Trump pensa que o petróleo dos EUA é a sua força – mas é o seu calcanhar de Aquiles

(Tom Luongo, in Resistir, 13/06/2019)

As manchetes são abundantes sobre o aumento maciço na produção de petróleo de xisto (shale oil) nos EUA. Os sabichões que louvam a independência energética [dos EUA] consideram isso como uma grande vitória. Dentre eles inclui-se o presidente Trump. 

Isto seria assim se esse aumento na produção fosse construído sobre um terreno financeiramente estável. Mas não é o caso. A indústria da fracturação [hidráulica] (fracking) continua a sangrar enormes montantes de dinheiro. Como apontei num artigo anterior desta semana , ao explicar esta verdade inconveniente, em grande medida o retorno dos EUA à dominância na área da energia é um bocado de ar quente. 

O artigo de Nick Cunningham no Oilprice.com conta a história. 

A partir de 2019, a indústria prometeu maior vigilância no que se refere à disciplina de capital e ao retorno aos accionistas. Mas essa promessa agora está em perigo de se tornar mais um numa longa lista de objectivos não cumpridos. 

“Mais um trimestre, mais um jorro de tinta vermelha”, escreveu o Institute for Energy Economics and Financial Analysis, juntamente com o Sightline Institut, num relatório conjunto acerca dos ganhos no primeiro trimestre da indústria do xisto. 

O relatório estudou 29 companhias norte-americanas de xisto e encontrou um fluxo de caixa livre negativo combinado de US$2,5 mil milhões no primeiro trimestre. Isso representa uma deterioração em relação ao fluxo de caixa negativo de US$2,1 mil milhões do quarto trimestre de 2018. “Este deplorável desempenho do fluxo de caixa verificou-se apesar de um declínio das despesas de capital de 16% em termos trimestrais”, concluíram os autores do relatório. 

Esta falta de rentabilidade é mantida unicamente através de engenharia financeira e de um contínuo mercado altista do crédito estruturado nos EUA, devido às necessidades de os fundos de pensão terem um rendimento (yield) de 7,5% a fim de manterem seus pagamentos de benefícios definidos. 

Eles não são os únicos que alimentam este boom da fracturação, mas isto é um grande impulsionador tanto das acções americanas quanto do mercado de papéis comerciais. Esta é só mais uma das consequências da política de taxas de juros zero da Reserva Federal. 

Assim, por que é que isto é o calcanhar de Aquiles da política externa de Trump? Porque com a desaceleração da economia global, a produção interna dos EUA já está com um excesso de oferta (oversupply) maciço. Há um excesso de petróleo e gás tão profundo a garantir que os resultados dessas empresas não melhorarão, deixando-as à mercê dos credores. 

A boa notícia para elas, no curto prazo, é que provavelmente serão capazes de continuar no seu estilo Ponzi, porque o Fed começará a cortar as taxas de juros em Setembro. 

Mas do ponto de vista da política externa, Trump está a apostar na restrição da oferta de petróleo dos “competidores” a fim de tornar o petróleo dos EUA mais atraente. Há dois problemas com isso. 

Em primeiro lugar, outros países com custos de produção mais baixos podem manter o mercado em relativo equilíbrio, vivendo com pequenos lucros, mas no entanto lucros. 

Em segundo lugar, e ainda mais importante, o óleo de xisto dos EUA tem um limite superior na procura pois é demasiado leve para a maior parte das refinarias e requer misturas com matéria-prima mais pesada. Esta é a razão, por exemplo, porque as importações americanas de petróleo russo estão a subir rapidamente para alimentar as refinarias da costa do Golfo, privadas do petróleo venezuelano graças à tentativa de Trump de retirá-lo do mercado. 

Países como Venezuela e Irão podem e irão competir no preço. Eles podem e irão encontrar maneiras de contornar as sanções de Trump. Mais uma vez, a Rússia entra em cena para atender a um défice do mercado, desta vez com pagamentos por serviços de compensação através de bancos já sancionados pelos EUA. 

Com cada nova tarifa ou sanção sobre terceiros Trump prejudica ainda mais os produtores norte-americanos de todas as indústrias em relação a mercados estrangeiros. 

E os sauditas estão aprisionados nesta armadilha. Eles agora sabem que não podem expandir a produção porque a procura é muito fraca. De facto, em Maio cortaram a sua produção em 120 mil barris . Na medida em que têm a garantia de Trump que ficarão com a fatia de mercado perdida pelo Irão. 

Os preços estão em queda devido à acumulação de stocks, os quais significam uma procura frouxa e não uma oferta mais elevada. 

Além disso, a OPEP quer continuar os cortes de produção, mas a Rússia assinalou fortemente que não está interessada em acompanhá-los. Putin sabe que tem a Arábia Saudita na equação do preço porque o orçamento da Rússia valorizou o barril em US$40, ao passo que os sauditas precisam de um múltiplo disso. 

Assim, ele continuará a cravar uma cunha entre os sauditas e os EUA quanto à fatia do mercado de petróleo. Os sauditas não podem permitir-se perder nada ao passo que a Rússia pode aumentar a sua produção ou expandir o seu programa de troca petróleo por outros bens com o Irão. 

O que fará Trump? Sancionar a Rússia ainda mais? 

Uma economia global em contracção é uma receita para os baixos preços do petróleo que provocam bancarrotas em toda a área do xisto. É por isso que Trump exorta o Fed a cortar as taxas, para permitir que o fracassado Ponzi tenha um pouco mais de tempo para por o Irão de joelhos. 

Isto é o jogo da galinha que Trump está a jogar com a China, Rússia e Irão. Ele está a apostar em que o sofrimento a curto prazo provoque a capitulação. Eles estão a jogar o longo jogo fazendo com que se estenda. Há sempre soluções alternativas para atenuar esse sofrimento e, finalmente, tais soluções alternativas tornam-se o novo normal à medida que os hábitos das pessoas mudam. 

O presidente Putin entende que a Rússia pode efectuar grandes conquistas se jogar o jogo do polícia bom frente ao do polícia mau de Trump. 

A Rússia deixou claro ao secretário de Estado, Mike Pompeo e a Trump, directamente, que não negociará a presença do Irão na Síria por uma pequena concessão na Europa, apesar da nota conciliatória ter sido redigida diplomaticamente. 

Além disso, de qualquer modo Putin sabe que não pode confiar em que Trump mantenha ou implemente a sua palavra. Assim, nenhum acordo é possível sobre a miríade de questões entre eles. Por isso, a Rússia e a China apoiarão o Irão tão bem quanto puderem enquanto seguem seus próprios caminhos para fortalecer o seu relacionamento mútuo. 

Uma aliança chinesa-russa mais forte cria novos caminhos para que o capital se afaste das intromissões e ameaças de Trump. 

Fonte aqui


 

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Guerra na Venezuela

(Por Marcelo Zero, in Resistir, 10/05/2019)

A grande pergunta que todos se fazem no momento é se haverá ou não uma guerra na Venezuela. 

Bom, em primeiro lugar, é preciso considerar que os EUA já estão em guerra com a Venezuela. Uma guerra híbrida, não-convencional, mas uma guerra. 

Os EUA estão fazendo de tudo na Venezuela. Além do embargo comercial e financeiro , que já ocasionou a morte de pelo menos 40 mil pessoas, confiscaram ouro e outros ativos da Venezuela no exterior , promoveram atos de sabotagem que levaram a apagões , instituíram um títere ridículo (Guaidó) para tentar derrubar Maduro mediante um golpe ,articularam o isolamento diplomático e político do nosso vizinho , fazem pressão para que os militares abandonem o governo constitucional , promovem uma grande campanha de desinformação sobre a Venezuela para criminalizar Maduro e o regime bolivariano, etc. etc. 

A questão não é, portanto, se os EUA entrarão em guerra com a Venezuela, mas se a atual guerra híbrida escalará para uma guerra militar estrito senso. 

Para tentar responder a essa pergunta, temos de levar em consideração dois grandes fatores. 

O primeiro tange à nova geoestratégia dos EUA para América Latina. Eles querem implantar, a ferro e fogo, se necessário, a Nova Doutrina Monroe, segundo a qual a nossa região tem de ser, de novo, um espaço de influência exclusiva dos EUA. Um quintal. Um patio trasero, como dizem os hispânicos. 

Nesse novo cenário, não haveria lugar para países que tenham políticas externas independentes e relações mais aprofundadas com China e Rússia, por exemplo, rivais geopolíticos e geoeconômicos dos EUA. Assim, a derrubada do governo Maduro é essencial para a agenda dos EUA na região, pois Caracas tem hoje relações bastante estreitas com esses rivais dos EUA e pratica uma política externa muito independente, embora jamais tenha deixado de prover seu petróleo para o gigante norte-americano. Diga-se de passagem, o governo brasileiro de Bolsonaro, bem-treinado que é, já ameaça sair do BRICS e abandonar programas sino-brasileiros . 

O segundo fator diz respeito às divergências no governo dos EUA sobre o que e como fazer, em relação à Venezuela. 

Como no Brasil, há dois grandes grupos no governo dos EUA que têm opiniões distintas sobre esse e outros assuntos. 

Há o grupo dos ideólogos de extrema-direita, do qual fazem parte figuras sinistras como John Bolton (conselheiro de segurança nacional), Mike Pompeo (secretário de Estado), e o terrível Eliott Abrams (enviado especial para a Venezuela), entre outros. Embora mais sofisticados que o astrólogo da Virgínia [1] e os integrantes do Clã (qualquer coisa é), compõem um grupo extremado, um tanto delusional, gente que não tem contato muito estreito com a realidade. 

Pois bem, esse pessoal, tutti buona gente, neocons de pura cepa, quer uma intervenção militar na Venezuela. Bolton, em particular, maior ideólogo da Nova Doutrina Monroe, já demandou ao Pentágono cenários variados para a intervenção, desde bombardeios localizados, até invasão com tropas em terra. 

O problema, para ele, é que os militares do Pentágono, como os daqui, estão resistindo e advertindo Trump sobre os perigos de uma guerra na Venezuela, especialmente se esta envolver tropas em terra. 

A Venezuela é duas vezes maior que o Iraque e tem um terreno extremamente difícil para operações em terra, com selvas impenetráveis, pântanos (llanos), montanhas, etc. Enfim, um terreno ideal para uma guerra defensiva de posições táticas e de guerrilhas. Além disso, como já escrevi anteriormente, a Venezuela vem se preparando para este cenário desde 2006, com o Nuevo Pensamiento Militar. Mesmo no caso de uma derrota completa das forças regulares venezuelanas, a Milícia Bolivariana, que poderia reunir até 500 mil membros, oporia feroz resistência por todo o território da Venezuela. 

Não bastasse, os bolivarianos poderiam receber apoio logístico de China e Rússia, especialmente desta última, que desenvolveu cooperação militar estreita com a Venezuela. 

Além dessas questões militares operacionais, pesam também contra uma intervenção militar, notadamente contra uma invasão por terra, a falta de apoio político internacional. O Grupo de Lima , que congrega a direita sul-americana e os satélites dos EUA na região, rejeita a escalada militar, embora apoie entusiasticamente a guerra híbrida contra a Venezuela. Os europeus também preferem apostar apenas na guerra híbrida. 

Mas isso significa dizer que a transformação da guerra híbrida em guerra convencional está descartada? 

Não, não está. 

À medida que a “solução Guaidó” fracassa miseravelmente e não se investe numa solução negociada e pacífica, cresce a impaciência e o descontentamento dos neocons liderados por John Bolton. Há de se considerar que Bolton é um sujeito muito perigoso e influente, que tem um longo e inquietante histórico de manipulação de informações para fazer prevalecer suas teses. 

Parte de grupos a ele ligados [propala] a cretina “informação” de que os generais venezuelanos seriam controlados por “agentes cubanos”, repetida por oligofrênicos da nossa imprensa conservadora. O alvo de Bolton é o lobbyanticastrista, de enorme influência e Washington e decisivo no voto latino nos EUA. 

Trump, embora reticente em aprovar qualquer intervenção militar, confia muito em Bolton e encarregou-o de cuidar do tema. 

O presidente do America First e o resto que se dane não quer se envolver numa guerra que não poderia ganhar no curto prazo, mas também sabe que o atual cenário de fracasso e humilhação o está desgastando ante o eleitorado conservador. 

Na persistência crônica desse cenário de impasse humilhante, é possível que se opte por uma intervenção militar restrita a alguns bombardeios punitivos contra alvos militares e políticos selecionados. [2] 

Do ponto de vista logístico e militar, essa seria uma alternativa viável. A Venezuela está muito próxima dos EUA. Ademais, os EUA têm duas grandes bases militares bem próximas do território da Venezuela: Guantánamo (Cuba) e Soto Cano (Honduras). Os EUA também não teriam grandes dificuldades em usar instalações no Panamá, Colômbia ou, quem sabe, até no Brasil. O deslocamento de uma boa força naval até a costa da Venezuela também poderia se dar de forma muito rápida. 

A capacidade de a Venezuela resistir a tal ataque é limitada, mesmo com seus Sukhois SU-30 e seus mísseis S-300. O poder dos mísseis Cruise e dos aviões com tecnologia stealth é avassalador. Ademais, a Venezuela não tem expertise em guerra eletrônica. Uma vez destruído o sistema de comunicação militar, pouca coisa poderá se fazer. 

A decisão de se fazer ou não um ataque desse tipo dependerá da evolução das condições internas na Venezuela e dos efeitos esperados nos eleitores de Trump. Se o impasse político persistir, se abrirem fissuras nas forças venezuelanas e as condições econômicas continuarem a se deteriorar, e se os eleitores conservadores dos EUA começarem a ver com bons olhos uma ação mais firme, a hipótese de uma intervenção militar restrita, sem tropas em terra, pode não só se tornar factível, mas desejável. 

Bastaria preparar o terreno com uma operação de falsa bandeira, que resultasse em mortos e feridos atribuíveis ao “ditador” Maduro, para que tal ação possa ser “justificada”. Outra hipótese, como esclarece o patético títere, seria o parlamento venezuelano convidar os americanos a destruírem a Venezuela. 

Seria, de qualquer modo, uma aposta de alto risco. Porém, não se deve desprezar a crueldade e a truculência do Império e da direita venezuelana.

Para assegurar seus interesses, o governo dos EUA não se importa em destruir países e matar milhões de pessoas, desde que não sejam vidas norte-americanas. Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria foram destruídos, milhões de vidas foram perdidas, ceifadas, direta ou indiretamente, pela guerra. 

Alguns argumentam que, na América Latina, haveria maiores freios para ações como essas, dada à existência de uma grande população de origem latina nos EUA, mas, ante o total desprezo demonstrado por Trump ante o sofrimento de imigrantes latino-americanos, não é prudente supor que a atual administração dos EUA se guiará, no caso da Venezuela, por princípios humanistas e racionalidade. 

O risco de uma escalada militar, que possa conduzir a Venezuela a uma guerra civil prolongada é, portanto, real. 

Em outros tempos, o Brasil lideraria toda a América Latina contra essa loucura. Agora, no entanto, somos um paiseco submisso, que bate continência, até mesmo literalmente, para gente insana como Bolton. 

Bolsonaro abriu os portões para a barbárie não apenas no Brasil, mas em toda a nossa região. 

Oscar Wilde afirmou que os EUA eram o único país a passar da barbárie para a decadência sem passar pela fase histórica da civilização. 

Já o Brasil dos capitães e astrólogos reúne, numa só fase histórica, decadência e barbárie. 


[1] Refere-se a Olavo de Carvalho, um ex-astrólogo que reside em Virgínia (EUA) e inspira o presidente Jair Bolsonaro. 
[2] A dita intervenção “restrita” poderia vir a ser realizada por mercenários.   Ver Plano de utilização de mercenários para derrubar governo da Venezuela . 


Fonte aqui

Tal como a Líbia e a Síria, a Venezuela não é “só sobre petróleo”

(Por André Vltchek, 01/05/2019, Tradução de Luís Garcia)

Sim, a mais recente pesquisa confirma que a Venezuela é tão rica em recursos naturais que poderia sozinha satisfazer toda a procura mundial de petróleo durante mais de 30 anos. E tem muito mais do que petróleo para oferecer na sua bacia do Orinoco e noutras áreas do país.

Mas a questão aqui não é só “só sobre petróleo”. Longe disso!

Aqueles que acreditam que o que impulsiona a propagação do terror Ocidental pelo mundo afora são apenas alguns “interesses comerciais” e a lendária ganância Ocidental estão, do meu ponto de vista, a passar ao lado da questão.

Noto que tais indivíduos e analistas deveras acreditam que “o capitalismo é responsável por tudo” e que este cria a cultura da violência de que, quer vítimas quer agressores, já se tornaram todos reféns.

Depois de ter trabalhado em todas as partes do mundo, estou cada vez mais convencido de que, na realidade, o capitalismo é que é fruto da cultura ocidental, cultura essa que se baseia predominantemente no expansionismo, no excepcionalismo e na agressão. Esta cultura assenta também num desejo profundamente enraizado de controlar e de ditar. A ganância financeiro-monetária é apenas um subproduto desta cultura que elevou a sua superioridade a algo que poderia até ser definido como religioso ou mesmo religiosamente fundamentalista.

Por outras palavras, a crença na sua própria superioridade é, actualmente, a principal religião quer na Europa quer na América do Norte.

O que torna afinal tão semelhantes os cenários líbios, sírios e venezuelanos? Porque é que o Ocidente se mostra tão ansioso por atacar e destruir estes três países que, à primeira vista, parecem ser tão diferentes?

A resposta é simples, embora raramente seja pronunciada no Ocidente (pelo menos publicamente):

“Os três países estiveram na vanguarda da promoção e luta determinada por conceitos como o “pan-africanismo”, o “pan-arabismo” e a Patria Grande que, na sua essência, defende a independência e unidade Latino-Americana.”

Gaddafi, al-Assad e Chávez foram regional e internacionalmente reconhecidos como combatentes anti-imperialistas, inspirando e dando esperança a centenas de milhões de pessoas.

Gaddafi foi assassinado, Chávez provavelmente também foi morto e Al-Assad e sua nação têm vindo a lutar literalmente, e por vários anos, pela sua sobrevivência.

O actual presidente venezuelano Maduro, que é decididamente leal aos ideais revolucionários Bolivarianos, já sobreviveu a pelo menos uma tentativa de assassinato e, agora, enfrenta ameaças directas ao bom estilo mafioso provenientes do Ocidente. A qualquer momento, o seu país pode ser atacado, directamente ou através dos estados latino-americanos “vassalos” do Ocidente.

Assim é porque a África, o Médio Oriente e a América Latina foram durante séculos tratados como suas colónias. Assim é porque sempre que as pessoas se revoltavam, eram quase imediatamente esmagadas pelo punho de ferro do imperialismo ocidental. E aqueles que pensam que estão ao comando do planeta graças a algum divino desígnio, esses não querem que as coisas jamais mudem.

A Europa e a América do Norte estão obcecadas com a ideia de controlar os outros e, para o fazer, sentem que têm de se certificar que exterminam toda e qualquer oposição nas suas colónias e neo-colónias.

É um verdadeiro estado de enfermidade mental no qual o Ocidente se encontra; um estado que eu, em meus trabalhos anteriores, defini como Transtorno Sádico de Personalidade (TSD).

Para se obter um quadro completo, é preciso também recordar a Indonésia, que foi literalmente liquidada enquanto nação independente e progressista em 1965. O seu presidente internacionalista, Sukarno (pai do Movimento dos Países Não-Alinhados e aliado próximo do Partido Comunista da Indonésia, o PKI), foi derrubado pelo general Suharto escolhido a dedo pelo Ocidente, um intelectual traiçoeiro e moralmente perturbado, abrindo assim as portas ao turbo-capitalismo e à pilhagem desenfreada dos recursos naturais da sua nação. Outrora uma luz orientadora da luta pela independência de toda a Ásia, depois do horrífico genocídio orquestrado pelos EUA/Reino Unido/Austrália, a Indonésia foi reduzida a nada mais do que um estado “vassalo” do Ocidente, pobre e lobotomizado.

O Ocidente tem a incrível capacidade de identificar verdadeiros líderes independentistas regionais e os desacreditar e os tornar vulneráveis através da mentira para, em seguida, defender a assim chamada “oposição local” e, mais tarde, liquidá-los a eles e também aos seus países e até mesmo as suas regiões inteiras.

Às vezes, o Ocidente ataca países específicos, como foi o caso do Irão (1953), Iraque ou Nicarágua. Mas, mais frequentemente, ataca directamente o “peixe graúdo” (líderes de oposição a um nível regional), como na Líbia, na Indonésia, na Síria e agora na Venezuela.

Muitos indivíduos, desafiadores da ordem ocidental já foram literalmente assassinados: Gaddafi, Hussein, Lumumba e Chávez, para citar apenas alguns.

E claro, faça o que fizer, o Ocidente está tentado em destruir os maiores líderes da coligação anti-ocidental e anti-imperialista: Rússia e China.

A questão está bem longe de ser apenas sobre petróleo ou sobre lucros.

O Ocidente sente necessidade de governar. É obcecado com a ideia de controlar o mundo, de sentir-se superior e excepcional. É um jogo, um jogo mortal. Durante séculos, o Ocidente tem-se comportado como um fanático religioso fundamentalista, e o seu povo nunca sequer reparou que as suas perspectivas sobre o mundo se tornaram de facto sinónimos de excepcionalismo e de superioridade cultural. É por isso que o Ocidente é tão bem-sucedido em criar e injectar movimentos religiosos extremistas de todas as denominações em praticamente todas as partes do mundo: da Oceânia à Ásia, da África à América Latina e, claro, na China. Os líderes ocidentais sentem-se “em casa” com extremistas cristãos, muçulmanos ou até budistas.

Mas a Síria conseguiu sobreviver e até hoje mantém-se pé. A única razão pela qual as forças governamentais não estão tentando reconquistar o último bastião terrorista de Idlib é porque a população civil sofreria enormes perdas durante essa batalha.

A Venezuela também recusa se ajoelhar e render-se. E é claro que, se o Ocidente e seus aliados se se atreverem a atacar, a resistência, alguns milhões de pessoas, irão lutar pelas suas vilas e campos e, se necessário, retirar-se-ão para a selva e haverão de travar uma guerra de libertação de guerrilha contra os invasores e contra as traidoras elites.

Washington, Londres, Paris e Madrid estão claramente utilizando uma estratégia extremamente desactualizada: uma estratégia que funcionou contra a Líbia, mas que falhou completamente na Síria.

Recentemente, na Síria, perto da linha de frente de Idlib, dois comandantes de alta patente disseram-me que estão lutando “não só pela Síria, mas por todo o mundo oprimido, incluindo a Venezuela”. Eles perceberam com clareza que o Ocidente está usando contra Caracas exactamente a mesma estratégia que tentou usar contra Damasco.

Agora, também a Venezuela também está sofrendo e lutando em nome de todo o mundo oprimido.

Não tem “o direito de falhar”, tal como a Síria não teve o direito de se render.

A destruição da Líbia já havia causado um enorme impacto negativo em África. E abriu as portas à renovada e desenfreada pilhagem francesa do continente. A França prontamente juntou-se ao Reino Unido e aos Estados Unidos.

A Síria é o último bastião no Médio Oriente. É tudo o que sobra agora, resistindo ao controlo total do Médio Oriente pelo Ocidente. Síria e Irão. Mas o Irão ainda não é uma “frente”, embora muitas vezes pareça que em breve se possa tornar numa.

A Venezuela não pode cair, pelas mesmas razões. Está no extremo norte da América do Sul. Abaixo, há um continente inteiro aterrorizado pela Europa e pela América do Norte,  e que durante séculos e séculos foi brutalizado, pilhado e torturado. Uma América do Sul onde dezenas de milhões de pessoas costumavam ser exterminadas como animais, forçadas a se converter ao cristianismo, roubadas de tudo e obrigadas a seguir bizarros modelos políticos e económicos ocidentais.

No Brasil, o governo socialista progressista do PT já foi derrubado.

Se a Venezuela cair, tudo pode ser perdido, por décadas, talvez até séculos.

E por isso lutará. Juntamente com os outros poucos países de esquerda que ainda sobram nesse “hemisfério ocidental”; países que os ditadores em Washington D.C. abertamente descrevem como “o seu quintal”.

Caracas ergue-se e luta pelas vastas favelas do Peru, por milhões de carentes no Paraguai, pelas favelas brasileiras, por aquíferos privatizados e pela floresta tropical assassinada no Brasil.

Exactamente como a Síria tem lutado pela Palestina, pelas abandonadas minorias da Arábia Saudita e do Barém, pelo Iémene, pelo Iraque e pelo Afeganistão (estes últimos, dois países a quem a NATO roubou quase tudo).

A Rússia já mostrou o que pode fazer pelos seus irmãos árabes, e agora está a demonstrar a sua disponibilidade para apoiar o seu outro aliado chegado, a Venezuela.

A China está rapidamente juntando-se à coligação de combatentes anti-imperialistas. Outro exemplo é a África do Sul.

Não, a Venezuela não é só sobre petróleo.

É sobre o Ocidente ser capaz de impedir o acesso de navios chineses ao Canal do Panamá.

É sobre o controlo total do mundo: ideológica, política, económica e socialmente. Sobre liquidar toda a oposição no Hemisfério Ocidental.

Se a Venezuela cair, o Ocidente pode ousar atacar a Nicarágua e, em seguida, atacar o bastião do socialismo e do internacionalismo: Cuba.

É por isso que não se deverá nunca permitir que a Venezuela caia. 

A batalha pela Venezuela já está a ser travada, em todas as frentes, incluindo a ideológica. Na Venezuela não estamos apenas lutando por Caracas, Maracaibo ou Ciudad Bolivar. Estamos lutando por todo o mundo oprimido, como fizemos e estamos fazendo em Damasco, Aleppo, Homs e Idlib, como podemos ter que fazer em breve em muitas outras cidades do mundo inteiro. Enquanto o imperialismo Ocidental se mantiver vivo, enquanto não desistir dos seus sonhos de controlar e arruinar a totalidade do planeta, não podemos descansar, não podemos baixar a guarda, não podemos celebrar vitória final em nenhuma parte do mundo.

E portanto, tudo isto está longe de ser “apenas sobre petróleo”. É sobre a sobrevivência do nosso planeta inteiro.


Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês na NEO – New Eastern Outlook.

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula: O Brasil de Bolsonaro – O Novo Tubarão Num Mar Infestado de Tubarões. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.