2 de maio de 1945 – assim a Europa respirou de alívio

(João Gomes, in Facebook, 02/05/2026, Revisão da Estátua.)


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2 de maio de 1945. As forças soviéticas entram em Berlim. O regime nazi colapsa. A guerra na Europa aproxima-se do fim, após um dos conflitos mais devastadores da história humana.

Oitenta e um anos depois, a memória desse desfecho parece sujeita a uma forma inquietante de seleção. Na narrativa europeia contemporânea, o papel decisivo da União Soviética – e, por extensão histórica, da Rússia – na derrota do nazismo é frequentemente atenuado, relativizado ou, em certos casos, discretamente deslocado para a margem.

Não se trata de ignorar as contradições profundas do regime soviético. Trata-se, sim, de reconhecer que a história da Segunda Guerra Mundial não pode ser recortada segundo conveniências políticas do presente. Mais de 20 milhões de soviéticos morreram no conflito. Esse dado não é um detalhe estatístico: é uma dimensão central da destruição europeia e da vitória sobre o nazismo. Silenciar ou minimizar esse sacrifício não é apenas uma distorção histórica; é uma fragilização da própria inteligência diplomática europeia.

Quando a memória do esforço comum é fragmentada, o resultado não é neutralidade – é desequilíbrio. E esse desequilíbrio alimenta ressentimentos, reforça leituras ideológicas simplificadas e aprofunda ciclos de desconfiança que a Europa, repetidamente, parece incapaz de encerrar.

Na construção de novos alinhamentos geopolíticos, a Europa arrisca perder aquilo que deveria ser o seu fundamento mais sólido: uma relação honesta com a sua própria história, na sua totalidade e complexidade. Sem essa base, a diplomacia torna-se linguagem incompleta – e a paz, um exercício frágil de esquecimento seletivo.

Não se trata de alinhamentos automáticos com qualquer potência. Trata-se de algo mais exigente: a capacidade de sustentar uma memória histórica comum, mesmo quando ela é desconfortável. A paz duradoura não nasce da depuração do passado, mas da sua integração consciente no presente.

Como escreveu Yevgeny Yevtushenko: “O que é esquecido, repete-se. Mas o que é lembrado com raiva, também.”

II Guerra Mundial – 1 de setembro de 1939

(Carlos Esperança, in Facebook, 01/09/2025)


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Há 86 anos, Hitler invadiu a Polónia, apesar dos correligionários que aí tinha, e iniciou a II Guerra Mundial. O clima político e económico tinha semelhanças com o atual. As fronteiras e o «espaço vital», hoje trocados pelos mercados, foram detonadores de uma catástrofe em que, pela segunda vez, a Alemanha ganhou todas as batalhas e perdeu a guerra.

Dessa tragédia, do desvario belicista, dessa delinquência nacionalista, a História regista nomes sinistros: Hitler, Goebbels, Bormann, Himmler, Goering, Eichmann, Ribbentrop, Rosenberg e Rudolf Hess.

Hoje, 86 anos depois, parecem mais confiáveis os principais entusiastas da corrida ao armamento e mais generosa a justificação. Defender as fronteiras de um país invadido é bem mais aceitável do que pretender conquistar um território, mas o entusiasmo de dois alemães causa alguma perplexidade.

Friedrich Merz e Von der Leyen, o primeiro em nome da Alemanha, e a segunda no da UE, apoiam o país europeu invadido por outro igualmente europeu, e arrastam a Europa para um confronto que só acabará, como todas as guerras, pela capitulação de um deles, ou à mesa das negociações. E surpreende que, depois de três anos e meio de guerra, jamais tenham equacionado um plano de paz para negociar.

Quem apoiou a divisão da Jugoslávia e o ataque à Sérvia, para lhe amputarem o Kosovo, e se conformou com a ocupação de cerca de 37% do território e divisão do Chipre pela Turquia, certamente justificaria maior recato na defesa de uma causa, por mais justa que seja, com recurso à guerra.

A política externa da UE, ora confiada a Kaja Kallas, só beneficiou a Turquia e a China, dois países que são a antítese das democracias que nós defendemos. Não foi a Rússia, o País invasor da Ucrânia, que virou costas à Europa Ocidental, foi esta que a escorraçou para benefício geoestratégico dos EUA.

Agora, quando os EUA se desinteressam da guerra na Ucrânia, limitando-se a vender-nos armas para manter a guerra, ainda nos impõe tarifas sem reciprocidade e exige o sacrifício de 5% do PIB em detrimento dos apoios sociais.

E a senhora Von der Leyen, parece uma gladiadora a gritar ao imperador Cláudio, digo Trump, “Salve, César, aqueles que vão morrer te saúdam”.

O mundo está diferente e quando pensávamos que já não havia um país comunista, apenas ditaduras e democracias, vemos o neoliberal Trump a disparar tarifas e o “comunista” Xi Jinping, a defender o comércio livre! 😊

O que dói é ver a deriva belicista e o desvario de Trump sufragados pela UE e a China a ser a beneficiária da guerra na Europa, que destrói a UE e a confiança nos EUA.

Ontem assistimos ao tropismo da Índia para a China, a esquecer a rivalidade histórica, com o PM Narendra Modi a declarar que o problema das fronteiras estava resolvido.

Abandonámos o Brasil à vingança de Trump, provavelmente a vítima que não resiste a mais uma ditadura pró-americana, e assistimos ao regresso do obscuro regime da Coreia do Norte ao convívio da China, Rússia e Índia.

E a UE fica a persistir na guerra com o RU, o país satélite dos EUA que quis destruí-la.  A UE quis isolar a Rússia e isolou-se.

É de desconfiar da pressa e segurança com que a senhora Von der Leyen atribuiu à Rússia o ataque ao sistema de GPS no voo que a levou à Bulgária.

Sabemos como começam as guerras. Raios partam a sorte!

1 de setembro de 2025

No meio da hecatombe, uma história inspiradora

(Por José Rafael Trindade Reis, in Facebook, 21/05/2025, Revisão da Estátua)

Phyllis Latour.

(O mundo está a tornar-se um lugar cada vez mais inóspito e sombrio para os militantes da justiça e da igualdade, arautos de uma ética que abarque toda a diversidade humana por inteiro e por igual. Ele são guerras, ele são genocídios, ele são os fascismos germinantes, ele são os valores da civilidade espezinhados sem vestígios de arrependimento.

Assim, porque a realidade é o que é, só tenho nos tempos mais recentes publicado e trazido à colação histórias tristes. Não é o caso desta. Ainda não chegámos à situação degradante e degradada da Europa em 1944, mas admire-se a coragem de muitos que lutaram contra a besta nazifascista, nesses anos de chumbo.

Inspiremo-nos neles e enterremos a chama da desesperança. Recordando Manuel Alegre:

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

Estátua de Sal, 24/05/2025)


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Imagine isto: uma jovem de 23 anos, sozinha, saltando de um bombardeiro em pleno céu da França ocupada pelos nazis. O ano era 1944. O nome dela: Phyllis Latour.

Enquanto caía de paraquedas sobre a Normandia, ela carregava mais do que uma missão. Carregava a memória do padrinho assassinado pelos nazis. Ela queria vingança. Mas também queria libertar a Europa.

Treinada pela SOE britânica, Phyllis dominava:

 • Códigos Morse.

 • Rádios clandestinos.

 • Técnicas de espionagem dignas de ladrões profissionais.

 • E a arte de desaparecer sem deixar rasto.

Os homens enviados antes dela foram todos capturados e mortos. Mas Phyllis tinha uma arma que eles não tinham: ninguém desconfiaria de uma jovem franzina vendendo sabonetes de bicicleta. Durante 4 meses, fingindo ser uma simples camponesa, ela pedalou pelas estradas francesas, sorrindo para soldados alemães, enquanto secretamente enviava informações vitais para os Aliados.

Ela dormia nas florestas. Caçava a própria comida. Mudava-se constantemente para não ser capturada. Mas, o mais genial? Phyllis escondia os códigos secretos enrolados em pedaços de seda, guardados numa simples gravata de cabelo. Uma vez, quando foi detida e revistada, ela apenas soltou o cabelo… E os nazis não encontraram nada. Graças a ela, foram enviadas 135 mensagens codificadas guiando com precisão os bombardeios que abririam caminho para o Dia D.

Depois da guerra, Phyllis calou-se. Casou-se. Criou quatro filhos na Nova Zelândia. Eles só descobriram a verdade em 2000, por acaso, pela internet.

Em 2014, no 70º aniversário do Dia D, a França finalmente reconheceu a sua coragem: Phyllis recebeu o título de Chevalier da Legião de Honra.

Essa heroína extraordinária faleceu em 7 de outubro de 2023. Mas seu legado vive.

Phyllis Latour não foi só uma espia. Ela foi prova de que a bravura não tem rosto, nem gênero. É silenciosa, persistente e imortal.Que ela descanse em paz. E que o mundo jamais esqueça as mulheres que lutaram nas sombras para que hoje possamos viver na luz.