O tempo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 26/03/2026)

O mundo tornou-se tão apressado e complexo que deixou de haver tempo e distância para o analisarmos conscientemente, ao mesmo tempo que a emergência 
de uma cultura de desinformação planeada e programada, tratou de destruir tudo o que tínhamos como verdade e como notícia.


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Quarta-feira à tarde, quando escrevo este texto, não sei se Trump vai desembarcar marines no Irão, se vai tomar “aquela ilha” ao largo da costa, ou se vai negociar com os iranianos, apesar de, como ele diz, já não haver ninguém vivo com quem negociar. E negociando, não sei o que vai exigir para declarar a retumbante vitória que precisa de declarar ou se, falhada a negociação, vai “levar o inferno ao Irão”, conforme promete. E depois, também não sei se a paz que agora parece pretender, apesar de disfarçada de vitória, seja aceite pelos seus parceiros de Israel e estes se contentem em abocanhar mais um bocado do Líbano e fazer mais uns milhares largos de deslocados. Eu não sei, ninguém sabe: tudo depende de como o homem acordar na sexta, no sábado ou no domingo. Ao certo sabemos só que ele, como já era de prever e se tornou evidente depois, não fazia ideia do que era o Irão — politicamente, militarmente, geograficamente; que nunca imaginou até que ponto a sua estupidez poderia conduzir toda a economia do mundo, pois que também nunca previu o óbvio: que os iranianos fechassem o estreito de Ormuz — por onde, aliás, ele também não sabia que passa 20% da energia fóssil consumida no planeta; e sabemos também que a única coisa que o pode fazer parar são as bolsas a desabar, a economia americana a patinar por conta de uma guerra que os americanos não entendem a não ser como um serviço prestado a Israel, e, em consequência, uma derrota anunciada nas eleições intercalares de Novembro, se ele não puser fim a esta loucura.

A Europa espera para ver, dependente dos achaques do louco de Washington. Espera caladinha, como convém desta vez, não vá o homem deixar de decidir pelo bom senso, sentindo-se empurrado de fora. Mas, dure a guerra quanto mais tempo durar, há coisas que a Europa aprendeu com ela e a cuja lição não se pode furtar. Primeiro, que continuar a achar que os Estados Unidos de Donald Trump — e depois provavelmente de J. D. Vance — são um aliado fiável e um parceiro de confiança, partilhando dos mesmos valores, é meio caminho andado para o suicídio, para serem apanhados numa guerra ou numa crise desencadeada pelo suposto aliado, sem aviso algum mas com consequências imediatas. Segundo, que desatar a endividar-se para comprar armas às empresas de armamento americano, sem quaisquer garantias de contrapartidas sérias, como quer o secretário-geral da NATO, é uma aventura que não faz sentido algum. Em terceiro lugar, a Europa não pode abrandar, antes intensificar, o seu esforço de apostar nas energias alternativas, libertando-se da dependência mortal dos hidrocarbonetos. E por último, deve prosseguir no caminho recentemente inaugurado de procurar outros parceiros comerciais e diplomáticos, pois que por aí também passa muito da sua independência.

O tempo
Hugo Pinto

2 Olhada à luz do desarranjo do mundo, a cena política portuguesa oscila entre o surreal e o patético. Andar a discutir o novo estatuto dos transexuais, a inultrapassável escolha de juízes para o Tribunal Constitucional, indicados pelos partidos mas supostamente independentes, ou os almoços de Isaltino Morais em Oeiras, enquanto o mundo conhecido desaba à nossa volta, oscila entre a inconsciência e a irrelevância. E se olharmos para o lado, para a grande Espanha, e virmos que têm combustíveis mais baratos, electricidade mais barata, verdadeiras medidas de apoio à economia sustentadas com uma diminuição real da receita fiscal, e, em cima de tudo isso e para desespero da direita espanhola e dos seus admiradores lusos, uma política externa que a torna admirada em todo o lado, deveríamos corar, se não de vergonha, pelo menos de inveja. Mas continuaremos assim, o Governo propagandeando a inércia, a incapacidade de pensar para a frente e de agir, como se estivesse ocupado em grandes reformas, a oposição armadilhada na vontade de propor diferente e o medo de ter de enfrentar eleições antes de ter convencido alguém de que faria diferente e melhor, e o Chega afogado em sucessivos escândalos escabrosos, como era de prever assim que começasse a ter os tais “tachos” e que com eles viesse o respectivo escrutínio. A ideia que dá é que nada, nem as notícias do mundo, abala o inabalável sono pátrio. E que é isso que o povo quer.

3 Comecei a ler jornais diariamente aos 12 anos, numa época em que, só em Lisboa, tínhamos uns cinco diários matutinos e três vespertinos. Ao longo da vida, nunca perdi o hábito de ler jornais todos os dias, quatro ou cinco por dia e de preferência em papel: sou um confesso dinossauro da imprensa. Depois, e ao longo dos meus mais de 40 anos de jornalismo, a leitura de jornais passou a ser, mais do que um vício, uma obrigação. E mesmo depois de deixar o jornalismo, poucos anos atrás, a actividade de articulista ou comentador continuou a exigir-me a consulta diária de jornais, portugueses e estrangeiros, acrescida dos jornais televisivos e noticiários da rádio — que, por sinal, acho péssimos. A informação confunde-se com o meu dia-a-dia, como uma segunda pele ou a roupa que visto para sair à rua. Mas com o tempo, este doce Nirvana, pessoal e profissional, foi-se alterando e, em algumas situações mesmo, adulterando, deixando de serem consideradas “All the News That’s Fit to Print”, conforme reza o cabeçalho do “The New York Times”, numa das mais certeiras definições do que é informação que conheço. O triunfo ululante da ignorância, associado ao desvario das redes sociais e dos seus algoritmos programados para conduzir os incautos aos abismos de desinformação e manipulação a que os Bezos e os Zuckerbergs deste tempo os querem conduzir docilmente, como carneiros ao redil, inaugurou uma época de nova luta de classes. Só que desta vez não é entre o capital e o trabalho, mas entre o que chamam a “elite” informada e desprezada e a grande massa de ignorantes felizes. E se alguém podia imaginar, como eu imaginei em tempos, que nesta nova luta de classes os vencedores seriam os que se deram ao trabalho de tentar saber, aprender, distinguir a verdade da mentira, tentar ver claro o que não é nítido, enganaram-se redondamente: os vencedores são os ignorantes e os que tiram partido dessa ignorância, servindo, pronto-a-vestir, um simplismo opinativo que se torna irresistível para os crentes. Donald Trump é, obviamente, o exemplo consumado deste mundo assustador, cuja história não vejo como possa não acabar mal.

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E então, chegado àquilo que consta ser a idade da sabedoria, dei-me conta de que talvez saiba mais do que percebo — uma armadilha muito comum. Parece-me que, incapaz de continuar a acompanhar eternamente a urgência e a abundância dos acontecimentos, a menos que nada mais de jeito faça, e mesmo já desinteressado de tanta espuma noticiosa, é chegado o tempo de me deter e recuar — como fazemos diante de um quadro, para melhor o fixarmos, melhor o decifrarmos. Quero tentar entender em vez de saber, olhar em vez de contar, escutar em vez de declarar, pensar em vez de concluir. Quero um dia novo, com menos notícias, menos ruído do mundo e das gentes. A partir de hoje, a minha colaboração com o Expresso passa a quinzenal — um pedido meu que a direcção do jornal teve a delicadeza de compreender e aceitar. Quem sabe se assim mais desprendido desta voragem em que vivemos, não ficarei mais lúcido ou, pelo menos, mais esclarecido!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

“Eles estarem a defenderem os nossos valores e a demo-cracia”

(Por Albarda-mos, in Estátua de Sal, 24/03/2026, revisão da Estátua)

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(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Raúl Cunha sobre os atropelos ao direito internacional (ver aqui). Pela análise que faz à (des)informação na RTP1, resolvi dar-lhe destaque, com o seguinte sublinhado: ANTES FOSSE SÓ A RTP1!…

Estátua de Sal, 25/03/2026)


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Os telejornais da RTP1 são, nos dias que correm, autênticos folhetins de propaganda, alinhados com as agências de informação que tentam a contenção de danos na opinião pública internacional, e o enaltecimento das manobras belicistas, opressoras e destrutivas do Grande Irmão.

Todos, sem exceção, abrem com o que Trump diz a cada dia que passa, e como todos os dias ele diz uma coisa qualquer, muitas vezes diferente, então é como uma série de sketches com uma charada diária. “Trump garante que…”; “Trump afirma que…”, “Trump ameaça que…”, “Trump anuncia que…”, e assim vão abrindo os noticiários, todos os dias, a cada hora.

Depois passam para a Cândida Pinto, em direto de Washington, que faz o reporte do mesmo alinhamento, mas agora com fontes do Pentágono, assim como em Israel há o repórter de serviço a cobrir os estragos que supostamente a impenetrável Cúpula de Ferro, do país mais poderoso do Médio Oriente, devia evitar. Falam sempre a seguir os representantes Israelitas, depois do hiPOpoTamUS cor-de-laranja. É a propaganda seguinte do alinhamento.

No estúdio, outra arara, Márcia Rodrigues, afirma perentoriamente que Israel é o grande vencedor, demonstrando o seu superior poderio militar na região, e que o Irão é o perdedor, mesmo continuando o estreito de Ormuz estrangulado e as respostas diárias com projéteis sobre Israel e os Estados do Golfo com bases americanas, de onde partem (ou partiam), muitas ofensivas sobre o Irão. Quanto aos EUA, ainda não se sabe bem se ganharam, tanto ou mais que Israel, segundo a especialista “militar” (deve ser mais militante do chorudo pagamento que recebe para nos apresentar a informação truncada que frequentemente divulga aos portugueses).

 Os Epstein Files desapareceram do mapa, só conta o Trump a abrir todos os telejornais, qual Campeão da Pategónia, garantindo, afirmando, depreciando, ameaçando, bajulando, sempre dizendo o que quer e o que lhe apetece, e depois o seu contrário.

É isto que está a dar, é encantar pategos. A informação na RTP é um folhetim de propaganda aos crimes de guerra e internacionais dos americanos. Lembram-se das cobras e lagartos que debitaram sobre a Rússia, só pela intervenção no Donbass? Agora imaginem se a Rússia atacasse as Malvinas, o Canadá e a Gronelândia… ups!

Mas, “Eles estarem a defenderem os nossos valores e a demo-cracia”.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem em contos de fadas infantis sobre o Irão

(Caitlin Johnstone, 08/03/2026, Trad. Estátua de Sal)

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Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que os Estados Unidos travam guerras para promover interesses humanitários e levar liberdade e democracia a populações oprimidas.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que os soldados americanos lutam e morrem para proteger o seu país e os seus cidadãos.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que o intervencionismo militar dos EUA no Médio Oriente tenha algo a ver com os direitos das mulheres ou com a melhoria da vida delas.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que coisas boas resultem de ataques militares dos EUA a nações do Médio Oriente e do derrube dos seus governos.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que o governo dos EUA diz a verdade sobre as  suas guerras e os motivos pelos quais as trava.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que os EUA são os mocinhos que lutam contra os vilões, como se fossem os heróis de um desenho animado infantil.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que o governo dos EUA é menos assassino e tirânico do que o governo iraniano.

Não é aceitável que pessoas adultas aceitem a propaganda óbvia, sobre as atrocidades supostamente perpetradas por um governo, alvo dos EUA.

Não é aceitável que pessoas adultas consumam as notícias dos média ocidentais sobre a guerra, sem um ceticismo extremo em relação a todas as informações que lhes são apresentadas.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que os EUA travam guerras em legítima defesa.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que um governo, que permite que seus próprios cidadãos morram de pobreza e doenças, se preocupe profundamente com a situação do povo iraniano.

Não é aceitável que pessoas adultas apoiem essa guerra por causa de alguma parvoíce que foi escrita na Bíblia.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que a vida de um iraniano vale menos do que a vida de um americano.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que as forças armadas dos EUA são usadas para tornar o mundo um lugar melhor.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que esta guerra tornará o Irão mais livre e democrático.

Não é aceitável que pessoas adultas acreditem que esta guerra beneficiará alguém, além de Israel e dos oligarcas ocidentais.

Fonte aqui.