“Teoria da internet morta”: já aconteceu, e está a matar a web como a conhecemos

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 01/08/2026)


A teoria da internet morta circula online desde a década de 2010, e a ideia de que a web é dominada por atividades não humanas era muitas vezes descartada como uma conspiração marginal. Agora, tornou-se um facto comprovado. E as máquinas já não se limitam a visitar. Estão a transacionar.


A certa altura de junho de 2026, sem cerimónia, os seres humanos tornaram-se minoria na internet que construíram.

Segundo a Fortune, a Cloudflare, que gere o tráfego de milhões de sites, revelou que os bots geram agora 57,5% dos pedidos de páginas web.  Em março, o presidente executivo da empresa, Matthew Prince, tinha previsto que esse cruzamento só chegaria no final de 2027.

Chegou mais de um ano antes.

A Thales, gigante mundial da defesa e da tecnologia, defende no seu relatório anual, o “Bad Bot Report“, que as máquinas passaram a ser maioria dos “utilizadores” da internet já em 2023.

As empresas divergem sobre quando se deu a inversão. Nenhuma discorda de que ela aconteceu.

A “teoria da internet morta“, a velha conspiração dos fóruns segundo a qual a maior parte da atividade online não é humana, é real. A única coisa que se disputa agora é como essa atividade é medida.

E escondida dentro dessa disputa está uma história bem maior: o modelo de negócio que financiou a web durante 30 anos acabou de apagar o pressuposto que lhe deu origem, escreve Rita McGrath, professora da Columbia University Business School, num artigo na Fast Company.

O pecado original foi uma escolha, não uma lei da natureza

Já nos esquecemos disto, mas quando a internet comercial começou a descolar, nos anos 1990, a forma de a monetizar estava genuinamente em aberto.

Houve quem propusesse a sério os micropagamentos. Debateram-se as subscrições. Chegaram a ser aventados modelos de financiamento público. Venceu a publicidade.

Não venceu por ser inevitável, mas por ser fácil. A atenção podia medir-se; os pagamentos, na altura, não se conseguiam tornar isentos de atrito.

Assim, fixámo-nos num grande pacto: os conteúdos seriam “gratuitos”, e o preço sairia da nossa atenção e, mais tarde, dos nossos dados. Como diz a velha máxima: “Se não pagas pelo produto, o produto és tu“.

Os efeitos de segunda ordem dessa escolha definiram uma era. A vigilância tornou-se o motor económico da web: quanto melhor se conhecia o humano do outro lado do ecrã, mais se podia cobrar para lhe pôr coisas à frente.

A imprensa tradicional, que tinha financiado o jornalismo com publicidade vendida em pacote, ficou esvaziada. Aceitámos como termos de serviço perdas de privacidade que teriam gerado indignação se um governo as tivesse imposto.

Todo um edifício de um bilião de dólares, feito de custos por clique, impressões de anúncios, funis de conversão, analítica de visualizações de página e modelos de atribuição, assentava num pressuposto: o de que o visitante é um ser humano a quem se pode convencer a comprar algo.

Esse pressuposto é hoje mais vezes falso do que verdadeiro.

As máquinas não se limitam a visitar. Estão a transacionar.

O que torna este momento diferente do tráfego de bots de outros tempos é o que as máquinas fazem.

Segundo o relatório de 2026 da Human Security, o tráfego de agentes de IA que executam ações na web, como clicar em ligações, preencher formulários e concluir tarefas, cresceu 7.851% em termos homólogos.

Não a extrair dados. A agir.

A plataforma fintech Stripe indica que cerca de 70% dos comandos que chegam às suas APIs de dados vêm agora de agentes, e não de pessoas.

A plataforma de negociação Alpaca viu as chamadas às APIs feitas por agentes saltar de valores de menos de 10% para 30% do seu volume num único trimestre. Hoje, 25% dos programadores concebem interfaces de programação de aplicações a pensar nos agentes, e não nos humanos, como cliente principal.

Rudy Yang, o analista da PitchBook que assinou o relatório de julho da empresa sobre aquilo a que chama a “economia das máquinas“, disse à Fortune que os agentes “consomem a web de forma completamente diferente da dos humanos”.

É, na prática, uma categoria de clientes totalmente nova. E nenhuma empresa quer fechar-se a um segmento inteiro de clientes.

Nos últimos meses, empresas como a Visa, a Stripe, a DoorDash, a Coinbase e a Ramp lançaram interfaces viradas para agentes. O ponto de inflexão é inconfundível.

Eis a realidade que os anunciantes têm agora de encarar. Os agentes não têm olhos. Não se demoram num banner publicitário, não sentem um lampejo de desejo perante a sapatilha que os persegue em anúncios, nem clicam em conteúdo patrocinado por mera curiosidade.

Não se consegue vigiar um agente até o empurrar para uma compra por impulso.

Cada dólar da economia da atenção partiu do princípio de que havia um primata distraível do outro lado da ligação. Os primatas estão a sair do edifício e a mandar o software no seu lugar.

Já vimos este filme

A economista Carlota Perez mostrou que todas as revoluções tecnológicas passam por um ponto de viragem. É um período de crise institucional, em que os modelos de negócio, as regulações e os pactos sociais da era de instalação se desmoronam, e é preciso inventar outros para a era de implantação.

O período febril de instalação constrói a infraestrutura. O ponto de viragem é quando descobrimos que as regras que escrevemos para o jogo antigo já não funcionam.

modelo de publicidade e vigilância é um artefacto da era de instalação da revolução digital. Foi montado à pressa nos anos 1990, hipertrofiou-se na década de 2010 e está agora a desfazer-se.

Não porque os reguladores tenham finalmente agido ou os consumidores se tenham finalmente revoltado, mas porque o próprio tráfego mudou de espécie.

Os pontos de viragem são precisamente o momento em que os pressupostos mais profundos vêm ao de cima. “O visitante é humano” era, afinal, um dos mais profundos de todos.

E antes que alguém declare a economia das máquinas a nova corrida ao ouro, aqui fica alguma perspetiva: a PitchBook estima que apenas cerca de 1% dos cerca de 20 biliões de dólares (cerca de 17,5 biliões de euros) em trabalho que poderiam plausivelmente passar por agentes de IA passam de facto por eles hoje.

A startup de IA Forsy estima o “PIB dos agentes” total em cerca de 36 mil milhões de dólares por ano (cerca de 31 mil milhões de euros).

É minúsculo, em comparação. As regras para o próximo modelo de negócio da internet escrevem-se agora mesmo, por quem aparecer para as escrever. É este o aspeto de um ponto de viragem visto por dentro.

O que vem depois da atenção

Se não é possível monetizar a atenção humana, o que é que se monetiza? Já se veem os contornos de vários modelos candidatos.

acesso passa a ser o produto. A Cloudflare e outras empresas estão a experimentar acordos de pagamento por rastreio (pay-per-crawl), em que as empresas de IA compensam os editores pelos conteúdos que os seus sistemas consomem.

O conteúdo deixa de ser isco para olhos e passa a ser matéria-prima licenciada, vendida ao token, não à impressão. Para os editores que passaram duas décadas a dar tudo de graça para atrair anunciantes, isto é uma inversão completa da cadeia de valor.

API passa a ser a montra. Quando 25% dos programadores já constroem para os agentes enquanto consumidor principal, a interface virada para as máquinas deixa de ser canalização. Passa a ser a montra, o motor de preços e a experiência de marca, tudo num só.

As empresas que tratarem o acesso dos agentes como um canal monetizável, com escalões, níveis de serviço e condições, vão encontrar receita onde outras só veem custos de servidor.

intenção substitui a atenção. Um agente chega com um mandato: encontrar a tarifa mais baixa, reabastecer o armazém, agendar a marcação. Não se deixa distrair, mas pode conquistar-se, por atributos como o preço, a fiabilidade, a qualidade dos dados estruturados e a confiança que inspira.

A economia da sedução dá lugar a uma economia da qualificação. Ser escolhido por um algoritmo pelo mérito é um jogo muito diferente de ser notado por um humano num feed, e vai recompensar capacidades muito diferentes.

humanidade verificada torna-se escassa. E valiosa. Quando a maior parte do tráfego é sintética, a prova de que se é uma pessoa real passa a ser um produto premium.

É de esperar que comunidades humanas autenticadas, avaliações verificadas por humanos e experiências “com humano certificado” atinjam preços que o espaço comum, gratuito e inundado de bots, nunca conseguirá.

A agenda dos líderes

Para os líderes, a tentação vai ser tratar isto como um problema de informática.

Seria um erro. Quando um pressuposto fundador se quebra, não se remenda. Replaneia-se à volta dele. Há agora três movimentos que importam.

Em primeiro lugar, reveja os seus instrumentos e métricas. As suas métricas de envolvimento já estão contaminadas.

Os navegadores agênticos inflacionam as sessões e reduzem as taxas de rejeição de formas que a analítica corrente não deteta. Descubra que fatia dos seus “clientes” são máquinas antes de tomar outra decisão com base em dados de tráfego.

Em segundo lugar, trate os agentes como um segmento, com o seu próprio percurso a mapear, as suas próprias necessidades a servir e os seus próprios preços a pagar. Algures na sua organização, alguém deve ser responsável pelo cliente-agente, tal como alguém é responsável pelo cliente empresarial.

Finalmente, conduza a transição como um conjunto de pressupostos a testar, não como um plano a executar. Ninguém sabe qual dos modelos pós-publicidade vai vencer. Isso aconselha uma abordagem orientada para a descoberta.

As empresas que ficaram presas na última transição de modelo de negócio foram as que apostaram tudo na hipótese de o mundo ficar quieto.

Há trinta anos, deixámos que um modelo de negócio nos escolhesse, e passámos décadas a viver com as consequências: a vigilância, a erosão da privacidade, o colapso das instituições que outrora pagavam o jornalismo sério. Agora o modelo está a morrer de causas naturais, morto não pelo nosso bom senso, mas pelo nosso próprio software.

Temos uma segunda oportunidade perante uma decisão que mal demos conta de estar a tomar da primeira vez. Seria uma pena voltar a atravessá-la a dormir.

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Side-by-side illustration of a human brain and an electronic circuit board connected in the center

Um professor universitário suspeitou da utilização de IA num teste e decidiu contra-atacar

(Susan Svrluga, in Público, 16/07/2026)

Side-by-side illustration of a human brain and an electronic circuit board connected in the center

(Publico estes dois textos pela sua atualidade. Uma revelação dos perigos e armadilhas do mundo que estamos a criar, com a introdução da IA a subjugar a racionalidade humana.

Estátua de Sal, 18/07/2026)


Um professor da Universidade Brown suspeitou que os alunos recorreram à IA após um exame feito em casa ter notas muito acima do habitual.


Roberto Serrano ficou chocado quando viu os resultados do exame intermédio da sua disciplina de economia matemática avançada na Universidade Brown no semestre passado: a média foi de 96, quando, no passado, tinha variado entre os 60 e os 80. Quase metade dos estudantes este ano obteve uma pontuação perfeita de 100.

Quando Serrano e os seus assistentes puseram um grande modelo de linguagem, o ChatGPT, a fazer o exame, este apresentou um processo estranho e rebuscado para resolver um dos problemas, em vez de uma demonstração directa e simples. O mesmo aconteceu com muitos estudantes.

Roberto Serrano decidiu, depois do tiroteio mortal na universidade em Dezembro, permitir que os alunos fizessem a prova em casa pela primeira vez. E acabou por descobrir que estes resultados já não podem ser considerados fiáveis para medir a aprendizagem dos estudantes, mesmo numa universidade de elite, da chamada Ivy League, as mais respeitadas dos Estados Unidos.

“Penso que é basicamente impossível”, disse Serrano, “encontrar uma explicação alternativa que explique os dados para além de terem copiado em massa.”

Os resultados da disciplina de Serrano mostram que o ensino superior continua a debater-se com uma questão muito básica: à medida que os alunos se tornam melhores a utilizar inteligência artificial, como podem os docentes garantir que os estudantes estão realmente a aprender?

Quando o ChatGPT foi lançado, em 2022, alguns educadores recearam que os estudantes o utilizassem para fazer batota, mas outros acharam que os grandes modelos de linguagem (LLMs, do inglês Large Language Models) não conseguiam escrever ensaios convincentes nem resolver problemas matemáticos difíceis. Agora conseguem.

E novos dispositivos estão a tornar mais difícil avaliar os estudantes. Existem calculadoras de aspecto inocente com câmaras e IA generativa. (“Fotografa. Resolve. Feito.” é o slogan de um desses dispositivos.) Óculos com câmaras e IA incorporadas podem fornecer respostas durante os testes sem que os professores façam a mínima ideia de que isso está a acontecer.

“A realidade é que os estudantes vão utilizar IA, quer os professores saibam disso ou não”, diz Laurent Lessard, professor associado de engenharia mecânica e industrial na Universidade Northeastern. Lessard, que fez parte de um grupo de trabalho sobre IA — algo que muitas universidades têm —, defende que a tecnologia está a evoluir tão depressa que os professores têm de se adaptar rapidamente ou deixarão de compreender as suas capacidades e a forma como os estudantes a utilizam.

Lessard diz que a IA conseguiria completar uma cadeira universitária semestral em cerca de duas horas.

De muitas formas, as universidades estão a adoptar a IA, com investigadores a utilizá-la para potenciar o seu trabalho em algumas áreas, docentes a desenvolver aplicações de tutoria para ajudar os estudantes a lidar com problemas difíceis, e responsáveis universitários a criar disciplinas e cursos relacionados com IA para preparar os estudantes para um mercado de trabalho em rápida mudança.

Mas o problema mantém-se: para os estudantes que sabem que podem conseguir uma nota melhor se utilizarem um LLM e que sabem que irão competir por empregos e admissões com colegas que o utilizam, o incentivo para recorrer a uma ferramenta tão rápida e fácil pode ser muito forte, diz Lessard; é por isso que tantos docentes estão a tentar repensar a forma como ensinam, como avaliam e o que classificam.

Algumas universidades estão a recuperar, ou a ponderar recuperar, práticas tradicionais, como os exames supervisionados e os exames orais. As universidades de Stanford e Princeton começaram este ano a permitir e, no caso de Princeton, a exigir exames monitorizados por software, apesar dos seus códigos de honra.

A Faculdade de Direito da Universidade de Chicago está a testar a proibição de dispositivos nas salas de aula das disciplinas obrigatórias do primeiro ano. E alguns professores deixaram de atribuir, ou de classificar, trabalhos de casa; passaram a dar mais importância ao processo de aprendizagem do que ao produto final; e aumentaram o tempo dedicado às discussões presenciais.

A maioria dos adolescentes, 59%, considera que utilizar IA para copiar é uma ocorrência normal na sua escola, de acordo com um relatório de Fevereiro do Pew Research Center. Especialistas afirmam que a utilização de IA entre estudantes universitários é generalizada.

Na Universidade Brown, uma comissão que estudou a utilização da IA durante grande parte deste ano lectivo divulgou, na semana passada, um relatório que recomendava várias alterações, incluindo a revisão dos regulamentos académicos para garantir que a integridade académica continua a ser um princípio fundamental.

A universidade está a investigar o que aconteceu na disciplina de Serrano. “Brown trata todas as alegações de integridade académica com a máxima seriedade”, afirmou Brian Clark, porta-voz da universidade.

Serrano, professor de economia, sabe que aprender pode ser uma luta: aos 17 anos, enquanto crescia em Madrid, começou a perder a visão. Chegou a ponderar não continuar os estudos. Em vez disso, aprendeu a usar uma bengala e a ler Braille. Na universidade, o pai ajudava-o a reconstituir os apontamentos que tinha rabiscado nas aulas para que Serrano os pudesse transcrever para Braille. Depois de concluir o doutoramento na Universidade de Harvard, começou a leccionar na Brown.

Muitas pessoas enfrentam circunstâncias muito mais difíceis, considera, mas “isso deu-me claramente a ideia de que aprender e ter sucesso não acontecem sem esforço”.

Serrano ficou surpreendido quando 86 estudantes se inscreveram na sua disciplina este ano, cerca de três vezes mais do que o número habitual. Agora pergunta-se se isso aconteceu porque o programa da disciplina deixava claro que o exame intermédio e o exame final seriam realizados em casa.

Após o exame intermédio, Serrano disse à turma que parecia ter havido fraude generalizada, apesar de os estudantes terem assinado uma declaração de integridade académica ao realizarem a prova. A resposta foi o silêncio, conta.

Também lhes disse que lhes daria uma oportunidade para lhe provarem que estava errado. Depois de alterar o exame final para uma prova presencial de três horas, 27 estudantes desistiram da disciplina. Vinte e dois deles tinham obtido uma pontuação perfeita de 100 no exame intermédio.

A média do exame final foi de 48,6.

Perante os resultados, disse à turma que anulava o exame intermédio. E perguntou-lhes, se optaram por utilizar IA num exame: “Porque estão aqui? Porque estão a frequentar uma universidade?”

A boa notícia, diz Serrano, foi que continuou a ter um grupo muito forte de estudantes que demonstrou um bom domínio da matéria no exame final. A nota mais alta no exame final foi 95. Esse estudante também tinha obtido 95 no exame intermédio.

Depois de contar a sua história ao jornal El País, recebeu mensagens de centenas de pessoas, de todo o tipo de escolas, a maioria confirmando a sua convicção de que a preocupação com a IA na sala de aula é generalizada. Sempre existiu fraude no meio académico, e as novas tecnologias trouxeram frequentemente novos desafios.

Mas a IA, nas suas várias formas, surgiu tão subitamente — como um tsunami, disse ele — que apanhou os educadores desprevenidos, não apenas para impedir a batota, mas também para avaliar se os estudantes estão realmente a aprender.

Agora estão a responder, diz. “Com pessoas suficientes a pensar sobre isto, acabaremos todos por encontrar soluções melhores.”

Um exclusivo PÚBLICO/Washington Post

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Consegue distinguir uma canção feita por IA de uma criada por humanos

(Pedro Rios, in Público, 16/07/2026)

Foi há apenas três anos: Heart on my sleeve dava-nos um dueto entre Drake e The Weeknd. Duas megaestrelas juntas, um acontecimento pop. Acontece que nem Drake nem The Weeknd andavam realmente por ali: a façanha fora concebida com ajuda da inteligência artificial (IA). Foi uma das primeiras demonstrações de grande impacto público do poder da IA na geração de música. Nos meses e anos seguintes, tivemos, por exemplo, folk-rock impecavelmente sintetizado, sem qualquer guitarra real, tudo simulado, emulado, congeminado pela IA — eram os Velvet Sundown, talvez já não se lembre deles.

Agora, a indústria da música alia-se à indústria da IA à qual em tempos mostrou os dentes: há notícias de contratos milionários com designers de música feita com IA e com serviços de geração de música, como o popular Suno.

“Esta é, sem dúvida, uma das transformações mais rápidas que a indústria da música alguma vez viveu”, diz Kristin Robinson, jornalista da Billboard que tem acompanhado o tema. “Também acho que é uma transformação com mais consequências do que outras que já vimos.”

Daniel Dias (texto) e Gabriela Pedro (ilustração e infografia) radiografaram esta revolução em curso. E fizeram perguntas. A música gerada por inteligência artificial está em todo o lado. Como lidar com ela num meio que já era precário para os artistas? A que soará a música do futuro? Que ouvintes seremos nós?

“Muitas pessoas dizem que não querem ouvir nada que tenha sido conspurcado por IA”, diz ao Ípsilon a artista de carne e osso Holly Herndon. “Mas a rádio já está, hoje, cheia de música que é gerada artificialmente e depois regravada. Vai ser muito difícil diferenciar entre o que foi e o que não foi tocado por IA.” Um estudo indica que 97% dos ouvintes não conseguem perceber as diferenças.

“A diferença que tenho visto nestes últimos anos é inacreditável. Hoje olho para o Royal e é outra companhia. Toda a diversidade só a beneficiou. Quando estamos num ambiente muito igual, tudo parece sempre o mesmo. Quando são introduzidos novos corpos, ideias e energias, o ballet renova-se”, diz Marcelino Sambé, português, negro, bailarino principal do prestigiadíssimo Royal Ballet de Londres. Volta a Portugal para dançar num programa em Seteais que junta experiência e futuro. 

Do Irão ao Sudão, da Argélia a França, os filmes no programa do Curtas Vila do Conde falam com o mundo. Desta sexta-feira até ao dia 26, a 34.º edição do festival celebra o cinema em toda a sua variedade. Uma das vertentes da programação, sob o signo do cineasta iraniano Mohammad Rasoulof, que estará no festival, fala de resistência e espaço. 

O Canto das Árvores Esquecidas é “uma obra ardente, revoltada contra as inevitabilidades da sociedade de onde emana, fogosa e franca na exposição da infância, dores e culpa, e intimidade”, elogia Vasco Câmara.​ “Provavelmente não farei filmes tão bons como os clássicos indianos, mas farei sempre third world cinema, com as coisas que experimentei”, disse-lhe a realizadora Anuparna Roy.

Em O Cume, um dos momentos altos da recta final do Festival de Almada, Christoph Marthaler desmonta com “o seu prodigioso sentido do absurdo a coreografia e a cacofonia dos retiros onde as elites decidem a vida dos demais. Uma alegoria enigmática — mas urgente”, escreve Inês Nadais, que conversou com o encenador suíço. Já Gonçalo Frota falou com Christian Benedetti sobre a sua Gaivota — na qual os velhos querem matar os novos.

Nascida em Coimbra há 30 anos, a Lux Records revelou-nos Belle Chase Hotel, Legendary Tigerman, Sean Riley & The Slowriders e outros nomes essenciais da música portuguesa. Não há segredos: laços de proximidade e acção independente. Mário Lopes esteve à conversa com Rui Ferreira, o faz-tudo da Lux.


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Vexames Nacionais​

(Raquel Varela, in Jornal Maio, 09/07/2026)


Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames.  Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.

Raquel Varela


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O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa. Lá dentro, 300 mil exames para serem digitalizados, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos bancos de investimento, das big techs, detentoras da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores. 

Nem os Monty Python conseguiriam inventar uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer um exame, a metrificação da avaliação, a (pasme-se) divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); nem o facto de o professor não corrigir, apenas classificar (como pode um aluno aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro, a  monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente, o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA. 

Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas que colocam os filhos em colégios suíços, onde esta tecnologia é proibida e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, já existe hoje em alguns colégios de elite em Portugal, uma vez que a maioria do privado aderiu também à digitalização.

A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo por detrás (na entrega de dados na forma de respostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos. Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes. 

Nada disso: apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem. 

Portugal, é preciso dizê-lo sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos Portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou no Fundão –, transição digital dos serviços públicos e investimento em “segurança e defesa”, ou seja, guerra.

Em resposta à concorrência e guerras de Trump e ao enfrentamento mundial com outras potências, como a China e a Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyen, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega-financiamento a projetos de painéis solares e eólicas, que destroem campos agrícolas e o acesso a uma alimentação de qualidade. 

A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança –, sujeita a critérios científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas para avançar com o manicómio digital.

O avanço delirante do “ensino” online, da “saúde” online, dos contratos obscuros com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem deus da máquina, precisa de um super-Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado com que a religião cristã seja suprimida pela nova religião, a IA. 

Da crise da Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade: impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer (segundo todas as sondagens realizadas, mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo). Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental) e até os inquéritos da OCDE confirmam: quem mais usa a IA usa menos o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo. 

Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são dadores involuntários de corpo e alma (o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.

Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder. 

A ligação entre guerra, vigilância e educação é central, disse a líder da UE. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos. 

Há uma nuvem, assente em gigantescos centros de dados, que une o like viciante do FB ou do Tiktok (que com esse like criam perfis, influem nos circuitos neurais), unem o like à resposta de pintar bolinhas na resposta a uma pergunta de um teste, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza. 

Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca desde a II Guerra Mundial a resistência política anticapitalista foi tão urgente. 

Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores. A UE parece ter escolhido um país periférico para o mega-ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames.  Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.

“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos de fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”. Eis alguns dos comentários.

O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder. 

A educação não é um ato de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens enquanto os pais estão a trabalhar. É, sim, o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada currículo (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível, ao substituir o processo lento, esforçado, reflexivo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem. 

A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser –, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na universidade, mas apenas, por exemplo, para limpar sanitários ou salvar alguém no mar. A escola e a universidade são um ateliê de ensino, não uma fábrica de comandos.

Fonte aqui