva com cortes reais dos salários de 25% garantidos com as leis da troika – e venda de casas e camas de hotéis, depois de 2020. Para isso importou a burguesia 25% de trabalhadores do Brasil, do Nepal, e da Índia.

Todos os desastres laborais negociados, desde a derrota do sindicalismo de lutas de classe em 1986 – todos – foram negociados mantendo para a burocracia sindical (sindicalistas profissionais) os direitos. Os mais novos iam sendo precarizados: nos locais de trabalho nasceram como cogumelos trabalhadores, lado a lado, a fazer o mesmo mas a ganhar menos. Mantendo, os mais velhos, os seus direitos. A negociação era esta – a burocracia sindical lutava, e lutou. Mas não lutava para ganhar, apenas para dizer que existia e não perder a face na sua base. Foi assim em todas as revisões dos códigos de trabalho, quem era mais velho manteve direitos.

A razão é simples e é só uma: uma luta radical, de base, não é controlada pela burocracia (os que vivem do sindicalismo). Não quer dizer que seja caótica. Pelo contrário. Quer dizer que é feita com greves radicais, preparadas e não decretadas, com fundos de greve, por longos dias, plenários e assembleias que necessariamente criam novos dirigentes, mais radicais. E se há novos dirigentes, os que vivem do sindicalismo perdem o emprego.

Quem teve a paciência de me ler até aqui, sabe que já esteve em assembleias em que foram os dirigentes sindicais a fazerem tudo para impedir lutas ou a negociarem derrotas e dizer “foi o possível”.

Agora, este pacote laboral, pela primeira vez desde o 25 de Novembro – com a burguesia norte-americana a apostar na maior bolha da história com a IA e Musk, deixando Buffett parecer um menino de coro -, acaba com qualquer ideia de direito no trabalho, incluindo o direito à greve e – sublinho – ataca como nunca o tinha feito a burocracia sindical. Se ele for aprovado, o sindicalismo burocrático (profissional) morre. Por isso a UGT esteve na greve e a CGTP apoiou duas, no espaço de 8 meses. É a própria sobrevivência destes sindicatos que está em causa.

Mas há mais. A UGT é o PS e a CGTP é o PCP. Porque não existe independência política. Isso é ingenuidade. Quem não se mete em política deixa a política na mão dos outros. Tudo é político. Porque tudo é luta de classes. O problema não é o PS ter criado a UGT e o PCP a CGTP, fizeram muito bem, o problema é qual é a estratégia que têm para o sindicalismo.

O PS – quando a revolução, o PREC, em 1974 e 1975, afastou a direita do país, os ricos literalmente fugiram, e cá ficou a autogestão democrática dos trabalhadores – o PS foi o partido que a burguesia usou para ser recompor. E voltou a usá-lo na Geringonça, para acalmar as lutas contra Passos Coelho.

Hoje, a burguesia portuguesa – que não é mais existente: o Estado português não é independente, é tudo decidido em Bruxelas -, tem como projeto demolir o que resta e já em escombros dos serviços públicos, para pagar à indústria de armamento alemã, produzir drones ou seja, peças de morte, e mudar umas camas aos trabalhadores do Norte que vêm apanhar sol em Agosto.

Para isso têm a AD e o Chega a criminalizar imigrantes, para não fazerem greve nos hotéis e restaurantes, ou Passos Coelho, que veio a jogo dizer que está disposto a juntar-se ao Ventura para juntos serem uma espécie de Trump numa só pessoa. Trata-se de uma oposição neofascista, com ramificações nas forças armadas na sua ligação ao Chega (é isso que lhe dá o caracter fascista). São tropa de choque contra os trabalhadores (por isso ver a polícia bater em manifestantes não é assunto irrelevante).

O PCP – que resistiu como nenhum partido à ditadura – era o Partido fiel a Moscovo no PREC, contra a revolução, pelo capitalismo regulado, pela “dignidade do trabalho” mas não pela revolução (que o partido considerava e considera não estar no momento histórico). Foi sempre defensor da ordem Constitucional de 1976 e é hoje isso que coloca no seu programa, a defesa da Constituição.

Ou seja, temos uma oposição à ordem constitucional liberal, o neofascismo de Chega e Passos Coelho, e uma defesa da ordem constitucional liberal, PS, PCP e BE (este irrelevante). Nenhuma serve quem trabalha e vê a sua vida destruída por este regime.

Este vazio é o vazio que a esquerda se recusa a ocupar. Para a maioria dos que vivem em Portugal esta ordem já não serve, e não serve mesmo. Mas só surge uma oposição – a fascista. Precisamos de uma socialista. Por isso o centro adora dizer que o problema são “os extremos” e os “radicalismos”.

É que só uma política radical socialista pode derrotar o centro liberal da guerra e o neofascismo. Precisamos de um extremo – o extremo da igualdade e da liberdade, contra o centro e o fascismo.

Estas duas greves gerais demonstraram a força e a fraqueza dos sindicatos.

A força porque se quiserem amanhã param o país, têm fundos e força para isso, o pacote laboral morre, e conseguem reverter até as leis da troika. Mas isso vai abrir uma caixa de Pandora em que novos dirigentes, mais corajosos, ousados, vão tirar o lugar aos dirigentes sindicais actuais.

A fraqueza, porque se a UGT e a CGTP não param o país, o PSD, a IL e o Chega vão aprovar o pacote laboral e os dirigentes sindicais a muito curto prazo ficam sem o lugar.

Muito se tem escrito que quem é precário não faz greve. De facto o pacote laboral quer proibir a greve. Mas todo o sindicalismo nasceu no século XIX, e no PREC, com trabalhadores precários que faziam greve e venceram. A questão fundamental é que se queremos derrotar este pacote laboral, greves de um dia não chegam. É preciso uma oposição radical, socialista, igualitária, democrática contra a ordem constitucional liberal.

E isso – aqui termino – é a Política com P grande. Na Argentina uma líder radical de esquerda do PTS está à frente de todas as sondagens. Foi o mesmo PTS que quando Millei foi eleito disse aos trabalhadores “votem nulo” e organizem-se no nosso ou noutros partidos de esquerda, em sindicatos, em comissões de bairros. Não há “voto útil”, só os trabalhadores se salvam a si próprios, o voto útil no PS contra o Chega levou-nos ao pacote laboral da AD e do Chega. Este Governo só governa porque não há oposição socialista ao capitalismo. Governa porque o PS se absteve.

Só governa porque os trabalhadores andam a ouvir da burguesia portuguesa há 150 anos que a Política é com eles, com os partidos institucionais e os profissionais da política, e que os trabalhadores não se devem meter em política, devem trabalhar, e calar.

Estas greves mostraram a força de quem trabalha. E só há dois tipos de pessoas que trabalham neste país. Os mais de 5 milhões de trabalhadores, exaustos, e os milhares de pequenos empresários familiares, esmagados.

Do que precisamos? De sindicalismo combativo, e de partidos políticos radicais. Deitar para o lixo a palavra “independência”. Tudo é Política. Não podemos ter medo de ser socialistas, e debater – livremente – que sociedade queremos. Sem lutas para cumprir calendário, sem ilusões inúteis, e sem medo do papão. Porque foi esse medo que abriu a porta ao papão.

Precisamos de confiar nas nossas forças e não de votos “úteis” nas políticas dos outros. E isso só acontece se nos organizarmos politicamente, exige esforço e determinação, não é um sprint eleitoral, é um esforço concreto de organização.

Quem não quer militar, reunir, decidir, fazer, e só quer votar, vai ser derrotado. Se não lutamos a sério, vão aprovar este pacote e o que vem aí é morrer no trabalho de exaustão, viver com pânico do desemprego, o assédio de diretores e chefes como gestão corrente, e a farsa da educação e a desumanidade na saúde. Paremos de mentir a nós próprios.

Não tenho dúvidas que eles – o centro e o neofascismo, em suma, a burguesia -, parecem fortes, mas na verdade (ficará para outro texto) nunca estiveram tão frágeis. Têm armas e polícias, é muito pouco para governar. Eles parecem fortes porque nós parecemos frágeis, não temos programa, partido, organização. Basta deixarmos de nos comportar como vitimas e passarmos a agir como sujeitos, que o medo começa a mudar de lado.

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Chamava-se Ana Pais e adorava viver

(Bruno Carvalho, in Facebook, 12/07/2025)


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A vida é paraíso para uns e inferno para outros. É única para todos. Ainda assim, há mulheres e homens como qualquer um de nós, com defeitos e virtudes, dispostos a guardar qualquer um dos dias do calendário, incluindo sábados e domingos, para gastar algo que é finito não a cuidar dos seus interesses pessoais mas a morder os calcanhares dos poderosos.

Hoje, morreu uma dessas pessoas (Ver comunicação aqui). Chamava-se Ana Pais e adorava viver. Parafraseando o poeta turco e comunista Nazim Hikmet, gastou (mas não desperdiçou) boa parte dos seus dias a lutar por uma vida melhor para mulheres e homens que nunca havia conhecido, sem que ninguém a obrigasse, “sabendo que a coisa mais real e bela é viver”.

Nesta época terrível de individualismo e arrivismo, recordo muitas vezes as palavras de Bertolt Brecht que viveu aquilo que nos querem vender agora e que pedia às gerações futuras que compreendessem o seu tempo: “Vós, que surgireis do marasmo em que perecemos, lembrai-vos também, quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar. Íamos, com efeito, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos, através das lutas de classes, desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação. E, contudo, sabemos que também o ódio contra a baixeza endurece a voz. Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência”.

Há uns bons anos, entre o formigueiro de mulheres e homens que lutaram contra um dos piores governos de que há memória no nosso país estava Ana Pais. A emigração disparou, também o desemprego e o número de suicídios. A pobreza alastrou pelo país e muitos perderam as suas casas. Alguns dos governantes actuais, incluindo o primeiro-ministro, fizeram parte daquela associação criminosa que impôs de livre vontade as brutais medidas da Troika. A impressionante resposta popular não teria sido possível sem o esforço suado de milhares de trabalhadores que, através de sindicatos e outros movimentos sociais, fizeram escoar os gritos de revolta de um povo esmagado.

Ana Pais era uma sindicalista de ação e coragem. Uma mulher rija. Revolucionária. Estava em todas as partes, sobretudo com outras mulheres, trabalhadoras como ela. A abrir uma faixa na cara de um ministro, a protestar nas galerias da Assembleia da República, a invadir um ministério, a cortar uma estrada numa qualquer greve geral, a levar bastonadas da polícia em frente à residência oficial do primeiro-ministro, de megafone na mão ou de cravo vermelho ao peito na Avenida da Liberdade. Não se lamentava da vida que lhe tocou. Ria-se de tudo isto porque a luta corria-lhe nas veias e de cada um destes episódios havia sempre uma anedota para contar entre gargalhadas, sobretudo na Festa do “Avante!”, com as suas camaradas, e ainda há poucos dias, falava de recuperar para não perder a próxima edição.

Alguns poderão dizer que viver assim é coisa pouca, mas não. É coisa muita. Para muitos de nós, serão decénios, para outros, séculos, até sermos esquecidos debaixo da sombra da enorme árvore que é a história da humanidade. Sabemos que tantos desconhecidos lutaram entre os escravos liderados por Espártaco para esmagar a opressão, anónimos indígenas resistiram à conquista de portugueses e espanhóis e quantos foram os desconhecidos que caíram a defender a Comuna de Paris? Como se chamavam os que assaltaram o Palácio de Inverno? Quem eram os trabalhadores agrícolas que enfrentaram o fascismo nos campos do Alentejo?

Com avanços e recuos, a nossa história é feita de uma luta constante que Marx analisou através do materialismo histórico. Entre esse enxame que faz avançar a história, estão mulheres e homens cuja herança é coletiva e, por isso, imperecível.

 Um dia, quando chegar o tempo em que não haja ninguém que viva de explorar outro ser humano, esse futuro terá também o sorriso de Ana Pais, de que tantas vezes fomos testemunhas. E isso é algo de que a filha e a sua neta, os seus familiares, assim como as suas camaradas, podem ter muito orgulho. Porque nós não a vamos esquecer.

1.º de Maio, ou as razões de somar o número à unidade

(Vítor Ranita, in AbrilAbril, 01/05/2018)

Ao perfazer cento e trinta e dois anos sobre a brutal repressão patronal e policial que se abateu sobre os trabalhadores em Chicago, e tendo em consideração a actual situação sócio-política, será oportuno questionarmo-nos sobre o seguinte:

– Quais os interesses que se escondem na «justificação» das políticas de desvalorização crescente da remuneração da força de trabalho, das específicas reivindicações de vários grupos profissionais e do contributo das correspondentes lutas para a construção de uma sociedade mais justa?

– Quem ganha com a aceitação, por parte dos trabalhadores, dos preconceitos ideológicos inculcados na população pelas estruturas que visam perpetuar o poder dominante?

A reflexão sobre questões deste tipo ajudam-nos a compreender a existência de uma oposição insanável entre os interesses comuns de quem trabalha e os interesses de classe do capital, realidade presente no assassínio dos mártires de Chicago, na brutal repressão policial do 1.º de Maio de 1982, no Porto, da responsabilidade de Ângelo Correia, ministro social-democrata do Governo PSD/CDS de então, ou nas orientações da Troika orgulhosamente excedidas pelos serventuários do capital instalados no anterior Governo.

Desigualdade e antagonismo de classes: uma longa história

Sendo essa oposição uma realidade fácil de ilustrar, há quem recuse ver o antagonismo de interesses entre as classes que diariamente conflituam na nossa sociedade, considerando-a uma invencionice derivada de Marx e Engels. E os ignorantes mais profundos, ou os preconceituosos militantes, suporão até, reflectindo assim uma certa cultura herdada a partir do berço, que a denúncia da exploração do proletariado surgiu com o Partido Comunista Português, de constituição contemporânea, em 1921, cuja depuração programática se consolidou com a reorganização de 1940/41.

Será surpreendente, para tais preconceituosos, saber que não era um perigoso radical esquerdista quem, já em 1831, exaltava o proletariado, colocava em evidência a oposição entre os trabalhadores e os capitalistas e denunciava a desigualdade das leis feitas pelos possidentes para protecção dos seus interesses particulares à custa dos interesses dos desfavorecidos.

Essa atitude veio de um padre e filósofo católico francês, Hugues-Felicité Robert de Lamennais, na sua obra Da Escravatura Moderna. Por sua vez, na mesma época, Robert Owen, industrial têxtil escocês, denunciou a sobre-exploração dos operários, propôs uma nova ordem económica e social através da cooperação, do socialismo, da apropriação colectiva do valor da mercadoria, e tentou que diversos governos legislassem segundo as suas ideias. E também Buret e Villermé, em 1840, Ducpétiaux, em 1843, e Friedrich Engels, em 1845, entre outros, denunciaram o dramatismo da condição operária – jornadas de trabalho até 20 horas seguidas, crianças de 6 a 8 anos coagidas a trabalhar até 12 a 14 horas diárias, habitação em antros miseráveis, promiscuidade, doenças endémicas, esperança média de vida de pouco mais de 30 anos, sujeição à total arbitrariedade dos patrões e capatazes.

Foi nesse contexto que Karl Marx ponderou criticamente as análises, as teses e as propostas de outros filósofos de matriz socialista, confrontou-as com o próprio conhecimento directo da condição operária, identificou a origem da exploração do proletariado, e editou com Engels, em 1848, O Manifesto do Partido Comunista, após o que ambos se lançaram á elaboração do materialismo histórico.

Os movimentos liberais de meados do século XIX levaram ao poder a burguesia. Porém, aí instalada, a burguesia negou por lei às classes trabalhadoras a liberdade individual e de grupo que para si própria reivindicou desde a transição para o século XV. E logo usou a repressão de Estado para conter manifestações de revolta popular contra as injustiças sociais e contra as lutas proletárias.

Por isso, essas lutas cresceram e diversificaram-se pelos países, tornando necessária a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 1864; conduziram à primeira experiência histórica do exercício do poder político pela classe operária na Comuna de Paris, em 1871; e causaram o alargamento da influência da I Internacional ao continente americano, até à sua extinção em 1876.

Em Portugal como em todo o mundo: exploração, desigualdade, luta dos oprimidos

Entretanto, a meio do século XIX, o nosso país mantinha-se estagnado por interesses voltados para a exploração da terra, das colónias e do comércio marítimo. Sintomaticamente, os primeiros teares mecânicos chegaram à Covilhã apenas em 1848, meio século após o início da chamada Revolução Industrial.

Na fase embrionária do movimento operário português, ainda dependente da iniciativa e direcção da pequena burguesia filantrópica, mas da indispensável confiança do regime no poder, a produção de bens de consumo mantinha-se artesanal ou com origem em pequenas empresas manufactureiras. E o operariado, diminuto, reflectia as carências infra-estruturais do país, indispensáveis à industrialização. Contudo, no terceiro quartel desse século, o movimento operário já evoluíra o bastante para se integrar no tipo de organização influenciada pela I Internacional, onde pontificava Karl Marx.

A internacionalização da luta operária, a partir do 1.º de Maio de 1886, foi a consequência resultante da generalização da já referida sobre-exploração dos assalariados, forçados a longuíssimas jornadas de trabalho, vivendo em condições miseráveis, sujeitos a todas as arbitrariedades patronais, sem direitos laborais inscritos na lei e protegidos pelo Estado.

Os pioneiros do 1.º de Maio em Portugal

Em Portugal, onde os tabaqueiros, em Março de 1889, já tinham conquistado o direito às 8 horas de trabalho diário, o primeiro 1.º de Maio, Dia Internacional dos Trabalhadores, ocorreu em 1890, mais participado no Porto, onde a polícia manteve uma presença intimidatória, mas sem impedir a aprovação das reivindicações a entregar no Governo Civil; também significativamente participadas as comemorações aconteceram em Lisboa, e foram continuadas nos dias seguintes, designadamente em Coimbra e Silves. Na ocasião, houve paralisações de trabalho apesar da proibição das greves.

Forçados pelas reivindicações operárias, os governos da Alemanha, França, Inglaterra, Bélgica e Suíça reuniram na 1ª. Conferência Internacional do Trabalho, em Maio de 1890, em Berlim, onde acordaram (o que Portugal veio a subscrever) princípios da regulamentação do trabalho na Indústria.

Logo em Agosto desse ano foi a vez dos caixeiros do Porto obterem as 8 horas de trabalho diário. Ainda nesse ano saíram as leis do descanso dominical na indústria e da protecção das mulheres e dos menores, bem como a lei do direito legal à constituição de associações de classe

A luta internacional do Primeiro de Maio já levava 3 anos de crescimento e o poder político no país, entalado entre as reivindicações operárias e o avanço da oposição liberal, receou por si: o Rei D. Carlos saiu de Lisboa para Vila Viçosa a 30 de Abril de 1890, regressando à capital em 2 de Maio; neste período foram colocadas de prevenção Companhias de Cavalaria da Guarda Municipal e houve a mobilização da Polícia.

Em 1893, o Ministério do Reino proibiu um cortejo que estava a ser organizado pelos socialistas, em Lisboa, onde a polícia só deixava seguir pequenos grupos. Mas realizaram-se comícios na Serra do Pilar, no Porto, e houve comemorações no Algarve, Setúbal, Barreiro, Almada e Coimbra. Pouco depois, o Dia Internacional dos Trabalhadores comemorava-se já em Ponta Delgada. Em 1898, envolvia a representação de 120 associações de Lisboa, chegava à Figueira da Foz, Tomar, Portalegre, Fronteira, Alenquer e Paço de Arcos… e continuou a crescer, mau grado as divergências ideológicas que se iam afirmando no movimento operário nacional, que prosseguia vencendo proibições das autoridades e a acção intimidatória da polícia.

No início, a jornada de luta internacional o 1.º de Maio desenvolveu-se centrada na conquista do direito a 8 horas de trabalho, 8 horas de estudo e 8 horas de descanso. Todavia, a situação social tornou-se mais complexa em resultado de várias crises económicas que atingiram gravemente os trabalhadores de diferentes países, designadamente os portugueses. Então, o 1.º de Maio de luta passou progressivamente a integrar as reivindicações que se generalizavam ao nível dos locais de trabalho, dando suporte prático à consideração de Marx, que afirmou não ser bastante ao êxito da luta a força do número do operariado, se não houvesse unidade na acção em defesa dos interesses comuns da classe.

Da frustração da Primeira República ao primeiro 1.º de Maio em liberdade

A Primeira República provocou a frustração das expectativas criadas pelo movimento operário quanto ao progresso dos direitos laborais, donde resultou o acentuado aumento do volume de greves nas empresas e sectores diversos.

Durante o regime fascista, estando proibido o livre associativismo sindical e as greves, sob a principal influência da orientação clandestinamente divulgada pelo PCP os trabalhadores formaram Comissões de Unidade nas empresas para reclamarem do patronato melhorias salariais e de condições de trabalho, realizaram paralisações do trabalho e participaram em concentrações e desfiles, incluindo nas comemorações do Dia Internacional dos Trabalhadores, enfrentando a brutalidade da repressão policial e as cadeias da PIDE.

O Primeiro 1.º de Maio em Liberdade, em 1974, convocado para todo o país pela Central histórica dos trabalhadores portugueses e participada massivamente pela população, constituiu a promoção de um acto de indiscutível legitimação popular da Revolução levada a cabo pelos Capitães de Abril. E na fase de recuperação do poder do capital, os 1.ºs de Maio mantiveram-se como pontos altos da luta da CGTP-IN em defesa das conquistas da Revolução de Abril e da Constituição da República, que em grande parte as continua a consagrar.

A evolução mais recente do sistema económico-social acentuou a tendência da crescente assalariação dos profissionais de actividades que já foram geralmente praticadas em regime dito «liberal», bem como a desvalorização do custo do trabalho mais qualificado. Curiosamente, mas não por acaso, os propagandistas do capital, talvez estribados na aceitação por parte de instituições sindicais constituídas para concertar, insistem em referir-se aos assalariados em geral como colaboradores, na linha do que preconizava o salazarismo.

Ao desafio neoliberal, hoje, responderão os trabalhadores com a sua luta

Mas a existência do conflito de interesses de classe antagónicos, fundamentado por Marx e Engels, não se diluiu ou desapareceu com a substituição de Passos Coelho e do PSD por António Costa e pelo PS na chefia do Governo, apesar dos acordos à Esquerda, em sede de conteúdo do Orçamento do Estado.

De facto, a natureza da política em prática continua intocável: o Governo mantém a intenção de não corrigir o retrocesso da legislação laboral do tempo do governo de Passos Coelho, teima na caducidade dos antigos contractos colectivos, valoriza mais o ritmo da redução do défice do que as necessidades de investimento para resolução dos problemas existentes no Serviço Nacional de Saúde e no Ensino Público, e o da depreciação da parte dos salários na repartição do rendimento.

Em resumo, o essencial da política continua submetida aos ditames dos interesses dominantes na nossa sociedade e protegidos pela União Europeia – é isso que evidenciam as movimentações sociais recentes, e outras que já se anunciam, e os objectivos fixados para este 1.º de Maio de 2018 da CGTP-IN.

O êxito das diferentes lutas específicas contra a tentativa neoliberal de manter a reversão dos justos anseios dos membros dos vários sectores de actividade e dos direitos laborais obtidos com a luta organizada dos trabalhadores, a todos desafia a envolverem-se em unidade. Sejam operários ou empregados, funcionários administrativos ou enfermeiros, professores ou investigadores ou médicos, efectivos ou precários.


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