Delação S.A.

(Rui Pereira, in Facebook, 04/06/2026)


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A fórmula “canal de denúncia”, que se tem multiplicado entre nós sob todos os aparentemente mais benévolos pretextos, chega agora à chamada Prestação Social Única (PSU). Instituída sob o signo estigmatizante de obrigar a trabalhar os desempregados e outros detritos do negócio socioeconómico, aprofunda o estereótipo de uma série de loosers preguiçosos que “preferem” a “subsidiodependência” a ir trabalhar “como os outros”.

Persuadidos de que são winners, os menos pobres dos pobres são virados contra os mais pobres do que eles, numa guerra social induzida a partir das esferas do poder, cujos efeitos e limites vão muito para lá do rendimento de que cada um dispõe.

A razão pela qual existe o “pobre de direita”, para usar a exatíssima expressão do sociólogo brasileiro, Jessé de Souza, não é meramente económica. Votar à direita, votar nas mentiras das diferentes direitas, mesmo sabendo e sobretudo sabendo que são mentiras, é um ponto simbólico de fuga, de desidentificação com a própria pobreza.

Quando não se percebe isto, não se percebe que se vive não só do dinheiro, mas também do reconhecimento social, do status e das suas aparências e de que existe uma componente psicossocial na sociedade humana que encontra correspondência psicopolítica na administração do poder.

A reprodução das práticas e dos ideologemas opressivos e discriminatórios dos menos pobres para com os mais pobres é uma aposta epigenética ganha por quem a induz e a realiza através de medidas como esta: fazer do pobre polícia do outro pobre.

Escrevendo sobre a delação no tempo do fascismo, a historiadora Irene Pimentel chamou-lhe “uma tragédia portuguesa”. Percorrer as páginas do seu estudo é, de facto, mergulhar nos abismos do humano. Ver como tantos milhares se tornaram bufos e muitos outros só não o fizeram porque a PIDE os rejeitou é uma ferida moral que o neofascismo instalado no poder há décadas a esta parte insiste em não deixar fechar, lançando-lhe por tudo e por nada a pitada de sal da instigação à delação.

Nos tempos da Inquisição, vizinhos e familiares, desconhecidos, gente desavinda de todo o tipo denunciava quaisquer outros, sabendo que se não a fogueira, pelo menos a tortura estava garantida ao denunciado. Porque, como afirmavam os pequenos e grandes Torquemadas da época, só a tortura garantia o selo de veracidade, tanto às declarações de inocência como de culpa.

Hoje, desde atribuir-se sorteios de automóveis de alta cilindrada entre quem substitua os fiscais do fisco reivindicando a “fatura” de cada café que tome (sinal de uma “cidadania exigente”), até aos múltiplos “canais da denúncia” com anonimato garantido e perseguição assegurada ao denunciado é uma das mais cínicas armas da refascização em curso.

Ao mesmo tempo, quem espreita o companheiro do lado por cima do ombro, preocupado com o rendimento mínimo que possa receber, nunca olhará para os do rendimento máximo garantido que estão acima, muito acima dele, locupletando-se com os canais do dinheiro que escorre do trabalho socialmente realizado para o lucro privado, escondido na imensa corrupção que vai dos conselhos de administração aos gabinetes ministeriais e de advocacia, escoado nos offshores sobre os quais denúncia alguma será estimulada.