Marcelo e a mensagem de Ano Novo

(Por Carlos Esperança, in Facebook, 02/01/2018)

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O PR, cumprindo a liturgia do calendário e da função, encontrou a substância necessária e a forma adequada.

Não foi demasiado frívola nem excessivamente parcial. Lembrou as vitórias do Governo e as desgraças do País no ano que findou. Não esqueceu as vítimas que um carvalho do adro de uma igreja, caído sobre os devotos, provocou numa procissão da Madeira, como não esqueceu, justamente, os mortos dos incêndios continentais.

O apelo para que se previnam as tragédias é um desejo óbvio de quem ama o povo a que pertence e que o elegeu. Não vi má fé ou partidarismo numa das suas mais equilibradas e conseguidas mensagens ao país, sendo esta uma obrigação institucional.

Atacar o PR por esta mensagem é falta de senso e de isenção. Ver nela o que não disse e fazer uma leitura partidária denota mais o que cada um gostaria de ter ouvido do que o ouviu. Pior do que a excessiva loquacidade do PR é o seu aproveitamento partidário e a distorção do que hoje disse.

Ouvi com atenção, em direto, a mensagem presidencial e estupefaz-me a exegese que os avençados do costume fizeram. Alguns influentes jornalistas, ansiosos por se tornarem os panegiristas do próximo líder do PSD, seja ele qual for, aproveitaram a oportunidade para diluírem os méritos do Governo nas catástrofes que ocorreram e julgaram ouvir do PR o que ele não disse. Atribuem-lhe, aliás, intenções que a Constituição e a dignidade da função impedem. Parecem desconhecer que o Governo só responde perante a AR.

Na luta desigual que os partidos de esquerda travam, de pouco lhes vale mais de 60% do eleitorado que neles se revê. A minoria de direita paga melhor e detém os meios.

Quem apoia esta fórmula de governo, achada pelos partidos da esquerda, deve combater a direita, obrigação tão indeclinável como a de defender o pluralismo que Portugal não lhe deve, nem à atual nem à defunta, afastada provisoriamente do poder no 25 de Abril.

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ADIVINHAÇÕES E PALPITES PARA 2018

(In Blog O Jumento, 31/12/2017)
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(A todos os que me seguem e me visitam desejo um excelente ano de 2018, melhor mesmo do que aquele que passou. E como tristezas não pagam dívidas deixo-vos abaixo o último texto do ano, sarcástico e apropriado. Divirtam-se e sejam felizes, se para tal tiverem engenho e arte.
Estátua de Sal, 31/12/2017)

Mário Centeno vai inscrever-se na Universidade Lusíada onde terá a oportunidade de frequentar as aulas de Maria Luís Albuquerque a fim de assegurar que elabora orçamentos sem erros de aritmética. Com alguma sorte ainda poderá ter aulas de Passos Coelho.
Marcelo Rebelo de Sousa entrará no Guiness como recordista mundial em várias categorias: o presidente que deu mais abraços, que deu mais beijinhos, que tirou mais selfies, que deu mais beijos nos rubis dos anéis de bispos, que foi a mais missas, funerais e procissões.
O cachorro de Eduardo Cabrita vai receber treino na GNR, guarda tutelada pelo dono, a fim de aceitar a presença dos polícias à porta, para que estes deixem de estar condenados a estar à chuva.
Marcelo Rebelo de Sousa via anunciar em janeiro que o OE para 2019 será analisado cuidadosamente, a fim de não ter nada que suscite quaisquer simpatias com o governo, incluindo medidas que constem no programa aprovado no parlamento. Exceptuam-se as medidas resultantes das definições semanais de prioridades nacionais a longo prazo, definidas pelo Presidente da República, porque nada do que Marcelo faz é eleitoralismo.
Enquanto não tem nada que fazer Passos Coelho vai dedicar-se a colecionar pins com bandeiras nacionais.
Inspiradas nas palavras de Bruno de Carvalho, que incitou os sportinguistas a serem mais militantes na sua vida fora do clube, várias claques legais vão abrir delegações na Polícia Judiciária e no Ministério Público.
Seguindo o princípio adotado na empresa dos pernis, o Ministério Público vai instaurar processos de investigação a todos os portugueses que dupliquem os seus rendimentos. Seguindo a lógica do enriquecimento ilícito tudo o que estiver acima da média estatística é suspeito de crime, sejam os despachos mais céleres dos diretores-gerais ou os lucros das empresas. Os diretores-gerais exemplares devem atrasar os despachos e as empresas modelo devem apresentar prejuízo.
Depois de decidir a deslocalização do INFARMED para o Porto o governo vai decidir mais deslocalizações, o Instituto do Mar vai para Manteigas, o Instituto de Higiene e Medicina Tropical vai para a Comporta, e o Instituto Nacional de Administração vai para Celorico.
Paulo Portas não se vai candidatar ainda à liderança do CDS, ainda não há sondagens que apontem para o regresso do CDS ao poder e, por enquanto, ainda há muitos regimes onde é fácil influenciar negócios.

Balanço Nacional 2017: a política não é a vida das pessoas? 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/12/2017) 

Daniel

Daniel Oliveira

 

O balanço geral deste ano de governo tem sido o de que foi excelente na economia e péssimo na política. Na economia não entra apenas o crescimento económico ou o aumento das exportações. Não entram sequer apenas as contas públicas. Entra o emprego, que cresceu. Entra o rendimento dos trabalhadores, que aumentou. Entra o rendimento dos desempregados e dos reformados, que é maior. Na economia, ao que parece, entra a vida concreta das pessoas. Para a política fica o resto.

O que correu mal? Os casos. Com exceção dos incêndios, que correspondem a um problema real e profundo do país e que teve um enorme impacto na vida de muitas pessoas – e em que a responsabilidade do atual governo é parcelar, mas relevante –, estamos a falar de episódios com um enorme impacto mediático mas muito pouca repercussão real. Se nuns casos a responsabilidade do governo é total (as viagens pagas pela Galp e a transferência do Infarmed), noutros, como o da Raríssima ou de Tancos, ela é nula ou residual. Muitos destes casos são, acima de tudo, um retrato do estado do país e do Estado com responsabilidades que vêm de longe mas que uma comunicação social decidiu concentrar nos protagonistas atuais. Nunca o conceito de responsabilidade política dos ministros tinha sido tão abrangente como nos dois últimos anos.

O balanço geral deste ano de governo tem sido o de que foi excelente na economia e péssimo na política. Em muitos anos, é a primeira vez que o emprego sobe, o rendimento sobre, as prestações sociais sobem, as exportações sobem, os impostos descem. Parece que isto não é política. Talvez seja por isso que há tanta gente a desinteressar-se dela.

A separação entre economia e política, sendo enganadora, é bastante interessante. Estando de um lado as condições materiais de vida das pessoas, incluindo o emprego e o rendimento, e do outro os fenómenos mediáticos, de que tratam os jornalistas, é a própria comunicação social que assume o divórcio entre a realidade com que lida e a vida concreta dos portugueses. Um divórcio que é relativamente fácil de medir. A péssima imprensa deste governo (talvez apenas ultrapassada pelo curto mandato de Santana Lopes) é mensalmente contrariada por sondagens consistentemente positivas para o PS e para toda a “geringonça”. Nunca a opinião publicada esteve tão insistentemente distante da opinião pública. E isso, mais do que falar do estado do país e do governo, diz imenso sobre o estado da imprensa.

Objetivamente, o governo teve nos incêndios um momento realmente difícil, com uma má gestão política que tornou mais fácil concentrar apenas em si responsabilidades. Este foi o momento negativo. Isto e o facto de ser incapaz de travar o processo de decadência dos serviços públicos iniciado há mais de uma década. Do outro lado temos o resto: em muitos anos, é a primeira vez que o emprego sobe, o rendimento sobe, as prestações sociais sobem, as exportações sobem, os impostos descem. Parece que isto não é, para muitos analistas, política. Talvez seja por isso que há tanta gente a desinteressar-se dela.