União Europeia: uma experiência globalista falhada

(Eamon McKinney in Strategic Culture, 22/09/2022, trad. Estátua de Sal)

Com o rápido aumento do custo de vida e a perspetiva de um inverno sem calor, a raiva na União Europeia contra os governos nacionais está rapidamente a chegar ao ponto de rutura.


A unidade europeia sempre foi um conceito questionável entre um grupo de diversos países que historicamente nunca se amaram e sempre desconfiaram uns dos outros. A força dessa unidade sempre questionável está agora a ser testada à medida que a UE enfrenta o seu maior desafio. O entusiasmo inicial entre os líderes da UE pelo conflito com a Rússia diminuiu consideravelmente nos últimos meses, à medida que a realidade da sua guerra ridícula e autodestrutiva contra a Rússia lhes continuou a sair pela culatra virando-se espetacularmente contra eles.

Com o longo e quente verão europeu agora para trás, os cidadãos da Europa estão a levantar-se massivamente em protesto contra os seus governos. Enquanto os líderes nacionais continuam a dar lições ao seu povo sobre os sacrifícios necessários que devem fazer para apoiar a Ucrânia, cada vez menos cidadãos concordam com eles. Com o rápido aumento do custo de vida e a perspetiva de um inverno sem calor, a raiva contra os governos nacionais está rapidamente chegando ao ponto de rutura. 

Alemanha, França, República Checa, Áustria e Itália testemunharam imensas manifestações furiosas que estão a causar sério pânico aos governos. Acresce que muitos estão a tentar retroceder procurando soluções fora das diretrizes da EU:  a Hungria e a Sérvia recusaram-se a seguir a linha dominante e garantiram os seus interesses energéticos recorrendo à Rússia.

A Alemanha foi o principal beneficiário económico da UE e usou a sua considerável influência para impor condições adversas aos estados mais fracos da UE, Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha em particular. Compreensivelmente, esses países estão agora relutantes em compartilhar as suas reservas de energia com um país que mostrou pouca compaixão por eles após a crise financeira de 2008. As indústrias alemãs beneficiaram dos baixos custos da energia russa durante anos, o que contribuiu muito para sua competitividade global. E estavam ansiosas pelo pipeline Nord Stream 2, até que os EUA intervieram e forçaram o seu cancelamento. Agora, os grandes consumidores de energia alemães estão a implorar ajuda ao governo para evitar a falência. O setor manufatureiro, outrora dominante e pujante, está a enfrentar a destruição completa, a menos que uma rápida reaproximação com a Rússia ocorra. Mas mesmo nesse evento improvável, o dano à economia alemã já está feito e qualquer recuperação pode levar anos.

Numa palestra amplamente publicitada, a ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock (que, sem surpresa, é outra graduada do Fórum Economico Mundial) disse que permanecerá com a Ucrânia independentemente do que os eleitores alemães pensem. Uma tradução mais honesta seria que ela está de acordo com a agenda dos Globalistas do FEM e que os interesses do povo alemão não são levados em consideração. Se ela se importasse com o povo ucraniano ou alemão, estaria a tentar parar a guerra, mas a paz e a preservação das vidas europeias não são os seus objetivos. Por mais repulsiva que seja a sua declaração, ela foi o eco exato dos sentimentos de todos os líderes da UE, e ela representa um dado eleitorado. Mas esse eleitorado não é o povo alemão, são os interesses globalistas.

Um exemplo de quão ridiculamente inepta e distante da realidade é a UE, decorre da exigência de impor um teto de preço para as importações de energia russas. Como é que acham que a Rússia responderá a isso exige que nós demos crédito ao pensamento lógico: a Rússia simplesmente interromperá todo o fornecimento de energia. Muitos, como o francês Macron, pediram um teto de preço para todas as importações de energia, não apenas as russas. Embora os EUA concordem com um teto no preço europeu para a energia russa, opõem-se fortemente a ele nas importações de energia dos EUA. A destruição do seu valioso amigo e aliado, a Europa, é boa para os EUA, desde que para lá flua sempre um dinheirinho…

Enquanto os cidadãos cada vez mais irritados exigem que os governos coloquem os interesses nacionais acima dos interesses da Ucrânia, eles estão, contudo, a ser ludibriados e a colocar mal o problema. Os interesses da Ucrânia nunca foram levados em consideração; o conflito sempre foi decorrente da obsessão dos EUA destruírem uma Rússia em ascensão. O povo da Ucrânia é apenas um dano colateral naquilo que é, essencialmente, apenas mais uma guerra de banqueiros na defesa dos interesses das potências financeiras globalistas. Como os europeus estão a começar a entender tardiamente, eles também estão a ser considerados como danos colaterais na promoção dessa agenda globalista. Nenhum dos líderes europeus tem soluções para a crise para a qual conduziram com tanto entusiasmo os seus países há apenas alguns meses. Chuveiros frios e racionamento de energia espartano não são as soluções que as pessoas querem ouvir para os problemas. Pregar que eles devem sacrificar o seu futuro pela Ucrânia funciona melhor nos meses quentes de verão do que no iminente inverno frio e muito frio da Europa. Os chavões dos líderes fantoches de Klaus Schwab não vão mais aplacar o povo europeu com fome e com frio. 

Um inverno brutal de descontentamento é inevitável para a Europa, à medida que as temperaturas caírem; o calor e a raiva aumentarão contra políticos que venderam os interesses dos seus países aos globalistas. Podemos esperar ver governos em queda em toda a Europa à medida que a raiva pública se tornar incontrolável. 

O pânico não está sendo sentido apenas nos círculos europeus; os EUA também estão profundamente preocupados com a força da unidade europeia, ou melhor, com a falta dela. Biden em mais de uma ocasião pediu aos europeus que permaneçam unidos na sua guerra por procuração contra a Rússia. Biden está preocupado que qualquer desvio de suas sanções contra a Rússia cause uma divisão no bloco. Um raro momento de clareza do senil presidente dos EUA. Os EUA estão a acompanhar de perto a agitação na Europa. Ao examinar os resultados dessa ação, pode-se notar que, enquanto as fraturas entre os líderes fantoches ocidentais estão de facto a aumentar, a unidade entre os povos das nações europeias está a fortalecer-se à volta de uma causa comum. O recente protesto dos agricultores na Holanda foi apoiado por agricultores de todas as nações europeias numa demonstração de verdadeira unidade contra a agenda globalista. Um movimento unificado transfronteiriço e antigovernamental não é a unidade europeia que Biden ou os belicistas da OTAN tinham em mente. Eles descobrirão que controlar políticos corruptos da Europa Globalista é mais fácil do que controlar milhões de cidadãos raivosos, frios e famintos.

Demonizar Putin como o autor de todos os problemas da Europa pode ter funcionado no início do conflito, mas já não funciona mais. Nenhuma das muitas manifestações testemunhadas foram dirigidas a Putin ou à Rússia; o alvo da ira é firmemente contra os governos que venderam a soberania de suas nações a uma elite globalista/americana. É provável que Putin seja mais popular entre os europeus do que os fantoches incompetentes que conduzem os seus próprios países para a lixeira. Embora Putin tenha interrompido o fluxo de energia para a Europa, ele ainda tem mais cartas para jogar. Urânio, fertilizantes e alimentos, entre muitos outros itens essenciais, ainda são fornecidos para a Europa, por enquanto. A destruição da Europa não é do interesse da Rússia, Putin não culpa o povo, ele apenas espera que o povo acorde e reconheça o seu verdadeiro inimigo.

Os próximos meses serão um período de imensa turbulência na Europa, um grande sofrimento é inevitável para milhões de pessoas sacrificadas pelos seus governos no altar da globalização. Quanto tempo a UE se pode manter unida é a grande questão, ainda que poucos ficariam tristes ao ver seu fim. O que muitos consideraram um empreendimento nobre, agora ficou claro ser apenas uma instituição antidemocrática que responde não ao povo, mas a uma oligarquia corporativa que não responde aos desígnios de nenhuma nação. 

Assim, da tragédia que é o conflito ucraniano, algo de bom ainda pode surgir. Se os países europeus puderem restaurar a sua soberania nacional saindo da UE amplamente desprezada, eles libertar-se-iam do controle globalista e seriam livres para prosseguir pacificamente os seus próprios interesses nacionais legítimos. 

E isto da forma que a maioria dos europeus optasse por ser empreendida. Movimentos fortes de “saída” existem em todos os países membros há anos, o movimento da Itália e da Holanda em particular teve grande apoio público. O “Brexit” do Reino Unido mostrou que tal pode ser feito apesar da imensa propaganda anti-Brexit, num referendo, o povo votou pela saída. À luz dos eventos mais recentes, um referendo sobre a saída da UE provavelmente teria sucesso na maioria dos países.

A UE é uma experiência globalista fracassada, nunca ofereceu mais do que a pretensão de uma verdadeira democracia, no topo não eleito, sempre foi uma tecnocracia de funcionários corporativos escolhidos a dedo. Destruiu as economias de todos os seus membros por incompetência e corrupção. Isso causou o caos e a agitação social nas comunidades ao forçar a imigração em massa em vários países. Interferiu nos assuntos internos dos estados membros muito além de quaisquer poderes que lhes foram concedidos. Ousou escrever novas leis que tomam a primazia sobre o sistema de justiça próprio das nações. Criou novas camadas absurdas de burocracia e regulamentações que tornam as empresas europeias amplamente não competitivas globalmente. Agora é dominada pelo WEF e pelos lacaios de Klaus Schwab, que estão a promover a Grande Reinicialização e consideram o conflito na Ucrânia como um passo para isso. Declarações como as proferidas por Annalena Baerbock revelando onde se encontram ancoradas as suas lealdades, deveriam escandalizar todos os europeus, mas deveriam também esclarecê-los.

Os acontecimentos deste inverno podem muito bem determinar o futuro da Europa para o próximo século. Quer seja uma Europa unida à Rússia como parceiro comercial pacífico, ou um buraco infernal Globalista do Terceiro Mundo, as ações dos povos europeus nos próximos meses decidirão qual o cenário que ir prevalecer.

Fonte aqui


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À espera da cartilha

(Hugo Dionísio, in Facebook, 22/09/2022)

Horas e horas após o discurso, ainda não era possível encontrar, em todo o espaço virtual ocidental, uma declaração, tomada de posição ou resolução relativamente à mobilização parcial russa. De que estavam à espera os presidentes e primeiros-ministros dos países europeus? Porque esperava Ursula?

Apenas o funcionário da Mackinsey Emmanuel Macron, sempre na sua ânsia de aparecer primeiro, como um qualquer líder da “federação” europeia, veio dizer algumas palavras sobre o assunto e que, mais ou menos diziam isto “Agora, todos temos de exercer a máxima pressão sobre Putin para acabar a Guerra”. Mas uma tomada de posição, de fundo, nem vê-la. A Rússia subia a fasquia e nenhuma reação de vislumbrava.

Havia que dar tempo à Casa Branca para que o seu staff estabelecesse aquela que iria ser a doutrina comunicacional aplicável à situação. Um dos primeiros a falar foi Stoltenberg, dizendo que “A Rússia não consegue ganhar uma guerra nuclear”! Esta declaração deu o mote para as reações a partir daí.

Ao invés de responderem à intenção e escalada militar e à anexação dos territórios do Donbass, com um “vamos lá negociar desta feita”, tudo para que a Ucrânia tentasse ainda retornar a MINSK I e II, mantendo a sua integridade territorial e impedindo a matança de jovens de um lado e outro, os poderes de facto situados em Washington determinaram o contrário: vamos continuar na escalada.

Esta declaração de Stoltenberg diz tudo sobre o plano mental desta gente. Perante a declaração de Putin em que acabou o seu discurso dizendo que faria “tudo para proteger a soberania e integridade territorial da Rússia”, adiantando também que “não estou a fazer bluff”, mas sem precisar de que “tudo” estava a falar, Stoltenberg decidiu entrar naquela lógica infantil em que “o meu coiso é maior que o teu”, “toma, toma…”. É certo que a Rússia não pode ganhar uma guerra nuclear. Mas não por qualquer incapacidade ou desvantagem original; mas porque ninguém ganharia uma guerra nuclear! Todos perderíamos. Mas o plano mental de muita desta gente é o de “e se experimentássemos”?

Polícia bom, polícia mau, lá veio o discurso de Biden na AG da ONU. Reescrito à pressa nas horas anteriores e sem a garantia de que o Sr. Presidente leria o teleponto com a necessária prontidão; Biden, depois de no dia anterior ter andado perdido num palco após um discurso para o Global Fund, não sabendo por onde havia entrado (e só existia uma entrada, faria se fossem várias Descrição: 😊), lá leu o texto e veio dizer que “não acreditava na chantagem nuclear” e que Putin a tal recorresse. Pois, também não acreditavam na intervenção na Ucrânia.

Estavam dadas as pistas para a tomadas de posição e para a forma como a comunicação social das grandes corporações haveria de tratar o problema da resposta à mobilização parcial anunciada. O sinal de Stoltenberg e Biden era simples: Vamos agitar o medo do nuclear.

Já não é uma contradição ver o único país que até hoje usou armas nucleares (Japão, Sérvia, Iraque e Afeganistão) de várias tipologias (convencionais e de urânio empobrecido), acusar outros de o poderem – quererem – fazer. A estratégia de “tu não podes fazer o mesmo que eu faço” já é poder demais conhecida e só apanha descalços os mais incautos, crentes e acérrimos fãs.

Dado o mote, eis que hoje as capas dos jornais da nossa praça, quase unanimemente coincidem na propagação do terror. A cartilha não se fez esperar. Toda a argumentação é estereotipada e risível, pelo menos para as pessoas mais informadas.

Vejamos algumas das tiradas mais comuns:

– Biden acusa a Rússia de violar a carta da ONU.

A sério? É mesmo para levar a sério? E ocupar 1/3 do território Sírio e Iraquiano, onde se situa no texto da carta? Ou a invasão do Iraque, Afeganistão e a instalação e laboratórios secretos militares? Ou as 2000 prisões secretas da CIA? E o que falar dos raptos de diplomatas de países sancionados em todo o mundo? Ou, do financiamento dos “rebeldes moderados” que afinal são terroristas da Al-Qaeda, usados para desestabilizar e fazer revoluções coloridas na ásia central? Vinda a acusação de quem vem, não deve ser para levar a séria. Deveria levar-se a sério, mas não se pode… Para tal teria de vir dos países oprimidos que se fizeram ouvir na mesma AG (Honduras, Venezuela, Cuba, Colômbia, Síria…), mas nenhuma das suas acusações, sérias, graves e profundamente revoltantes, fez parte das manchetes da NATOlândia.

– Milhares de russos protestam contra a mobilização parcial e centenas são detidos

Pois, é que os desgraçados dos Ucranianos nem isso podem fazer. Têm mesmo de fugir porque senão são imediatamente detidos. É o que está na sua lei desde o início, e eu conheço um dos que fugiu. Apanhados nas praias e nos bares noturnos, principalmente nas cidades Russófonas como Odessa e Kharkov, contra a sua vontade, qualquer homem – e agora mulher – que esteja na idade é, por lei, impedido de sair do país. Sendo natural que ninguém queira ver um filho na guerra, a mobilização russa abrange pouco mais do 1% do total mobilizável. Nada comparado com o que se passa na Ucrânia. Depois, as grandes manifestações, afinal até são bem pequenas para o que deveriam de ser, pois andam à volta de 1 a duas centenas de pessoas cada, com epicentro em S. Petersburgo, onde terá sio a maior e mesmo assim de escassas centenas. Em mobilização parcial, entra a lei marcial, não me admiram as detenções. É a atrocidade da guerra que tantos e tantos promovem e defendem a continuidade. Na Ucrânia não iam para identificação na polícia, eram amarrados a postes e ninguém diria nada. Não desculpa, mas estabelece as devidas diferenças e demonstra a hipocrisia reinante. A guerra é assim e é por isso que, por imperativo moral, teremos sempre de a evitar.

– Putin ressuscitou a estratégia de mobilização forçada de Estaline.

Esta é para rebentar de rir, se não fosse para chorar. Então numa guerra não há mobilização forçada? Em que guerra foi assim? Vão lá para Israel para verem como é se se negarem a prestar o serviço militar e a ir matar palestinianos como coelhos? Com a mobilização vem o alistamento obrigatório e negá-lo equivale a desertar. Quando são precisos soldados é assim que se faz em qualquer país. E tal só demonstra o carácter especial da operação militar até agora. Depois, comparar uma mobilização de 300 mil soldados, com competências muito específicas, muitos nem se destinando à linha da frente, mas a outro tipo de ações de retaguarda, com o que se passou na segunda guerra, em que foi preciso mobilizar milhões de soldados… Sob pena de não se conseguir derrotar o nazismo! Esta é mais uma tirada que justifica e consubstancia a verdade de quem diz que Estaline ainda é culpado, pelo ocidente e pelo capitalismo, de ter conseguido reunir a força, a estratégia e a mobilização necessárias para derrubar o nazismo e o fascismo. Não lhe perdoam, não perdoam isso ao povo Russo.

– O caminho do desastre continua

Entretanto, a EU lá segue com mais uma reunião para sanções. Como está a dar certo… De um lado temos Ursula a fazer um discurso sobre o sucesso das sanções na destruição da economia russa. Palmas enormes. Do outro, temos o Bloomberg e o Financial Times a dizerem que não apenas a economia russa resistiu, como até mostrou mais resistência do que o previsto pelo próprio Banco Central russo. Adiantam também que é a Europa que está a sofrer o maior dos impactos das sanções.

Logo, tem toda a lógica aplicar ainda mais sanções… claro, se o objetivo for derrotar os povos europeus, as suas condições de vida e o seu futuro, numa aplicação clara da estratégia do Grande Reset, criada pelo Fórum de Davos e Klaus Shwab.

E esta guerra contra a pobreza, contra a qual perdemos batalhas diárias, as manchetes pouco falam. Prosseguir o mesmo caminho que tem sido prosseguido, de hostilização e rejeição do diálogo, significa não apenas um suicídio, mas a nossa própria aniquilação.

E a atitude é tão xenófoba, que num canal que fala em “Revolução na Rússia”, já se está a ver financiado por quem, temos de assistir ao moderador a chamar ORCS aos russos, o que denuncia desde logo a sua origem. Já os bálticos denunciam em toda a linha o seu racismo, ao determinarem que “mesmo os russos desertores da mobilização não terão acesso aos vistos”. Eis que, com isto demonstram que o problema não é com Putin. É com a Rússia e os russos, o que demonstra que tipo de quadro mental foi ali plantado pelos mestres do universo.

Eu perceberia as quezílias históricas, não percebo a falta de solidariedade, de quem se diz democrata e tolerante, para com quem foge à guerra. Aliás, quem, no seu entender, fugindo deixa de engrossar as fileiras do inimigo. É muito esclarecedor, este comportamento.

E eis que, nesta salada toda de palavras repercutidas para a generalidade dos países da NATO a partir de um qualquer algoritmo, apenas se aproveita uma coisa: Vamos continuar a sofrer gravemente os danos provocados por uma atitude tão irresponsável como propositada.

E aí vêm mais sanções para rebentar com o que falta das nossas economias…

Mesmo que tenham razão e a Rússia esteja em ebulição como diz o NYtimes, o que não confere com a informação que tenho, em que é que isso me melhoraria a vida? Em nada!

As notícias de lá, apenas nos distraem dos problemas de cá!

Já chega de Cartilha, venha o pensamento livre!

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Os protestos alemães já começaram

(The Socialist Correspondent, in Resistir, 21/09/2022)

O governo alemão criou um pacote de 65 mil milhões de euros para compensar a sua crise de energia e de custo de vida. Mas isso não será suficiente para salvar a Alemanha da recessão. De acordo com um analista do ING Bank os padrões de vida já estão caindo e o “pacote de socorro” não vai parar isso.

97,5% dos alemães já reduziram o seu consumo de energia – tomando banhos mais curtos e frios, lavando pratos e mãos em água fria e 40% citando o aumento dos custos como sua principal preocupação, de acordo com The Local (2/setembro). Robert Habeck, ministro da Economia da Alemanha (Verdes), supervisiona os aumentos de quatro dígitos das faturas de energia este ano – além do aumento dos preços dos alimentos e de uma sobretaxa de 2,4 cêntimos por quilowatt-hora imposta no mês passado.

Na tentativa de desmotivar as manifestações anti-sanções e os protestos pelo aumento de preços que já começaram, o governo procede a um pagamento único de 300 € aos trabalhadores e pensionistas, enquanto os estudantes receberão 200 € (Bloomberg, 5/setembro). Também serão introduzidos tetos de preços de energia. Mas o “pacote de ajuda” pouco fará para evitar uma enorme queda nos padrões de vida da maioria dos alemães. Como disse a deputada do Die Linke, Sahra Wagenknecht, “o pacote proposto não aliviará a população sequer de uma fração dos custos adicionais.” (t-online, 4/setembro).

A indústria

Em relação à indústria, Habeck diz ser “alarmante” que empresas alemãs sejam forçadas a parar a produção para lidar com o aumento dos preços da energia (FT, 31/agosto). “Isso não é uma boa notícia”, diz ele, “porque pode significar que as indústrias em questão não estão a ser reestruturadas, mas sofrem uma rutura, uma rutura estrutural que ocorre sob uma enorme pressão”. Um exemplo é a gigante siderúrgica ArcelorMittal, que anunciou que estava a parar a produção em duas das suas fábricas alemãs. (Al Jazeera, 4/setembro)

O consumo de gás da indústria alemã caiu 21% em julho em relação a um ano atrás, sinalizando “uma queda drástica na produção”, segundo Siegfried Russwurm, chefe do principal lóbi empresarial da Alemanha, o BDI. Ele classificou esta situação como “a expressão de um problema maciço”.

O modelo de negócio de grande parte da indústria transformadora da Alemanha foi baseado na abundância de gás barato da Rússia, mas que “não voltará tão cedo, se voltar”, admitiu Habeck.

Um inquérito recente mostrou que a confiança empresarial alemã caiu pelo terceiro mês consecutivo. O grupo de reflexão que conduziu a pesquisa afirmou:   “A confiança na competência económica do governo está a desaparecer e as pequenas e médias empresas, em particular, sentem que foram deixadas sozinhas pelas autoridades”.

Enquanto isso, muitas das políticas verdes que recentemente ajudaram a levar [o partido] Verdes ao poder, ao lado do SPD e do FDP, foram descartadas. A Alemanha agora importa gás de fraturação (fraking hidráulico) dos Estados Unidos, o qual é muito mais poluente e três vezes mais caro que o gás natural russo. E mesmo isto não vai compensar a lacuna de abastecimento, dada a falta de navios metaneiros para o transporte de gás natural liquefeito (GNL) e de terminais em terra.

Para compensar a lacuna energética, a Alemanha está a aumentar a sua produção de eletricidade a carvão, de acordo com a Rystad Energy, uma empresa norueguesa de pesquisa energética. Embora muitas centrais a carvão tenham sido fechadas nos últimos anos como parte da descarbonização, a Alemanha ainda dispõe de termoelétricas a carvão que não foram completamente desmontadas. A gigante alemã de serviços públicos Uniper, por exemplo, anunciou recentemente que ligaria temporariamente uma central a carvão para produzir eletricidade provavelmente até o final de abril de 2023. A Alemanha já voltou ao carvão para sua produção de eletricidade: 20,7% de suas necessidades agora vêm da linhita e 10,4% da hulha.

Subserviência à linha dos EUA

A solução óbvia – levantar as sanções contra a Rússia e abrir o gasoduto Nord Stream 2 da Rússia, fechado sob ordens dos EUA – resolveria o problema energético da Alemanha.

Mas a guerra e as sanções contra Putin vêm em primeiro lugar, antes dos esforços para limitar a crise económica auto-infligida e proteger o clima. Sublinhando essa política, o chanceler Olaf Scholz anunciou recentemente que a Alemanha entregaria ainda mais armas à Ucrânia, no valor de mais de 500 milhões de euros (Reuters, 23/agosto).

O ex-presidente federal Joachim Gauck disse em fevereiro que o povo alemão deveria “gelar pela liberdade” neste inverno e “suportar… uma baixa geral do nosso estilo de vida”. Macron disse algo semelhante aos franceses, quando anunciou o “fim da abundância”.

Annalena Baerbock, ministra das Relações Exteriores (uma Verde muito belicista), rejeitou categoricamente as negociações com a Rússia ou o fim das sanções. Em fevereiro, ela pediu explicitamente ao Ocidente para “arruinar a Rússia” (25/fevereiro). Durante sua recente visita a Kiev, ela disse que a Alemanha “continuará apoiando a Ucrânia pelo tempo necessário com entregas de armas” (AFP, 10/setembro). Ela assume que isso tem um preço: o empobrecimento do povo alemão. Mas mesmo assim pretende avançar. “Pouco importa o que meus eleitores pensam”, disse ela recentemente num painel público, “Quero responder às expectativas do povo ucraniano” (31/agosto).

No entanto, quando as consequências mais graves das sanções se fizerem sentir neste inverno, as sanções e o armamento da Ucrânia sofrerão uma pressão crescente.

Resistência pública

O estado de espírito do público já está mudando. Uma importante sondagem de opinião junto de 1 011 cidadãos revelou que 77% dos alemães acreditam que o Ocidente deve iniciar negociações para acabar com a guerra na Ucrânia. Os Verdes, em particular, obtêm maus resultados nas sondagens em matéria de economia. Apenas 7% acham que são competentes.

Cada vez menos alemães acreditam que a Rússia é responsável pelo aumento do preço do gás e que o envio de mais armas para a Ucrânia ou sanções contínuas contra a Rússia trarão a paz.

Manifestantes na Rheinmetall.

Manifestantes que desfilaram em Kassel recentemente exigiram que a empresa alemã de armas Rheinmetall parasse de produzir armas para a Ucrânia. Uma dirigente da organização anti-guerra Disarm Rheinmetall, Nina Kemper, disse: “Não se alcança a paz com a guerra” (Deutsche Welle, 2/setembro).

Cerca de 2 000 manifestantes no porto báltico de Lubmin – onde o gasoduto submarino Nord Stream 2 da Rússia chega à terra na Alemanha – pediram a proibição das exportações de armas para a Ucrânia e a renúncia do governo federal (Redaktions Netzwerk Deutschland, 4/setembro). As faixas diziam:  “Nord Stream 2 em vez de gás de fraturação hidráulica” e “Vermelho-amarelo-verde para a frente leste!”, referindo-se às cores dos partidos do governo de coligação SPD, FDP e Verdes.

Enquanto isso, manifestações em Berlim, Colónia (4/setembro), Leipzig e Magdeburg (Politico, 5/setembro) exigiram o comissionamento imediato do Nord Stream 2 e o fim das entregas de armas para a Ucrânia.

Cerca de 2 000 “artesãos pela paz” participaram num comício na semana anterior em Dessau-Roßlau, Saxônia-Anhalt. “Esta foi uma das maiores manifestações em Dessau nos últimos anos”, segundo o Mitteldeutsche Zeitung (2/setembro). A organização “Artesãos pela Paz” planeia expandir os seus eventos em todo o país (Executive Intelligence Review, 29/agosto).

Entre outras manifestações, 800 padarias apagaram as suas luzes por um dia para protestar contra o aumento das contas de energia. A Guilda alemã de padeiros disse: “Hoje é a luz, amanhã será o forno?” (Business Insider Africa, 9/setembro).

Egon Krenz, o último líder do Partido da Unidade Socialista, no poder na Alemanha do Leste, disse ao Morning Star (3/setembro): “Cada entrega de armas é uma licença para matar e prolongar a guerra”. Sevim Dagdelen, deputado do Partido Die Linke, criticou a insistência de Baerbock sobre “A Ucrânia primeiro, os cidadãos não importam” e convocou novos protestos “contra um inverno frio, contra a fome, contra gelar e contra a guerra económica contra a Rússia”.

Sahra Wagenknecht (Die Linke) disse: “A questão é que os objetivos são irrealistas. A Rússia é uma potência nuclear e, se se insistir em expulsar os russos da Crimeia, então esta terrível guerra continuará para sempre. Os russos têm a sua frota do Mar Negro na Crimeia há décadas e não a abandonarão. Vocês querem sacrificar dezenas de milhares, talvez centenas de milhares de vidas por um objetivo totalmente irrealista? Devemos decidir até que ponto apoiamos a liderança ucraniana. A Europa não está interessada numa nova escalada da guerra; temos que explicar isso a Zelensky”. (t-online, 4/setembro).

Os protestos alemães foram acompanhados por grandes manifestações pró-paz e anti-NATO em Paris e Praga (4 a 5/setembro) – o início de uma aguardada resistência europeia ao belicismo predominante da UE e da NATO.

A Alemanha prostra-se diante dos Estados Unidos

Até o início da operação militar russa na Ucrânia, Alemanha e França eram oficialmente a favor de uma solução diplomática para a crise. O então chefe da marinha alemã Kay-Achim Heino Schonbach disse em janeiro, antes de renunciar, que Putin merecia “respeito em igualdade de condições”, expressando as opiniões de grande parte das personalidades e instituições com influência, incluindo o ex-chefe do exército alemão Harald Kujat.

Mesmo Annalena Baerbock concordou na época que a política alemã era nunca enviar armas militares para zonas de conflito (The Guardian, 17/janeiro/2022). Não que a Alemanha ou a França tenham honrado os dois tratados de cessar-fogo de Minsk que assinaram com Moscovo e Kiev, mas pelo menos no papel rejeitaram a guerra.

Enquanto o procurador da NATO na Ucrânia intensificava o bombardeamento à população russa do Donbass, no início de fevereiro, os EUA exerceram enorme pressão sobre a Alemanha para cortar laços com a Rússia. Biden disse ao chanceler Scholz sem rodeios que os EUA fechariam o Nord Stream 2:   “Vamos acabar com isso… Garanto-lhe que poderemos fazê-lo”, disse ele. Essa ameaça de interferência marcou um ponto de viragem.

Os Estados Unidos continuam a ter 40 mil soldados em solo alemão (Voltairenet, 16/fevereiro) – mais do que mantêm em qualquer outro país, exceto no Japão, a outra potência derrotada na Segunda Guerra Mundial – com o seu quartel-general de comando europeu em Estugarda. A Alemanha sentiu claramente que não tinha outra escolha a não ser sacrificar a sua parceria vital com a Rússia.

Por agora, a ambiguidade estratégica da Alemanha entre o Oriente e o Ocidente foi rompida. Isso representa talvez a maior vitória dos Estados Unidos no fomento da guerra: estreitar a unidade do bloco da NATO e enfraquecer o seu rival alemão, em preparação para a sua maior guerra com a China.

O Correspondente Socialista enfatizou no início deste ano (Comentários TSC em 21/fevereiro) que a única maneira de os EUA conseguirem isso era “provocar a Rússia numa guerra contra a Ucrânia, e depois pretender que a NATO se deve unir face à Rússia, por agressão, argumentando que a necessidade militar deve prevalecer sobre os interesses económicos da Alemanha”.

Como explicou o Partido Comunista Alemão:   “O capital monopolista alemão tradicionalmente vê o capital americano como um rival. Mas, por enquanto, a adesão total à posição dos EUA sobre a guerra na Ucrânia – nada de paz negociada, armas para Kiev, dissociação da economia russa qualquer que seja o custo económico – é o consenso oficial por toda a política “oficial” alemã e a linha seguida em público por grandes empresas e também dirigentes sindicais” (Morning Star, 31/agosto).

Embora a Alemanha por agora se tenha curvado perante o poder dos EUA, ela não será contida para sempre. O novo orçamento maciço de 100 mil milhões de euros em armas do regime – elaborado sob as ordens dos EUA para garantir que a Alemanha se envolva plenamente nas metas de guerra dos EUA – criará um monstro armado que até os EUA acabarão por ter dificuldade em controlar.

A Alemanha já é o quinto maior exportador de armas do mundo, o imperialismo alemão tem um histórico de rápida expansão militar que leva a guerras cataclísmicas. No entanto, os EUA estão desesperados o suficiente para arriscar a ascensão do militarismo alemão, a fim de derrotar a Rússia e depois a China.

Enquanto isso, na Alemanha, alguns políticos proeminentes do partido Die Linke querem que a esquerda fique longe do movimento de protesto, temendo o envolvimento da extrema direita. Mas só uma campanha liderada pela esquerda pode exercer pressão para restaurar os laços com a Rússia e impedir a expansão militar alemã.

12/Setembro/2022

[*] Publicação britânica.

O original encontra-se em www.facebook.com/thesocialistcorrespondent/…


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