Põem quem ganha pouco a discutir com quem ganha ainda menos

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 09/08/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

O Chega não precisou de chegar ao Governo para rebentar com o país, destruir as contas públicas e fazer a sociedade retroceder 50 anos. Uma turba minoritária, mas barulhenta, agressiva e muito ativa nas redes sociais, conseguiu elevar um partido alimentado pelo ressentimento e pelas mentiras até ao centro da política portuguesa.

E a direita tradicional, em vez de enfrentar a extrema-direita, começou a imitá-la. Primeiro copiou-lhe as palavras. Depois copiou-lhe os inimigos. A seguir copiou-lhe as leis. Agora já copia até os disparates.

Mas não é só em Portugal. A Itália, campeã das entradas ilegais pelo Mediterrâneo, aparece agora indignada com Espanha por causa de Ceuta, uma cidade espanhola situada em África… sim, em África. Só em 2025 chegaram a Itália por mar 66 316 migrantes, quase metade de todas as chegadas registadas no Mediterrâneo nesse ano. Ainda assim, foi o Governo italiano que decidiu impor controlos a quem viajava de Espanha… Irónico, não é?

Bastaram algumas imagens de pessoas a correr e, em poucos minutos, o TikTok já tinha decretado uma “invasão da Europa”. É assim que se faz política hoje. Por trás deste espetáculo existe uma máquina internacional de propaganda da extrema-direita, alimentada por Estados, redes digitais, interesses económicos e serviços de informações.

E há suspeitas de que a crise de Ceuta possa ter feito parte de uma operação híbrida conduzida por Marrocos e Israel, com envolvimento da Mossad, para pressionar e desestabilizar o Governo espanhol. Isto ajuda a perceber até que ponto populações desesperadas podem ser usadas como arma por interesses que nada têm de humanitário. Depois, as imagens são entregues aos idiotas úteis do TikTok. Uns fabricam o caos, outros filmam-no e a extrema-direita transforma-o em votos.

O resultado está à vista. Há gente que já nem sabe distinguir imigração não documentada de entrada ilegal. Segundo os dados da Polícia Marítima divulgados pela Autoridade Marítima Nacional, em dez anos foram registados apenas sete episódios de entrada irregular, envolvendo 135 pessoas. Cento e trinta e cinco pessoas em dez anos. Na Itália entraram centenas de milhares. Em Portugal, por esta via, foram 135. Mas explicar esta diferença destrói o espetáculo. Acaba com a “invasão”, estraga os vídeos e obriga os vendedores de medo a discutir a realidade.

Por isso misturam tudo. Misturam quem atravessou clandestinamente uma fronteira com quem entrou legalmente e só depois ficou em overstay. Misturam quem ficou além do prazo com trabalhadores que aguardam documentos mas o estado falha. Misturam pessoas sem título de residência com criminosos e depois atiram tudo para o mesmo saco, porque sem essa aldrabice não existe invasão nenhuma para vender.

Nenhum partido sério defende fronteiras abertas a criminosos ou um país sem controlo. Isso é uma mentira inventada para fugir à verdadeira discussão… saber se uma pessoa que entrou legalmente, vive cá, trabalha, tem casa, filhos, meios de subsistência e passa o controlo dos antecedentes criminais deve poder regularizar a sua situação ou deve ser expulsa, separada dos filhos, presa e tratada como uma criminosa.

É aqui que o circo fica à vista. Os partidos que mais berram contra a ilegalidade são muitas vezes os mesmos que criam as condições para manter milhares de pessoas sem documentos.

Sem documentos, o Estado sabe menos. Não sabe com segurança onde vivem, para quem trabalham, quanto recebem, se são exploradas, se os patrões pagam impostos ou se existe algum problema criminal. Em vez de as trazerem para dentro da lei, deixam-nas na sombra. E uma pessoa na sombra dá muito jeito a alguns chicos-espertos. Trabalha mais barato, reclama menos, não denuncia o patrão, aceita horários que mais ninguém aceitaria e vive com medo de ser expulsa. É o trabalhador ideal para o patrão sem escrúpulos que vota no CHEGA.

Todos os anos, Portugal recebe perto de 30 milhões de turistas não residentes. Em 2025 foram 29,9 milhões. REPITO… Quase 30 milhões de chegadas num único ano. Esses visitantes também utilizam aeroportos, estradas, transportes, hospitais, água, energia, alojamento e espaço urbano. Também criam pressão sobre o país. E não lhes é exigido, como condição de cada entrada, o conjunto de provas pedido a quem pretende trabalhar cá.

Mas ninguém fala disso. Ninguém fala em substituição populacional quando chega um avião cheio de turistas britânicos. Ninguém publica um vídeo quando empurram a população do centro das cidades para abrir alojamentos locais e lojas de souvenirs. Portanto, o problema nunca foi simplesmente o estrangeiro entrar. O problema é ser pobre, trabalhar cá e querer fazer parte da sociedade.

O Governo acabou com a manifestação de interesse em junho de 2024, eliminando a via que permitia a regularização através do trabalho e dos descontos. Ou seja, fechou-se a porta precisamente aos trabalhadores de que mais precisam a agricultura, a construção, os lares, as cozinhas, os hotéis e as limpezas. Agora, esse trabalhador tem de conseguir, a milhares de quilómetros de distância, um patrão disposto a contratá-lo antes de o conhecer. Estúpido não é?

Isto é a receita perfeita para criar intermediários, contratos comprados, falsas promessas, burlas, dependência e redes de exploração mafiosas. Troca-se um processo que podia ser controlado diretamente entre o trabalhador, a empresa, a Segurança Social e o Estado por um mercado organizado à distância, onde o intermediário controla o acesso ao país e o trabalhador já chega dependente de quem lhe arranjou o contrato. Depois fingem-se surpreendidos quando aparecem esquemas, máfias e tráfico de droga ligados a esse sistema.

A regra que defendo é simples… quem entra legalmente tem 90 dias para encontrar trabalho e demonstrar que possui alojamento, meios de subsistência e antecedentes compatíveis com a residência. Cumpre os requisitos, documenta-se. Não cumpre, regressa ao seu país. Ninguém sério é contra isso. Aliás, meios de subsistência, alojamento, inscrição na Segurança Social, quando aplicável, e controlo dos antecedentes criminais já faziam parte das condições legais para obter uma autorização de residência.

Aos 20% que garantem que Portugal não precisa de imigração, a resposta é muito simples: faltam trabalhadores nas obras, na agricultura, nos lares, nas cozinhas, nos hotéis, nas limpezas, nos transportes e em muitos outros trabalhos essenciais. Apareçam amanhã de manhã para ocupar esses lugares. Por cada um que aparecer, será necessário menos um imigrante.

No segundo trimestre de 2026, o desemprego caiu para 5,3%, o valor mais baixo da atual série do INE. O Banco de Portugal diz que os trabalhadores estrangeiros se tornaram centrais para o crescimento do emprego num contexto de redução da população nacional em idade ativa e de escassez de mão-de-obra. A OCDE avisa que a falta de trabalhadores e o envelhecimento já pesam sobre o crescimento e a capacidade das empresas portuguesas para crescer e inovar.

Também podemos exigir salários suíços para atrair trabalhadores na Europa. E até concordo… os salários portugueses são demasiado baixos e deviam subir. Mas Portugal é um país com pouca acumulação de capital, baixas qualificações em grande parte da população, investimento insuficiente, empresas pequenas que raramente conseguem crescer e demasiada gestão pouco preparada para construir uma economia tecnológica como a suíça. Não temos apenas um problema de produtividade.

Temos falta de capital, formação, investigação, escala empresarial, gestão competente e empresários capazes de criar atividades de elevado valor.

Pagar salários suíços para apanhar batatas não transforma as empresas nacionais em líderes mundiais em inteligência artificial. Fechar uma exploração agrícola não cria uma fábrica de semicondutores. Fechar um restaurante não forma engenheiros. Expulsar um servente não cria um empresário tecnológico. Só destrói a economia de baixo valor que ainda existe, sem criar capital, empresas, conhecimento ou riqueza de alto valor para a substituir. Parte dessa conta, derivada da estupidez que engolimos nas redes sociais, já está a chegar.

A primeira fatura aparece na habitação

Portugal precisa de cerca de 300 mil casas, mas faltam entre 80 mil e 120 mil trabalhadores na construção. Cerca de 30% dos trabalhadores do setor são estrangeiros.

Entretanto, a imigração líquida caiu para cerca de metade e as empresas avisam que as restrições já estão a agravar a falta de mão-de-obra e poderão provocar atrasos, aumentos de custos ou cancelamentos de projetos.

Menos pedreiros, serventes, carpinteiros, eletricistas, canalizadores e pintores não fazem baixar o preço das casas. Fazem subir o custo da construção, prolongam os prazos e reduzem o número de casas que se consegue construir. A política que supostamente protege os portugueses acaba a tornar mais cara a casa do português.

O mesmo pedreiro que falta para construir um prédio falta para recuperar uma casa abandonada. O mesmo canalizador falta para substituir uma canalização. O mesmo eletricista falta para reabilitar um imóvel que podia voltar ao mercado de arrendamento.

Os orçamentos sobem. As esperas aumentam. Pequenas obras deixam de compensar. Casas que podiam ser recuperadas continuam vazias e degradadas. A falta de mão-de-obra já está a empurrar para cima as mensalidades dos lares. Em apenas um ano, o valor médio aumentou cerca de 250 euros e aproximou-se dos dois mil euros mensais, enquanto 70% das unidades analisadas não tinham vagas. Um lar não funciona com discursos patrióticos e racistas. É preciso alguém para dar banho, mudar roupa, preparar refeições, limpar quartos, administrar cuidados, vigiar durante a noite e ajudar uma pessoa que já não consegue levantar-se sozinha. Esse trabalho não pode ser deslocalizado para a China. E ainda não existe uma aplicação que dê banho ao avô. Se faltarem auxiliares e cuidadores, as mensalidades sobem ainda mais, as vagas diminuem, a qualidade piora ou o trabalho regressa para dentro das famílias. Perdemos uma auxiliar de um lar e obrigamos uma enfermeira, uma professora, uma contabilista ou uma engenheira a reduzir o horário ou a abandonar temporariamente o emprego para cuidar dos pais. Retira-se uma pessoa de um trabalho essencial e acaba-se por retirar outra de um trabalho mais qualificado.

Depois chega a agricultura

Os trabalhadores estrangeiros já representam cerca de metade da força de trabalho agrícola portuguesa. Uma batata não se apanha através da internet. Uma vinha não se vindima com inteligência artificial. Se faltarem trabalhadores, o agricultor tem três possibilidades… Produz menos, abandona a cultura ou fecha a atividade. No fim, a conta aparece na caixa do supermercado.

A comida produzida em Portugal fica mais cara ou deixa de ser produzida. E depois importamos aquilo que já não conseguimos colher cá. Expulsamos o trabalhador estrangeiro que apanhava a fruta em Portugal e compramos fruta produzida em Espanha, Marrocos ou França por outro trabalhador estrangeiro. Destruímos a produção portuguesa, o emprego, os impostos e a riqueza que ficava no país.

Depois vêm os hotéis, os restaurantes, as cozinhas e as limpezas

Os estrangeiros representam atualmente cerca de 40% dos trabalhadores da hotelaria e restauração. Não podemos mandar limpar um quarto no Algarve a partir de uma central na Índia. Não podemos arrumar uma cozinha, lavar a loiça ou preparar um pequeno-almoço usando um robô do Elon Musk. Ou existe alguém para fazer o trabalho, ou o serviço fica mais caro, mais lento e pior.

Os restaurantes reduzem horários. Os hotéis fecham. As equipas ficam sobrecarregadas. As empresas recusam clientes. Algumas fecham. E quem paga não é André Ventura, nem o ministro que fez a lei, nem o influencer que partilhou o vídeo. É o português que paga mais pelo almoço, pela limpeza, pelo hotel, pela reparação da casa e pelo lar dos pais.

Depois chega a fatura às empresas

Uma empresa que não consegue contratar começa por recusar encomendas. A seguir adia investimentos. Depois deixa de crescer. E, quando chega o momento de decidir onde abrir a próxima fábrica, o próximo armazém, a próxima exploração agrícola ou o próximo centro logístico, compara países.

Se em Portugal não encontra trabalhadores e em Espanha encontra, o investimento atravessa a fronteira. Vai para onde consegue produzir. Com o investimento vão as máquinas, os fornecedores, as exportações, os impostos e os empregos mais qualificados.

Porque o imigrante que trabalha numa obra, numa fábrica, numa exploração agrícola ou num hotel não está sozinho. À sua volta existem encarregados, administrativos, técnicos, comerciais, motoristas, contabilistas, engenheiros e gestores. Quando a atividade desaparece, não desaparece apenas o posto manual ocupado pelo estrangeiro. Desaparece também o emprego melhor pago do português.

É assim que a mentira de que “um imigrante a menos significa um emprego a mais para um português” se vira contra quem acreditou na mentira. E, quando a economia começa a encolher, os portugueses não são promovidos para uma economia tecnológica imaginária. Alguns acabam empurrados para trás. O encarregado volta a executar tarefas manuais. A profissional qualificada reduz o horário para cuidar dos pais. O trabalhador despedido de uma empresa que fechou aceita um emprego mais duro, mais precário e pior pago. Não se acabou com a exploração. Mudou-se apenas o explorado.

Depois chega a conta à Segurança Social

Em 2025, os estrangeiros pagaram mais de 4,15 mil milhões de euros em contribuições, cerca de 14% do total. Portugal envelhece. Há cada vez mais pensionistas e, proporcionalmente, menos pessoas em idade ativa a pagar as suas reformas.

Podemos querer menos imigração. O que não podemos é querer, ao mesmo tempo, menos trabalhadores, mais idosos, reformas maiores, melhores hospitais, mais lares, menos impostos e fingir que as contas se resolvem com bandeiras do Chega a abanar e TikToks do André Ventura. Alguém vai pagar. E não serão os milionários que financiam esses partidos. A conta acaba nas contribuições, nos impostos, nas reformas e nos serviços públicos.

Uma economia que produz menos, investe menos e emprega menos gera menos receita. Ao mesmo tempo, uma população envelhecida precisa de mais saúde, mais pensões, mais cuidados continuados e mais apoio domiciliário. Quando o dinheiro deixa de chegar, o Estado escolhe… aumenta os impostos, aumenta as contribuições, reduz o crescimento das reformas, adia investimentos ou corta nos serviços.

A extrema-direita vende a expulsão como se fosse gratuita

Não é… Está a ter um preço brutal na nossa economia e os custos já se sentem em todo o lado.mAcabaram os anos de ouro em que foram criados mais postos de trabalho do que havia portugueses para os ocupar e chamavam à nossa economia uma das melhores do mundo.

A conta hoje já aparece no centro de saúde sem profissionais, na operação adiada, no lar sem vaga, na escola degradada, no transporte que não foi construído e na reforma que já não acompanha o custo de vida.

Até as obras públicas ficaram mais caras. O Governo pode anunciar milhares de milhões para habitação, ferrovia, hospitais, redes elétricas e transição energética. Mas o dinheiro não pega numa pá, não conduz uma máquina, não assenta um tijolo e não instala um cabo.

Sem trabalhadores, os concursos ficam vazios, as obras atrasam e o Estado paga mais.Ter fundos europeus sem pessoas para executar os projetos é como ter uma ambulância sem condutor… fica muito bonita na fotografia, mas não salva ninguém.

E, por fim, destrói-se a própria capacidade de mudar a economia. Uma economia tecnológica não nasce no espaço vazio deixado por uma exploração agrícola que fechou, por um hotel que reduziu a atividade ou por uma empresa de construção que desistiu. A transição para uma economia de elevado valor exige capital, formação, universidades, investigação, empresários preparados, empresas com escala e anos de investimento. E tudo isso custa dinheiro.

Quando destruímos empresas, produção, empregos e contribuições, também destruímos lucros, impostos, poupança e investimento… ou seja, destruímos parte da riqueza que podia financiar a passagem para uma economia melhor.

A economia de alto valor tem de ser construída por cima da economia que já existe, substituindo-a progressivamente à medida que surgem atividades melhores. Se demolirmos primeiro e tentarmos construir depois, podemos acabar sem nenhuma das duas. Sem trabalhadores para construir casas, colher alimentos, limpar hotéis e cuidar dos idosos. E sem capital, empresários, qualificações e tecnologia para criar a economia do futuro. Sem a economia antiga e sem a nova.

É um país a caminhar para o colapso enquanto aplaude a própria queda. O verdadeiro fracasso foi deixar Portugal envelhecer, perder trabalhadores, manter baixas qualificações, acumular pouco capital e não investir devidamente a riqueza criada pela imigração na habitação, nos serviços públicos, na formação e na transformação da economia.

Depois, para esconder esse falhanço, apontaram o dedo ao alvo mais fácil… o trabalhador pobre que chegou de fora. Tudo isto é vendido como patriotismo. Mas não há nada de patriótico em tornar mais cara a casa do português, o lar dos pais do português, a comida do português e os serviços de que o português precisa.

Não há nada de patriótico em perder empresas para Espanha, produção agrícola, investimento, contribuições para a Segurança Social e empregos de portugueses.

E não há nada de patriótico em pôr o português pobre contra o imigrante ainda mais pobre, enquanto o patrão que explora os dois goza férias nas Maldivas. Esse é o verdadeiro truque.

Põem quem ganha pouco a discutir com quem ganha ainda menos

Enquanto isso, o povo se entretém com vídeos do TikTok, descarrega a raiva em quem limpa os quartos, apanha a fruta, constrói as casas e cuida dos idosos.

Esta gente que financia a direita e transformou Portugal num país de salários baixos, rendas altas, baixa qualificação, pouco capital e serviços públicos insuficientes continua confortavelmente fora da discussão. A contar o dinheiro e a escolher a cor do próximo Lamborghini.

O Tretas

(João Gomes, in Facebook, 26/05/2026)


As frases de Montenegro funcionam muito como uma peça de marketing político: pega num dado verdadeiro, escolhe o ângulo mais favorável e apresenta-o como se fosse o retrato completo da realidade do país. É semelhante a um comerciante que diz: “Esta loja teve o maior crescimento de vendas do bairro.” O que ele não diz é: que antes estava muito pior do que os outros; que continua a vender pouco; ou que os clientes continuam com dificuldades financeiras.

No caso de Portugal, o Governo usa uma estatística positiva – a recuperação do rendimento – para transmitir a ideia de que: o país está a prosperar; as pessoas vivem melhor; e a política económica está a resultar plenamente.

Mas a realidade do cidadão comum continua marcada por: rendas e casas caríssimas; salários baixos; dificuldades no SNS; custo de vida elevado; jovens a emigrar; e dificuldade em poupar. Ou seja: houve alguma recuperação, sim. Mas isso não significa que Portugal tenha deixado de ser um dos países mais pobres da Europa Ocidental em poder de compra.

A dimensão populista da frase está precisamente aqui: transformar uma melhoria parcial e estatística numa narrativa quase triunfalista sobre o país. É um populismo mais “institucional” e económico, diferente do populismo agressivo de partidos radicais, mas ainda assim baseado numa técnica clássica: simplificar uma realidade complexa; destacar apenas os números favoráveis; e criar uma perceção emocional de sucesso.

Porque, na prática, muitas pessoas olham para a própria vida e perguntam: “Se estamos assim tão bem, porque continuo sem conseguir comprar casa? Porque o salário mal chega ao fim do mês?” É aí que surge a distância entre: os indicadores macroeconómicos; e a experiência concreta da população.

Portanto, a frase não é totalmente falsa mas está construída para produzir um efeito político de confiança, otimismo e credibilidade, omitindo as fragilidades estruturais que continuam presentes no quotidiano da maioria dos portugueses.

A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.

Desigualdade grave na repartição da riqueza criada no país

(Eugénio Rosa, in Jornal Tornado, 09/08/2024)

A % do PIB que os trabalhadores recebem (ordenados e salários) não aumentou desde 2010 (em 2010, 36,9% do PIB; em 2023, 36,3% do PIB), apesar do seu número ter aumentado em 400.000, e é inferior à dos patrões apesar destes serem 6% do total de trabalhadores.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Neste estudo analiso a repartição da riqueza criada em Portugal (PIB) entre trabalhadores e patrões utilizando dados do INE. Mostro que apesar do numero de trabalhadores ter aumentado em 400.000 entre 2010 e 2023 a percentagem do PIB que reverte para eles manteve-se (36,9% do PIB em 2010, e 36,3% do PIB em 2023). Os patrões apesar de serem 6% dos trabalhadores, a parte de que se apropriam do PIB é maior (39,6% do PIB em 2023). E termino mostrando (dados do Eurostat), que esta grave desigualdade na repartição da riqueza contribui para as grandes disparidades de remunerações existentes entre Portugal e muitos países da U.E. o que leva milhares de portugueses qualificados a emigrarem todos os anos.

Estudo

Desigualdade grave na repartição da riqueza criada no país – A % do PIB que os trabalhadores recebem (ordenados e salários) não aumentou desde 2010 (em 2010, 36,9% do PIB; em 2023, 36,3% do PIB), apesar do seu número ter aumentado em 400.000, e é inferior à dos patrões apesar destes serem 6% do total de trabalhadores.

A análise da repartição da riqueza criada anualmente no país, ou seja, do PIB, entre trabalhadores e patrões (os que empregam trabalho assalariado), ou seja, entre o Trabalho e o Capital, é muito importante conhecer pois é um indicador do nível de desigualdade existente em Portugal. Os dados sobre a repartição da riqueza são escassos, certamente porque é uma matéria muito sensível que incomoda as classes dominantes e também os sucessivos governos, que nada têm feito para alterar, por isso procuram ocultar. Para mostrar a desigualdade existente nesta área, vamos utilizar os poucos dados oficiais que são divulgados pelo INE.

A REPARTIÇÃO DA RIQUEZA CRIADA ANUALMENTE (PIB) ENTRE O TRABALHO E O CAPITAL EM PORTUGAL

O gráfico 1 (dados do INE), mostra como se tem repartido a riqueza criada no país no período 2010/2023.

O Excedente Bruto de Exploração, que fica para o patrão da empresa obtém-se subtraindo ao VAB (valor acrescentado Bruto) as remunerações dos trabalhadores. E o VAB, por sua vez, que é a riqueza criada anualmente pela empresa, obtém-se deduzindo ao valor da riqueza criada tudo o que se gastou para a produzir com exceção das remunerações dos trabalhadores e das amortizações. A conclusão que se tira imediatamente do gráfico é que em todos os anos a fatia da riqueza criada que reverteu para o Trabalho (em 2023, 36,3% do PIB) é sempre inferior à que fica para o Capital (em 2023,39,6% do PIB). Mas a dimensão da desigualdade fica ainda mais clara quando se compara o número de trabalhadores com o número de patrões (aqueles que empregam assalariados).

OS PATRÕES CORRESPONDEM APENAS A 6% DOS TRABALHADORES POR CONTA DE OUTRÉM

O quadro (dados do INE) mostra o reduzido número de patrões quando comparado com o total de trabalhadores.

Quadro 1 – Total de Trabalhadores e de Patrões – Milhares – FONTE: Inquérito ao Emprego – 2010/2023 – INE


Os dados do quadro do INE permitem tirar, pelo menos, duas conclusões importantes. A 1ª conclusão, é que o número de “Patrões” é reduzido quando se compara com o total de trabalhadores por conta de outrem. Em média, no período 2010/2023, representavam apenas 6% do Trabalhadores por conta de outrem e o seu total diminuiu quer em número (-22000) quer em percentagem (-1,1%), portanto a tendência à concentração é clara pela eliminação de muitos deles. Mas apesar do seu reduzido número apropriam-se de uma parte significativa da riqueza criada no país. A 2ª conclusão importante que se tira dos dados do quadro 1 é que, contrariamente ao que sucedeu com os “Patrões”, o número de Trabalhadores por conta de outrem aumentou, entre 2010 e 2023, em 409000, e a percentagem do PIB que reverteu para os trabalhadores até diminuiu nesse período pois passou de 36,9% do PIB para 36,3% do PIB como mostra o gráfico 1. E a quebra nesta % não foi maior porque o número de trabalhadores aumentou, entre 2015 e 2023, em 544000 como revelam os dados do quadro1. Pode-se, por isso, concluir que uma parcela importante do aumento da parte dos salários no PIB (passou de 34% em 2015 para 36,3% do PIB em 2023) se deve ao aumento de mais de meio milhão de trabalhadores por conta de outrem e não a um aumento muito significativo dos ordenados e salários. Esta realidade, e a perda de poder de compra que sofreram milhares e milhares de trabalhadores é a razão dos inúmeros conflitos sociais que atualmente se verificam no país.

O ENORME EXCEDENTE LÍQUIDO DE EXPLORAÇÃO QUE REVERTE NA TOTALIDADE PARA OS PATRÕES

O valor do Excedente BRUTO de Exploração, que é o que utilizamos anteriormente, nele ainda estão incluídas as amortizações dos equipamentos e construções utilizados pelas empresas. Utilizando dados também do INE, deduzimos as amortizações, que a nível macroeconómico (do país) se denomina Consumo de Capital Fixo, e obtivemos o Excedente LÍQUIDO de Exploração. O gráfico mostra a variação no período 2010/2023.

Os dados do INE revelam que se verificou uma quebra no ELE em 2020 causada pela pandemia, mas a partir desse ano registou-se uma rápida recuperação sendo o valor de 2023 (54926 milhões €) já superior ao de 2019 (49498 milhões €), ano anterior ao do COVID, em 5427 milhões € e ao de 2020 em 38,2%. Os patrões não se podem queixar da guerra da Ucrânia nem das sanções pois elas não impediram um aumento significativo da riqueza criada no país de que se apropriaram. São os próprios dados oficiais do INE que revelam isso, e não meras opiniões ideológicas.

A DESIGUALDADE NA REPARTIÇÃO AGRAVA A DISPARIDADE DAS REMUNERAÇÕES ENTRE PORTUGAL E A U.E.

Embora muitos preços no nosso país sejam iguais ou mesmo superiores ao de países da U.E. (ex.: combustíveis), as remunerações dos trabalhadores são muito inferiores, o que é uma das causas da emigração em massa dos trabalhadores mais qualificados. As disparidades de remunerações são evidentes nos dados do quadro 2.

Quadro 2 – Ganho médio liquido em Portugal e em países da U.E. (14 meses) – FONTE: Eurostat