O mundo está à beira de uma guerra nuclear?

(WSWS.org, editorial, 30/09/2026, Trad. Estátua)

Nesta foto divulgada pelo Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia em 10 de fevereiro de 2022, o navio de assalto anfíbio da Marinha Russa, Kaliningrad, entra no porto de Sebastopol, na Crimeia. [Foto AP/Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia]

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O mundo está à beira de uma guerra nuclear? A questão surge diretamente dos eventos dos últimos dias, à medida que a guerra entre os EUA e a NATO contra a Rússia na Ucrânia se intensifica, transformando-se num confronto aberto entre potências nucleares.

A Rússia declarou esta semana estar pronta para usar armas nucleares caso a NATO bloqueie Kaliningrado, território russo no Mar Báltico, entre a Polônia e a Lituânia. O alerta foi emitido pelas embaixadas russas na Bélgica, Grã-Bretanha e Irlanda, nos dias 28 e 29 de setembro, e também em nota diplomática à NATO. 

Afirmando que a NATO estava preparando um “bloqueio aéreo e naval” de Kaliningrado, a embaixada russa na Irlanda declarou: “Não deve haver dúvidas — a Rússia estaria pronta para usar todo o seu arsenal, incluindo armas nucleares, para defender o seu território caso os países da NATO tentem isolar a região de Kaliningrado do resto do país.” 

A porta-voz da NATO, Allison Hart, respondeu na terça-feira, afirmando: “A NATO é uma aliança defensiva e nenhuma das nossas atividades ou exercícios representa um risco para qualquer parte da Rússia”. Ela denunciou “a ameaça do uso da força, incluindo qualquer retórica nuclear irresponsável”.

Essa afirmação é totalmente falsa, visto que a aliança da NATO está armando e orientando ataques ucranianos em território russo. A NBC News noticiou em outubro de 2025 que o governo Trump forneceria informações de inteligência a Kiev para ajudá-la a “atacar instalações de petróleo e gás dentro da Rússia”. Em 30 de julho, a Comissão Europeia pagou a Kiev € 3,47 biliões, incluindo financiamento para “drones a jato de longo alcance”. Na noite de 19 para 20 de setembro, a Ucrânia lançou o maior ataque da guerra, com drones, contra Moscovo e região circundante. Em 28 de agosto, as forças ucranianas atacaram um bombardeiro estratégico Tu-95, parte das forças nucleares da Rússia, na base aérea de Engels.

Além disso, as “atividades e exercícios” da NATO são direcionados para a própria Kaliningrado. Em meados de agosto, segundo uma fonte militar ocidental citada pela Reuters, dezenas de aeronaves da NATO realizaram uma operação não anunciada ao redor do enclave. A operação demonstrou que eles poderiam cortar as ligações de rádio e radar, bem como as defesas aéreas. Desde janeiro, 14 países europeus consideram os petroleiros ligados à Rússia que mudam de bandeira ou desligam seus transponders como “embarcações apátridas” sujeitas a abordagem, e a Suécia apreendeu uma, em março.

Em 11 de setembro, o Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, disse sobre Kaliningrado: “Quase não há tropas lá”. Ele propôs que a NATO “realizasse exercícios tão agressivos no nosso lado a ponto de deixar [Putin] incerto sobre o que iremos fazer”. Ele acrescentou: “Não devemos pensar no nosso confronto com a Rússia apenas como algo restrito à Ucrânia”. 

As potências europeias estão partindo do pressuposto de que Moscovo está a fazer bluff. Na Cimeira de Defesa e Espaço da Euronews, em Bruxelas, na quarta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, declarou: “Não levo isso a sério. … Todos sabem que [Putin] jamais poderá vencer a NATO.” 

A lógica é a de uma escalada implacável. As potências europeias condicionaram a sua política a uma vitória ucraniana. “Putin precisa sentir que a guerra está chegando à própria Rússia”, declarou na quarta-feira o Comissário Europeu da Defesa, Andrius Kubilius.

Entretanto, a situação militar da Ucrânia está a deteriorar-se. Em julho, intercetou apenas 29 dos 195 mísseis balísticos russos e entra no inverno sem as defesas aéreas necessárias para proteger a sua rede elétrica. Cada novo revés será respondido com uma escalada ainda maior: o envio de tropas terrestres ou a abertura de novas frentes, incluindo Kaliningrado.

Para Moscovo, os riscos não poderiam ser maiores. Kaliningrado é para o Mar Báltico o que a Crimeia é para o Mar Negro. É a sede da Frota do Báltico e a base dos mísseis Iskander, com capacidade nuclear, da Rússia. Desde que a Finlândia e a Suécia aderiram à NATO, a cidade está cercada pela Aliança por terra e mar.

Em certo sentido, o enclave é mais sensível que a Crimeia. O seu estatuto é reconhecido internacionalmente desde a Conferência de Potsdam de 1945, que o transferiu para a União Soviética. Uma ação contra Kaliningrado seria um ataque a um território que nenhum governo contesta ser russo. A doutrina nuclear da Rússia permite uma resposta nuclear a uma agressão convencional que represente uma “ameaça crítica” à sua integridade territorial.

Nikolai Sokov, ex-diplomata russo e analista nuclear radicado em Viena, disse à Reuters em entrevista publicada na quarta-feira: “Eles (a Rússia) esperam mais ações, incluindo um bloqueio do Mar Báltico — um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus, mas para eles isso será uma guerra aberta. Vejo, assim, um risco de erro de cálculo mútuo.”

Um bloqueio à Rússia pode estar “um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus”, mas, segundo o direito internacional, é um ato de guerra. A definição de agressão adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974 inclui “o bloqueio dos portos ou costas de um Estado pelas forças armadas de outro Estado”. 

Considerando os riscos, é espantoso que não haja apelos à negociação nem se fale num acordo. O único debate nas capitais europeias gira em torno de até que ponto e com que rapidez intensificar o conflito.

Esta é a imprudência das potências imperialistas assoladas por uma crise social, económica e política cada vez mais profunda, que impulsionam a guerra sem se importarem com as suas consequências. O regime de Putin, que representa uma oligarquia capitalista e é incapaz de fazer qualquer apelo genuíno à classe trabalhadora internacional, responde com ameaças nucleares.

O contraste com 1962 é gritante. Quando os Estados Unidos e a União Soviética chegaram à beira do conflito por causa dos mísseis soviéticos em Cuba, o perigo foi abertamente reconhecido. O presidente John F. Kennedy anunciou a crise na rede nacional de televisão em 22 de outubro, e durante a semana seguinte o mundo acompanhou cada desenvolvimento. Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev trocaram cartas, e os dois governos, temendo as consequências, negociaram por canais informais até encontrarem uma maneira de recuar. Hoje não há reconhecimento nem negociação. 

Existe um abismo imenso entre a dimensão do perigo e a consciência pública sobre ele. Milhões sentem que algo está profundamente errado, mas não conseguem acreditar que os seus governos arriscariam uma guerra nuclear. Na medida em que o perigo é apresentado na mídia, ele aparece como a ameaça inexplicável dos russos, a “retórica nuclear” de Putin e a “guerra híbrida”. Nunca é apresentado como uma resposta às ações das potências da NATO. 

Até a noite de quarta-feira, o New York Times e a CNN não haviam noticiado o alerta de Moscovo. Os veículos de comunicação que se manifestaram pressionam por uma escalada ainda maior. O Washington Post escreveu na segunda-feira: “Uma mensagem melhor de Trump seria que os EUA permitirão que a Ucrânia aja com mais intensidade se a Rússia não aliviar a pressão.”

Os democratas criticaram o presidente dos EUA, Donald Trump, pela sua postura insuficientemente agressiva contra a Rússia. Em 24 de setembro, 21 senadores democratas declararam que os “apelos por desescalada” na cimeira de Trump com o presidente chinês Xi Jinping “não fazem nada para interromper o fluxo de bens chineses de dupla utilização que mantém a máquina de guerra de Vladimir Putin em funcionamento”. Entre os signatários estavam o líder democrata Chuck Schumer, Elizabeth Warren e Adam Schiff.

A guerra na Ucrânia, provocada por três décadas de expansão da NATO até as fronteiras da Rússia, faz parte de uma luta pela hegemonia global travada em todos os continentes. Mais de quatro anos após o início do conflito, uma nova e catastrófica etapa está sendo preparada às escondidas da população. A classe trabalhadora, que pagará o preço, precisa ser alertada. Os governos que cortam empregos e programas sociais para financiar o rearmamento são os mesmos que estão conduzindo a uma guerra que pode se tornar nuclear.

A luta contra a guerra deve estar ligada à luta de classes que já está em curso. A mesma crise que impulsiona a classe dominante para a guerra está a impulsionar os trabalhadores para a luta contra as demissões, contra a destruição dos programas sociais e contra os ataques aos direitos democráticos.

A classe trabalhadora é a única força social capaz de deter a guerra, mas só poderá fazê-lo se compreender o que está a ser preparado e lutar conscientemente contra ela e contra o sistema capitalista que a produz. A primeira tarefa é romper o silêncio sobre o perigo. Exortamos os nossos leitores a divulgarem esta declaração o mais amplamente possível.

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A Terceira Guerra Mundial ainda está a ser preparada

(Por Chris Pantelimon, in Reseau International, 16/07/2026, Trad. Estátua)


A única forma de os Estados Unidos manterem o controlo dos assuntos mundiais é através de uma guerra mundial — isto é, um conflito de grande escala em que os Estados Unidos assumam o papel de árbitro, e não de participante direto.

Os estrategas americanos não têm imaginação, razão pela qual repetem padrões de há um século — por exemplo, o rearmamento da Alemanha e a sua preparação para o combate contra a URSS.

Hoje, o inimigo designado, à primeira vista, é a Rússia, porque a Rússia está activa, mas o verdadeiro alvo é sobretudo a China, o principal rival estratégico dos Estados Unidos.

Um ponto deve ser realçado: para os americanos, não importa quem ganhe a guerra.

O rearmamento da Europa, supostamente concebido para a sua defesa contra Putin, pode muito bem levar à ruína da Europa. Tanto melhor! O que importa é a guerra e o árbitro (os Estados Unidos) na sombra, não o seu resultado.

Da mesma forma, o rearmamento do Japão, que só pode ocorrer em oposição à China, não significa que os americanos desejem realmente — ou esperem — que o Japão prevaleça (tal como não esperam que a Ucrânia prevaleça sobre a Rússia). A estratégia é mais cínica: o importante é provocar a guerra.

E os Estados que produzem ou compram armas (os infames 5% do PIB), outrora saturados de tecnologia militar, podem ser facilmente colocados uns contra os outros.

O caso ucraniano é um excelente exemplo. Uma Ucrânia bem armada será sempre um alvo para a Rússia. Mas o mesmo se aplica à Polónia ou a um Estado báltico. As tensões estão a aumentar e a história europeia, com todas as suas tragédias passadas, aguardava por isto: uma corrida ao armamento entre vizinhos. Nunca faltam motivos para a guerra!

Eis o que o CEO da Palantir escreve num livro de um franchise tipicamente americano sobre a política de armamento dos aliados dos Estados Unidos:

  1. Alemanha

“A resistência a novos investimentos militares tem sido, naturalmente, particularmente disseminada na Alemanha. Günter Grass, romancista e autor de ‘O Tambor de Lata’, opôs-se veementemente à reunificação da Alemanha Oriental e Ocidental, argumentando que um Estado alemão unificado poderia abrir as portas a outro Auschwitz. Em 1991, escreveu: ‘Nada — nem o sentimento de pertença nacional, por mais idílico que seja retratado, nem a certeza da boa vontade das gerações do pós-guerra — pode alterar ou apagar a experiência que nós, criminosos, juntamente com as nossas vítimas, partilhamos enquanto Alemanha unida’.

No entanto, a neutralização de facto do país nos últimos cinquenta anos teve consequências. A ausência de uma Alemanha forte e assertiva contribuiu, sem dúvida, para a invasão da Ucrânia pela Rússia em Fevereiro de 2022. Vladimir Putin calculou corretamente que não pagaria um preço significativo por essa ação. Após décadas de autoflagelação, o exército alemão passou a assemelhar-se mais a uma caricatura de uma força armada genuína”,

2. Japão

“O mesmo se aplica, em grande parte, ao Japão. A democracia mais rica da região necessitaria ainda hoje do apoio dos EUA para repelir — quanto mais sobreviver — a uma invasão em grande escala. (…)

O erro não foi dissolver o Exército Imperial Japonês e adotar salvaguardas legais destinadas a impedir a sua reconstituição no período imediatamente a seguir à guerra. O erro foi manter esta política durante três quartos de século, apesar da transformação da ordem mundial, incluindo a ascensão de uma China cada vez mais poderosa e assertiva, bem como um renovado sentido de ambição na Rússia.

O desarmamento e a privação das significativas capacidades militares da Alemanha constituíram uma reação excessiva, pela qual a Europa paga agora um preço elevado. Um compromisso semelhante, em grande parte teatral, com o pacifismo japonês ameaça, a manter-se, alterar também o equilíbrio de poder na Ásia”.

A conclusão é simples, como a história recente demonstrou!

Fonte aqui

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Endoideceram

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/09/2025)

O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas.


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Andamos todos entretidos nas nossas vidas, tratando do que temos de tratar e discutindo outras coisas, umas importantes, outras não tanto, e não queremos entender ou rendermo-nos à evidência de que, num mundo à parte, um escol de dirigentes políticos endoidecidos se prepara para nos servir uma guerra mundial ao virar da esquina. Uma guerra cujas razões ou inevitabilidade não enxergamos e cujas consequências nem sequer conseguimos imaginar em todo o seu horror.

Não, em vida da minha geração o mundo nunca esteve tão perto da guerra. Não o mundo cuja forma habitual de vida é a guerra — em África, no Médio Oriente ou em disputas religiosas ou tribais por esses tristes trópicos. Mas sim o mundo inteiro, a Humanidade como a conhecemos. Em 1979, a União Soviética, de Brejnev, e o seu sinistro séquito de personagens resolveram instalar mísseis de longo alcance nos limites dos países da Cortina de Ferro, os SS-20, apontados às principais capitais europeias. A NATO convocou uma cimeira de urgência para o seu quartel-general em Bruxelas e eu estive lá a cobrir a reunião para a televisão portuguesa. Foi a célebre reunião em que milhares de manifestantes, vindos de vários pontos da Europa, gritavam “better red than death”, instando os dirigentes da ­Aliança a não responderem à ameaça soviética. Eu, porém, torcia intimamente para que respondessem, e foi o que fizeram: a instalação recíproca dos Cruises e Pershings II americanos apontados ao Leste não só fez re­cuar a ameaça iminente como, a prazo e em consequência, conduziria à implosão da URSS. Gosto de recordar este episódio porque há quem se esforce para nos convencer de que agora estamos exactamente na mesma situação. Mas é falso: primeiro, já não existe a União Soviética, mas sim a Rússia — que, mesmo que alimente veleidades imperiais, não se move por ideologia, mas por interesse nacional, o que é mais racional. Em segundo lugar, a NATO tem hoje 32 e não 12 membros e deixou há muito de ser uma organização militar estritamente defensiva para passar a ser o longo braço armado do cerco à Rússia. E, finalmente, em 1979 os russos tinham-nos na mira de novos mísseis nucleares de longo alcance, enquanto hoje o que leva o primeiro-ministro polaco a declarar que estamos à beira da Terceira Guerra Mundial foram 19 drones, de um total de 450, que, num ataque à zona ocidental da Ucrânia, ultrapassaram a fronteira e caíram no lado polaco, danificando um telhado de uma casa e um tejadilho de um carro. Um “teste”, uma “provocação” ou, melhor ainda, um “ataque”, como logo o classificaram todos os dirigentes nacionais da NATO, o seu secretário-geral e a imprensa que desde a invasão da Ucrânia os segue acriticamente, e que é quase toda. Obviamente, a explicação de um mero erro de cálculo não podia convencer quem se esforça para nos convencer todos os dias de que estamos à beira da guerra e que, se não nos endividarmos perante as empresas de armamento americanas, Putin passará o próximo Verão, não na Crimeia, como Tchékhov e tantos outros russos célebres, mas na Côte d’Azur ou na Comporta.

Assim lançados na sua velada de armas, os nossos dirigentes ocidentais mergulharam numa histeria de declarações, sanções, exclusões do espaço aéreo, convocação urgente do Conselho de Segurança da ONU e dos embaixadores russos nas suas capitais para “explicações”— que jamais seriam aceites. O nosso Paulo Rangel saltou logo na dianteira, convocando o embaixador russo em Lisboa para se ir explicar às Necessidades, no que eu imagino que tenha sido uma eloquente conversa: “Sr. embaixador, vocês quiseram atacar a Polónia para quê?”; “Bem, sr. ministro, nós não quisemos nem atacámos a Polónia”…; “Terá sido, sr. embaixador, a preparação para a invasão em grande escala da Europa?”.

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Na véspera, por infeliz coincidência, Israel tinha repetido uma operação inaudita em termos de lei internacional: tinha bombardeado a capital de um país terceiro para matar no seu solo inimigos internos que perseguia. Com a agravante de os alvos serem os mesmíssimos negociadores do Hamas com quem era suposto estar a tentar chegar a um acordo de paz para Gaza e de o país agredido ser o país anfitrião das negociações e a que Netanyahu passou a chamar um país que “alberga terroristas”. Todos os dias, aliás, numa televisão em frente de si, os poucos repórteres de imagem palestinianos que ainda não foram mortos — e os únicos que Israel não pode impedir de lá estarem — mostram aos nossos estimados dirigentes ocidentais torres de habitação a serem destruídas como no 11 de Setembro em Nova Iorque, hospitais e acampamentos a serem bombardeados, crianças esfaimadas a serem mortas a tiro quando querem arranjar comida. Mas, com excepção de Espanha e de Pedro Sánchez, eles não vêem nada, fazem-se de mortos. Pior: nos Estados Unidos da América expulsam-se estudantes, professores, funcionários públicos ou jornalistas de televisão que mostrem alguma espécie de solidariedade para com os palestinianos; em Inglaterra prendem-se centenas de manifestantes contra o genocídio de Gaza; na Alemanha cancelam-se todos os que ousem condenar o maior crime a que estamos a assistir neste século. Assim vão as democracias ocidentais de referência. Assim se comportam, como coniventes com a loucura assassina de Israel, os que nos querem antes arrastar para uma guerra terminal com a Rússia por causa de uns drones que falharam o alvo. Sim, Putin é um assassino, não há qualquer dúvida sobre isso, mas Netanyahu é bem pior, em quantidade e em ostensiva indiferença; sim, a invasão da Ucrânia é ilegítima e intolerável, mas tudo o que se passa na Palestina desde há décadas é bem mais grave e insuportável. E há — eu pelo menos acredito — outra diferença fundamental: querendo, a Europa poderia conseguir o fim da guerra da Ucrânia, mas o fim do genocídio em Gaza duvido. O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas. Mas, descuidando-se, arriscam-se a ver o início de uma guerra nuclear, não por causa da Rússia na Ucrânia, mas por causa de Israel com todos à sua volta.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia