Jeffrey Sachs – Carta aberta ao chanceler Friedrich Merz

(Jeffrey Sachs in Braveneweurope.com, 20/12/2025, Tradução da Estátua)


(Para os ignorantes e para os propagandistas que resumem a sua análise da guerra na Ucrânia ao chavão “há um invasor e um invadido” – ignorando todos os antecentes históricos que levaram ao conflito -, este texto é uma lição magistral. Isto, se ainda conseguirem ler com dois neurónios desenferrojados, depois de tanta homilia de embotamento mental, que uns ouviram e outros oficiaram.

Estátua de Sal, 22/12/2025)


Chanceler Merz,

O senhor tem falado repetidamente sobre a responsabilidade da Alemanha pela segurança europeia. Essa responsabilidade não pode ser cumprida por meio de slogans, memória seletiva ou a normalização constante de discursos belicistas. As garantias de segurança não são instrumentos unilaterais. Elas funcionam em ambas as direções. Este não é um argumento russo, nem americano; é um princípio fundamental da segurança europeia, explicitamente incorporado na Acta Final de Helsinque, na estrutura da OSCE e em décadas de diplomacia do pós-guerra.

A Alemanha tem o dever de abordar este momento com seriedade e honestidade histórica. Nesse aspecto, a retórica e as escolhas políticas recentes deixam muito a desejar.

Desde 1990, as principais preocupações de segurança da Rússia têm sido repetidamente ignoradas, diluídas ou diretamente violadas — frequentemente com a participação ativa ou aquiescência da Alemanha. Esse histórico não pode ser apagado se quisermos que a guerra na Ucrânia termine, e não pode ser ignorado se a Europa quiser evitar um estado permanente de confronto.

No final da Guerra Fria, a Alemanha deu aos líderes soviéticos e, posteriormente, aos russos, repetidas e explícitas garantias de que a NATO não se expandiria para o leste. Essas garantias foram dadas no contexto da reunificação alemã. A Alemanha beneficiou enormemente delas. A rápida unificação do seu país — dentro da NATO — não teria ocorrido sem o consentimento soviético, fundamentado nesses compromissos. Fingir posteriormente que essas garantias nunca importaram, ou que foram meras observações casuais, não é realismo. É revisionismo histórico.

Em 1999, a Alemanha participou do bombardeamento da Sérvia pela NATO, a primeira grande guerra conduzida pela NATO sem autorização do Conselho de Segurança da ONU. Essa não foi uma ação defensiva. Foi uma intervenção sem precedentes que alterou fundamentalmente a ordem de segurança pós-Guerra Fria. Para a Rússia, a Sérvia não era uma abstração. A mensagem era inequívoca: a NATO usaria a força para lá do seu território, sem a aprovação da ONU e sem levar em consideração as objeções russas.

Em 2002, os Estados Unidos retiraram-se unilateralmente do Tratado de Mísseis Antibalísticos, um pilar da estabilidade estratégica durante três décadas. A Alemanha não apresentou objeções sérias. Contudo, a erosão da arquitetura de controlo de armamentos não ocorreu isoladamente. Os sistemas de defesa antimísseis implantados mais perto das fronteiras da Rússia foram corretamente percebidos pela Rússia como desestabilizadores. Rejeitar essas percepções como paranoia foi propaganda política, não diplomacia sensata.

Em 2008, a Alemanha reconheceu a independência do Kosovo, apesar dos alertas explícitos de que isso minaria o princípio da integridade territorial e criaria um precedente com repercussões noutros lugares. Mais uma vez, as objeções da Rússia foram descartadas como má-fé, em vez de serem consideradas como preocupações estratégicas sérias.

A pressão constante para expandir a NATO à Ucrânia e à Geórgia — declarada formalmente na Cimeira de Bucareste de 2008 — ultrapassou os limites mais óbvios, apesar das objeções veementes, claras, consistentes e repetidas levantadas por Moscovo durante anos. Quando uma grande potência identifica um interesse fundamental de segurança e o reitera por décadas, ignorá-lo não é diplomacia. É escalada deliberada.

O papel da Alemanha na Ucrânia desde 2014 é particularmente preocupante. Berlim, juntamente com Paris e Varsóvia, intermediou o acordo de 21 de fevereiro de 2014 entre o presidente Yanukovych e a oposição — um acordo que visava cessar a violência e preservar a ordem constitucional. Poucas horas depois, esse acordo ruiu. Seguiu-se um golpe violento. Um novo governo emergiu por meios extra-constitucionais. A Alemanha reconheceu e apoiou o novo regime imediatamente. O acordo que a Alemanha havia garantido foi abandonado sem consequências.

O acordo Minsk II de 2015 deveria ser a solução corretiva — uma estrutura negociada para pôr fim à guerra no leste da Ucrânia. A Alemanha, mais uma vez, atuou como garante. No entanto, durante sete anos, Minsk II não foi implementado pela Ucrânia. Kiev rejeitou abertamente as suas disposições políticas. A Alemanha não as fez cumprir. Ex-líderes alemães, e de outros países europeus, reconheceram posteriormente que Minsk foi tratado menos como um plano de paz do que como uma medida paliativa. Essa admissão, por si só, deveria forçar uma reflexão.

Nesse contexto, os apelos por mais armas, uma retórica cada vez mais agressiva e uma “determinação” cada vez maior soam vazios. Eles pedem que a Europa esqueça o passado recente para justificar um futuro de confronto permanente.

Basta de propaganda. Basta de infantilização moral do público. Os europeus são perfeitamente capazes de compreender que os dilemas de segurança são reais, que as ações da NATO têm consequências e que a paz não se conquista fingindo que as preocupações de segurança da Rússia não existem.

A segurança europeia é indivisível. Esse princípio significa que nenhum país pode fortalecer a sua segurança à custa da segurança de outro sem provocar instabilidade. Significa também que diplomacia não é apaziguamento e que honestidade histórica não é traição.

A Alemanha outrora compreendeu isso. A Ostpolitik não era sinal de fraqueza, mas sim de maturidade estratégica. Reconhecia que a estabilidade da Europa dependia do engajamento, do controle de armamentos, dos laços económicos e do respeito pelos legítimos interesses de segurança da Rússia.

Hoje, a Alemanha precisa dessa maturidade novamente. Pare de falar como se a guerra fosse inevitável ou virtuosa. Pare de terceirizar o pensamento estratégico para meros discursos de alianças. Comece a empenhar-se seriamente na diplomacia — não como um exercício de relações públicas, mas como um esforço genuíno para reconstruir uma arquitetura de segurança europeia que inclua, em vez de excluir, a Rússia.

Uma arquitetura de segurança europeia renovada deve começar com clareza e moderação. Em primeiro lugar, exige o fim inequívoco à expansão da NATO para leste — para a Ucrânia, para a Geórgia e para qualquer outro Estado ao longo das fronteiras da Rússia.

A expansão da NATO não era uma característica inevitável da ordem pós-Guerra Fria; foi uma escolha política, tomada em violação das promessas solenes feitas em 1990 e levada adiante apesar dos repetidos alertas de que desestabilizaria a Europa.

A segurança na Ucrânia não virá do envio de tropas alemãs, francesas ou de outros países europeus para a frente de batalha, o que apenas aprofundaria a divisão e prolongaria a guerra. Ela virá da neutralidade, respaldada por garantias internacionais credíveis. O registro histórico é inequívoco: nem a União Soviética nem a Federação Russa violaram a soberania de Estados neutros na ordem pós-guerra — nem a Finlândia, a Áustria, a Suécia, a Suíça ou outros. A neutralidade funcionou porque atendia às legítimas preocupações de segurança de todos os lados. Não há razão séria para fingir que ela não possa funcionar novamente.

Em segundo lugar, a estabilidade exige desmilitarização e reciprocidade. As forças russas devem ser mantidas bem afastadas das fronteiras da NATO, e as forças da NATO — incluindo os sistemas de mísseis — devem ser mantidas bem afastadas das fronteiras da Rússia. A segurança é indivisível, não unilateral. As regiões fronteiriças devem ser desmilitarizadas por meio de acordos verificáveis, e não saturadas com mais e mais armas.

As sanções devem ser suspensas como parte de um acordo negociado; elas não conseguiram trazer a paz e causaram graves danos à própria economia europeia.

A Alemanha, em particular, deve rejeitar o confisco irresponsável de ativos estatais russos — uma violação flagrante do direito internacional que mina a confiança no sistema financeiro global. Revitalizar a indústria alemã por meio de um comércio lícito e negociado com a Rússia não é capitulação. É realismo económico. A Europa não deve destruir sua própria base produtiva em nome de uma postura moral.

Por fim, a Europa deve retornar aos fundamentos institucionais de sua própria segurança. A OSCE — e não a NATO — deve voltar a servir como fórum central para a segurança europeia, a construção da confiança mútua e o controlo de armamentos. Autonomia estratégica para a Europa significa precisamente isso: uma ordem de segurança europeia moldada pelos interesses europeus, e não uma subordinação permanente ao expansionismo da NATO.

A França poderia, com razão, estender a sua dissuasão nuclear como um guarda-chuva de segurança europeu, mas apenas em uma postura estritamente defensiva, sem sistemas implantados na vanguarda que representem uma ameaça para a Rússia.

A Europa deve pressionar urgentemente pelo retorno ao Tratado INF e por negociações abrangentes sobre o controlo de armas nucleares estratégicas envolvendo os Estados Unidos e a Rússia — e, com o tempo, a China.

Acima de tudo, Chanceler Merz, aprenda com a história — e seja honesto a respeito dela. Sem honestidade, não pode haver confiança. Sem confiança, não pode haver segurança. E sem diplomacia, a Europa corre o risco de repetir as catástrofes com as quais afirma ter aprendido.

A história julgará o que a Alemanha escolherá lembrar — e o que escolherá esquecer. Desta vez, que a Alemanha escolha a diplomacia e a paz, e cumpra sua palavra.

Respeitosamente.

Jeffrey D. Sachs, Professor Universitário da Universidade de Columbia

Fonte aqui


Poderá Trump salvar a América de si própria?

(Alastair Crooke, in Strategic Culture Foundation, 10/01/2025, Trad. Filipe Alexandre)

Trump pode simplesmente escalar a escada metafísica para dizer simplesmente que só ele tem a visão para salvar a América da Terceira Guerra Mundial.


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Na semana passada, o Primeiro-Ministro russo Lavrov rejeitou as propostas de paz da Equipa Trump para a Ucrânia, considerando-as insatisfatórias. Essencialmente, o ponto de vista russo é que os apelos a um conflito congelado falham precisamente o objectivo: Do ponto de vista russo, tais ideias – conflitos congelados, cessar-fogo e forças de manutenção da paz – não começam a qualificar-se como o tipo de acordo base em tratados, “Big Picture”, que os russos têm vindo a defender desde 2021.

Sem um fim sustentável e permanente para o conflito, os russos preferirão confiar num resultado de campo de batalha – mesmo com o elevado risco da sua recusa levar a uma escalada contínua – mesmo a nuclear – do jogo de cintura dos EUA.

A questão é antes a seguinte: Uma paz duradoura entre os EUA e a Rússia – será sequer possível?

A morte do antigo Presidente Jimmy Carter recorda-nos a turbulenta “revolução” política dos anos 70, que ficou sintetizada nos escritos de Zbig Brzezinski, Conselheiro de Segurança Nacional de Carter – uma revolução que atormenta as relações entre os EUA e a Rússia desde então até hoje.

A era Carter assistiu a um importante ponto de inflexão com a invenção por Brzezinski do conflito identitário armado e a sua defesa das mesmas ferramentas identitárias – aplicadas de forma mais alargada – a fim de colocar as sociedades ocidentais sob o controlo de uma elite tecnocrática “[praticando] a vigilância contínua de todos os cidadãos … [juntamente com a manipulação pela elite] do comportamento e do funcionamento intelectual de todas as pessoas …”.

Os livros seminais de Brzezinski defendiam, em suma, uma esfera identitária cosmopolita gerida, que substituiria a cultura comunal – ou seja, os valores nacionais. É na reacção hostil a esta visão tecnocrática de “controlo” que podemos enraizar os problemas que hoje se manifestam por todo o lado, em todas as frentes globais.

Dito de forma simples, os acontecimentos actuais são, em muitos aspectos, uma repetição da turbulenta década de 1970. A marcha actual em direção a normas antidemocráticas começou com o seminal The Crisis of Democracy (1975) da Comissão Trilateral – o precursor do WEF (“Davos”) e de Bilderberg – com, (nas palavras de Brzezinski), os bancos internacionais e as corporações multinacionais a serem coroados como a principal força criativa no lugar do “Estado-nação como unidade fundamental da vida organizada do homem”.

A percepção preconceituosa de Brzezinski sobre a Rússia não é nova. Pelo contrário, remonta ao Hudson Institute, nos anos 70, e ao senador Henry “Scoop” Jackson, duas vezes candidato à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 1972 e 1976. Jackson (de ascendência norueguesa) odiava simplesmente o comunismo; odiava os russos, e tinha tido muito apoio dentro do Partido Democrata.

Brzezinski, de origem polaca, partilhava a russofobia de Scoop Jackson. Persuadiu o Presidente Carter (em 1979) a inserir no Afeganistão uma cultura identitária radicalizada e jihadista para contrariar a cultura socialista secular de Cabul, que Moscovo apoiava. O resultado da guerra do Afeganistão foi posteriormente retratado como uma enorme vitória americana (que não foi).

No entanto – e este é o ponto – a reivindicação de vitória sustentou a noção de que os insurgentes islâmicos eram os “solventes” ideais em projectos de mudança de regime (e ainda o são, como testemunhamos hoje na Síria).

Mas Brzezinski tinha ainda mais conselhos para dar ao Presidente Carter. No seu Grande Tabuleiro de Xadrez de 1997, Brzezinski argumentou que os Estados Unidos e Kiev poderiam potencialmente alavancar complexidades culturais e linguísticas antigas (como foi feito no Afeganistão) para formar a dobradiça em torno da qual o poder do Heartland poderia ser dissolvido, negando à Rússia o controlo da Ucrânia:

“Na ausência da Ucrânia, a Rússia nunca se tornaria a potência do Heartland; mas com a Ucrânia, a Rússia pode e seria [uma potência do Heartland]”, insistiu. A Rússia precisava de ser enredada num atoleiro de identidade cultural ucraniana semelhante, defendia.

Porque é que esta decisão política foi tão prejudicial para as perspectivas de uma paz definitiva entre os EUA e a Rússia? Porque Kiev, incentivada pela CIA, promoveu a afirmação identitária totalmente falsa de que “a Europa acaba na Ucrânia” – e que, para além dela, estão “os eslavos”.

Só esta manipulação permitiu que Kiev se transformasse num ícone da guerra cultural-identitária total contra a Rússia, apesar do facto de a língua ucraniana (corretamente conhecida como o Ruteno) não ser uma língua germânica. Também não se encontra qualquer ADN viking (germânico) entre os ucranianos ocidentais actuais.

No seu desejo de apoiar Kiev e de agradar a Biden, a UE saltou para este revisionismo estratégico ucraniano: a “Ucrânia” entendida como “valores europeus” na defesa contra os valores “russos” (asiáticos).  Era um pólo, embora falso, em torno do qual a unidade europeia poderia ser forjada numa altura em que a realidade era a dissipação da unidade da UE.

Então, será possível uma “paz sustentável” com a Rússia? Se ela for pensada em termos de tentar manter uma Ucrânia sem força como um istmo belicoso da “Europa e dos seus valores” contra a “esfera eslava regressiva”, então a paz não é possível. Porque a sua premissa subjacente seria totalmente falsa e conduziria seguramente a um novo conflito no futuro. Moscovo rejeitaria quase de certeza um tal acordo.

No entanto, há uma ansiedade crescente entre o público americano de que a guerra na Ucrânia parece estar presa a uma escalada eterna, com receios públicos palpáveis de que Biden e os “falcões” no Congresso estejam a levar os EUA a um “holocausto nuclear”.

Será que nós – a Humanidade – vamos continuar a oscilar à beira da aniquilação se um “acordo” de Trump – estreitamente circunscrito à Ucrânia – for recusado em Moscovo? A urgência de travar o deslizamento para a escalada é clara; no entanto, o espaço de manobra política diminui continuamente, uma vez que a compulsão dos falcões de Washington-Bruxelas para lançar um ataque fatal contra a Rússia não está esgotada.

Mas visto da perspectiva da equipa Trump, a tarefa de negociar com Putin é tudo menos simples. O público ocidental simplesmente nunca foi psicologicamente condicionado a esperar a possibilidade de uma Rússia mais forte emergir. Pelo contrário, têm suportado “especialistas” ocidentais a escarnecer dos militares russos; a denegrir a liderança russa como incompetente; e a sua liderança a ser apresentada nas suas televisões como puramente má.

Tendo em conta a contribuição seminal de Brzezinski sobre a democracia e a sua posterior “concentração” numa “esfera identitária” gerida por uma elite tecnológica, não é difícil de notar como um país tão fragmentado como a América se encontra numa situação de desvantagem à medida que o mundo desliza para uma multipolaridade de base cultural.

É claro, não é exactamente verdade afirmar que a América não tem uma cultura comunitária, dada a grande diversidade de culturas imigrantes nos EUA. Afinal, foi esse o cerne da recente eleição presidencial – e das eleições em muitas outras nações.

A noção de que os enviados de Trump estiveram inicialmente em Moscovo, e partiram de mãos vazias, Trump entrará de rompante para concluir um acordo sobre a Ucrânia, não reflecte o que Moscovo tem vindo a salientar incessantemente. O que é necessário é um acordo baseado num Tratado “Big Picture” que estabeleça a arquitectura de segurança e as fronteiras entre os interesses de segurança do Heartland e do Rimland.

Mas será que um tal acordo será visto por muitos americanos como uma “fraqueza”; como uma concessão da “liderança” e da “grandeza” dos EUA? Claro que será visto dessa forma – porque Trump estaria efetivamente a selar a derrota da América e a reposicionar os EUA como um Estado entre iguais num novo Concerto de Poderes – ou seja, num Mundo Multipolar.

É um grande “pedido”. Conseguirá Trump fazê-lo – engolir o orgulho americano? Uma forma viável de avançar seria voltar ao nó górdio original e desatá-lo: isto é, desatar o nó de não haver um tratado escrito pós-Segunda Guerra Mundial que delimite o movimento sempre em frente da NATO e, ao fazê-lo, acabar com a pretensão de que a deslocação da NATO para onde quer que seja que ela escolha não é da conta de ninguém a não ser dela própria.

Infelizmente, a outra forma possível de “equilibrar” a aparência de derrota americana e da NATO em relação à Ucrânia, pode ser vista pelos conselheiros falconados de Trump como sendo o pulverizar do Irão – como um sinal da “virilidade” americana.

As negociações, em última instância, têm a ver com interesses e com a capacidade de resolver o enigma de duas partes perceberem como “a outra” se vê a si própria – como fraqueza ou como força. Trump, se for apanhado num impasse literal sobre a Ucrânia, pode simplesmente escalar a escada metafísica para dizer simplesmente que só ele tem a visão para salvar a América da 3ª Guerra Mundial. Para salvar a América de si própria.

Fonte aqui.


A decadência do Ocidente e o caos como arma

(Major-General Raúl Cunha in Facebook, 04-01-2025)


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Está mais do que visto que a possibilidade de passar a vigorar no mundo um sistema multipolar não se enquadra no processo global de dominação e subordinação construído por Washington, baseado no dólar e no despotismo dos EUA.

As elites euro-atlânticas já certamente o perceberam mas recusam-se, obstinadamente, a aceitar a perda do seu antigo poder. Estão a tentar convencer o resto do mundo de que a única alternativa ao poder ocidental é o caos. E, para o fazer, estão a desestabilizar deliberadamente a situação em regiões-chave do planeta. Ou seja, estão literalmente a agir como líderes de gangues criminosos, na lógica de “morres tu hoje, para que eu só morra amanhã”.

Esta tendência para a destruição é especialmente percetível nos estados que resultaram da fragmentação da União Soviética e na Grande Eurásia como um todo. Onde quer que o Ocidente procure estender os seus tentáculos, assiste-se a divisões e desestabilização, sendo o exemplo mais marcante o da Ucrânia. A partir do momento em que se deixou tentar pela assim chamada “integração europeia”, a Ucrânia transformou-se no principal instrumento anti russo do Ocidente e o resultado é que hoje a Ucrânia é um Estado falhado, ou seja, um Estado incapaz de manter a sua existência como sendo uma entidade política e economicamente viável.

Agora a Moldávia está a seguir o mesmo caminho. A política divisionista e vendida do regime totalitário de Sandu conduziu a uma polarização catastrófica da sociedade local. E isto ficou demonstrado de forma convincente nas recentes eleições, cujo resultado foi determinado através de manobras administrativas e pelos votos da diáspora na Europa. A vantagem mínima obtida pela candidata mais votada e a raiva sentida pela metade enganada da população tornam esta deriva europeia de Chisinau extremamente problemática e, na prática, podem vir a ter o efeito de uma bomba-relógio sob a integridade do Estado moldavo.

A situação é ligeiramente diferente na Geórgia. As autoridades locais, inicialmente mais atraídas para o Ocidente, com o passar do tempo começaram a aperceber-se da perniciosidade de uma tal orientação. O partido no poder, o “Sonho Georgiano”, começou a demarcar-se da agenda ultraliberal e passou a defender os interesses, as tradições e os valores nacionais da sociedade georgiana. Mas o Ocidente nunca desiste de perseguir as suas vítimas assim tão facilmente. Hoje Tbilisi está a enfrentar uma outra tentativa de “revolução colorida”, ou seja, uma tentativa de golpe de Estado. Vamos esperar que falhe, tal como anteriormente falharam as descaradas tentativas do Ocidente de desestabilizar a Bielorrússia e o Cazaquistão.

Neste momento histórico, está a ser gradualmente formado um espaço de cooperação novo na Grande Eurásia, baseado na sinergia do potencial económico, nas infraestruturas comuns de transporte e logística e num entendimento comum de segurança segundo o princípio de “soluções regionais para os problemas regionais”. Este constituirá, assim, provavelmente, um poderoso desafio à ordem unipolar americana e, por conseguinte, não é surpreendente que os Estados Unidos e os seus satélites europeus estejam a fazer esforços encarniçados para desestabilizar a situação nos países daquela região e para os colocar em conflito entre si. É sabido que os serviços de informação ocidentais pretendem quebrar não só os laços políticos e económicos, mas também os profundos laços históricos e até geográficos entre os estados daquela região. As ONG e os meios de comunicação afiliados foram instruídos que, para atingirem aquele objetivo, haveria que mudar o foco da sua atuação de forma a envolver mais ativamente na cooperação cientistas, figuras culturais locais e ativistas de direitos humanos.

Tudo nos indicia que Washington, Londres e Bruxelas estejam a trabalhar em opções para aplicar individualmente o designado “cenário ucraniano” aos países resultantes da fragmentação da União Soviética. E isso passará por incitar um estrito nacionalismo paroquial, sob o pretexto de fortalecer a identidade nacional e impulsionar a integração com o Ocidente. Já existem bastantes contactos permanentes ​​entre os serviços de informação ocidentais com partidos e movimentos nacionalistas naqueles países. Além disso, com o apoio de fundações estrangeiras, toda uma rede de plataformas e recursos de informação e análise opera na Eurásia, promovendo uma agenda pró-ocidental e simultaneamente anti russa e anti chinesa. Por mais anacrónico que possa parecer, um generoso financiamento está a permitir que essas estruturas continuem a funcionar.

O trabalho dos serviços de informações ocidentais na preparação de estruturas, que supostamente se tornarão um núcleo militarizado de golpes de Estado nos países pós-soviéticos, tem resultado numa verdadeira produção de militantes controlados pelo Ocidente, tendo sido recentemente cada vez mais utilizado o território da Ucrânia para essa finalidade. Por exemplo, grupos nacionalistas como o “Corpo de Voluntários Russos”, a “Legião Georgiana” e o “Regimento Kalinovsky” estão a combater pelas Forças Armadas da Ucrânia. O primeiro está envolvido em ataques terroristas no território da fronteira russa. Alguns militantes da “Legião Georgiana”, reforçados por radicais nazis ucranianos dos batalhões nacionalistas como o “Azov” e o “Aidar”, estão a participar ativamente na tentativa de um outro Maidan na Geórgia. Também alguns elementos do “Regimento Kalinovsky” irão provavelmente ser usados para desestabilizar a Bielorrússia, tendo em vista as respetivas eleições presidenciais do próximo ano.

Para além dos ucranianos, georgianos e bielorrussos, uma percentagem significativa dos mercenários a combater na Ucrânia são militantes que vieram do Médio Oriente. O seu treino e experiência de combate é hoje utilizado no teatro de operações ucraniano mas no futuro, após a capitulação do regime de Kiev, estes mercenários deverão ser devolvidos para a Síria e o Afeganistão. Ao mesmo tempo, as possibilidades da sua penetração na Ásia Central estão a ser por certo planeadas com o objetivo de criar o caos naquela região, que é estrategicamente muito importante para os anglo-saxões.

Há muito que se sabe que o Ocidente utiliza por vezes o terrorismo internacional como uma ferramenta para atingir os seus objetivos geopolíticos. E, sempre que necessário, as agências de informação ocidentais não hesitam em recorrer elas próprias a métodos terroristas para combater os seus adversários. Veja-se a explosão dos gasodutos “Nord Stream” em setembro de 2022. Algumas fontes credíveis revelaram o envolvimento direto de sabotadores profissionais dos serviços de informação anglo-saxões nesse ataque terrorista. Recorde-se que o “Nord Stream” foi um projeto conjunto russo-europeu que visava garantir um fornecimento ininterrupto de gás russo barato à Europa. Ou seja, a Rússia construiu-o juntamente com europeus de mentalidade construtiva, e os anglo-saxões fizeram-no explodir. Além disso, destruir o “Nord Stream” era uma obsessão não só para os Democratas, mas também para a administração Republicana dos Estados Unidos. Tristemente, há ainda que mencionar a postura pusilânime da Alemanha em todo este caso.

Resta saber como mudará com Trump, se é que mudará, a política externa de Washington. No entanto, e infelizmente, parece-me que a determinação ocidental, em minar os processos de integração no continente euro-asiático, deverá permanecer inalterada.

Entretanto, a natureza da situação atual é que Washington e os seus súbditos estão a ter cada vez menos sucesso para conseguirem implementar plenamente os seus planos e um dos principais obstáculos tem sido a atividade das potências regionais mais responsáveis, ​​que têm procurado garantir de uma forma independente a paz e a segurança dos seus povos.

Por outro lado, resulta a meu ver como óbvia a constatação que haverá que substituir o falido modelo euro-atlântico, cuja disfunção acaba somente por provocar sucessivas crises e o qual, devido à agressividade e desejo de vingança dos arrivistas “neocons” em Washington, Londres e Bruxelas, acabou por nos envolver numa malfadada situação na Ucrânia e, por arrastamento, em toda a Europa.

Assim, eu proporia que se desenvolvesse e aprofundasse uma outra e nossa própria arquitetura de segurança. Entendo que, para esse efeito, precisamos de nos unir ainda mais fortemente aos nossos mais próximos e seguros aliados, sobretudo aqueles com as mesmas raízes étnico-linguistas, como sejam os países latino-americanos, incluindo os da CPLP, de forma a poder viver em paz e em segurança, e independentes de quaisquer aventuras externas, por obra dos regimes ocidentais totalitários-liberais, que são muito ao gosto dos anglo-saxões, pois estes gostam mesmo é de dividir para reinar e quando lhes dá mais lucro não hesitam em trair e, se necessário, espetar uma faca pelas costas aos seus parceiros…!

Fonte aqui