O «Dia da Europa» esconde a ameaça nazifascista 

(José Goulão, in AbrilAbril, 12/05/2025)


«Não os 80 anos da derrota do nazifascismo, mas os 75 anos de uma chamada Declaração Schuman, por eles considerada o primeiro passo no processo de integração europeia»

Os governos da União Europeia limitam-se a assinalar a derrota hitleriana em cerimónias burocráticas e restritas das suas desclassificadas classes políticas e nas quais o povo não cabe nem poderia caber. E fazem-no com zero de convicção e 100% de História falsificada.


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O dia 9 de Maio não significa o mesmo para todas as nações da Europa. O que poderia ser surpreendente, até mesmo absurdo, uma vez que a data representa a derrota do nazifascismo, o maior flagelo continental dos últimos séculos.

Dia 9 de Maio é o Dia da Vitória, a evocação de uma jornada de alegria incontida de todos os povos do continente europeu. Celebrações próprias de um acordar leve e aliviado depois de uma interminável noite de pesadelo. 

Essa alegria extravasou sem restrições, por momentos sem quaisquer manchas ou sombras nos rostos, apesar de quase todos os que celebraram a liberdade terem pelo menos um familiar morto ou ferido durante os seis anos de conflito; aos quais devemos acrescentar os três catastróficos anos da Guerra Civil de Espanha, primeira e sangrenta imagem carimbada pelo terrorismo nazifascista.

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Um mundo sem fascismo e sem escalada permanente

(João Gomes, in Facebook, 09/05/2026)


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As palavras de Putin durante as comemorações do 9 de Maio, evocando a Rússia como “barreira impenetrável” contra o nazismo, a russofobia e o antissemitismo, devem ser analisadas à luz da História e do atual contexto geopolítico, e não apenas através da leitura simplificada e emocional que domina parte do debate ocidental. Independentemente das divergências políticas ou diplomáticas, permanece um facto histórico incontornável: foi a União Soviética – e sobretudo o povo russo e os povos eslavos – quem suportou o maior peso humano e militar na derrota do Terceiro Reich.

Mais de vinte milhões de mortos, cidades destruídas e gerações inteiras sacrificadas moldaram profundamente a identidade russa contemporânea. Essa memória coletiva continua viva e explica por que razão a chamada Grande Guerra Patriótica ocupa um lugar central na visão estratégica e emocional da Rússia atual. Para Moscovo, a segurança nacional nunca é apenas uma questão militar; é também uma questão existencial e histórica.

Após o colapso da URSS, a Rússia procurou uma aproximação económica e política à Europa, apostando no comércio, na energia e na integração gradual com o espaço europeu. Contudo, ao longo das últimas décadas, consolidou-se em Moscovo a perceção de que o avanço da NATO para leste e a crescente pressão estratégica ocidental representavam um processo de cerco e contenção. É neste enquadramento que se justifica o atual conflito na Ucrânia, considerando-o uma resposta defensiva a ameaças que entende como fundamentais para a sua própria sobrevivência estratégica.

Pode-se discordar profundamente dessa interpretação, mas ignorar completamente a perceção russa apenas prolonga o impasse e afasta qualquer possibilidade séria de estabilidade europeia.

Também por isso, o simbolismo das comemorações deste 9 de Maio merece atenção. Ao contrário do que muitos esperavam num contexto de guerra aberta e forte confrontação diplomática, Moscovo optou por uma cerimónia mais contida e menos triunfalista do que em anos anteriores. A redução da escala militar e do tom de exaltação pode ser interpretada como um sinal político deliberado: apesar das mais de vinte rondas de sanções económicas, do isolamento promovido por parte do Ocidente e da continuação do conflito, a Rússia procura demonstrar que ainda existe espaço para reduzir tensões e evitar uma escalada irreversível.

Esse gesto não resolve o conflito, nem elimina responsabilidades de qualquer lado, mas revela que os sinais diplomáticos continuam a existir – ainda que discretos e frágeis. A questão central é saber se a Europa estará disposta a reconhecê-los e a agir com autonomia estratégica suficiente para privilegiar a estabilidade continental acima da lógica permanente de confrontação.

Ao mesmo tempo, permanece legítimo discutir a crescente normalização, em partes da Ucrânia, de figuras historicamente ligadas ao colaboracionismo nazi, como Stepan Bandera. Trata-se de um tema frequentemente instrumentalizado por ambos os lados, mas cuja existência não pode simplesmente ser apagada do debate público por conveniência política. Ignorar fenómenos extremistas quando servem interesses geopolíticos momentâneos é um erro histórico que a Europa já pagou caro no passado.

Este Dia da Vitória deveria servir, acima de tudo, para recordar que a paz europeia nunca foi construída apenas pela força militar, mas também pela capacidade de reconhecer limites, evitar humilhações estratégicas e compreender os receios históricos dos diferentes povos. Quando a memória da Segunda Guerra Mundial é usada apenas seletivamente, perde-se precisamente a lição mais importante desse conflito: nenhuma estabilidade duradoura nasce da escalada permanente, da demonização absoluta ou da incapacidade de diálogo.

Num tempo marcado por divisões profundas, sanções sucessivas e discursos cada vez mais agressivos, talvez o verdadeiro sinal de maturidade política esteja não em ampliar o confronto, mas em perceber quando o adversário, mesmo sem recuar totalmente, começa a abrir espaço para que a tensão diminua. E compete à Europa perceber esses sinais antes que o continente volte a pagar um preço demasiado alto pela incapacidade de construir equilíbrio e paz.

Os russos lembram-se da Grande Guerra Patriótica, os EUA não

(Larry C. Johnson, 08/05/2025, Trad. José Luís S. Curado in Facebook)


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No momento em que escrevo, são 22h15, hora do leste dos Estados Unidos. A guerra na Europa terminou oficialmente às 23:01 horas, hora da Europa Central, do dia 8 de maio de 1945. Em Moscovo, eram 00:01 horas, do dia 9 de maio de 1945. É por isso que os russos comemoram o dia 9 de maio, enquanto o Ocidente comemora o fim da guerra no dia 8 de maio.

Se perdeu o meu artigo, publicado na semana passada, “A grotesca mentira de Donald Trump sobre o papel dos EUA no teatro europeu na Segunda Guerra Mundial”, deixo aqui o link do artigo para sua conveniência. Dentro de poucas horas, mais de 100 milhões de russos vão reunir-se e marchar em memória dos seus antepassados que fizeram sacrifícios inimagináveis para derrotar o regime nazi de Hitler. Como observei no meu artigo (ver acima), os nazis, juntamente com os seus colaboradores romenos, italianos e húngaros, assassinaram entre 16 milhões e 19 milhões de civis russos.

Apenas um outro país sofreu baixas civis comparáveis… a China. De acordo com fontes académicas, cerca de 12 milhões de civis chineses morreram em resultado de ações militares japonesas, políticas de ocupação, massacres e fome e doenças induzidas pela guerra entre 1937 e 1945. Algumas fontes sugerem que o número total de mortes de chineses (incluindo civis e militares) pode chegar aos 20 milhões, sendo a grande maioria civis. Só o Massacre de Nanquim resultou na morte de pelo menos 100.000 a mais de 200.000 civis chineses e soldados desarmados em apenas algumas semanas, no final de 1937 e início de 1938.

Esta é uma das razões pelas quais o líder chinês, Xi Jinping, está em Moscovo. Tanto Putin como Xi compreendem que os invasores estrangeiros deixaram uma cicatriz permanente na psique cultural do povo russo e chinês… uma cicatriz que não é rapidamente apagada com o passar do tempo.

Nos EUA, a grande maioria das pessoas esqueceu o sacrifício que 189.577 soldados, aviadores e marinheiros americanos pagaram com sangue em batalhas no Norte de África, em Itália e no resto do teatro de operações europeu. Alguns preocupam-se, mas a maioria dos americanos não sabe de nada e continuou com as suas actividades normais hoje sem parar para reflectir sobre o fim da guerra na Europa. Se Donald Trump estivesse a falar a sério sobre honrar o sacrifício deles, deveria ter declarado o dia 8 de maio como feriado federal e ter realizado cerimónias no memorial da Segunda Guerra Mundial e no Cemitério de Arlington… Não fez nenhuma das duas coisas.

Gostaria de fazer uma pergunta aos meus concidadãos americanos, mas primeiro deixem-me definir os parâmetros. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a população dos Estados Unidos era de aproximadamente 130 milhões de pessoas. A título de comparação, a população da Rússia e da Ucrânia (onde se deu a maior parte das batalhas com os nazis) era de 150 milhões (110 milhões de russos e 40 milhões de ucranianos). Então eis a questão… Como teriam reagido os americanos depois de perderem 20% da sua população numa guerra com a Alemanha, e com os nossos aliados russos a iniciarem um programa no final dessa guerra que recrutou e contratou oficiais alemães como activos de inteligência? Isso irritar-los-ia? Isso fá-los-ia questionar as intenções da Rússia em relação à segurança nacional dos EUA?

Vista deste ângulo, temos uma perspectiva totalmente nova sobre o início da Guerra Fria. Porque foi isso mesmo que os Estados Unidos fizeram por cortesia da Operação Paperclip. A Operação Paperclip foi um programa secreto de inteligência dos EUA lançado em 1945 para recrutar cientistas, engenheiros e técnicos alemães — muitos dos quais trabalharam para a Alemanha nazi — e trazê-los para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Mas fizemos mais do que isso. A OSS, mais tarde substituída pela CIA, recrutou e geriu uma horda de antigos oficiais das SS especificamente pela sua experiência de espionagem da União Soviética.

Enquanto o povo russo se reúne a 9 de maio para recordar o enorme sacrifício dos seus pais, mães, avôs, avós e bisavós, recordam também que os Estados Unidos, apesar de serem aliados na guerra para acabar com Hitler, rapidamente mudaram de posição após a guerra e começaram a atacar a União Soviética. Eles lembram-se, nós não.

Fonte aqui.