Montenegro e Ramalho: dois especialistas no trampolim

(José Pendão, in Facebook, 18/06/2026, Revisão da Estátua)


Um trampolim, disse o primeiro-ministro, Luís Montenegro. Não um subsídio, não um apoio, não uma prestação: um trampolim.

Parei na palavra como quem para na rua diante de uma montra bem composta, e dei por mim a admirá-la. Porque é preciso reconhecer o talento. É necessário um certo génio (não política, génio) para pegar num corte de critérios e devolvê-lo ao país transformado num exercício de ginástica olímpica. O cidadão não é amparado: é projetado para cima.

E não ficou por aí.

Ao trampolim somou-se o elevador (para quem prefira ascender sem esforço atlético) e, do lado contrário, a armadilha, que foi o nome escolhido para aquilo que o apoio social era até anteontem. Convém medir o que esta troca de palavras nos pede. O mesmo Estado que durante trinta anos assinou o cheque é agora, por confissão própria, quem armou o cepo, e apresenta-se, sem mudar de cara, como a mão que nos vem soltar dele. Sim, leram bem: o culpado candidatou-se a salvador, e nem sequer teve de trocar de gabinete.

Reparem na elegância da engenharia (e digo-o sem ironia, ou quase): toda esta arquitetura de imagens ascensionais assenta num pressuposto que ninguém teve de enunciar, porque vinha embutido na própria figura de estilo.

Um trampolim só atira ao alto quem lá chega já com balanço.

Um elevador só faz falta a quem não quer subir as escadas.

E um incentivo só se oferece a quem se suspeita de ainda não estar a tentar.

Em cada metáfora luminosa de mobilidade social vai escondido, como o bicho na fruta mais lustrosa, o velho desabafo de taberna: o homem está lá em baixo porque lhe apetece.

Convém, a esta altura, apresentar a personagem central de todo o enredo. Não é o primeiro-ministro, não é a ministra, não é sequer o senhor deputado, André Ventura, que jura, sem corar, que um quinto do Rendimento Social de Inserção é fraude, número que tem a virtude rara de não constar de lado nenhum a não ser da sua própria convicção.

A personagem central é uma palavra: subsidiodependência. Reparem na sua confeção. Termina em “dependência”, como heroína, como tabaco, como jogo (sufixo clínico, de bata branca) que transforma um pobre num doente e a pobreza numa recaída. É uma palavra que descreve com enorme precisão uma enfermidade para a qual, teimosamente, não se encontra o corpo.

Porque os números, esses, são de uma indelicadeza notável. O RSI paga, em média, cerca de cento e cinquenta e seis euros por mês (a uns trezentos euros de distância do limiar da pobreza) que é o ponto onde a pobreza apenas começa.

Chega hoje a cento e setenta e duas mil pessoas; chegava a meio milhão há quinze anos.

Pesa menos de um por cento na despesa da Segurança Social.

Há quem viva à grande à custa do Estado neste país, e fá-lo com instrumentos consideravelmente mais sofisticados do que cento e cinquenta e seis euros. Mas reservámos a palavra terminada em “dependência” precisamente para a parcela mais barata, mais fiscalizada e mais minguada da conta. É uma economia simbólica admirável: gasta-se a suspeita onde menos custa.

A ministra, Maria do Rosário, que recusa lições de moral, e faz bem, que a moral anda cara, convocou Aristóteles para a defesa. A autossuficiência, disse, é o fim e o que há de melhor. É verdade. É também verdade que o filósofo dispunha de escravos para lhe tratarem da autossuficiência, e que nunca teve de escolher, num mesmo dia, entre a renda e o dentista.

Já a escassez, dizem-nos os que estudam estas coisas em vez de as decretar, não rouba ao homem a vontade: rouba-lhe a largura de banda. A mente ocupada a sobreviver até ao fim do mês é uma mente que decide pior, não porque seja inferior, mas porque está cheia. Quem nunca contou moedas confunde a sua própria folga com virtude. É um erro compreensível. É o mais antigo de todos.

E aqui, porque seria cómodo, e eu desconfio do cómodo, convém recusar a divisão simples. A taberna mental não é propriedade exclusiva de uma certa direita, por mais que ela a frequente com assiduidade de cliente habitual.

A esquerda tem a sua própria adega, onde se destila o coitadinho, esse pobre de estimação que existe sobretudo para enobrecer quem dele se compadece.

E há um terceiro balcão, o mais triste de todos, onde se sentam os próprios beneficiários, que, quando inquiridos, se apressam a explicar que eles, esses sim, são diferentes; que os verdadeiros parasitas existem, claro, e estão “ali no café”, numa mesa que ninguém nunca consegue apontar.

Toda a gente, ao que parece, precisa de um pobre pior que si próprio para poder dormir digno.

É este o serviço que a língua nos presta, e por isso devíamos pagar-lhe melhor. Cada uma destas palavras é uma pequena porta a fechar-se com educação.

Trampolim, para que o corte pareça impulso. Incentivo, para que a desconfiança pareça pedagogia. Responsabilização, para que a punição pareça maturidade. Mérito, para que a sorte pareça carácter. Dignidade, sobretudo dignidade, a palavra-coringa, com que se justifica dar e com que se justifica negar, conforme o dia.

Construímos, a pouco e pouco, um vocabulário inteiro com uma única função: tornar respeitável o ato de não dar.

Não decidimos, em rigor, que os mais pobres eram o nosso inimigo. Fomos mais civilizados do que isso. Limitámo-nos a encontrar as palavras certas (limpas, modernas, quase ternas) que nos deixam olhar para o outro lado sem deixar de nos considerarmos gente de consciência. A PSU não inaugura este idioma; apenas o codifica em Diário da República.

Resta-me, e a vós, o pequeno incómodo de reparar que também este texto é feito de palavras. E que a diferença entre as minhas e as deles talvez não seja a inocência — seja apenas que as minhas não vêm com força de lei.

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A Prestação Social e os Parasitas

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 12/06/2026, Revisão da Estátua)


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Creio que posso explicar num segundo o que significa a prestação social única deste Governo, e como ela pode fazer ajudar a garantir os juros dos investimentos de alguém como Palma Ramalho, Ministra do Trabalho, ou da venda e compra de imobiliário de Montenegro, sem que ambos tenham de trabalhar um único dia da vida deles.
Nas sociedades saudáveis só os velhos, crianças, e doentes não trabalham. Porque o trabalho deve ser dividido por todos. Era assim, mais ou menos, até ao capitalismo, quando surgiu a figura do “desempregado”, esse desconhecido até ao século XIX. O desempregado é aquele que garante que o empregado tem medo de perder o emprego, e por isso aceita piores salários. Também, nas nalgumas sociedades, antes do capitalismo, havia o cuidado com os doentes, idosos. Quanto mais idoso mais bem tratado era. No capitalismo quando mais doente ou idoso – já não é “produtivo” – mais abandonado deve ficar, se for das classes trabalhadoras. Os idosos ricos têm trabalho social especializado.

Ora, aqui vai telegraficamente:
1 – se há trabalho social a fazer, como diz o Governo, contratam-se pessoas e paga-se bem. Se se pagar mal, apenss o salário mínimo, são 1600 euros (dos quais 800 líquidos vão para o trabalhador directamente e o resto para a sua reforma, doença, etc).

2 – A proposta da AD, Chega, IL – e da UE – é que se contrate quem tem um subsídio, de 300, 400 ou 600 euros, ou seja, cortar para menos de metade o salário mínimo nacional. O lar privado ou do Estado passa agora a ter empregados por 400 euros. O que sobra deste corte de mais de metade do salário pode ser investido em guerra, ou a remunerar os investidores em juros da dívida pública.

3 – As prestações sociais não são, na sua maioria, “não contributivas”, mentem-nos com todos os dentes – são desempregados que ficaram doentes aos 50 anos, que contribuíram 20 ou 30 anos, gente que ficou sem casa, desmoralizados, ou pessoas que sempre foram doentes. Não são preguiçosos ou arrivistas, como por norma são os filhos de accionistas, netos de banqueiros, especuladores ou políticos profissionais.

4 – O trabalho social não é desqualificado. Algo que qualquer um pode fazer. São terapeutas ocupacionais, psicólogos, terapeutas da fala, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas – tudo isto, altamente qualificado para cuidar de idosos acamados, esquizofrénicos, gente que não pode andar por maleitas do trabalho, bebés que nasceram com paralisia cerebral.
O que a AD-Chega propõe, é que desempregados pagos abaixo do salário mínimo sem qualificações passam a cuidar de idosos e doentes. É repugnante.

A proposta vem de Palma Ramalho e de Montenegro, Ramalho tem um património de 5 milhões de euros. Que, se estiverem todos no banco, sem ela fazer nada – zero, nestum – recebe no final do ano 75 mil euros em juros! Ou seja, 6 250 euros por mês. Leram bem, mais de 6 mil euros por mês sem nunca trabalhar!

Como, no capitalismo, só o trabalho real produz valor, alguém vai ter de produzir 75 mil euros para os entregar a pessoas como Ramalho. E pode ser uma operária por turnos, despedida com hérnias discais, obesa da má alimentação, deprimida, por ter perdido a casa, aos 50 anos de idade. Esta operária é tratada como parasita na lei da AD e do Chega. Palma Ramalho como uma Sraª Ministra digna.

5 – Acresce algo ainda mais grave – doentes e idosos são os mais vulneráveis a abusos sexuais e maus tratos. Com o trabalho ocasional, degradado, pode haver uma tendência para os tratar mal, e ninguém dá por isso.

6 – Em suma, isto significa: cortes de salário, trabalho forçado (por todas as definições legais e históricas), e abandono de idosos e doentes, com acréscimo de maus tratos. Eis a lei da Prestação Social Única.

Devia responder-se a isto com uma greve conjunta do sector social. Que há muito se deviam unificar numa única organização sindical – façam um grande encontro nacional, unifiquem-se – que questione esta medida de barbárie, mas também as condições de trabalho nas misericórdias, os esquemas de instituições religiosas nos cuidados, que ocuparam o lugar abandonado pela segurança social, e que distribuem tachos aos partidos de direita e extrema direita, que sempre adoraram um pobrezinho, doente, de mão estendida. É a caridade. Afinal, como podia haver alguém com 5 milhões de património se não existissem muitos pobres a pagar a conta?

PS: às maquinas/bots do Chega que aqui vêm sem dar a cara insultar-me perguntando “se se permite uma professora marxista paga por uma Universidade pública” eu escrevi este artigo gratuitamente, como os que aqui escrevo diariamente, em geral às 6 da manhã; a investigação que faço na Universidade devolvo-a em conhecimento a toda a sociedade, é isso que faz um intelectual público, oferece ideias e conhecimento, de rosto à vista; e ainda pago e com alegria, mensalmente, uma quota para o Jornal MaioMaio e outra anual para a Associação Científica que ajudei a fundar, o Observatório para as Condições de Vida – OCV. E sempre que os trabalhadores me pedem ajuda a organizar uma greve eu ajudo, pro bono, com todo o saber que estudei de greves passadas. Contam comigo, trabalhadores e desempregados, idosos e doentes. É a solidariedade. Bem unidos, façamos.

E pode ver também o artigo abaixo sobre o mesmo tema no jornal Maio.

A aversão aos “malandros do rendimento mínimo”

(Ana Sá Lopes, in Público, 07/06/2026)


Ao contrário da guerra aos imigrantes, a guerra ao “malandro do rendimento mínimo” serve o populismo sem nenhuma consequência para o PIB e a Segurança Social.


A criação do Rendimento Mínimo Garantido (hoje Rendimento Social de Inserção) pelo Governo Guterres em 1996 não aconteceu sem um grande combate da direita, nomeadamente do CDS de Portas.

Nas campanhas eleitorais, Paulo Portas atirava-se furiosamente aos “malandros do rendimento mínimo” que “não queriam trabalhar” contra o bom povo trabalhador a quem pedia o voto, com algum sucesso. Em 2008, Portas dizia que o rendimento social de inserção era “um financiamento à preguiça” mas o combate contra a prestação para os cidadãos em situação de pobreza tinha começado muito lá atrás.

O discurso sobre “os malandros do rendimento mínimo” foi sempre um mantra de Paulo Portas que não era partilhado da mesma forma pelo PSD que, quando chegou ao Governo – mesmo em coligação com o CDS –, não pôs fim à prestação que, com outro nome, dura até aos nossos dias.

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Com a viragem do país à direita (o PSD mais à direita do que algum dia foi), é o primeiro-ministro social-democrata quem se apropria do discurso sobre os “malandros do rendimento mínimo”, criando o canal de denúncias em que os “bons trabalhadores” podem denunciar quem acham que está a receber o mísero subsídio erradamente (estimulando a alegria da delação) e obrigando os “preguiçosos” a trabalhar.

Não há narrativa com mais sucesso neste país do que a de pôr pobres contra pobres. Talvez devido à extrema influência da inveja sobre o vizinho do lado, a de pôr pobres contra ricos não tem o mesmo sucesso. O rico habitualmente não é vizinho do lado.

Veja-se como tem corrido bem em toda a Europa, e também em Portugal, o discurso contra o imigrante pobre que contribui para a Segurança Social – isto perante o total alheamento e praticamente nenhuma contestação social face aos imigrantes ricos que inflacionaram o preço das casas (o Chega culpa os imigrantes pobres pela inflação imobiliária) ou aos ricos que fogem aos impostos. As falhas dos cidadãos afluentes têm perdão social. Perante as falhas dos cidadãos na pobreza só falta chamar alguém para atirar o alcatrão e penas.

Numa destas noites, pediram-me uma fortuna para ir num Bolt da Baixa de Lisboa até à minha casa, mais ou menos nove quilómetros. O Bolt é igual ao Uber, funciona segundo as leis do mercado e os preços sobem quanto maior é a procura e menor o contingente de trabalhadores disponíveis. Optei pelo velho táxi. O desaparecimento dos imigrantes pobres a conduzir Ubers não prejudica muito a minha vida, mas vai ter provavelmente reflexos no PIB do turismo e na construção.

Talvez as “massas populares” até se regozijem com o desaparecimento de imigrantes, mas certamente que os empresários vão sofrer as consequências. Aqui está uma improvável guerra do Governo aos “ricos”. Ao contrário da guerra aos imigrantes, a guerra ao “malandro do rendimento mínimo” serve o populismo sem nenhuma consequência para o PIB e a Segurança Social.

A social-democracia foi um sucesso enquanto serviu de tampão à emergência do comunismo na Europa. Com a queda dos regimes comunistas, a social-democracia entrou em crise – uma crise que persiste e contra a qual ainda ninguém descobriu o antídoto. As excepções que aqui e ali aparecem não chegam para inverter a tendência. É neste caldo cultural do século XXI que é fácil impor medidas de direita pura e dura, apenas contestadas por uma minoria.

Pouco se sabe ainda sobre a prestação social única, além do “trabalho social” que pode “ir até oito horas por dia”, da diminuição dos valores, da retirada de apoios a quem tem carro e do canal de delação.

Na próxima sexta-feira, o Governo prometeu dar mais explicações. O PS não vota a lei tal e qual está. O Chega depende – se for ainda mais dura para os imigrantes aceita. Tudo indica que o Governo vai mais uma vez “coligar-se” com o parceiro preferencial que efectivamente elegeu, embora diga que não. É o zeitgeist.

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