Antes guerrilheiros da verdade do que mercenários da desinformação

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 17/09/2026)


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A ONU diz que os Estados Unidos cometeram crimes de guerra no Irão e é interessante rebobinar a fita para trás e recordar o que muitos jornalistas e comentadores disseram sobre o ataque contra a escola em Minab que vitimou 120 crianças. Desde o primeiro momento, trataram de cimentar a narrativa na opinião pública de que tinha sido o próprio Irão ou de que poderia ter sido um míssil norte-americano desviado pelas antiaéreas iranianas.

E isto não deixa de ser curioso porque quando se trata da Rússia a atacar a Ucrânia ou do Irão a atacar Israel, primeiro faz-se a acusação e só depois, eventualmente (quase nunca), as perguntas. Quando é o contrário, ou seja, a Ucrânia a atacar a Rússia ou Israel a atacar o Irão, primeiro fazem-se as perguntas e só depois, também quase nunca, a acusação. Provavelmente, são os mesmos que diziam que havia túneis do Hamas debaixo dos hospitais bombardeados. A opinião tomou conta da televisão e o poder dos comentadores também.

Nos últimos dias, falou-se muito de Pavlo Sadokha e de Irineu Teixeira. No primeiro caso, a propósito da sua morte, até se apresentou um voto de pesar em que se assinalava o facto de representar “uma perda particularmente sentida para a comunidade ucraniana em Portugal, mas também para todos aqueles que com ele partilharam a defesa dos valores da liberdade, da democracia, da soberania dos povos e da dignidade humana”.

É de facto extraordinário que um admirador assumido de Stepan Bandera, líder de uma milícia fascista que colaborou com os soldados de Hitler e que exterminou 120 mil judeus polacos, seja apresentado como alguém que defendeu os valores da liberdade, da democracia e até da dignidade humana. Apesar disto foi, curiosamente, elogiado pela grande referência da propaganda israelita que dá pelo nome de Helena Ferro Gouveia.

Pavlo Sadokha foi assessor de um deputado ucraniano de extrema-direita e, em Portugal, usou a sua qualidade de membro do PSD para instigar a autarquia de Lisboa a impedir a realização de debates. Propôs a proibição de partidos políticos em Portugal e tentou impedir a publicação do meu livro contactando a minha editora nesse sentido e, posteriormente, instigando o sector da comunidade ucraniana mais extremista a protestar nas apresentações do meu livro. Enquanto comentador televisivo nunca conseguiu esconder que estava contra a celebração do dia da Vitória da União Soviética sobre o nazi-fascismo, data que continua proibida pelo regime ucraniano.

Na mesma senda, Irineu Teixeira, que apareceu como um jornalista desportivo a falar da guerra na Ucrânia por ser casado com uma ucraniana, à semelhança do jornalista Luís Ribeiro, não escondeu, numa das primeiras entrevistas, que não conseguia nem queria ser imparcial sobre o que ali estava a acontecer.

A sua radicalização, tornando-o um ídolo da extrema-direita portuguesa, cresceu a par da desinformação. A sua má preparação, o tom permanente de propaganda despudorada, o recurso repetido a fontes duvidosas, muitas vezes desmentidas, e o seu discurso de ódio conviveram livremente durante demasiado tempo no NOW.

Há um tom performativo da extrema-direita que precisa de ser desmontado. Tenta-se dar a ideia de que os comentadores mais extremistas são alvo de censura e que as televisões estão dominadas pela esquerda. André Ventura tem mais tempo de antena que qualquer um dos outros políticos, passeando-se quase todas as semanas pelos estúdios televisivos e há comentadores residentes que comentam tudo e um par de botas, da Ucrânia aos incêndios e de Luís Neves ao Irão, sem qualquer preparação para além dos soundbites que algum partido ou embaixada lhes envia.

À medida que os tambores da guerra soam, aponta-se o dedo a inimigos externos e internos. Justificam-se narrativas por mais absurdas que sejam para calar vozes incómodas e empurram-se os dissidentes para o cadafalso. A nossa democracia já estava podre e os mesmos que a apodreceram fingem agora que vão pôr o país e o mundo na ordem.

Elon Musk, Zuckerberg e companhia põem os algoritmos ao serviço da extrema-direita, os liberais do PS e PSD aprofundam a crise e afundam-nos na miséria para nos entregar de bandeja aos salazares do século XXI.

 Em qualquer época, o fascismo foi o cavalo de Troia das elites aproveitando-se do legítimo descontentamento generalizado para impor regimes que acabaram naquilo que todos conhecemos: inferno para os pobres, paraíso para os ricos.

Neste mar de desinformação, a verdade é mais necessária do que nunca. E mesmo que seja uma batalha quixotesca, não há orgulho maior do que não estar do lado dos poderosos. Antes guerrilheiros da verdade do que mercenários da desinformação.

É proibido fotografar as prateleiras vazias dos supermercados

(Major-General Carlos Branco, in Facebook, 05/09/2026)


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A imagem acima circula em vários canais de Telegram. Achei que a devia publicar depois de ter visto e ouvido uma comentadora assídua num canal televisivo nacional afirmar que a Ucrânia está na mó de cima e por isso quer ir para negociações.

Os cartazes dizem que é proibido fotografar as prateleiras vazias de supermercados. “Fotografar prateleiras vazias de supermercados é PROIBIDO. A multa é de 3 mil hryvnias.” O salário mínimo na Ucrânia é 8.647 hryvnias (cerca de $204). Se o problema não for mostrado, ele não existe. A ousadia de fotografar a realidade significa poder perder 35% do salário.

A comentadora em causa, não percebe nada do que está a acontecer. A Ucrânia quer ir para negociações porque está numa situação de extrema dificuldade e quer travar o ímpeto russo para ganhar tempo. Nada do que ela disse faz sentido. Fazendo uma analogia com o basquetebol, o treinador pede desconto de tempo (ou timeout) para parar o jogo quando a sua equipa está em dificuldades e pretende mudar de estratégia.

Só uma cabecinha pensadora pode dizer que a parte que: tem mais de 200 mil abandonos de soldados das fileiras; tem mais de quinhentos mil cidadãos em fuga do serviço militar, não tem capacidade para repor os soldados que perde diariamente em combate (o Chefe de Gabinete de Zelensky fala em 30 mil por mês), tem mais de 10 milhões de cidadãos fora do país, se encontra numa tremenda regressão demográfica, sem acesso ao mar, sem capacidade para exportar os seus produtos, etc., etc. está na mó de cima.

Mais tarde ou mais cedo, essa senhora e outras que regurgitam semelhantes atoardas têm de vir prestar contas com a história. E depois não venham com tretas dizer que fizeram avaliações erradas.

Participam há mais de 4 anos numa despudorada campanha de manipulação da opinião pública sendo coniventes ativas na desinformação a que estamos sujeitos e somos diariamente vítimas.

Festividades ucranianas: o que não é mostrado

(Rui Pereira, in Facebook, 25/08/2026, Revisão da Estátua)


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Encandeados pelos holofotes cerimoniais para consumo externo, os media ocidentais não devem ter assistido a uma ocasião menos publicável das festas do 35º aniversário da Independência da Ucrânia.

Trata-se do momento da condecoração, como “Herói Nacional”, do ex-oficial do Batalhão de Azov, o entretanto promovido a Brigadeiro-General do exército de Kiev, Andriy Biletsky. Uma busca rápida no Google não regista qualquer alusão ao facto por parte da comunicação social “ocidental”. Encontramo-lo, porém, em numerosos sítios noticiosos ucranianos, como este aqui.

 A imprensa ocidental, livre e democrática, na sua cruzada pela defesa na Ucrânia da liberdade, da democracia e dos valores do Ocidente, não aprecia especialmente notícias sobre Andriy Biletsky.

Arranja-se por exemplo esta, do The Independent britânico, a propósito da sua promoção a general, em maio passado (ver aqui), mas, que eu tenha encontrado, pouco mais.

Não se trata de distração. É que Biletsky, a quem o The Independent dedicava a sua peça “O general ucraniano que subiu de agitador de extrema-direita a herói de guerra” tem atributos menos elegantes. É, nomeadamente, um dos expoentes da constelação neonazi que se acoberta por detrás das declarações de Zelensky para as televisões ocidentais. Mencionam-se milícias e organizações como o Batalhão Azov, o  C-14, o Patriota Ucraniano, o Pravy Sektor (Ala Direita) o Corpo Nacional ou o Partido Svoboda (Liberdade).

Ao agora condecorado atribuem-se declarações datadas de 2010, que o próprio tentaria explicar mais tarde, atenuando alguns conteúdos, referentes ao “Eixo Báltico-Mar Negro”, no cerne de uma futura “Grande Nação Ariana” na Europa. A sua formação tornava, para ele, inevitável uma guerra com a Rússia. A doutrina é a mesma da dos seus antecessores: o extermínio racial dos sub-homens, isto é., todos aqueles que não fazem parte da raça eleita.

A 5 de setembro de 2008, o portal do Grupo de Direitos Humanos de Kharkiv mencionava Biletsky nestes termos:

De acordo com o programa do “Patriotas da Ucrânia”, publicado no site oficial da organização, esta «defende uma sociedade mono racial e mono nacional». O seu líder, Andriy\ Biletsky afirma diretamente que «o social-nacionalismo racial ucraniano é a ideologia do b’Patriotas da Ucrânia'” (este é o título do seu artigo publicado numa coletânea de obras ideológicas e documentos programáticos: “Social-Nacionalismo Ucraniano”).

Enquanto isso, o ideólogo da organização, O. Odnorozhenko, escreve abertamente que:

 Restrições e controlo serão impostos a todos os grupos etno-raciais alienígenas, com a sua subsequente deportação para a sua casa histórica. Nós, social-nacionalistas ucranianos, vemos as chamadas ‘raças humanas’ como espécies biológicas separadas e consideramos apenas o “Ser Humano Branco Europeu” como inteligente na compreensão biológica.(ver aqui).

Ao longos dos anos, Biletsky tentou matizar tudo isto: (ver aqui e aqui) Mas, o seu perfil da Wikipédia não ajuda, ver aqui. Pelos vistos uma medalha também não. Tanto que, por cá, não foi notícia.

Quem, no entanto, tiver curiosidade pode ver aqui a reportagem fotográfica completa de Efrem Lukatsky, ao serviço da agência Associated Press, datada de julho de 2017 (da qual se exibem mais as imagens acima e abaixo) quando se fotografavam os campos de treino neonazis para crianças (Azovets), num tempo em que o regime ucraniano ainda não era oficialmente um “good guy”.