Biden lança promessas a Xi. Que razões tem a China para confiar nos EUA?

(Pepe Escobar, Diálogos do Sul, 25/11/2022)

Durante reunião do G20, o Presidente estadunidense afirmou que Washington não deseja uma nova Guerra Fria e que apoia a política de Uma Só China.


A cultura balinesa, um perpétuo exercício em sutileza sofisticada, não distingue entre o secular e o sobrenatural – sekala e niskala. Sekala é o que nossos sentidos conseguem discernir. Como, por exemplo, os gestos ritualizados dos líderes mundiais – os reais e os secundários – em um G20 altamente polarizado.

Niskala é o que não pode ser percebido diretamente, mas apenas “sugerido”. O que também se aplica à geopolítica.

Em Bali, o ponto alto talvez tenha trazido uma intersecção entre sekala e niskala: o badaladíssimo encontro cara a cara entre Xi e Biden (ou melhor, o encontro cara a fone de ouvido).

O Ministério de Relações Públicas chinês preferiu ir direto ao cerne da questão e selecionar os Dois Pontos Altos.

1. Xi disse a Biden – ou melhor, a seu fone de ouvido – que a independência de Taiwan é um assunto simplesmente fora de questão.

2. Xi também espera que a NATO, a União Europeia e os Estados Unidos venham a se engajar em um “diálogo amplo” com Moscovo.

As culturas asiáticas, sejam elas balinesas ou confucionistas – são avessas a confrontações. Xi colocou três camadas de interesses em comum:

● evitar conflito e confrontação, e levar à coexistência pacífica
● desenvolvimento em que os países se beneficiam uns aos outros
● promover a recuperação pós-covid em nível global, lidar com as mudanças climáticas e enfrentar de forma coordenada os problemas regionais.

É significativo que a reunião de três horas e meia tenha tido lugar na residência da delegação chinesa em Bali, e não nas instalações do G20. E que ela tenha sido solicitada pela Casa Branca. 

Biden, segundo os chineses, declarou que os Estados Unidos não desejam uma Nova Guerra Fria, não apoia a independência de Taiwan, não apoia as “Duas Chinas” nem a “uma China, uma Taiwan”, não busca se “desacoplar” da China e não deseja conter a China.

Mas digam isso aos straussianos/neocons/neoliberalcons que se inclinam à contenção da China. A realidade mostra que Xi tem poucas razões para confiar em Biden – ou melhor, no combo que, dos bastidores, monta todo o enredo. Então, no pé em que as coisas andam, continuamos em niskala.

O jogo soma-zero

O Presidente da Indonésia, Joko “Jokowi” Widodo, ficou com péssimas cartas nas mãos: como realizar um G20 para discutir segurança alimentar e energética, desenvolvimento sustentável e questões climáticas quando tudo que existe sob o sol está polarizado pela guerra na Ucrânia. 

Widodo fez o melhor possível, conclamando todo o G20 a “pôr fim à guerra”, com a insinuação sutil de que “ser responsável significa criar situações que não sejam de soma-zero”.

O problema é que boa parte do G20 chegou a Bali querendo uma soma-zero – buscando confrontação (com a Rússia), e quase nenhuma conversa diplomática.

As delegações dos Estados Unidos e da União Europeia pretendiam esnobar abertamente o Chanceler russo Sergey Lavrov a cada passo. Com a França e Alemanha foi diferente: Lavrov teve rápidas conversas tanto com Macron quanto com Scholz. E disse a eles que Kiev não quer negociar. 

Lavrov também revelou algo de grande importância para o Sul Global: 

“Os Estados Unidos e a União Europeia entregaram ao Secretário-Geral da ONU promessas por escrito de que as restrições às exportações de grãos e fertilizantes russos serão suspensas – vamos ver como isso será implementado”.

A tradicional foto do grupo antes do início dos trabalhos do G20 – um ritual que marca todas as cimeiras realizadas na Ásia – teve que ser adiada. Porque – quem mais seria? – “Biden” e Sunak se recusaram a estar na mesma foto que Lavrov.

Histeria infantilóide e nada diplomática desse tipo só faz ofender profundamente a graça, a gentileza e o ethos de não-confrontação de Bali.

A versão ocidental é que “a maioria dos países do G20” queria condenar a Rússia quanto à Ucrânia. Bobagem. Fontes diplomáticas insinuaram que o placar verdadeiro era de 50/50. A condenação vem do bloco Austrália, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia. A não-condenação do grupo Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia e, é claro, Rússia.

Em termos gráficos, o Sul Global contra o Norte Global. 

A declaração conjunta, portanto, irá se referir aos impactos da “guerra na Ucrânia” sobre a economia global, e não à guerra da Rússia na Ucrânia”.

O colapso da economia da União Europeia

O que não vinha acontecendo em Bali envolveu a ilha em uma camada adicional de niskala. O que nos leva a Ancara.

A névoa ficou mais espessa porque, no pano de fundo do G20, os Estados Unidos e a Rússia conversavam em Ancara, representados pelo diretor da CIA William Burns e pelo diretor da SVR (serviços de inteligência estrangeira) Sergei Naryshkin.

Ninguém sabe ao certo o que está sendo negociado. Um cessar-fogo é apenas um dos cenários possíveis. Mas a retórica acalorada vinda da NATO em Bruxelas e dirigida a Kiev sugere que uma escalada irá prevalecer sobre algum tipo de reconciliação.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi peremptório, de facto e de jure: a Ucrânia não pode e não irá negociar. A operação militar especial, portanto, irá continuar.

A NATO vem treinando novas unidades. Os próximos alvos possíveis serão a usina nuclear de Zaporíjia e a margem esquerda do Dnieper – ou até mesmo uma maior pressão ao norte de Lugansk. De sua parte, os canais militares russos colocam a possibilidade de uma ofensiva no inverno sobre Nikolaiev: a apenas 30 quilômetros das posições russas.

Os analistas militares russos sérios sabem o que os analistas sérios do Pentágono têm também que saber: a Rússia levou ao campo de batalha ucraniano apenas uma fração de seu potencial militar. Apenas uns poucos soldados do exército russo foram convocados, a maioria deles sendo spetsnaz – forças especiais. Quem de fato luta são as milicias das Repúblicas Populares de Donetsk e de Luhansk, os comandos Wagner, os chechenos de Kadyrov e voluntários. 

O repentino interesse dos americanos em conversar, e Macron e Scholz se aproximando de Lavrov, apontam para o cerne da questão: a União Europeia e o Reino Unido talvez não consigam sobreviver ao próximo inverno, o de 2023-2024, sem a Gazprom.

A Agência Internacional de Energia calculou que o déficit total, naquele momento, se aproximará de 30 bilhões de metros cúbicos. E tudo isso pressupõe circunstâncias “ideais” para este próximo inverno: em geral quente, a China ainda sob lockdowns, um consumo de gás muito mais baixo na Europa e até mesmo um aumento na produção (na Noruega?) 

Os modelos da Agência Internacional de Energia vêm operando com duas ou três ondas de aumento de preços nos próximos doze meses. Os orçamentos da União Europeia já estão em alerta vermelho – compensando as perdas causadas pelo atual suicídio energético. 

Quaisquer custos adicionais imprevisíveis ao longo de 2023 significarão que a economia da União Europeia entrará em total colapso: fechamento de fábricas em todo o espectro, o euro em queda livre, a subida da inflação, a dívida corroendo todas as latitudes, dos países do Club Med à França e à Alemanha.

É claro que a dominatrix Ursula von der Leyen, líder da Comissão Europeia, deveria estar discutindo todos esses tópicos – defendendo os interesses dos países da União Europeia – com os atores globais, em Bali. Mas, muito pelo contrário, mais uma vez sua única agenda foi a demonização da Rússia. Sem qualquer niskala, apenas com a mais tosca dissonância cognitiva. 

Fonte aqui.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXIV

(Por Carlos Marques, in Estátua de Sal, 25/11/2022)

A Ucrânia mergulhou na escuridão – Na manhã de 24 de novembro, mais de 70% de Kyiv permanecia sem eletricidade. Não há água em metade da capital. Os cortes de energia continuam em todas as partes do país.


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos do General Carlos Branco ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 26/11/2022)


Quando a boca lhes foge para a verdade, para lá de toda a propaganda:

“O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas dos EUA, general Mark Milley, veio afirmar publicamente que, por ser altamente improvável que a Ucrânia tenha capacidade para recuperar o território sob controlo russo, seria conveniente iniciar-se um processo de negociações de paz neste inverno, assinalando que a Rússia dispõe ainda de um poder de combate significativo.”

Ele sabe que a Rússia não foi expulsa de Kherson. Evacuou civis para evitar que os lunáticos explodissem a barragem de Nova Kakhovka. E tiraram a tropas para uma zona também protegida disso.

Não tenho dúvida que se tivesse já capacidade para tal, a Rússia teria ido até Nikolaev, mas não a tem.
Vai agora colocar novos mobilizados a ganhar estaleca na margem esquerda do Rio Dnieper, e só em 2023, finalmente com igualdade numérica, irá mais para Oeste.

Até lá, vai continuar como até aqui, com avanços lentos mas significativos nas zonas de alta densidade de bunkers em redor de Donetsk, e com as suas defesas a “limpar” todas as tentativas Ucranianas de avançar para Ligando a partir da frente de Kharkov, entre os rios Oskil e Zherebets.

Vou mais longe e pego nas palavras de Scott Ritter: a razão pela qual vemos cada vez mais ataques desesperados dos ucranianos, inclusive o de falsa bandeira em território polaco, e este paleio todo de “paz” vindo de quem andou meio ano a prometer mais guerra e derrota total da Rússia, é porque sabem o que aí vem a seguir, sabem que a seguir serão esmagados.

O que vem a seguir é o que acusaram a Rússia de fazer, mas esta não fez, pois não estava preparada para tal: uma invasão de facto. Estamos agora a ver os dias finais da intervenção em nome do povo do Donbass e em defesa preemptiva da Crimeia. Estamos s começar a ver novos mobilizados a ganhar experiência (ou a relembrar).

De uma situação de 250 mil ucranianos (cerca de 1 em cada 3 ultra-naZionalistas) frescos e preparados pela NATO ao longo de 8 anos mas que perderam quase 4 oblasts mesmo tendo a Rússia apenas 150 mil tropas, vamos passar para uma situação em que o exército da Ucrânia está de rastos, o povo está insatisfeito, e do outro lado está uma Rússia finalmente preparada e mentalizada para derrotar totalmente os lunáticos.

No resto da Europa, a inflação, o cansaço, talvez até recessão, o agravar da crise de refugiados, as mentiras cada vez mais descaradas e desmascaradas de Kiev, a hipocrisia de quem sanciona isto mas compra aquilo, e os zigue-zagues de quem (vassalos de Washington na Europa) não fala de factos nem faz o que tem sentido, apenas obedece a cada momento à vontade da oligarquia USAtlantista.

No início de 2023 a Rússia estará novamente em Kherson e Kharkov, irá a caminho das fronteiras da República de Donetsk e a caminho de Zaporojie e de Nikolaev, de modo respetivamente a que os lunáticos deixem de estar à distância de bombardear a central nuclear de Energizar e a barragem que protege Kherson da destruição.

É por isso que se fala agora em “paz”. Porque agora dá a sensação que a vitória geoestratégica dos EUA está no papo, que a UE deixou de ter qualquer autonomia, que a Rússia sofre muito com sanções, e que a Ucrânia tem alguma hipótese de recuperar mais territórios.
Só mesmo lunáticos acham que faz sentido querer roubar o Donbass, a Taurida e a Crimeia a quem lá vive, gente que é esmagadoramente pró-Russa ou Russa de facto.

A Rússia teve de facto uma derrota humilhante no oblast de Kharkov, onde perdeu território de Balakleya até Izium, e depois também até Lyman e mesmo até às fronteira da República de Lugansk, de forma muito rápida, sem conseguir proteger os seus civis pró-Russos, e deixando até muito material para trás, tal foi a pressa.
A Ucrânia aproveitou muito bem, e o tal exército, já com menos nazis, mas mais mercenários da NATO, deu uma lição de humildade à Rússia.

Mas desde então muito mudou, e o erro foi tal que duvido que se atrevem a repetir. Na próxima fase terão mais 300 mil mobilizados, já com alguns meses de experiência em situação defensiva ou de combates de artilharia posicionais. Já para não falar dos milhares de voluntários para além desse número. Os referendos estão feitos, dos territórios oficialmente no mapa da Rússia. E acham os palermas que era agora, antes da hora H, e após mais umas quantas provocações em Belgorod e Sevastopol, que a Rússia ia atirar a toalha ao chão?

Não sei se acompanham os mapas diariamente. Eu faço-o em várias fontes, algumas com o pormenor até de dizer onde está cada batalhão. Aquilo que vemos em Kharkov, após a derrota humilhante, foi um exército Russo em inferioridade numérica a corrigir o erro e a travar os UcraNazis+NATO na linha que definiu. No Donbass é a Rússia que avança e ainda não parou de destruir naZionalistas, material e bunkers. Em Zaporojie a linha da frente está onde a Rússia a quer nesta fase.

E nas várias grandes movimentações de Kherson, a linha da frente foi definida pela Rússia onde a Rússia muito bem entendeu. Até os lunáticos de Kiev tiveram dificuldade em chamar vitória ao seu avanço, pois este aconteceu sobre os corpos dos milhares que morreram na tal “contra-ofensiva”, e a Rússia é que foi escolhendo a seu bel-prazer onde era a linha da frente em cada momento.
Agora, devido à questão da barragem, decidiu que passará o Inverno na margem leste do Dnieper, mas já antes tinha decidido que a linha da frente era de Oleksandrivka até Snigurivka, e de Andreevka até perto de Dudchany. A Ucrânia foi “lutando” (morrendo) onde a Rússia decidiu.

Os EUA, em particular o senhor que citei, sabe o que eu sei. Sabem muito mais. Sabem que estes meses de Inverno são a última hipótese do regime de Kiev assinar um acordo de paz em que salve minimamente a face e em que a NATO não seja totalmente tornada inútil (na questão Ucraniana).
E o pior é que os lunáticos também sabem, mas insistem na propaganda do “forte resistente” que ainda vai re-conquistar a Crimeia toda não tarda nada… É que é já a seguir. Prova disto é que perante a esperada invasão de facto, já colocam bunkers pré-fabricados na fronteira a Norte de Kiev, em toda a extensão desde a Polónia até à Rússia.

Sabem o que aí vem, mas em vez de fazerem a paz, agora com o menor número de concessões territoriais possível (perante a derrota Russa de Kharkov até Lyman), e perante o recuo estratégico na cabeça-de-ponte de Kherson, em vez disso vão continuar de peito feito, a prometer derrotar a Rússia, eles nos palácios de Kiev (ou mansōes compradas aqui e ali), enquanto os desgraçados estão a morrer na linha da frente, ou já com data marcada para o enterro na fase 3…

E aqui, confesso, tenho o coração dividido. A paz, mesmo paz, era o ideal, sempre, e evitava-se mais mortos civis e de soldados comuns. Mas só com a continuação da guerra, até à derrota total da ditadura de Kiev, é que será feita justiça, é que será possível a liberdade de todos os pró-Russos, é que será possível a desnaZificação completa (como a imposta pela URSS à Finlândia, ou pelos Aliados à Alemanha), é que será possível a humilhação da NATO, é que será possível dar início a todo o vapor à Nova Ordem Mundial Multipolar, e quiçá será possível dar mais alguma dor à Europa de maneira a que está abra os olhos e comece a deixar a droga dos EUA, e dê início ao longo e penoso caminho de normalização das relações com a restante Eurásia, Rússia e China obviamente incluídas.

A alternativa é a derrota de tudo, até da verdade dos factos e da decência, a normalização do Nazismo, e a vitória de quem só merece desaparecer do mapa: o regime autoritário imperialista genocida dos EUA. Isso, a derrota da Rússia perante a NATO, é o pior que pode acontecer ao Mundo em 2023.
Seria usado como motivação para repetir a pouca-vergonha em Taiwan e quiçá com uma NATO Mundial, como os belicistas e corruptos USAtlantistas já se atreveram a dizer. Esta gentinha já matou milhões suficientes, isto tem de acabar em Kiev. Nem mais um metro para a NATO, os assassinos do regime genocida de Washington e seus idiotas que prestam vassalagem na Europa.

A diferença é esta, nas nossas vidas em Portugal, daqui por exemplo a 10 anos:
– ou adormecer com medo que o nosso governo vá censurar mais alguém, e cobrar-nos impostos para ajudar os EUA a invadir mais algum país, com Nazis como aliados e ameaça de guerra nuclear permanente, e só com FakeNews na TV;
– ou acordar com orgulho, soberania, progresso, cooperação, paz, e o dinheiro bem usado para o bem de todos e o desenvolvimento humano, preocupados só em votar em quem nos representa, com confiança renovada em jornalistas que falam dos factos sem medo de lhes acontecer uma perseguição como ao Bruno Amaral de Carvalho ou ao Julien Assange.

É esta a escolha. Eu já fiz a minha. Quero lá saber se é com Putin ou se foi com Stalin. Interessa é não estar do lado dos nazis originais ou dos Azov actuais. Mas sei que estou em minoria, e sei que a maioria está completamente manipulada, treinada como o cão de Pavlov, mas agora para abanar o rabo de alegria perante as insígnias militares dos EUA, e para espumar de raiva perante o que não seja ocidental, em particular se russo ou chinês.

Sei ainda mais uma coisa: para que o futuro da Europa seja risonho e decente, a UE (agora revelada às claras como o braço financeiro da NATO, que por sua vez é o braço armado do império) não pode continuar a existir… Mas isso é outra conversa, e fica para outra oportunidade.


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E o Catar aqui tão perto!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 25/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

Confesso que depois de várias vezes me ter indignado e escrito acerca da vergonha da nossa “moderna agricultura” intensiva, sustentada com mão-de-obra intensiva importada e explorada por máfias nacionais e estrangeiras e sofregamente aproveitada nas tais modernas explorações agrícolas, já não esperava que nada mudasse algum dia e que algum assomo de escrúpulos ou de pudor viesse perturbar o negócio. Das estufas de frutos vermelhos do litoral alentejano aos olivais e amendoais a perder de vista da região do Alqueva, há todo um mundo de donos de terrenos a servirem-se dessa mão-de-obra subcontratada, de proprietários de par­dieiros a alugá-los como habitações aos desgraçados que atravessaram por vezes meio mundo para virem aqui ser explorados como novos escravos, submetidos a uma lei da kafala por máfias organizadas e actuando à luz do dia.

Agora, que tanto falamos do Catar, é ainda mais extraordinário que tenhamos passado tantos anos a fingir que não víamos o Catar entre nós. Só porque a escala é diferente não erguemos um Mundial de futebol e não gastámos 220 mil milhões de euros sobre as vidas perdidas dos nossos imigrantes.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

E porque tantas vezes escrevi, indignado, sobre isto, agora venho saudar o que parece ser o fim da inércia e da impunidade. A imensa operação lançada pela PJ na madrugada de quarta-feira no Alentejo, visando uma das redes mafiosas, pode ser o princípio do fim do desmantelamento do nosso Catar escondido e o restabelecimento do Estado de direito em grande parte do sector agrícola. Foram feitas 35 prisões sob suspeitas dos crimes de tráfico de seres humanos, branquea­mento de capitais e evasão fiscal, numa investigação que presumo não ser fácil e onde a obtenção de prova é dificultada pelo silêncio das vítimas, receosas de represálias sobre elas e as suas famílias nos países de origem. Agora é preciso que as inevitáveis pressões dos beneficiários da situação ou a brandura da justiça não venham conseguir deitar por terra este primeiro passo para pôr termo a uma situação que é uma vergonha para o país. E que esta investida das autoridades sirva de aviso para os proprietários que aceitam mão-de-obra subcontratada a empresas de fachada que sabem não garantir quaisquer direitos laborais aos trabalhadores.

2 Porque as duas primeiras razões invocadas por Marcelo para o seu passeio ao Catar não colheram — o “interesse nacional” e o “apoio à selecção” —, o Presidente viu-se forçado a ensaiar uma terceira: “a defesa dos direitos humanos”. Não sei qual das três razões é mais ridícula, qual é mais rebuscada, qual a que nos pretende tomar mais por tolinhos. O interesse nacional é aquilo que uma maioria clara de cidadãos sente consensualmente como tal, e não aquilo que um Presidente invoca como interpretação privilegiada da sua parte. Só é assim nas autocracias terceiro-mundistas, e mesmo aí às vezes há alguma contenção: neste Mundial e até à data, o nosso é o único Presidente que foi ao Catar. Ridículo mesmo é o argumento do apoio à selecção, como se esta não conseguisse jogar bem sem vislumbrar, lá no alto da tribuna de honra dos estádios, alguma das mais altas figuras da nação: no caso de Augusto Santos Silva, duvido mesmo que algum dos jogadores saiba até da sua existência. Resta então a oportunidade dos direitos humanos. Afinal, Marcelo tinha tudo planeado: ir ao Catar para dar in loco uma lição de direitos humanos. Se isso fosse verdade, seria de uma enorme indelicadeza diplomática. Mas não é verdade: Marcelo, segundo o próprio, terá aproveitado uma palestra sobre educação na Fundação Aga Khan para falar sobre direitos humanos, que, como se sabe, “têm tudo a ver com educação”. Umas dezenas de pessoas talvez assistam à palestra, e presume-se que a imprensa local e os jornalistas internacionais presentes no Mundial certamente não deixarão de fazer disso o acontecimento do dia, e assim a viagem estará safa. O Falcon pode continuar a ir e vir até Doha e, depois, como diz o Presidente, “vamos esquecer isso”. Vamos esquecer isso, vamos esquecer as visitas humilhantes a Bolsonaro, ao narco-Estado da Guiné-Bissau, os suplicados 15 minutos com Donald Trump para falar de Ronaldo (“um instrumento essencial da nossa política externa”) ou o desgaste de conviver de manhã à noite com um Presidente que não nos dá um minuto de tréguas e que fala mais depressa do que consegue reflectir e viaja mais do que consegue ver.

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Mas quando penso para além de Marcelo e, sobretudo, quando penso nos putativos sucessores que a imprensa nos quer impingir — Marques Mendes, Durão Barroso e por aí fora —, eu que, ao contrário de Marcelo, nunca senti qualquer pulsão monárquica se não fosse por esse “detalhe” de não podermos eleger nem despedir o Rei, até ficaria a pensar duas vezes. É que hoje em dia é bem mais fácil ter mão num Rei constitucional do que num Presidente eleito com tentações majestáticas. O infeliz Carlos III de Inglaterra, por exemplo, que toda a vida foi ambientalista, bem quis ir à COP27 no Egipto, mas a ex-PM Liz Truss, “a Breve”, disse-lhe simplesmente: “Nem pensar, só lá ia atrapalhar.” E Sua Majestade ficou em terra.

3 Outro ex-PM inglês, Boris Johnson, esteve esta semana em Lisboa para falar no jantar comemorativo do 1º aniversário desse projecto de sucesso que é a CNN Portugal. É uma bela vida, esta dos outrora grandes do mundo, que, uma vez retirados, andam por aí, pagos a peso de ouro, fazendo-se escutar como oráculos de sabedoria. Porém, se me é permitida a ousadia, em Lisboa Boris Johnson não esteve à altura do acontecimento que era suposto abrilhantar. Ele, que foi talvez o principal artífice do ‘Brexit’ — cujos desastrosos resultados económicos para os ingleses começam agora a ficar à vista —, escolheu fugir do tema e concentrar-se apenas na guerra da Ucrânia. E, sobre isso, não foi além de generalidades e banalidades de todos sabidas, oferecendo à audiência um banal panfleto anti-Rússia, com a conclusão de que não há lugar a quaisquer negociações de paz e a única opção para a guerra é a derrota total de Putin, através do conti­nuado fornecimento de armamento à Ucrânia até à vitória. Ele, que foi um biógrafo de Churchill, cujo estilo sempre quis copiar, encostou-se, desde o início da guerra e por razões de política interna, à figura de Zelensky, que apresentou ao mundo como o Churchill do nosso tempo. Na sua palestra, aliás, não resistiu a recordar a visita que fez a Kiev, para insinuar a coragem que ele e Zelensky demonstraram em exporem-se a eventuais disparos de snipers russos eventualmente emboscados nos telhados da cidade (os quais nunca existiram para além da sua imaginação). Uma fraca comparação com o seu biografado: Churchill, o verdadeiro, percorreu durante a guerra mais de 220 mil quilómetros em navios e aviões de guerra, navegando e voando sobre território inimigo em circunstâncias verdadeiramente aventurosas e visitando várias vezes a frente de batalha em África ou na Normandia. Mas Churchill, que combatia contra Hitler, que não era propriamente Putin, e que tinha de se entender com Estaline, que também não era exactamente Putin, chegou ao desespero por não conseguir convencer os polacos a aceitarem um acordo com os russos e exigirem antes que a Inglaterra os apoiasse militarmente nas suas exigências absolutas. A história conta que, no final, Estaline não cumpriria nenhuma das promessas feitas a Churchill e acabaria por engolir toda a Polónia de forma maquiavélica, mas ficou por se saber se poderia ter sido diferente se o Governo polaco no exílio tivesse aceitado o acordo que Churchill e Estaline lhe propuseram antes. Acontece que as vitórias totais apregoadas em palestras são sempre infinitamente mais fáceis do que as vitórias possíveis arrancadas no campo de batalha.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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