A decadência do Ocidente e o caos como arma

(Major-General Raúl Cunha in Facebook, 04-01-2025)


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Está mais do que visto que a possibilidade de passar a vigorar no mundo um sistema multipolar não se enquadra no processo global de dominação e subordinação construído por Washington, baseado no dólar e no despotismo dos EUA.

As elites euro-atlânticas já certamente o perceberam mas recusam-se, obstinadamente, a aceitar a perda do seu antigo poder. Estão a tentar convencer o resto do mundo de que a única alternativa ao poder ocidental é o caos. E, para o fazer, estão a desestabilizar deliberadamente a situação em regiões-chave do planeta. Ou seja, estão literalmente a agir como líderes de gangues criminosos, na lógica de “morres tu hoje, para que eu só morra amanhã”.

Esta tendência para a destruição é especialmente percetível nos estados que resultaram da fragmentação da União Soviética e na Grande Eurásia como um todo. Onde quer que o Ocidente procure estender os seus tentáculos, assiste-se a divisões e desestabilização, sendo o exemplo mais marcante o da Ucrânia. A partir do momento em que se deixou tentar pela assim chamada “integração europeia”, a Ucrânia transformou-se no principal instrumento anti russo do Ocidente e o resultado é que hoje a Ucrânia é um Estado falhado, ou seja, um Estado incapaz de manter a sua existência como sendo uma entidade política e economicamente viável.

Agora a Moldávia está a seguir o mesmo caminho. A política divisionista e vendida do regime totalitário de Sandu conduziu a uma polarização catastrófica da sociedade local. E isto ficou demonstrado de forma convincente nas recentes eleições, cujo resultado foi determinado através de manobras administrativas e pelos votos da diáspora na Europa. A vantagem mínima obtida pela candidata mais votada e a raiva sentida pela metade enganada da população tornam esta deriva europeia de Chisinau extremamente problemática e, na prática, podem vir a ter o efeito de uma bomba-relógio sob a integridade do Estado moldavo.

A situação é ligeiramente diferente na Geórgia. As autoridades locais, inicialmente mais atraídas para o Ocidente, com o passar do tempo começaram a aperceber-se da perniciosidade de uma tal orientação. O partido no poder, o “Sonho Georgiano”, começou a demarcar-se da agenda ultraliberal e passou a defender os interesses, as tradições e os valores nacionais da sociedade georgiana. Mas o Ocidente nunca desiste de perseguir as suas vítimas assim tão facilmente. Hoje Tbilisi está a enfrentar uma outra tentativa de “revolução colorida”, ou seja, uma tentativa de golpe de Estado. Vamos esperar que falhe, tal como anteriormente falharam as descaradas tentativas do Ocidente de desestabilizar a Bielorrússia e o Cazaquistão.

Neste momento histórico, está a ser gradualmente formado um espaço de cooperação novo na Grande Eurásia, baseado na sinergia do potencial económico, nas infraestruturas comuns de transporte e logística e num entendimento comum de segurança segundo o princípio de “soluções regionais para os problemas regionais”. Este constituirá, assim, provavelmente, um poderoso desafio à ordem unipolar americana e, por conseguinte, não é surpreendente que os Estados Unidos e os seus satélites europeus estejam a fazer esforços encarniçados para desestabilizar a situação nos países daquela região e para os colocar em conflito entre si. É sabido que os serviços de informação ocidentais pretendem quebrar não só os laços políticos e económicos, mas também os profundos laços históricos e até geográficos entre os estados daquela região. As ONG e os meios de comunicação afiliados foram instruídos que, para atingirem aquele objetivo, haveria que mudar o foco da sua atuação de forma a envolver mais ativamente na cooperação cientistas, figuras culturais locais e ativistas de direitos humanos.

Tudo nos indicia que Washington, Londres e Bruxelas estejam a trabalhar em opções para aplicar individualmente o designado “cenário ucraniano” aos países resultantes da fragmentação da União Soviética. E isso passará por incitar um estrito nacionalismo paroquial, sob o pretexto de fortalecer a identidade nacional e impulsionar a integração com o Ocidente. Já existem bastantes contactos permanentes ​​entre os serviços de informação ocidentais com partidos e movimentos nacionalistas naqueles países. Além disso, com o apoio de fundações estrangeiras, toda uma rede de plataformas e recursos de informação e análise opera na Eurásia, promovendo uma agenda pró-ocidental e simultaneamente anti russa e anti chinesa. Por mais anacrónico que possa parecer, um generoso financiamento está a permitir que essas estruturas continuem a funcionar.

O trabalho dos serviços de informações ocidentais na preparação de estruturas, que supostamente se tornarão um núcleo militarizado de golpes de Estado nos países pós-soviéticos, tem resultado numa verdadeira produção de militantes controlados pelo Ocidente, tendo sido recentemente cada vez mais utilizado o território da Ucrânia para essa finalidade. Por exemplo, grupos nacionalistas como o “Corpo de Voluntários Russos”, a “Legião Georgiana” e o “Regimento Kalinovsky” estão a combater pelas Forças Armadas da Ucrânia. O primeiro está envolvido em ataques terroristas no território da fronteira russa. Alguns militantes da “Legião Georgiana”, reforçados por radicais nazis ucranianos dos batalhões nacionalistas como o “Azov” e o “Aidar”, estão a participar ativamente na tentativa de um outro Maidan na Geórgia. Também alguns elementos do “Regimento Kalinovsky” irão provavelmente ser usados para desestabilizar a Bielorrússia, tendo em vista as respetivas eleições presidenciais do próximo ano.

Para além dos ucranianos, georgianos e bielorrussos, uma percentagem significativa dos mercenários a combater na Ucrânia são militantes que vieram do Médio Oriente. O seu treino e experiência de combate é hoje utilizado no teatro de operações ucraniano mas no futuro, após a capitulação do regime de Kiev, estes mercenários deverão ser devolvidos para a Síria e o Afeganistão. Ao mesmo tempo, as possibilidades da sua penetração na Ásia Central estão a ser por certo planeadas com o objetivo de criar o caos naquela região, que é estrategicamente muito importante para os anglo-saxões.

Há muito que se sabe que o Ocidente utiliza por vezes o terrorismo internacional como uma ferramenta para atingir os seus objetivos geopolíticos. E, sempre que necessário, as agências de informação ocidentais não hesitam em recorrer elas próprias a métodos terroristas para combater os seus adversários. Veja-se a explosão dos gasodutos “Nord Stream” em setembro de 2022. Algumas fontes credíveis revelaram o envolvimento direto de sabotadores profissionais dos serviços de informação anglo-saxões nesse ataque terrorista. Recorde-se que o “Nord Stream” foi um projeto conjunto russo-europeu que visava garantir um fornecimento ininterrupto de gás russo barato à Europa. Ou seja, a Rússia construiu-o juntamente com europeus de mentalidade construtiva, e os anglo-saxões fizeram-no explodir. Além disso, destruir o “Nord Stream” era uma obsessão não só para os Democratas, mas também para a administração Republicana dos Estados Unidos. Tristemente, há ainda que mencionar a postura pusilânime da Alemanha em todo este caso.

Resta saber como mudará com Trump, se é que mudará, a política externa de Washington. No entanto, e infelizmente, parece-me que a determinação ocidental, em minar os processos de integração no continente euro-asiático, deverá permanecer inalterada.

Entretanto, a natureza da situação atual é que Washington e os seus súbditos estão a ter cada vez menos sucesso para conseguirem implementar plenamente os seus planos e um dos principais obstáculos tem sido a atividade das potências regionais mais responsáveis, ​​que têm procurado garantir de uma forma independente a paz e a segurança dos seus povos.

Por outro lado, resulta a meu ver como óbvia a constatação que haverá que substituir o falido modelo euro-atlântico, cuja disfunção acaba somente por provocar sucessivas crises e o qual, devido à agressividade e desejo de vingança dos arrivistas “neocons” em Washington, Londres e Bruxelas, acabou por nos envolver numa malfadada situação na Ucrânia e, por arrastamento, em toda a Europa.

Assim, eu proporia que se desenvolvesse e aprofundasse uma outra e nossa própria arquitetura de segurança. Entendo que, para esse efeito, precisamos de nos unir ainda mais fortemente aos nossos mais próximos e seguros aliados, sobretudo aqueles com as mesmas raízes étnico-linguistas, como sejam os países latino-americanos, incluindo os da CPLP, de forma a poder viver em paz e em segurança, e independentes de quaisquer aventuras externas, por obra dos regimes ocidentais totalitários-liberais, que são muito ao gosto dos anglo-saxões, pois estes gostam mesmo é de dividir para reinar e quando lhes dá mais lucro não hesitam em trair e, se necessário, espetar uma faca pelas costas aos seus parceiros…!

Fonte aqui

Caos sem controlo

(Dmitry Orlov, in SakerLatam, 12/10/2024)


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Foi um desastre que demorou 80 anos para acontecer. No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estavam praticamente sozinhos como potência econômica. Respondendo por 50% do PIB global, detinha 80% das reservas mundiais de moeda forte. Avançando para 2024, a participação dos EUA na economia mundial diminuiu para 14,76% (calculado com base nos números fornecidos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional).

Mas até mesmo esse número é enganoso, pois 20% da economia dos EUA é composta pelo que está sob o acrônimo FIRE: finanças, seguros e imóveis. Esses são parasitas improdutivos da economia produtiva. Outro parasita improdutivo é o sistema de saúde: ridiculamente caro, ele representa quase um quarto de todos os gastos nos EUA. Nem os recursos consumidos pelo FIRE nem os gastos com saúde contribuem muito para a posição dos EUA na economia mundial.

Ajustada a isso, a participação dos EUA na economia mundial diminui para pouco mais de 8%. Embora não seja desprezível, essa participação não é nem de longe suficiente para dar aos EUA algo parecido com um voto majoritário ou poder de veto nos assuntos mundiais. A tragédia da situação é que a mentalidade dos americanos, principalmente daqueles que ocupam cargos de autoridade em Washington, não conseguiu adaptar-se a esse desenvolvimento.

A sua mentalidade parece ter sido fixada para sempre: eles acreditam que ainda podem ditar os termos para o mundo inteiro e percebem que está cada vez mais difícil encobrir o fato de que quase todo o mundo (com algumas exceções notáveis) agora se sente livre para ignorá-los.

Começando logo após a Segunda Guerra Mundial, quando grande parte da indústria mundial estava em ruínas, os EUA conseguiram usar seu poder industrial, apoiado por seu poderio militar, para inclinar o campo de jogo econômico a seu favor. Com o dólar americano sendo usado como a principal moeda no comércio internacional e, principalmente, no comércio de petróleo, os EUA conseguiam manter um controle sobre as finanças e o comércio internacionais, apertando e afrouxando alternadamente o fornecimento de dólares. Embora inicialmente permitisse a troca de dólares por ouro, essa opção foi cancelada em 1971. Em 1986, os EUA passaram de credor líquido (uma posição que mantinham desde 1914) para devedor líquido, tornando sua capacidade de continuamente tomar empréstimos do resto do mundo em sua própria moeda uma questão de sobrevivência. Ao mesmo tempo, a participação cada vez menor dos EUA na economia mundial reduziu a eficácia da guerra financeira dos EUA, mudando inevitavelmente a ênfase para a guerra propriamente dita. A manutenção de sua capacidade de empréstimo irrestrito, juntamente com o valor do dólar americano, foi possível por meios cada vez mais opressivos e violentos, o que rendeu aos EUA o título de império do caos.

Começando com os ataques terroristas encenados de 11 de setembro de 2001, os EUA tentaram liberar seu poderio militar em uma “guerra ao terror” planejada para aterrorizar suficientemente seus adversários e, mais uma vez, inclinar o campo de jogo a seu favor. Essa missão não foi bem-sucedida. Aqui está uma citação do Le Monde Diplomatique, descrevendo alguns de seus “sucessos”.

“Desde o momento da invasão do Afeganistão em outubro de 2001, de fato, tudo o que os militares dos EUA tocaram nesses anos virou pó. Nações em todo o Grande Oriente Médio e na África entraram em colapso sob o peso das intervenções americanas ou de seus aliados, e os movimentos terroristas, cada um mais sombrio que o outro, espalharam-se de forma notavelmente descontrolada. O Afeganistão é hoje uma zona de desastre; o Iêmen, assolado por uma guerra civil, uma brutal campanha aérea saudita apoiada pelos EUA e vários grupos terroristas ascendentes, basicamente não existe mais; o Iraque, na melhor das hipóteses, é uma nação sectária dilacerada; a Síria mal existe; a Líbia também mal é um Estado atualmente; e a Somália é um conjunto de feudos e movimentos terroristas. Em suma, é um recorde e tanto para a maior potência do planeta, que, de uma forma nitidamente não imperial, não conseguiu impor sua vontade militar ou ordem de qualquer tipo a nenhum estado ou mesmo grupo, independentemente de onde tenha decidido agir nesses anos. É difícil pensar em um precedente histórico para isso.”

O que é notável nessa citação é o que ela omite: o fato de os EUA terem fracassado até mesmo na produção do caos. A maioria das nações do Oriente Médio e da África (com exceção de Israel/Palestina e Líbano) está, pelo menos superficialmente, estável; o Afeganistão está muito melhor sob o domínio do Talibã e elaborando grandes planos de desenvolvimento com a China e a Rússia; o Iraque está fraco, mas aliado ao Irã; a Síria não entrou em colapso e, mais uma vez, controla grande parte de seu território. Mas a conclusão é correta e estranha: os EUA fracassaram até mesmo na imposição do caos.

Os fracassos dos EUA em fomentar o caos não se limitaram à esfera militar: suas tentativas de semear o caos político foram igualmente ineficazes. O sindicato da revolução colorida, outrora bem-sucedido no derrube de governos que o establishment da política externa dos EUA considerava não cooperativos, falhou em todo o mundo – na Rússia, Venezuela, Bielorrússia, Geórgia e outros lugares. Em todos os casos, o líder substituto fornecido pelos EUA foi abandonado como um cadáver político: Alexei Navalny (agora um cadáver de fato) na Rússia, Juan Guaidó na Venezuela, Svetlana Tikhanovskaya em Belarus e Mikheil Saakashvili na Geórgia. Mas esses fracassos eram esperados e o nível de caos político resultante era controlável. Isso mudou, a princípio de forma impercetível, com o golpe ucraniano instigado pelos EUA no início de 2014 e, em seguida, de forma abrupta e permanente com o lançamento da Operação Militar Especial da Rússia para desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia no início de 2022. Esse foi um evento que sinalizou para o mundo inteiro: não é mais necessário que ninguém obedeça aos Estados Unidos!

Os exemplos de desobediência já são muitos e variados. Os EUA pediram ao Irã que não enviasse mísseis balísticos para a Rússia – e o Irã os envia. Os EUA pediram à China que não fornecesse à Rússia produtos manufaturados e tecnologias que permitissem contornar as sanções e conduzir sua Operação Militar Especial – e a China os fornece. Depois que Nicolás Maduro foi reeleito na Venezuela, os EUA solicitaram que esse resultado fosse reconsiderado e o pedido foi negado. Os Houthis no Iêmen não dão atenção aos esforços dos EUA para impedi-los de interferir na navegação do Mar Vermelho. Várias nações africanas estão pedindo a saída das bases militares dos EUA, eles agora preferem negociar com a Rússia e a China. Até mesmo Israel não se preocupa mais em coordenar suas ações com Washington, independentemente de elas prejudicarem ou não os interesses dos EUA.

Gevorg Mirzayan, professor associado de Ciências Políticas da Universidade Financeira de Moscou, apresentou três motivos para essa pandemia de desobediência.

A primeira é a rápida mudança dos governos nacionais para reafirmar sua soberania nacional. Com a globalização de estilo ocidental desacreditada pelas ações dos Estados Unidos, juntamente com um grande enfraquecimento das instituições internacionais (mais uma vez, devido ao fato de terem sido desacreditadas pelos EUA), os governos foram forçados a confiar em seus próprios recursos para atingir seus objetivos. Nesse processo, eles se tornaram muito mais ativos na defesa de seus interesses nacionais, inspirados pelo entendimento de que ninguém mais fará isso por eles.

O segundo motivo foi o fato de terem percebido rapidamente que a defesa de seus interesses nacionais não é tão complicada ou difícil como pareceria no início. Inicialmente, eles temiam os vários métodos de retaliação dos EUA – sanções, intervenções humanitárias, bombardeios, invasões e ostracismo político. Mas a Rússia demonstrou que eles não precisam temer as sanções dos EUA e do Ocidente, apresentando um exemplo de economia desenvolvida e integrada internacionalmente que poderia resistir às mais poderosas sanções ocidentais da história; tudo o que é necessário é vontade política e unidade nacional. Essa unidade, por sua vez, pode ser alcançada por meio da demonstração da correção das decisões políticas multiplicada por sentimentos de orgulho nacional. Observando os resultados da Rússia, outras nações, como a China, que até agora tentou evitar um conflito aberto com os EUA, estão trabalhando para atingir o nível de determinação política necessário para um confronto direto.

E há ainda o terceiro motivo, que é o fato de as figuras políticas dos EUA se terem tornado completamente estúpidas, para dizer de forma educada. A ascensão ao poder de liberais malucos que falam sobre feminismo radical, Teoria Crítica da Raça, absurdos LGBT, catastrofismo climático, políticas de imigração “sem fronteiras”, pesadelos transhumanistas e fantasias globalistas expulsou os candidatos mais bem informados e com mentalidade mais prática. Como resultado, estamos vendo o quinto ciclo eleitoral nos EUA em que nenhum dos candidatos é capaz de controlar os processos globais – incapaz de manter o que vários analistas russos chamaram de caos controlado. O caos controlável que eles tentaram criar, seja na Primavera Árabe, nas revoluções coloridas ou nas tentativas de impedir que a África e a América Latina se afastassem, saiu rapidamente do controle, ou seja, do controle dos EUA, deixando muito espaço para o controle de eventos do ponto de vista de políticos mais ponderados, mais bem informados e com pensamento mais rápido na China, na Rússia, no Irã e assim por diante.

Mas, perder o controlo dos seus adversários é, até certo ponto, algo esperado e não é nem mesmo o pior de tudo. O que é ainda pior é que os Washingtonianos estão perdendo o controlo de seus aliados, de cujos recursos eles dependeram em sua busca, agora frustrada, pelo domínio global.

– A Turquia, uma grande potência da OTAN, está tentando se juntar ao BRICS, está trabalhando com a Rosatom da Rússia para construir sua usina nuclear de Akkuyu e está servindo como um importante ponto de transbordo para as exportações de gás natural russo.

– A Arábia Saudita se recusou a prorrogar seu Acordo de Petrodólares com os EUA, que expirou em 9 de junho de 2024, e agora está negociando petróleo com a China em yuan em vez de dólares, enquanto coopera estreitamente com a Rússia como parte da OPEP+ e também olha na direção do BRICS.

– Israel – o aliado mais próximo dos EUA – essencialmente tomou os EUA como reféns. Sua operação genocida em Gaza causou um sério golpe nas relações dos EUA com todo o mundo muçulmano. E agora o líder israelense Netanyahu está tentando levar os EUA a um conflito militar com o Irã.

– Até mesmo países menores, como a Hungria, a Eslováquia e a Geórgia, estão se recusando a atender a várias exigências dos EUA.

– O pior amotinado de todos, do ponto de vista dos EUA, é a Ucrânia. O regime de Kiev, privado de apoio militar e financeiro suficiente dos EUA e sentindo a fraqueza de Washington ao negociar em um período de grave incerteza política devido à senilidade de Biden, à idiotice manifesta de Harris e à imprevisibilidade e tempestuosidade de Trump, está tentando o mesmo estratagema de Netanyahu – envolver os EUA em um conflito armado, mas não com o Irã e sim com a Rússia, que é militarmente invencível e tem armas nucleares. Assim como acontece com Israel, os Washingtonianos estão demonstrando sua total incapacidade de impedir crimes ucranianos contra a humanidade, provocações nucleares e crimes de guerra.

Considerando esses acontecimentos, o que faria mais sentido para os EUA seria tentar reduzir suas perdas. Deveriam tentar encontrar um compromisso mutuamente aceitável com seus aliados e permitir que seus adversários lidassem com aqueles problemas que estão completamente fora de seu controle. Mas essa administração geopolítica exige uma liderança sóbria, pragmática e bem informada, o que não existe nos EUA.

A alternativa é esperar que o pior cenário, inevitável, se desenrole. Sem o apoio suficiente dos EUA, a Ucrânia e Israel fracassarão. Taiwan voltará a se unir à China. Países de todo o mundo continuarão ignorando os EUA. Enquanto isso, os EUA continuarão a tomar cada vez mais dinheiro emprestado (mais de um trilião a cada três meses) para financiar seu enorme e crescente deficit orçamentário (agora um terço do orçamento federal) e, ao mesmo tempo, rolar sua dívida de prazo mais longo e juros mais baixos para uma dívida de prazo mais curto e juros mais altos. Os dólares recém-gerados, que não representam nada de valor, desaparecerão como água na areia, gerando uma atividade econômica insignificante. Não importa como os Washingtonianos manipulem os números, fingindo que a inflação do dólar está sob controlo (não está) ou que a economia dos EUA ainda está crescendo (não está), o Império Americano está no fim. Durante o jogo final, não serão apenas os adversários e não apenas os aliados, mas também os estados dos EUA que começarão a se fragmentar. Talvez o último lugar onde o caos se tornará incontrolável seja Washington, DC. A idade das trevas americana que se seguirá será um estudo de caso interessante para pesquisas futuras.

Fonte aqui

A caminho do caos?

(Joseph Praetorius, in Facebook, 05/12/2016)

 

caos

 

A aventura exploratória, sob pretensa égide liberal, iniciada com a certeza próxima da queda do muro de Berlin, atingiu o limite de resistência do tecido social. Em tal aventura todos os recursos organizacionais do sistema se comprometeram. E, por consequência, deles não há nada a esperar do ponto de vista de quem trabalha e deixou de conseguir viver, alojar-se, alimentar-se, sustentar os filhos e educá-los, manter a estabilidade das respectivas famílias, manter até a casa onde a família vive. Não há neste sentido grande diferença entre a flagelação financeira das famílias e a flagelação pela guerra nas pobres terras onde esta foi levada por gente ébria de poder e lucro fácil.

Nesta embriaguez, o Estado transformou-se num instrumento de exploração, mecanismo odioso de extorsão, primeiro problema das comunidades, onde a todo o momento se discute – e põe em causa – a pretensa desproporção do sistema público de saúde, por exemplo, única solução para o risco de cancro que se abate generalizadamente sobre a população, onde se prevê que nas próximas décadas atinja uma em cada duas pessoas, de uma forma ou de outra. Sem que a indústria farmacêutica deixe de fazer disso um negócio protegido pelo Estado e em que os próprios recursos do Estado se exaurem. Sendo certo que nenhum sistema privado de saúde assente nas seguradoras se quer envolver nas despesas correspondentes, às quais sempre oporá o “esgotamento do plafond”, remetendo os doentes para o sistema público, de supetão. Em números imprevisíveis para a gestão do sistema público. E o Estado nada faz, dirigido como está por funcionários ou agentes dos grupos de interesses em que tais seguros se enquadram.

Grupos nos quais se enquadram bancos em falência iminente, mas tratada sempre de modo muito pouco (ou nada) liberal. O profissional liberal médio afasta-se tendencialmente dos bancos onde os saldos podem ser congelados ou penhorados a qualquer momento. E as pessoas perderam até a possibilidade de trabalharem com êxito. Recordo as criaturas da inspecção tributária emboscadas, à espera da hora de encerramento dos bares de convívio, para apreenderem o dinheiro em caixa, deixando os infelizes sem dinheiro para pagarem sequer as horas de trabalho nocturno. Também nada adianta esperar seja o que for de tribunais de funcionários, para quem o arbítrio mais selvagem traduz a ordem natural do mundo, comungando, portanto, como tenho dito, na degenerescência irrecuperável de tudo e produzindo irregularmente as minutas da erística para a frustração de direitos.

Nenhuma esperança resta pois senão nas franjas organizacionais até agora marginalizadas pelo sistema político. Essa esperança é a da possibilidade da vida individualmente considerada. Essa esperança exige o desaparecimento desta perspectivação monstruosa das coisas, que devora vidas, países, estados e povos, continentes, até. Essa esperança contenta-se com o desaparecimento de tal coisa. E parece-lhe que tal desaparecimento bastará para que tudo o que é lícito seja possível. É neste ponto que estamos. Não noutro.

Debalde o sistema notará que falta a esta vaga qualquer programa ou ideia que possa discutir-se. O sistema perdeu a legitimidade para discutir. A projectada aliança de Renzi e Berlusconi, como a candidatura de Valls demonstram, aliás, a incapacidade de discutir seja o que for. Não há nada para discutir. As populações, os estados, os países e os continentes foram até agora meros objectos desta gente.

Chegou o momento. Lixo com isto. (Não esquecendo a cassação de direitos políticos dos que isto geraram ou dirigiram). É uma questão prévia. Inegociável, porventura. Tanto dá que venha à direita como à esquerda, que nenhuma distinção destas faz grande sentido no caos. Francisco de Roma, o Patriarca do Ocidente (neste estado) percebeu isto perfeitamente, tanto quanto parece. Mas parece também ter sido o único. As explosões da jacquerie já começaram. Vão estender-se em explosões por simpatia.


A propósito deste texto, remeto para a excelente entrevista ao Prof. Mário Bruno Sproviero: ‘Entropia: “Progresso” para a destruição’ e que pode ser lida na íntegra aqui.