Uns têm a fama, mas outros têm o proveito!

(João Paulo Santos, in Facebook, 13/05/2022)

Até agora, os únicos que utilizaram armas atómicas, e sem quaisquer preocupações relativas aos seus efeitos nefastos, foram os EUA!

A Finlândia, até ao momento, tem-se mantido neutral e, que eu saiba, tem corrido tudo bem!

Recentemente e já depois da invasão da Ucrânia, a NATO foi fazer exercícios militares, com simulações com armas nucleares, para a Finlândia, ou seja, nas barbas da Rússia!

Mas, com certeza, muitos terão uma justificação para a NATO ter realizado esses exercícios num país que não integra essa organização!

E, claro está, que considerarão que isso não consistiu em qualquer provocação!

É como aqueles indivíduos que vão para a porta dos empregos das esposas dos árbitros ou para a porta das escolas dos filhos dos mesmos e não estão a provocar ninguém, nem a intimidar ninguém, porque apenas estão no seu legítimo e democrático direito de passearem onde muito bem entenderem!

E, cercarem a Rússia com uma série de bases da NATO, também não constitui qualquer provocação!

Aliás, se os vizinhos desses, que não veem qualquer acto provocatório, começassem a instalar armamento nas suas casas e a direcioná-lo para a casa deles, estes, estou convicto, que considerariam esse acto perfeitamente amistoso, porque apenas se queriam defender de uma eventual invasão de propriedade alheia da sua parte!

Quanto à Finlândia ter a liberdade de aderir à NATO, como se costuma dizer a nossa liberdade termina onde começa a dos outros e, por vezes, a liberdade tem limitações, em defesa de um interesse maior (vejam-se as limitações impostas à Alemanha, para defesa da Paz na Europa e no Mundo)!

Ora, o interesse da manutenção da Paz deve prevalecer sobre esse direito da Finlândia aderir à NATO, porque pode pôr em causa essa mesma Paz, visto que tal adesão pode ser considerada como um acto provocatório por parte da Rússia!

Claro está que muitos dirão que isso é uma desculpa, que a Rússia não tem o direito de exigir que a Finlândia se mantenha neutral e esta última tem todo o direito e liberdade de aderir à NATO!

Mas assim sendo, por que é que não se aplica esse direito e essa liberdade a todos os Estados soberanos?

Sim, por exemplo, por que é que Estados soberanos no continente americano não podem instalar bases militares da Rússia?

Por que é que os EUA não aceitam que a Rússia instale qualquer base militar num país do continente americano?

E atenção, nem estamos a falar nas barbas dos EUA, ou seja, num país vizinho como, por exemplo, o México!

Quantas bases da Rússia existem no continente americano?

E quantas bases chinesas existem nesse continente?

Então os países do continente americano não têm a liberdade de estabelecer relações de cooperação política, económica e militar com quem muito bem entenderem?

E quantas bases da NATO, subentenda-se dos EUA, existem na Europa?

Então o princípio de que os Estados soberanos têm todo o direito e a liberdade de decidirem o seu futuro só se aplica aos países que estão alinhados com os EUA?

Então a Rússia não pode ser contra a adesão da Finlândia à NATO, que levará à instalação de mais uma base militar num país que faz fronteira com ela, mas os EUA já têm voto na matéria e já têm o direito de exigir, não só aos países que fazem fronteira consigo, mas a todos os outros do continente americano, que não instalem qualquer base Russa?

E quem diz russa, diz chinesa, japonesa, paquistanesa, indiana, ou seja, de qualquer país não-alinhado com os EUA!

Sinceramente, este conceito de liberdade, está muito distorcido, porque não tem em conta outro princípio fundamental, o da igualdade!

Mas, pelos vistos, para alguns, quando o sol nasce, não é para todos!

Alguns, aquilo que permitem aos EUA, já não permitem à Rússia, em mais uma manifestação completamente distorcida do princípio da igualdade!

Quem é católico e cristão devia ser o primeiro a nunca se esquecer da ética da reciprocidade, também chamada regra de ouro ou regra áurea, que é uma máxima moral ou princípio moral que pode ser expressa como uma injunção positiva ou negativa:

“Cada um deve tratar os outros como gostaria que ele próprio fosse tratado” (forma positiva);

“Cada um não deve tratar os outros da forma que não gostaria que ele próprio fosse tratado” (forma negativa).

Quando esta velha máxima é colocada na gaveta, gera injustiças e indignação e, por regra, é o início de problemas ou de conflitos, porque, como já dizia o saudoso Mário Soares, todos têm direito à justa indignação!

Realmente, não há argumentos para que os EUA tenham um regime de excepção e de privilégio em relação aos outros países!

Mas é verdade, os EUA são os bons e os russos, os chineses e muitos outros são os maus, ou seja, os EUA são os polícias e os outros são os ladrões!

Portanto, como os EUA são os polícias do mundo, todas as suas actuações são positivas e benéficas e as actuações de todos os outros, como são ladrões, são negativas e maléficas!

E os EUA, como são os polícias do mundo, mesmo contra a vontade da maioria dos países, têm carta-branca para actuar quando quiserem e como quiserem, mesmo sem mandato da ONU, tal como sucedeu no Iraque!

Portanto, no Iraque, a ONU não mandatou os EUA para invadi-lo, mas mesmo assim estes fizeram-no, com o pretexto da existência de armas químicas, que se veio a comprovar que não existiam, como sempre afirmara Saddam Hussein e os inspectores da ONU que se deslocaram ao local!

Claro que todo o pretexto tem um objectivo subjacente e todos sabemos qual foi!

O da apropriação ilegítima dos recursos naturais do Iraque, por parte dos EUA, que passou a deter toda a produção petrolífera!

Na persecução desse seu objectivo encapotado, os EUA provocaram milhares e milhares de mortos, em número muito superior e incomparável com os mortos na Ucrânia!

Os EUA destruíram um país, cometeram imensos crimes de guerra e inúmeras atrocidades!

Nessa altura, ninguém ficou indignado com a invasão ilegítima dos EUA?

Ninguém ficou indignado com a morte de milhares de pessoas, nomeadamente, de civis, incluindo milhares de crianças?

Ninguém ficou indignado com a destruição de um país?

Ninguém ficou indignado com a apropriação ilegítima, por parte dos EUA, do recurso natural precioso do Iraque, o seu petróleo?

Ninguém ficou indignado com os crimes de guerra e as atrocidades cometidas pelos EUA?

Ninguém quis levar os responsáveis por esses crimes e essas atrocidades ao Tribunal Penal Internacional para serem julgados?

É verdade, os EUA não aceitam a jurisdição desse Tribunal, onde querem que todos sejam julgados e condenados, mas não admitem que os seus cidadãos sejam lá julgados!

Eis mais uma das violações grosseiras do princípio da igualdade e da ética da reciprocidade!

Ninguém defendeu a aplicação de sanções aos EUA?

Ninguém afirmou que o Presidente dos EUA era um assassino e que os EUA tinham ideias expansionistas e predadoras?

A imprensa ocidental não ficou indignada com os EUA?

Muitos, sendo incapazes, de reconhecer esta realidade e de a justificar, têm a distinta lata de afirmar o seguinte: “Mas a invasão passada do Iraque não pode justificar a invasão presente da Ucrânia”!

Que hipocrisia!

É verdade que uma invasão não pode justificar outras!

É verdade que um comportamento incorrecto não pode justificar outros.

Mas que legitimidade ou autoridade moral tem quem invadiu, e continua a invadir, ou quem teve, e continua a ter, comportamentos incorrectos para criticar quem invade ou quem tem comportamentos incorretos?

Lá voltamos à ética da reciprocidade, como se pode exigir dos outros aquilo que não se exige de si mesmo?

Acresce que, a seguir à invasão do Iraque, em todos os mandatos de Presidentes dos EUA, com a honrosa excepção do mandato de Donald Trump, verdade seja dita, os EUA invadiram/bombardearam vários Estados soberanos e continuam a fazê-lo actualmente e a apoiar outros que o fazem!

Os EUA intervieram na Sérvia, no Afeganistão, na Líbia, na Síria e apoiam a actuação de Israel na Palestina e da Arábia Saudita no Iémen!

Os EUA, esses grandes defensores dos direitos humanos, têm as suas mãos manchadas de sangue, pelos milhões de mortes causadas, directa ou indirectamente, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria, na Sérvia, na Palestina e no Iémen, isto para não recuar no tempo antes da invasão do Iraque, basta lembrar toda a actuação dos EUA nos Países sul americanos, nomeadamente, no Chile, em que apoiaram a ditadura e os milhares de mortos causados pelo ditador Pinochet!

Mas em relação aos EUA, os paladinos da defesa dos direitos, liberdade e garantias e da defesa dos direitos humanos não se indignam, nem exigem a aplicação de sanções!

Não defendo a invasão da Rússia, embora não me fique pela constatação das consequências e procure analisar as suas causas, mas indigna-me e revolta-me esta dualidade de critérios e esta falta de ética da reciprocidade, de quem julga, subjectivamente, em função dos protagonistas e não, objectivamente, em função dos actos por eles praticados!

Para estes, os actos são bons ou maus, não em si mesmos, mas em função de quem os pratica!

Cristo expulsou os vendilhões do templo que, ao contrário do que se quer fazer crer, não eram simples vendedores!

Na verdade, os vendilhões eram pessoas respeitáveis e importantes da época, que ninguém ousava pôr em causa, mas que Cristo pôs, por serem uns verdadeiros hipócritas!

E, se Cristo cá voltasse, expulsaria, novamente, os vendilhões, os falsos profetas, os fariseus e os lobos vestidos com pele de cordeiro dos tempos modernos, que não obedecem à ética da reciprocidade, que não se regem por princípios, valores e causas, mas apenas pelos seus interesses pessoais, não olhando a meios para atingi-los, porque para eles os fins justificam os meios, estilo “América First” e os outros que se fod..!


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Israel tem o direito de existir?

(Alexandre Guerreiro, in Publico, 18/05/2021)

É tempo de a comunidade internacional decidir de uma vez por todas o futuro do conflito israelo-palestiniano e impedir que se arraste por mais gerações: a única solução exequível para a paz só pode passar pelo reconhecimento oficial da Palestina como Estado soberano e represálias sólidas contra Israel.


(Publico este texto, que já é de 2021 por duas razões: a) Pela sua atualidade tendo em conta o assassínio recente por Israel de uma jornalista e o ataque subsequente ao próprio funeral da vitima; b) o facto de, provavelmente, se fosse hoje, o Publico não o publicaria, devido à histeria reinante na comunicação social censurando tudo o que possa “beliscar” a imagem dos EUA e dos seus “protegidos”.

Estátua de Sal, 14/05/2022)


A recente sucessão de ataques de Israel contra a Faixa de Gaza voltou a concentrar as atenções da comunidade internacional para um problema discretamente alimentado pelas potências europeias desde a I Guerra Mundial e formalmente debatido pela ONU desde 1947, quando a Assembleia-Geral adoptou, por maioria simples e através da Resolução 181 (II), o relatório da Comissão Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP). Saliento a importância deste documento pelo facto de ter sido através dele que foi proposta a partição da Palestina e a consequente criação de dois Estados (um árabe e um judaico), bem como a definição de um regime especial para a cidade de Jerusalém.

Quando o Conselho de Segurança adoptou posteriormente a Resolução 69 (1949) que reconheceu Israel como um “Estado amante da paz, que está capacitado para cumprir as obrigações consignadas na Carta”, a ONU deu o primeiro passo oficial no sentido de reconhecer Israel como Estado soberano, procurando, desta forma, impor a legalidade de um projecto jurídico-político num território que durante séculos havia estado sob o domínio muçulmano.

Na prática, a solução jurídica da então “nova ordem mundial” trazida pela recém-criada ONU constituiu uma forma alternativa de conquista territorial e reconhecimento de soberania através da legalização da colonização. Justifica-se, numa primeira nota, sublinhar que o Estado de Israel foi um projecto fiel à receita que inspirara ao longo dos anos anteriores novos Estados no Médio Oriente, como o Iraque, o Líbano e a Síria.

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Todavia, ao contrário destes – cuja criação assentou em motivações estritamente geopolíticas das potências ocidentais e ignorou as características socioculturais e religiosas das comunidades que povoavam os respectivos territórios –, Israel funcionou como tubo de ensaio de formação de um Estado a partir de um conceito de nação discutível e com base na crença de que os judeus têm o direito histórico ao território palestiniano. Na prática, a génese do argumento em favor da criação do Estado de Israel não difere da natureza que inspirou organizações como o Estado Islâmico a alimentar uma agenda expansionista de conquista territorial: a recuperação das antigas possessões muçulmanas e que consideram ser historicamente islâmicas.

Assim, as acções desenvolvidas durante décadas por personalidades pró-sionistas junto de representantes políticos ocidentais tiveram como consequência o recurso ao Direito Internacional como forma de provocar alterações ao curso das dinâmicas naturalmente desenvolvidas ao longo de séculos e que justificaram a transferência do exercício da soberania sobre um dado território entre judeus, cristãos e muçulmanos.

Volvidos 72 anos desde a adopção da Resolução 69, parece evidente que, apesar do não-reconhecimento oficial por parte de um grupo significativo de Estados, Israel consolidou a sua existência como Estado soberano e não pode ser questionada a sua existência. Será mesmo inconcebível e inexequível uma qualquer solução para o conflito que não reconheça Israel como Estado. Porém, é importante não esquecer que, em Direito Internacional, nenhum Estado, enquanto entidade jurídico-política, tem um “direito de existir” por si só: os povos é que têm o direito à autodeterminação e o chamado “direito sagrado à paz” (como proclama a Declaração dos Direitos dos Povos à Paz).

É aqui que entram os direitos do povo palestiniano. Primeiramente, porque o direito natural em que os sionistas se apoiam para justificar a formação e o reconhecimento do Estado de Israel há muito deixou de ter uma natureza reconhecida como suficiente para merecer uma tutela jurídica superior face ao direito à autodeterminação e à paz de terceiros. Depois, porque é impossível conceber um sistema em que quem povoa e domina um dado território durante séculos possa ser condicionado ou despojado do seu direito a existir enquanto Estado para se favorecer a concretização de uma autodeterminação que se formou apressada e artificialmente através de elevados fluxos migratórios organizados e inspirados por uma missão de recuperação do território palestiniano.

Falamos, portanto, de colonização, em concreto de uma colonização judaica cuja violência está sobejamente documentada pela forma como se impôs no terreno para acelerar o crescimento e a afirmação global do Estado de Israel, o que incluiu atentados terroristas, a obtenção de influência em Estados com poder de decisão e a emergência da Doutrina Sharon com o consequente Plano Yinon. Por tudo o que tem sucedido desde 1948, as notícias que nos chegam sucessivamente sobre as relações entre Israel e Palestina não permitem olhar para Israel como “Estado amante da paz, que está capacitado para cumprir as obrigações consignadas na Carta”. Israel não cumpre as obrigações consignadas na Carta nem as decorrentes de costume ou tratados internacionais, uma vez que insiste em cometer crimes no seu território, na Cisjordânia e noutros Estados da região.

Neste quadro, além do processo que enfrenta no Tribunal Penal Internacional e das execuções selectivas conduzidas através de acções encobertas contra quadros políticos, militares e académicos de Estados que Israel entenda constituírem uma ameaça à sua existência, é inegável o apartheid instituído contra a população árabe, o que constitui um crime contra a humanidade à luz do Direito Internacional. É também de assumir que o facto de a Palestina já ter alcançado a qualidade de Estado Não-Membro Observador da ONU e Estado Parte no Estatuto de Roma permite qualificar a ocupação e os ataques militares israelitas como acto de agressão e ainda a política de colonatos, no 6.º parágrafo do artigo 49.º da IV Convenção de Genebra (1949), como crime de guerra. Finalmente, os ataques deliberados contra infra-estruturas e meios de órgãos de comunicação e contra áreas onde se encontram refugiados e deslocados internos não oferecem dúvidas quanto ao facto de constituírem crimes de guerra por serem intencionalmente dirigidos contra alvos não militares.

No final, num contexto evidente de ocupação e colonização de um Estado soberano de facto como é a Palestina, mesmo os mais conservadores que se recusem a reconhecê-lo não podem ignorar o conjunto de resoluções adoptadas pela Assembleia-Geral da ONU nas décadas de 1960 e 1970 e que expressamente excluem a ilicitude no recurso a “todos os meios necessários” à disposição dos povos “contra as potências coloniais”. Na prática, mesmo que a Palestina não fosse um Estado soberano, seria sempre reconhecido ao seu povo o direito inerente à legítima defesa como se de um Estado se tratasse, pelo que o recurso às armas contra Israel seria sempre legítimo e lícito.

Por tudo isto, é tempo de a comunidade internacional decidir de uma vez por todas o futuro do conflito israelo-palestiniano e impedir que se arraste por mais gerações: a única solução exequível para a paz só pode passar pelo reconhecimento oficial da Palestina como Estado soberano e represálias sólidas contra Israel, o que teria sempre de incluir a responsabilidade criminal dos altos responsáveis por crimes internacionais cometidos contra a população árabe da região.


O autor é Doutorado de Direito Internacional Público e Analista de Justiça e Segurança da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Autor dos livros “A Resistência dos Estados Africanos à Jurisdição do Tribunal Penal Internacional” e “O Islão, o Estado Islâmico e os Refugiados: quebrar mitos e desvendar mistérios”


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Os bem informados

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/05/2022)

Miguel Sousa Tavares

Os bem informados tinham-nos avisado de que em 9 de Maio, no discurso do Dia da Vitória, Vladimir Putin iria anunciar, cumulativamente ou em alternativa, as seguintes coisas: a vitória militar na Ucrânia, a mobilização geral com vista à vitória, a declaração formal de guerra à Ucrânia ou — o mais assustador de tudo — a ameaça de utilização de armas nucleares para garantir a vitória. Verdade se diga que as suas previsões não se fundamentavam em nada que Putin ou os russos tenham deixado antever, mas sim nas suas particulares fontes e privilegiadas intuições.

E em 9 de Maio, na Praça Vermelha, com o habitual aparato mas menos soldados e sem força aérea, Putin fez tudo ao contrário das doutas previsões dos bem informados. Chamou à colação duas das batalhas históricas dos russos contra invasores externos, para lembrar que as batalhas determinantes da história da Rússia não foram para invadir território alheio mas sim para repelir invasões no “solo sagrado” da “Mãe Rússia”. E, deixando de fora qualquer referência aos 26 milhões de mortos russos na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi, sustentou a invasão da Ucrânia como uma “acção preventiva e sem alternativa”, fundamentada num argumentário em parte já conhecido — o cerco da NATO nas fronteiras da Rússia e a ausência de resposta às propostas de Moscovo para uma solução mútua de segurança — e noutra parte desconhecido e por provar — que a Ucrânia estava a tentar dotar-se de armamento nuclear. Aliás, no capítulo do nuclear — onde tanta especulação e tantos temores tinham sido avançados, e com alguma razão —, Putin, dirigindo-se directamente aos soldados, teve uma frase que, não sendo hipócrita, é merecedora de reflexão: “É vosso dever evitar que o horror da guerra global aconteça novamente.”

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Em suma, o tão temível discurso de guerra de Vladimir Putin desiludiu todos os bem informados e todos os que, a milhares de quilómetros de distância, sentados em frente ao conforto do seu computador e contemplando na televisão as imagens de destruição e morte na Ucrânia, escrevem como Pacheco Pereira: “Estou todos os dias mais belicista. Com isto não é possível nem entender, nem pactuar, a não ser por covardia, nem negociar. Isso mesmo, nem negociar.” E, por isso, no dia seguinte, de Nova Iorque a Londres, de Helsínquia a Lisboa, na ausência de um discurso de guerra de Putin, o “Clube NATO” já tinha uma resposta perfeitamente afinada e sincronizada: “Putin não teve um discurso de vitória para apresentar.” Seria uma oportunidade, então, para lhe propor a paz? Não, pelo contrário. Foi uma oportunidade para o que Lloyd Austin, o secretário da Defesa americano, anunciou serem os objectivos da NATO na guerra da Ucrânia: enfraquecer a Rússia até ao ponto de a deixar impotente. E se Putin, aparentemente, excluiu o recurso à arma nuclear, tanto melhor, a guerra é grátis para a NATO. Só a Ucrânia é que paga.

Aliás, a guerra não só é grátis como é um excelente negócio para a NATO: vende armas a todos os membros, que agora não podem negar-se ao esforço de rearmamento, acrescenta novos membros e nova geografia, ganha nova razão geoestratégica sobre um cadáver anunciado, testa em campo de batalha, e não apenas em manobras de rotina, as suas capacidades militares e de armamento e descobre, com volúpia, as fraquezas do inimigo russo. Tudo graças ao erro de avaliação e à soberba de Putin e ao sacrifício dos ucranianos.

No mesmo dia 9 de Maio, Zelensky resolveu responder à parada da Praça Vermelha desfilando sozinho numa das principais avenidas de Kiev. A cena foi patética: vestido com o habitual uniforme militar, o herói de nenhuma batalha travada, o Churchill da Ucrânia, pop star de todos os Parlamentos e descrito como um génio da comunicação, dizia a Putin que em breve iria ter dois dias da vitória para celebrar contra nenhum do russo. Há um mês, Zelensky desdobrava-se em ofertas de negociações, dizia já ter abdicado da Crimeia e da NATO e acusava o Ocidente de estar a prolongar a guerra à custa da destruição da Ucrânia. Hoje mudou radicalmente: diz que não cederá nem um centímetro de território, que está a lutar contra nazis e que só a vitória lhe interessa. O que mudou, entretanto, foi que a NATO o convenceu de que, com o apoio que não lhe faltaria, ele iria derrotar os russos e entrar para a História como o homem que venceu o Exército Vermelho, mesmo que à custa da destruição da Ucrânia. Um grande líder patriótico dirige a resistência do seu povo a uma invasão externa — e isso Zelensky soube fazer. Mas também sabe negociar quando percebe que é melhor para o seu povo um acordo com o invasor do que a glória pessoal de uma hipotética vitória militar sobre ele. E isso Zelensky já deixou de estar interessado em fazer. Dir-me-ão que Putin também não, e eu estaria de acordo até segunda-feira passada. Mas, se é possível ler entre linhas, o discurso da “não-vitória” de Putin talvez tenha mostrado um líder cansado de uma guerra que o arrasta cada vez mais para um beco sem saída. Já sucedeu antes no Afeganistão, e a então URSS retirou-se.

O problema também é que, neste momento, Zelensky é prisioneiro da imagem que o Ocidente criou dele, a de um herói da liberdade, numa sociedade e em tempos sem heróis a sério e com heróis instantâneos, prontos a consumir. Políticos medíocres, sem nenhuns horizontes além das próximas eleições, como Boris Johnson, encostam-se a Zelensky vegetando na sua boleia, da mesma forma que a NATO enfrenta a Rússia à boleia da Ucrânia. E isso é facilitado por uma coisa que já antes aqui escrevi e que tem passado tranquilamente face à indiferença geral: estamos perante a mais unilateral cobertura mediática de um conflito a que alguma vez assisti. Não culpo por isso directamente a imprensa ou os jornalistas, que relatam o que vêm e o melhor que podem, cumprindo a sua missão de denunciar o horror de uma guerra e o estendal de morte e destruição que a Rússia levou à Ucrânia. A questão é que eles estão apenas junto de um dos lados e reportando apenas aquilo que esse lado deixa e só depois de as coisas acontecerem: não assistem aos combates nem aos invocados massacres, não falam com o outro lado nem têm acesso à sua versão do mesmo acontecimento. E é sobre isso que depois os “analistas” e os “especialistas” extraem as suas conclusões, sempre de sentido único.

Um bom exemplo disso é o que se passou com os civis encurralados com os militares na fábrica Azovstal, em Mariupol. Durante dois meses foi-nos contado que mais de 1200 civis, mulheres e crianças, estavam refugiados nos subterrâneos da Azovstal, impedidos de sair pelos russos, que violavam sistematicamente todos os acordos de evacuação estabelecidos, incluindo os propostos pelos próprios russos. Ninguém nunca contestou a versão ucraniana e ninguém no terreno a confirmou. Mas quando António Guterres conseguiu colocar pessoal da ONU em Azovstal, em dois ou três dias, como que por milagre, todos os civis que quiseram foram evacuados sem qualquer incidente. A pergunta é: por que razão nunca alguém levantou a hipótese de os civis estarem a ser retidos pelos próprios militares do Batalhão Azov, que os usou como escudo, tentando assim garantir uma coisa impossível na guerra — saírem em liberdade juntamente com os civis sem terem de se render? O mesmo aconteceu em relação às incansáveis imagens de destruição de edifícios civis bombardeados pelos russos e às infindáveis entrevistas aos sobreviventes civis desses bombardeamentos. As imagens são tão revoltantes como as de qualquer outro conflito, como no Iémen ou na Síria, só que aqui, em maior escala e diariamente filmadas por centenas de jornalistas, transmitem uma narrativa de absoluto caos e de destruição quase sem precedentes. Em contrapartida, são escamoteadas quaisquer imagens dos alvos militares onde se sabe que os russos têm concentrado o grosso dos seus bombardeamentos, de modo a passar a ideia de que o alvo é indiscriminado e atinge sobretudo civis. E, todavia, segundo os números divulgados pela ONU em 9 de Maio, morreram na Ucrânia, ao fim de 75 dias de guerra, 3381 civis, embora estes números possam vir a ser “consideravelmente maiores”. Mas sabem quantos civis morreram no bombardeamento aéreo de dois dias dos Aliados a Dresden, durante a II Guerra Mundial? 22 mil. E em Hamburgo 50 mil. E 100 mil em Hiroxima e 70 mil em Nagasáqui, só no primeiro dia após despejada a bomba atómica, sem que em nenhum caso se tenha falado em “crimes de guerra” ou em “genocídio”, como agora se fala a propósito dos mortos civis na Ucrânia. Sendo que em Dresden bombardeou-se deliberadamente o centro da cidade, com o objectivo declarado de atingir a “força de trabalho alemã” — ou seja, as mulheres, visto que os homens estavam na guerra. Aqui, na guerra da Ucrânia, confunde-se o horror que qualquer guerra é com o horror particular que se pretende atribuir a esta, como se houvesse guerras limpas em que só morrem combatentes.

Nada disso torna a invasão e a guerra que Putin levou à Ucrânia mais justificável ou menos condenável. Esta é, como disse Charles Michel, uma guerra do século passado, que julgávamos já não ser possível no século XXI. Porque acreditávamos que existiam suficientes mecanismos internacionais capazes de a evitar, assim houvesse vontade. Mas esses mecanismos falharam e continuam a falhar, como está à vista. E, se há um só culpado pela invasão, há mais culpados pela continuação da guerra, e a desinformação, a informação truncada, incompleta ou unilateral é a sua principal arma. Um dia saberemos a história toda.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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