Do atentado ao mal tratado

(João Gomes, in Facebook, 26/04/2026, Revisão da Estátua.)


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Há uma estranha regularidade na política contemporânea: quando a realidade começa a tornar-se incómoda – sondagens em queda, desgaste de imagem, críticas internas e externas – surge, quase sempre, um “acontecimento”. Não necessariamente criado, note-se, mas rapidamente moldado, amplificado, reinterpretado até adquirir uma utilidade que, curiosamente, parecia estar em falta dias antes.

É um fenómeno antigo, embora hoje mais visível. A política deixou há muito de ser apenas gestão do real; tornou-se, em larga medida, gestão da perceção. E nesse campo, os factos não precisam de ser fabricados – basta que sejam enquadrados com precisão cirúrgica.

Um incidente de segurança, por exemplo, é antes de mais isso mesmo: um incidente. Mas, num ambiente mediático saturado e polarizado, pode transformar-se em símbolo, narrativa, prova indireta de algo maior. De repente, o protagonista político deixa de ser apenas um líder sob pressão para passar a ser alguém “sob ataque”, “no centro de forças adversas”, “incomodando interesses poderosos”. A transição é subtil – e altamente eficaz.

Não é preciso recuar muito na história para encontrar padrões semelhantes. Crises externas que consolidam lideranças frágeis. Ameaças difusas que reforçam discursos de ordem. Episódios isolados elevados à categoria de tendência. Sempre com o mesmo resultado: reorganizar o campo político sem alterar necessariamente a realidade subjacente.

E depois há a ironia maior: quanto mais contestado é um líder, maior é a probabilidade de qualquer evento ser reinterpretado como validação da sua relevância. Afinal, só se ataca – ou se diz que se ataca – quem “incomoda”. É uma lógica circular, quase perfeita. E perigosamente sedutora.

Nada disto implica, necessariamente, conspiração. Implica algo mais simples e, talvez por isso, mais inquietante: o oportunismo estrutural da política moderna. A capacidade de absorver o acaso e devolvê-lo como estratégia. De transformar o imprevisto em argumento. De converter fragilidade em força aparente.

O problema não está apenas nos protagonistas. Está também na mecânica que permite – e recompensa – este tipo de operação. Um ecossistema mediático que privilegia o impacto sobre a verificação. Um público cansado, mas permeável a narrativas fortes. E uma cultura política onde a urgência de vencer se sobrepõe, demasiadas vezes, à necessidade de compreender.

No fim, ficamos com uma sucessão de episódios que parecem extraordinários, mas obedecem a uma lógica previsível. Do atentado ao “mal tratado”, o percurso faz-se em poucas horas – às vezes minutos. E o que começou como um facto torna-se, rapidamente, ferramenta.

Talvez a questão não seja se estes momentos são aproveitados. Isso é quase inevitável. A questão é outra: até que ponto já deixámos de distinguir claramente entre o que acontece e o que é feito acontecer – não nos factos, mas na forma como os entendemos. E essa, mais do que qualquer incidente isolado, é uma transformação profunda – e duradoura – da própria política.

Artemis II: Quando a realidade morde

(António Gil, in Substack.com, 11/04/2026, Revisão Estátua)


Ninguém mais se importa com fantasias.


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Já assistimos a todos tipos dos ditos reality shows (enfim, eu nunca vi muito ‘disso’, algumas vezes porém não pude escapar, ou por estar num café, ou noutra casa que náo a minha).

O tema pode variar muito, desde ‘O Aprendiz’ em que um tipo na altura mais ou menos ignoto despedia os ‘incapazes’ até, mais recentemente ao ‘ Big Brother’ , ‘Quem quer casar com um Agricultor?’ etc…

O modus operandi porém é sempre o mesmo: trata-se de ‘abduzir’ pessoas da sociedade, com o seu próprio consentimento, e expô-las diante do circo mediático.

Claro que isso requer castings, os produtores sabem bem que há gente inadequada para os seus propósitos. Vocês nunca viram ninguém desdentado num programa desses, ou viram?

E esse é só um dos requisitos; há muitos, mas muitos outros, mesmo. Creio mesmo que além das entrevistas, também há treinos. Só para ter a certeza de que ninguém vai mijar fora do penico.

Pensando nisso, acho as ‘viagens à Lua’ ali pelos fins da década de 60 e inícios da década de 70 foram uma experiência pioneira, nisso tudo. Com uma pequena – talvez grande – diferença: as sessões de casting eram restritas a um grupo já previamente seleccionado.

E dessa selecção prévia, só uns poucos foram considerados aptos. No resto foi muito semelhante: os escolhidos foram devidamente ‘afastados’ do mundo. Viveram meses numa ‘atmosfera’ particular.

Depois de devidamente escolhidos foram filmados, como é de bom tom, tratando-se de reality shows. A tecnologia disponível na altura era no entanto superior, por isso não pode mais ser reproduzida, como se diz.

O realizador era de facto um cineasta de topo. Os actores tiveram de passar por um apertado coador, foram treinados – por exemplo – para mergulhar em piscinas, porque a água ameniza a gravidade dos corpos. Quem já saltou submerso sabe disso.

O filme teve grande sucesso, não nas salas de cinema mas na televisão – reality show, lá está. E agora mais de meio século depois, fez-se uma reprise.

O realizador era mais básico, embora pudesse dispor de uma panóplia de efeitos especiais inexistente na altura. Os actores também pareceram mais impreparados.

Todos os erros dectectados na altura, continuaram presentes e ainda se lhes juntaram alguns mais. Mesmo no aspecto das telecomunicações, numa era dita da ‘informática’.

A Terra, o planeta, continua a ser aquela esfera mais perfeita do que uma bola de futebol. As nuvens não se moveram. As estrelas apagaram-se. E há objectos levitantes que não têm sombra, na cápsula.

Para piorar tudo, em dado momento, perdeu-se o contacto com a Artémis II, coisa que nunca tinha acontecido antes. Ninguém se lembrou de usar um telefone com fios e discagem de números, que resultou tão bem, quando Nixon estabeleceu ligação com a nave Apolo. Por que não? Na altura resultou.

Perdeu-se essa tecnologia, a dos telefones com fios. Perdeu-se a capacidade de alunar. Perdeu-se tudo, excepto a esperança de que os humanos tenham batido no fundo, quanto ao que se chama racionalidade.

Na altura, os EUA estavam prestes a retirar-se do Vietname, uma derrota humilhante. Agora porém é diferente, os EUA não estão a perder guerra nenhuma. Ou estão?

Já não há certezas de nada, sobre nada. Mas este último reality show foi um flop e ninguém quis saber. A maioria das pessoas talvez estivesse ocupada com outras coisas. Como por exemplo, tentando abastecer os automóveis antes da próxima subida de preço dos combustíveis.

Moral da história: quando a realidade morde, ninguém liga mais a fantasias.

Fonte aqui

O vestido que abalou a civilização ocidental

(Luís Rocha, in Facebook, 10/03/2026, Revisão da Estátua)


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Portugal acordou em sobressalto. Não foi um terramoto, nem uma crise financeira, nem sequer uma daquelas crises governativas que brotam como cogumelos no outono. Não. Desta vez a República foi confrontada com algo muito mais grave. O preço de um vestido.

Sim, um vestido. A peça de tecido que Margarida Maldonado Freitas, empresária, farmacêutica e mulher de um Presidente recém-empossado, teve a ousadia de vestir na cerimónia. Um acto escandaloso que obrigou a imprensa especializada em assuntos de elevada gravidade nacional, como decotes, pulseiras e destinos de férias de celebridades, a mobilizar os seus mais experientes analistas têxteis.

A investigação começou como todas as grandes investigações jornalísticas. Com um zoom numa fotografia e uma busca no Google. Pouco depois surgiu a manchete: “Descobrimos o vestido!”. Um trabalho hercúleo digno de Watergate, mas com muito mais seda e muito menos Nixon.

A partir daí abriu-se um debate profundo sobre a democracia portuguesa. Não sobre salários, habitação ou política externa. Não. Sobre se uma mulher adulta, empresária e economicamente independente pode comprar a roupa que lhe apetece com o dinheiro que é dela.

O choque moral foi imediato.

De repente, Portugal descobriu que a República está perigosamente dependente do preço das bainhas. Um vestido caro pode aparentemente comprometer a estabilidade institucional, abalar a Constituição e talvez até provocar uma ligeira ondulação no Atlântico.

Naturalmente, esta análise política sofisticadíssima nasceu no laboratório intelectual de uma revista cuja missão civilizacional é acompanhar a evolução histórica da humanidade através de três indicadores fundamentais. Roupa, casamentos e dietas milagrosas.

Refiro-me, claro, àquela publicação dedicada ao estudo científico das celebridades que pertence ao grupo que também controla o Correio da Manhã, a CMTV, o Record e outras catedrais do rigor informativo. Esse mesmo grupo, hoje chamado Medialivre, herdou um vasto império mediático que inclui jornais, revistas e canais televisivos capazes de transformar qualquer trivialidade numa catástrofe nacional em menos de dez minutos.

É um ecossistema mediático impressionante. Lançam uma história numa revista de celebridades, amplificam-na na televisão, discutem-na em painéis, repetem-na nas redes sociais e, quando damos por nós, o país inteiro debate a bainha presidencial como se fosse uma questão de soberania.

É assim uma espécie de economia circular da indignação pimba.

E não se pense que isto é casual. Não. Há método. Há disciplina. Há uma dedicação quase monástica à arte de transformar trivialidades em escândalos.

Durante anos este mesmo ecossistema mediático serviu de palco permanente a uma figura política que os portugueses conhecem carinhosamente como “o Coiso”, personagem omnipresente em estúdios televisivos, debates inclinados e manchetes que pareciam escritas com a banda sonora das Valquirias de Wagner. Muito 3º Reich.

Agora que começa um novo mandato presidencial vindo da esquerda, os mastins mediáticos parecem ter decidido iniciar a temporada com aquilo que na ciência política se chama um “ataque preventivo à bainha institucional”.

Primeiro, o vestido. Depois talvez os sapatos. Mais tarde, quem sabe, a cor das cortinas de Belém. A vigilância republicana não pode abrandar.

Entretanto, nos estúdios televisivos, continuam os debates conduzidos por comentadores de grande erudição, incluindo a inevitável astróloga residente, figura omnisciente que analisa política internacional, economia global, conspirações planetárias e o alinhamento de Vénus com a taxa Euribor.

É reconfortante saber que o destino da República está também dependente dos trânsitos de Mercúrio.

Mas voltemos ao escândalo têxtil.

O que torna esta polémica particularmente patusca é o seu objecto. Uma mulher adulta, com carreira própria, que provavelmente ganha o suficiente para comprar quantos vestidos quiser sem pedir autorização ao país.

No entanto, segundo a nova escola de pensamento mediático, a esposa de um Presidente deve vestir-se segundo um rigoroso código de austeridade patriótica. Talvez uma túnica de serapilheira, um xaile de lã e sandálias franciscanas.

Tudo o resto ameaça a democracia.

E assim caminhamos, num país parolinho, onde o preço de um vestido provoca mais indignação mediática do que meia dúzia de escândalos financeiros. Um país onde uma revista especializada em frivolidades e pimbalhices consegue lançar o grande debate político da semana e pôr um sem número de alminhas a debitar parvoíces sobre uma mulher emancipada, que apenas comprou um vestido com o seu dinheiro.

Isto tudo um dia depois do Dia da Mulher e dos milhares de clichês sobre a sua emancipação. No fundo, talvez devamos agradecer.

Num mundo cheio de guerras, crises e desigualdades, é reconfortante saber que ainda existem instituições mediáticas dedicadas a proteger a nação contra o perigo mais terrível de todos.

Uma senhora bem vestida. A República agradece.

Beijinhos e até à próxima.

Referências consultadas

https://eco.sapo.pt/…/medialivre-com-lucros-de-19…

https://revistabusinessportugal.pt/medialivre-a-nova…

https://ban.pt/…/medialivre-com-lucros-de-19-milhoes…

https://www.flash.pt/moda-e-beleza/detalhe/descobrimos-o-vestido-da-nova-primeira-dama-saiba-quanto-custa-e-como-ela-o-adaptou-a-portugalidade