É preciso nascer duas vezes para ser mais sério do que Rio? 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/01/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

As denúncias que têm surgido sobre irregularidades eleitorais (é disso que se trata) em Ovar, envolvendo o diretor de campanha de Rui Rio, Salvador Malheiro, são um mau começo para o novo líder do PSD. Não acho que Rio tenha tido qualquer envolvimento no assunto. Aconteceu-lhe o que acontece a todos os que querem chegar à liderança dos grandes partidos: tiveram de contar com o apoio de aldrabões. Esta é uma das razões pelas quais as eleições diretas, abertas ou fechadas, nunca me convenceram. O Observador (Ver aqui), especialmente empenhado na disputa interna do PSD (Santana Lopes dava mais espaço interno ao Tea Party nacional que o jornal de José Manuel Fernandes representa), filmou tudo. Dirão, e eu suspeito que têm razão, que são assim todas as disputas internas no PSD. Mas para quem quer “limpar” o partido uma vitória “suja” não é o melhor começo.

Quando eu era dirigente do Bloco de Esquerda houve um camarada que, no meio de um debate acalorado, se saiu com esta frase vernácula: “Aqui não temos filhos da puta.” Eu não consegui deixar de o interromper: “Se não os temos é mau sinal, quer dizer que não contamos para nada.”

Em todos os comboios que podem dirigir-se ao poder entram oportunistas pouco honestos. E serão sempre os mais solícitos a ajudar aquele que apoiam a chegar ao poder por atalhos. Sempre assim foi. O currículo de grandes heróis, como Lincoln e Kennedy, está manchado com fraudes para vencer disputas eleitorais.

Só que a grande vantagem competitiva de Rio não são as suas propostas, não é um projeto para o país. A grande vantagem é a sua imagem de homem íntegro e independente do aparelho partidário. Para estreia de mandato, não podia haver pior do que isto. O problema de Rio é que, sem grandes capacidades oratórias nem grande sofisticação política, o seu único ponto forte será o seu calcanhar de Aquiles. Quem faz depender tudo do seu caráter é sempre mais escrutinado. E, nem que seja por causa dos seus colaboradores mais próximos, acaba sempre por ser tramado. Rio pode ter os seus Relvas? Cavaco estava rodeado deles e mesmo assim achava que era preciso nascer duas vezes para ser mais sério do que ele. Mas os tempos são outros.

O caso de Ovar e de Salvador Malheiro pode, no entanto, dar a Rio a oportunidade de mostrar que a promessa de “limpar” o partido não é, como por vezes parece, a ameaça de acabar com a oposição interna. Se Rio fizer deste um caso exemplar, demonstra que a moralização da vida partidária é mesmo um assunto sério para ele. Claro que isto levanta dois problemas. Ao fazê-lo reduz a legitimidade da sua própria vitória, enfraquecendo a sua posição até para essa moralização. E ao iniciar o seu mandato com um processo destes concentra ainda mais o foco da sua liderança na demanda moralizadora, tornando-se ainda mais vulnerável a este tipo de ataques. A política é tramada. E ainda mais tramada para quem tem pouca proposta política para apresentar

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Bons sinais

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 14/01/2018)

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Usando os números provisórios, a vitória de Rio deve-se a 22 611 pessoas, o equivalente a 0,2335231214329527% do universo eleitoral nas legislativas de 2015. Esta percentagem minúscula pode vir a ter uma influência gigante no regime caso os sinais de fecho de ciclo e de mudança de cultura se confirmem.

ELEIÇÃO

O ciclo que parece fechar-se é o que foi aberto em 2008 com a presidência de Ferreira Leite em tandem com Cavaco, onde a estratégia política da direita se passou a limitar às mentiras, às golpadas, às calúnias e ao ódio. Passos foi o seu mais destrutivo executante, tendo afundado o País quando o aparelho laranja o exigiu e tendo traído o eleitorado e a comunidade ao serviço da oligarquia nacional e de fanáticos estrangeiros.

A mudança de cultura está prometida na recusa da demagogia e do populismo e na obediência ao interesse nacional, precisamente o inverso do que se chama “fazer política” no PSD e CDS onde os respectivos fundadores são desprezados há décadas. Acima e antes de tudo, a mudança de cultura aconteceu, mesmo que tão-só episodicamente, quando Rio ousou expressar um juízo negativo acerca do Ministério Público; agravado pelo contexto dessa declaração que fica agora associada à sua presidência do PSD.

A direita portuguesa está decadente desde o Cavaquismo, este sendo um outro tipo de decadência nascido do controlo do Estado. A nossa actual direita não tem projectos, não tem ideias, não tem líderes nem recursos humanos de qualidade, mas tem Sócrates. Logo, não o podem largar, como não largam desde 2004. Daí as cenas desvairadas que já pudemos ler e ouvir só porque a ministra da Justiça não foi hipócrita e disse em público o que pensava tecnicamente a respeito da situação de Joana Marques Vidal.

A brutalidade e basicidade com que esses infelizes exigem ter uma Procuradoria-Geral da República entregue a um comissário político que lhes garanta o máximo de dor e cárcere para Sócrates e qualquer outro socialista deixa-nos sem saber o que mais admirar: se a sua estupidez funcional, se a sua paixão fatal. Por essa exaltação furibunda se poderá medir o choque de verem Rio a mostrar-se livre e a ser frontal a respeito de uma das mais políticas das dimensões do Estado, a administração da Justiça. Foi um terramoto de magnitude 11 na escala de Richter lá na Pulhalândia.

Observador reúne a fina flor desta direita decadente, embora ela esteja presente na maioria dos órgãos de comunicação social. Fizeram do pasquim do Zé Manel uma plataforma de apoio a Santana Lopes. A ideia seria meter o Pedro em palco e ir gastando o tempo até que Montenegro pegasse no partido depois da derrota do PSD em 2019. Único plano conhecido desta degradante gente, aproveitar as oportunidades para continuar a espalhar ódio e a boicotar o País até que uma crise política qualquer os levasse para São Bento. É consolador testemunhar que os tais 22 611 militantes do PSD são muito mais fortes do que a tremenda força mediática dos que já só querem ver o Estado de direito democrático a arder.


Fonte aqui

De La Féria a Chopin com um toque de Bach

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 13/01/2017)

Um político que não compreenda e, mais grave, não assuma para si mesmo esta disponibilidade para se abrir à mundividência proporcionada pelo fruir cultural, seja através da literatura, do teatro, do cinema, do bailado, da ópera, da frequência de museus ou de concertos, não está apenas a descurar o que constitui a grande herança da tradição humanista europeia. Está a autoexcluir-se de uma perceção do mundo onde haja lugar para a surpresa, ou para o questionamento, pessoal e coletivo, desencadeado pelas múltiplas interrogações contidas nas grandes obras da cultura de todos os tempos.

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