Sem Druzhba não há milhões – sem petróleo não há ilusões

(João Gomes, in Facebook, 16/03/2026)


Enquanto os ministros europeus discutem em Bruxelas sobre como salvar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, Zelensky enfrenta o dilema de um oleoduto soviético chamado Druzhba pipeline. Um tubo de ferro que, ironicamente, define o futuro de milhões de europeus muito mais do que qualquer debate em comissões ou cimeiras.

Zelensky, entre um sorriso diplomático e uma declaração aos jornalistas, recorda a todos que “está a ser forçado a reativar o Druzhba”, como se estivesse a negociar não petróleo, mas princípios morais no menu do café. A Hungria de Orbán observa do lado eleitoral, e a Eslo­váquia acena com inspeções externas, como se a burocracia pudesse tapar um buraco no fornecimento de energia.

Do outro lado, a União Europeia mantém a pose: sanções contra Rússia até 2028 e uma convicção inabalável de que, se não ceder, será moralmente superior. O problema é que, sem o Druzhba, o moral europeu sobe, mas os preços da energia também. E se a teimosia de Zelensky e de Bruxelas se mantiver, a economia do continente poderá começar a tremer antes de os tanques russos sequer respirarem na frente ucraniana.

O resultado, já visível: os cidadãos olham para os termómetros, as contas da luz e os preços do combustível, percebendo que sem petróleo não há ilusões; há apenas faturas a chegar e fábricas a reduzir produção. Enquanto isso, o drama político transforma-se numa espécie de teatro de marionetas, onde cada ator finge ter um plano e todos sabem que ninguém quer ceder.

Ironia: Zelenskyy quer manter a moral e as sanções intactas, Orbán quer votos e segurança energética imediata, e a UE? Bem, a União Europeia continua a produzir cimeiras, relatórios e declarações diplomáticas. E, nesse meio tempo, os milhões que dependem do fornecimento russo aguardam pacientemente, pagando em euros ou em ilusões.

No fim, fica claro que sem Druzhba não há milhões – sem petróleo, não há ilusões. E talvez seja isso o único consenso que Bruxelas e Kiev conseguem alcançar: uma lição amarga de geopolítica aplicada à vida real.

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Uma semana de guerra no Irão

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/03/2026)


Com o ataque ao Irão, Trump envolveu-se simultaneamente em duas crises estratégicas. No início do século XXI, Washington evidenciou uma enorme dificuldade em lidar ao mesmo tempo com o Afeganistão e o Iraque. Os resultados dessas decisões são conhecidos.


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Apesar de não haver sinais de abrandamento na agressão ao Irão levada a cabo pela coligação israelita-americana, é possível constatar, desde já, cinco factos incontornáveis.

Primeiro, o ataque veio confirmar a teoria da anti fragilidade do regime, ou seja, a sua capacidade para, com base numa estrutura de geometria variável — ideologia, assimetria, inventividade — reforçar-se, alavancando positivamente a pressão externa. Apesar do assassinato do Líder Supremo aiatola Ali Khamenei e de outros altos dignitários, o regime resistiu e sobreviveu. Não implodiu, como vaticinado por Washington. Não se conhecem fissuras no grupo dirigente, o governo está aparentemente coeso, não se registaram deserções de altos funcionários, nomeadamente diplomatas, nenhuma embaixada mudou a bandeira, não há sinal de militares terem alterado a lealdade ao regime. Veremos por quanto tempo esta unidade se manterá. Os apelos de Netanyahu e Trump para o povo do Irão sair às ruas e derrubar o regime não se concretizaram. O povo veio de facto para a rua, mas para apoiar o regime e gritar “Não às negociações! Não à rendição! Guerra aos Estados Unidos!”.

O assassinato do Líder Supremo, ainda por cima durante o Ramadão, foi um erro estratégico tremendo. Além de dirigente máximo do Irão, Khamenei era também um líder religioso cujo alcance extravasava as fronteiras do Irão e se estendia ao mundo xiita. Washington conseguiu, de uma penada, não só alienar a “Ummah” xiita, como largos setores da sunita. Era difícil fazer pior.

Estes erros poderão resultar das fragilidades da Administração em termos de política externa. Para além dos cargos de Conselheiro Nacional de Segurança e de Secretário de Estado estarem concentrados na mesma pessoa, o Conselho Nacional de Segurança funciona apenas com um terço dos funcionários da Administração anterior, talvez por se abraçar a ideia de que a crença na providência divina é capaz de superar o conhecimento humano. Uma semana antes da invasão, o FBI despediu os especialistas em contrainformações que geriam o dossiê do Irão.

A arrogância de Donald Trump – associada ao desconhecimento – permite-lhe achar que vai escolher o próximo responsável pelos destinos do país: “Não queremos que eles [os iranianos] coloquem ninguém lá dentro, que não seja aprovado por nós”, “eles estão a perder o seu tempo. O filho de Khamenei é um peso leve. O filho de Khamenei é inaceitável para mim,” “eu tenho de estar envolvido na nomeação, como com a Delcy na Venezuela”, “eles podem selecionar, mas nós temos de nos certificar de que é alguém razoável para os Estados Unidos.” Nada impressionado com os recados de Trump, o Conselho de Peritos elegeu exatamente o filho de Khamenei para lhe suceder.

Segundo, tornou-se claro que o conflito não será de curta duração. Segundo fontes norte-americanas, o prazo da Operação “Fúria Épica” foi reformulado, admitindo-se a possibilidade de os objetivos só serem alcançáveis dentro de quatro a cinco semanas, considerando-se mesmo o alargamento desse prazo. Segundo Trump, a guerra continuará até os objetivos serem alcançados, leia-se, até à rendição incondicional de Teerão, “não há limites de tempo para nada”. O presidente norte-americano não está aparentemente preocupado com as ‘Midterm elections’, em outubro, nem com o impacto desta operação, que não tem o apoio dos norte-americanos, no seu futuro político.

Os planos para gerir um conflito de curta duração foram substituídos pelos preparativos para uma campanha longa. O Comando Central solicitou um reforço urgente do seu quartel-general, e o Departamento de Defesa prepara-se para manter as operações ativas durante, pelo menos, mais 100 dias. Surpreendentemente, o “Haaretez” veio dizer que “Israel não tem capacidade para uma confrontação prolongada com o Irão.”

Terceiro, por ter subestimado o Irão, a Administração Trump lançou-se impreparada nesta aventura. Se na Primeira Guerra do Iraque (1990), os EUA recorreram a 1900 aeronaves, e seis porta-aviões; agora projetaram apenas 300 aeronaves e 2 porta-aviões. Este déficit está a tentar ser colmatado com o recurso ao porta-aviões francês Charles De Gaulle, em deslocamento para o Mediterrâneo Oriental, para substituir o porta-aviões norte-americano Gerald Ford, em deslocamento para o Mar Arábico. Em preparação, para reforçar o dispositivo naval de ataque ao Irão, encontra-se o porta-aviões britânico Príncipe de Gales.

A isto, junta-se o facto de não existir presentemente uma componente terrestre no dispositivo norte-americano projetado na região, e uma eventual projeção exigiria seis a 12 meses de preparação. A exiguidade da aventada solução curda não é solução. Em 2003, quando os EUA atacaram o Iraque, a força terrestre norte-americana tinha um efetivo que rondava os 170.000 soldados.

Por outro lado, a enorme capacidade militar norte-americana tem alguns calcanhares de Aquiles. São públicas as suas limitações nalguns tipos de equipamentos, não só ofensivos como defensivos, particularmente em intercetores utilizados na defesa aérea. O Pentágono prepara-se para pedir ao Congresso autorização para “libertar” 50 mil milhões de dólares, a fim de fazer face ao problema que tem em mãos. A Administração Trump também já pediu às principais empresas de defesa que aumentassem rapidamente a produção.

Quarto, com o ataque ao Irão, Trump envolveu-se simultaneamente em duas crises estratégicas. No início do século XXI, Washington evidenciou uma enorme dificuldade em lidar ao mesmo tempo com o Afeganistão (2001) e o Iraque (2003). Os resultados dessas decisões são conhecidos. A guerra na Ucrânia vai em quatro anos, sem existir ainda um fim à vista, e a do Irão, de alta intensidade, corre o risco de evoluir para um cenário de atrição. Podíamos ainda acrescentar a esta complexa equação, o envolvimento militar norte-americano no Caribe — Venezuela, Cuba e México — e na Nigéria, negligenciando deliberadamente os efeitos de uma improvável ação chinesa em Taiwan. Trump está a correr um enorme risco político, militar e estratégico, sobretudo quando é conhecido o apoio da Rússia e China ao esforço militar iraniano, que Washington parece ter desconsiderado. Numa situação extrema, desenvolvimentos desfavoráveis a Washington podem afetar decisivamente a sua reputação e as suas pretensões hegemónicas.

Quinto, o dispositivo militar norte-americano no Médio Oriente, em particular no Golfo Pérsico, foi severamente afetado sendo a sua reposição, nalguns casos, muito difícil. Os EUA não conseguiram defender as suas bases militares (infraestruturas, portos, depósitos de combustível, etc.). Os navios da quinta esquadra tiveram de retirar do Golfo Pérsico. Numa ação inédita, o Irão atacou todas as principais bases norte-americanas envolvidas no apoio ou na organização da Operação “Epic Fury”. Particularmente eficaz foi a destruição dos radares de longo alcance e de apoio ao tiro dos THAAD (AN/FPS-132 Block 5, AN/TPY-2, respetivamente), sem possibilidade de os repor. Consequentemente, os países do Golfo ressentiram-se do abandono a que foram votados pelos Estados Unidos, acusando-os de serem incapazes de honrar a proteção prometida, dando prioridade a Israel.

Perante estes factos, em particular a incapacidade de fazer implodir o regime, a coligação avançou para o Plano “B”. Alargou a lista de alvos e aproximou-se daquilo a que chamamos “fórmula Gaza”, passando a incluir zonas residenciais, depósitos de combustível e estações de dessalinização, etc. Mas o Irão já está a responder na mesma moeda. Entretanto, o ministro norte-americano da guerra, Pete Hegseth veio elucidar-nos que os EUA perderam guerras porque seguiam regras. Por outras palavras, porque do antecedente respeitaram o Direito da Guerra. A partir de agora vai passar a valer tudo.

Em 7 de março, Israel atacou cerca de 30 depósitos de combustível iranianos próximos de Teerão com a consequente libertação de elevadas quantidades de substâncias químicas para a atmosfera, responsáveis por chuvas ácidas e enormes preocupações ambientais em toda a região. O petróleo em chamas espalhou-se pelas ruas de Teerão e incendiou casas e edifícios. Se a dor causada pela retaliação iraniana a estes ataques for insuportável para Telavive, não será de excluir a possibilidade de Israel pensar em recorrer à arma nuclear.

Resta ver se esta guerra não vai provocar mais rapidamente uma mudança de regime nos Estados Unidos, em vez de no Irão.

Não é a democracia, é o petróleo!

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 12/02/2026)


A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão. A mudança tem de vir de dentro.


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O ataque israelo-americano, em junho de 2025, ao Irão e as recentes ameaças norte-americanas de decapitar o regime iraniano, não passam de mais um capítulo de uma longa série de peripécias iniciadas, em 1979, quando o Xá Reza Pahlavi foi deposto pela revolução islâmica, e instaurado o regime dos aiatolas.

As autoridades norte-americanas têm disfarçado os motivos dos seus intentos. Oficialmente, as suas ações são beneméritas e visam promover a democracia, a libertação dos iranianos de um poder opressor e maléfico e, assim, altruisticamente, trazerem-lhes a paz e o progresso. Têm contado nesta campanha messiânica com o apoio de múltiplas caixas de ressonância na Comunicação Social, que, de uma forma mais ou menos voluntária, se tem prestado a difundir e a amplificar o logro.

O regime iraniano sofre de vários problemas, sobejamente conhecidos, cuja resolução terá de ser encontrada pelos próprios iranianos, não por Washington, Telavive ou por qualquer outra entidade estrangeira. Afegãos, iraquianos, líbios e sírios, entre outros, sabem do que falo.

A cruzada, acicatada por Telavive, não visa libertar o povo iraniano do jugo opressor dos aiatolas. O objetivo é bem mais pragmático: colocar no poder alguém manipulável que facilite a Washington e a Telavive a concretização dos seus desígnios estratégicos e económicos.

O problema deixaria de estar no regime, se os recursos minerais do país fossem privatizados e entregues à exploração de companhias norte-americanas. Washington viverá muito bem com isso, como viveu no tempo do Xá, de cuja polícia política os mais velhos ainda se recordam e têm bem presente.

Os aiatolas cometeram o “erro” de nacionalizar as empresas petrolíferas estrangeiras que operam no Irão. Deviam ter aprendido com Mohammed Mossadeq, o primeiro-ministro iraniano eleito democraticamente e deposto, em 1953, por um golpe de estado patrocinado pelo MI6 e pela CIA, por ter cometido o “horrível crime” de privatizar as empresas petrolíferas estrangeiras.

Não terá sido a incomodidade com o regime político em Bagdade que levou Washington a financiar a guerra de oito anos, de Sadam Hussein contra o Irão, e a fornecer-lhe armas químicas. Como não terá sido, também, a incomodidade com o regime dos aiatolas que levou elementos próximos da Administração do presidente Ronald Reagan a vender-lhes – secretamente – equipamento militar para financiar os “Contra”, na Nicarágua.

Como também não terá sido o desconforto com o regime que levou os EUA a colaborar intensamente, e com grande proximidade, com Teerão para derrubar os Talibã, em 2001. Como também não houve embaraço e falta de pruridos por parte do presidente George Bush para classificar Teerão, em 29 de janeiro de 2002, como pertencendo ao “Eixo do Mal”, e passados alguns meses lhe pedir novamente ajuda no planeamento da operação militar que levou ao derrube de Saddam Hussein, em 2003, o mesmo que tinha ajudado na década de oitenta do século XX contra o Irão. Apesar de receosa – presença de contingentes norte-americanos significativos nas suas fronteiras Oeste e Leste – Teerão lá teve de ceder, temendo uma retaliação pela sua “ousada” desobediência.

Camuflar as suas verdadeiras intenções com o programa nuclear não passa de engodo para tolos. O Irão cumpria rigorosamente o acordado no Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), conhecido como “acordo nuclear iraniano”, em 2015, quando os EUA o abandonaram unilateralmente, em 2018, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, o que mostrou a Teerão que o cumprimento integral do Plano e a cooperação sem precedentes com a Agência Internacional de Energia Atómica, não eram suficientes para garantir a sua segurança.

Particularmente exasperante é o facto de existirem soluções para o “problema nuclear” iraniano e todos saberem quais são: a empresa nuclear estatal da Rússia, Rosatom, mostrou disponibilidade para assumir a gestão e a supervisão do enriquecimento limitado de urânio iraniano destinado a fins não militares, no Irão, assegurando que o enriquecimento permanece dentro dos limites (3,6%); ou, a criação de um consórcio de enriquecimento de urânio que envolva o Irão, a Turquia, o Egito, a Arábia Saudita, os Estados árabes do Golfo Pérsico e as principais potências globais. Este segundo modelo tem ainda a vantagem de permitir ultrapassar as preocupações existentes quanto à proliferação nuclear na região, salvaguardando ao mesmo tempo o acesso igualitário à tecnologia nuclear para fins pacíficos. Nenhuma destas soluções, ou quaisquer outras, interessa a Washington, uma vez que não pretende resolver o “problema”. A sua resolução esvaziar-lhe-ia o pretexto para a ação militar, que Telavive tanto anseia.

E agora?

Têm sido muitas as iniciativas diplomáticas, em particular as regionais, para convencer Trump a não se envolver numa guerra com o Irão. Excluem-se deste leque as de sinal contrário, promovidas por Israel e pelo bloco sionista em Washington, instalado na Administração e no establishment político norte-americano.

Para conversar com Teerão, Washington apresentou três exigências fundamentais. O Irão tinha de abandonar o seu programa nuclear, reduzir as suas forças de mísseis (em alcance e em número) e deixar de apoiar os seus proxies, um ultimato frontalmente rejeitado. Contrariando Washington, Teerão resistiu às ameaças norte-americanas e mostrou-se disponível para falar apenas sobre um ponto: o programa nuclear, o enriquecimento de urânio e o potencial levantamento de sanções. Os EUA cederam na agenda e delegações dos dois países encontraram-se em Omã, sob mediação do ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, no dia 6 de fevereiro, em Mascate. Acordaram em continuar a negociar, o que significa ausência de progressos. A inclusão do programa nuclear na agenda da reunião vem comprovar a farsa que foi o ataque às instalações nucleares iranianas em Fordow. Ao contrário do alardeado por Trump, o programa nuclear iraniano não foi “completa e totalmente destruído”. A ter sido, não faria sentido considerá-lo agora um tema a negociar.

À última hora, os EUA introduziram na agenda a interrupção do fornecimento de petróleo à China. Algumas horas após o fim da reunião, Trump assinou uma ordem executiva em que os Estados Unidos imporiam tarifas de 25% a qualquer país que fizesse negócios com o Irão. É difícil ver como é que vão impor essa decisão à China ou à Índia.

Trump encontra-se sob uma enorme pressão política. Paradoxalmente, o Irão encontra-se numa posição vantajosa à mesa das negociações. As hipóteses de uma vitória militar norte-americana sobre o Irão não são risonhas. Relembramos a “vitória” de Washington contra os Houtis, do Iémen, em março-maio de 2025. Acabariam por retirar após sete semanas de bombardeamentos, a perda de três caças F-18, de sete drones MQ-9 Reaper, e o porta-aviões Eisenhower danificado.

Assistimos, entretanto, a uma alteração significativa do discurso de Teerão relativamente a um novo ataque dos Estados Unidos. O Irão parece não se sentir ameaçado. Desta vez, a resposta não será simbólica; será imediata, total e sem precedentes, dando crédito às autoridades iranianas. A resposta concentrar-se-á em Israel, visando o coração de Telavive, de modo a quebrar a sua capacidade de dissuasão e a expor a ilusão de invulnerabilidade do território israelita, já afetada na guerra de junho de 2025, apesar das tentativas para o encobrir.

Um ataque norte-americano “limitado” tornou-se uma ilusão. Teerão sabe que os EUA aguentam um combate intenso, mas que terá de ser de curta duração. Correm riscos elevados numa guerra de atrição prolongada. Ao que se acrescenta o facto de os Estados Unidos não poderem usar os aliados regionais como plataforma de lançamento para atacar o Irão, por aqueles terem proibido as aeronaves norte-americanas de sobrevoarem o seu espaço aéreo.

Não se está a menosprezar o brutal poder de fogo e capacidade militar norte-americana, mas tão somente a interrogar se será suficiente para incapacitar uma grande potência militar como o Irão e evitar retaliações. Sem esquecer que a televisão iraniana mostrou um vídeo com o sobrevoo do porta-aviões Abraham Lincoln por um drone iraniano. Sem omitir a não desprezível capacidade iraniana em mísseis balísticos, de cruzeiro e hipersónicos, capazes de atingir bases americanas no Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e locais na Jordânia e Omã, assim como derrubar os navios e o porta-aviões norte-americano.

Nos últimos seis meses, o Irão tem-se preparado intensamente para esta guerra que está para acontecer, tendo conseguido restaurar a produção em larga escala de mísseis, as infraestruturas subterrâneas foram aumentadas e há rumores de terem sido testados novos mísseis e armas. A decisão de Trump em atacar deverá também levar em conta o recente pacto estratégico assinado entre o Irão, a China e a Rússia, e o facto de Pequim ter deslocado para o Irão radares com capacidade para identificar aeronaves furtivas, como os F-35 e os B-2. Os EUA terão de enfrentar a tecnologia chinesa, o que aumenta significativamente o risco da aventura militar e as consequências catastróficas de um desaire.

Perante todos estes desafios interrogamo-nos qual a margem de manobra para Trump voltar para trás. Segundo um parlamentar iraniano, antes das negociações em Abu Dhabi, Trump teria enviado, através de um país intermediário, uma mensagem ao Irão propondo uma fórmula semelhante à de junho de 2025: “Deixem-me atingir 2 locais no Irão – vocês respondem, e depois acaba tudo.” Parece que os iranianos desta vez não estarão pelos ajustes.

Contrariando tudo o que parece razoável e incorrendo num erro grave de análise, assistimos a uma notável corrente de comentários em apoio da escalada militar, considerando-a o meio capaz de acelerar o colapso do regime e de provocar a sua implosão. O Irão está longe de ser a Líbia ou a Venezuela. A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão.

A mudança no Irão tem de vir de dentro. É sabido que nem americanos nem israelitas têm alternativas no terreno para colocar no poder. Não apareceu até agora nenhum Gorbachev no Irão. O pretendente ao trono Reza Pahlavi, cuja filha se casou com um judeu, não passa de um fantoche. Nem Washington lhe reconhece utilidade. Ainda é tempo para Trump reconsiderar e evitar males maiores, para ele e para todos nós.