O Significado Político do Século XX

(A l e x a n d r e D u g i n, in Substack, 12/09/2026, Trad. Estátua)

Neste excerto do livro Politica Aeterna: Political Platonism & the Dark Enlightenment (Ver imagem e link no fim do artigo), Alexander Dugin examina a luta ideológica entre o liberalismo, o comunismo e o fascismo no século XX, defendendo que a vitória final do liberalismo abriu caminho à pós-modernidade, à globalização e à erosão das identidades colectivas, ao mesmo tempo que criou as condições para o surgimento da Quarta Teoria Política.

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A Quarta Teoria Política é uma matriz conceptual que descreve a possibilidade de uma alternativa à corrente política que dominou a era moderna. Emerge quando a pós-modernidade se estabelece plenamente no campo da filosofia política. É a partir daí que se descobre a verdade da modernidade — ou seja, a natureza do Iluminismo Obscuro, com o qual a Quarta Teoria Política lida directamente. Enquanto a essência da modernidade se manteve oculta e a sua estratégia ontológica e antropológica fundamental se dispersou por três vertentes, a Quarta Teoria Política não foi possível, pois o desfecho do embate entre as três teorias políticas da modernidade dependia da elucidação da sua essência mais profunda. E a Quarta Teoria Política corresponde exactamente a essa essência — àquela verdade no abismo (matéria) de que falou Demócrito. Assim sendo, para descrever em profundidade a Quarta Teoria Política, é necessário revisitar a modernidade e a dialética do embate entre as três principais teorias políticas que lhe são inerentes.

Para reiterar: as três principais ideologias políticas da era moderna — o liberalismo (como a Primeira Teoria Política), o comunismo (como a Segunda Teoria Política) e o nacionalismo (como a Terceira Teoria Política) — são essencialmente exaustivas e incorporam todos os aspectos do próprio paradigma da filosofia política moderna. Como dissemos anteriormente, em cada uma das três teorias políticas o sujeito filosófico da modernidade é tratado de forma diferente: no liberalismo, enquanto indivíduo; no comunismo, enquanto classe; no fascismo e no nacional-socialismo, como Estado e raça, respectivamente.

Estes conceitos políticos colidiram no século XX e predeterminaram a estrutura das guerras mundiais, da Guerra Fria, das alianças, das uniões e dos blocos.

Se a Primeira Guerra Mundial foi um choque entre várias grandes potências nacionais europeias, a Segunda Guerra Mundial era já um choque entre as três forças ideológicas: os liberais, representados pelo Ocidente (EUA, Inglaterra), os comunistas, representados pela URSS, e os nazis/fascistas, representados pela Itália de Mussolini/Alemanha de Hitler, bem como outros movimentos que lhes eram próximos.

Assim, após a derrota da Terceira Teoria Política (fascismo e nacional-socialismo), restaram duas teorias políticas, a Primeira e a Segunda, entre as quais se desenvolveu uma guerra fria, até que a Primeira Teoria Política (liberalismo) derrotou a Segunda (comunismo) em 1989 e, decisivamente, em 1991.

Toda a história da modernidade foi marcada por estas três teorias políticas, que incorporavam a própria matriz da filosofia política da Nova Era. Todas elas seguiam a lógica da filosofia política da Mãe: todas eram materialistas, evolucionistas, progressistas, todas viam a estrutura do mundo de baixo para cima, em vez de cima para baixo, ou seja, foram criadas com base numa doutrina materialista imanente.

Assim, a ordem pela qual surgiram e a ordem pela qual desapareceram (ou foram marginalizadas) também refletiam uma certa lógica, uma vez que a batalha entre as três ideologias políticas era uma batalha sobre qual delas se enquadrava melhor no paradigma da modernidade, na sua verdade. O comunismo afirmava conter esta verdade, considerando-se uma sociedade socialista e comunista a construir após o fim do ciclo histórico do capitalismo. O liberalismo via-se também como uma expressão da modernidade em si, mas, e isto é menos óbvio, o fascismo considerava-se também uma doutrina revolucionária que refletia o espírito da modernidade, contudo num contexto diferente, em proporções diferentes, com valores diferentes do liberalismo e do comunismo.

Em todo o caso, as três ideologias lutaram por ser aquela que personificava o espírito da modernidade. Cada uma considerava-se a moderna. Após a derrota do nazismo, apenas duas ideologias (liberalismo e comunismo) contestaram este direito, e depois de 1989-1991 ficou provado que o liberalismo tinha ganho esta longa batalha.

Ou seja, das três teorias políticas do paradigma moderno, apenas uma se revelou verdadeiramente paradigmática. Relacionado com esta está o processo de globalização e a universalização da ideologia liberal, que se tornou a ideologia global e a única a triunfar no desenrolar da história política — isto é, triunfou no Ocidente e, devido à influência fundamental do Ocidente, disseminou-se amplamente pelo mundo.

Existe aqui uma ligação direta com a afirmação de Francis Fukuyama sobre o “fim da história”. O “fim da história” é a vitória final e irreversível do liberalismo sobre os seus rivais. Depois de 1991, o liberalismo deixou de ser uma das três ideologias e passou a ser a própria ideologia da modernidade.

O capitalismo (liberalismo) via-se originalmente como a personificação do espírito da modernidade, mas isso não era necessariamente óbvio para mais ninguém para além dos próprios representantes do liberalismo. Esta visão foi contestada por comunistas e fascistas, e, em princípio, a disputa entre as três teorias políticas só foi resolvida séculos mais tarde. Em todas as fases, permaneceu a possibilidade de um rumo diferente dos acontecimentos políticos (e o comunismo reivindicou seriamente ser a personificação da modernidade e a fórmula ideológica para o “fim da história”). A certa altura, os sucessos da Alemanha de Hitler foram tão impressionantes que pode ter havido a crença de que seria o nazismo a determinar a base ideológica para o futuro.

Só no final do século XX é que a matriz incondicional da história política mundial se concretizou, com o espírito da modernidade a triunfar sob a forma de liberalismo. O liberalismo defendeu o seu direito a ser não apenas uma ideologia, mas uma Ideologia com I maiúsculo. Assim, a Primeira Teoria Política da modernidade tornou-se também a última, a definitiva. É da vitória do liberalismo que surgiu a filosofia política do pós-modernismo. Correspondentemente, o triunfo do indivíduo como átomo permitiu-nos avançar para o nível subatómico.

Assim, determinou-se a vitória na rivalidade entre as três versões ideológicas da modernidade. E praticamente no mesmo período, o liberalismo, tendo-se tornado dominante e singular, começou a revelar rapidamente a sua natureza totalitária. Entretanto, a mudança paradigmática em direção ao pós-modernismo, cujas premissas filosóficas tinham sido desenvolvidas algumas décadas antes, mas que começou a assumir uma dimensão prática no âmbito político na década de 1990, iniciou-se com uma aceleração constante. Ao mesmo tempo, surgia também uma onda de políticas de género e ecopolítica, anunciando a ascensão do “Liberalismo Sombrio”.

A modernidade, vitoriosa no liberalismo, entrou na pós-modernidade num novo estádio — o pós-liberal. Mas isto só foi possível porque foram abolidas todas as formas de identidade colectiva (o paradigma da Tradição) e as definições artificiais alternativas do sujeito político da Segunda Teoria Política (classe) e da Terceira Teoria Política (Estado, raça).

O indivíduo é afirmado pelos liberais como a versão mais recente do átomo humano mais autêntico e, consequentemente, como o fundamento filosófico e o sujeito político. E só após a vitória desta ideologia e o triunfo do indivíduo humano — expressos na ideologia da sociedade civil, na ideologia dos direitos humanos, na ideologia da globalização e no mercado capitalista liberal mundial (a transição da política global para a economia global, com a abolição da história, como escreveu Fukuyama) —, só nesse momento se abriu verdadeiramente a porta ao pós-modernismo. Foram os liberais que a abriram e, por isso, no paradigma do “Iluminismo Obscuro”, é o “Liberalismo Obscuro” que detém o direito ao primado doutrinal e epistemológico.

Uma vez confirmado o átomo como o momento fundamental do ser, todo o movimento subsequente voltou-se para o nível subatómico. A fenomenologia da pós-filosofia política, ¹ ou a filosofia política do pós-moderno, está ligada a isto.

Assim, sem a vitória do liberalismo, a vitória do pós-modernismo não teria sido possível. Para ser mais preciso, em teoria, o pós-modernismo poderia ter sido diferente — mais provavelmente comunista e menos provavelmente fascista. Contudo, o resultado do século XX no campo da ideologia é inequívoco: o pós-modernismo político baseia-se no domínio absoluto alcançado pela ideologia liberal, a Primeira Teoria Política, que derrotou completamente a Segunda e a Terceira.

Este é, em termos gerais, o contexto em que a sociedade global está a ser construída. A sociedade global ainda não é uma realidade, é um projeto. No entanto, existe como “conceito” e corresponde a um conceito semelhante — o “Ocidente global”. Quando dizemos “Ocidente”, não nos referimos apenas ao Ocidente geográfico, mas também, por exemplo, ao Japão e até à costa do Pacífico da China, onde prevalecem os modelos ocidentais de economia, cultura e sociedade, bem como a alguns países que seguem o modelo ocidental de desenvolvimento na região do Pacífico (Singapura, Taiwan, etc.). O “Ocidente” é global e ideológico ao mesmo tempo. Certamente que o Ocidente ainda não penetrou completamente na essência de todas as sociedades, povos e civilizações, mas, ainda assim, esta penetração está a ocorrer a todo o vapor, através dos mercados, da tecnologia, da cultura, da informação, da economia, da política, etc. O Ocidente não é apenas um conjunto de potências e sociedades europeias e norte-americanas. Trata-se do próprio processo de globalização, da “pós-modernização” e da gradual difusão dos códigos (e estratificações, para usar o termo de Deleuze e Guattari) da cultura euro-americana/euro-atlântica para todo o planeta.

Após a vitória decisiva do liberalismo na Guerra Fria, o mundo inteiro tornou-se, em certo sentido, “o Ocidente”, ou seja, uma área de tal territorialização/desterritorialização, que corresponde precisamente ao código liberal de “agenciamento”.

Assim, a agenda dos processos globais na política mundial actual é o domínio do liberalismo e a afirmação da sua vitória à escala global, a eliminação dos Estados-nação (como vemos na Europa) e a destruição de todas as formas de identidade colectiva (nação, religião, género, etc.). Nesta fase, a modernidade completa a destruição das simetrias verticais e das identidades colectivas orgânicas que iniciou quando delineou a transição da sociedade tradicional (platonismo, aristotelismo, religião) para a sociedade moderna (materialismo, democracia, laicidade).

Fonte aqui

Para lá de Trump: A Palantir e a arquitetura do tecnopoder

(A l e x a n d r e D u g i n, in Substack, 19/04/2026, Trad. Estátua)

Alexander Dugin apresenta a Palantir como o verdadeiro núcleo ideológico por trás do poder na era Trump: um sistema tecnológico pós-liberal que visa preservar a hegemonia ocidental por meio do controle, da vigilância e de técnicas anti-humanas. A Palantir é uma empresa de inteligência artificial a quem os EUA estão a recorrer na guerra do Médio Oriente. Informação completa sobre a empresa, seus propósitos e Manifesto pode ser consultada aqui.

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O Manifesto Palantir é muito mais importante do que Trump. Trump é um peão insignificante num tabuleiro de xadrez sério. O seu papel é a destruição total. A fase de preparativos. O Palantir é muito mais sério. É o plano para salvaguardar a hegemonia decrescente do Ocidente por meios radicais.

O Manifesto Palantir é o plano do tecno fascismo ocidental. A superioridade da raça branca baseada na tecnologia. Sem antissemitismo, sem sacralidade, sem o socialismo do antigo fascismo histórico. Desta vez, puro capitalismo, amigável aos judeus, profano, materialista. Anglo-saxão. Pós-humanista.

Manifesto Palantir. Iliberal, anti-humanista, pós-globalista. O tecno estado do Ocidente global como polo hegemónico. Unipolaridade, racismo tecnológico, individualismo. Estilo Epstein. Bastante compatível com o Israelismo (definição de Tucker Carlson). Absolutamente repugnante. Anticristo.

Manifesto Palantir. Puro satanismo. Ayn Rand. A conclusão lógica da era capitalista. O verdadeiro fim da história sem lentes liberais. Bastante compatível com a catraca degenerativa e o Númen Presa. Totalmente incompatível com a multipolaridade e a Quarta Teoria Política.

Manifesto da Palantir: a verdadeira agenda do governo Trump. Apesar de o próprio Trump ter sido usado e abusado por poderes muito mais sérios e autónomos.

Manifesto da Palantir e Israel. Alguns pontos em comum, algumas divergências. Os tecnocratas podem facilmente sacrificar judeus no seu caminho para o estado de coisas desejado. Ou não?

O avô de Peter Thiel não se importaria de perder os judeus para o mundo tecno fascista global que seu neto defende. Acho que sim. Mas não tenho certeza disso.

Os tipos da Palantir (tecno fascistas) têm que lutar contra globalistas liberais, multipolares, tradicionalistas e nacional-populistas. Demais, na minha opinião.

A ideia de libertar a Alemanha e o Japão do jugo liberal americano é puro fascismo. Mas, nesse caso, é sustentado pela extrema necessidade da defesa do Ocidente como tal. Que Ocidente? Mais ou menos o de Jünger. A técnica como destino. Refiro-me a Ernst, não a Friedrich Georg.

Transmissões ao vivo e selfies são operações psicológicas para acostumar as pessoas a serem constantemente vigiadas. Essa foi a estratégia da Palantir desde o início.

O tecno fascismo está em ascensão. As máscaras caíram. A Palantir fala abertamente sobre os seus planos. Isso significa que já alcançou posições avançadas na governação mundial.

Fonte aqui

Combatendo o Sistema Epstein

(A l e x a n d r e D u g i n, in Multipolar Press, 21/03/2026, Trad. Estátua)

Alexander Dugin discute a necessidade da integração multipolar para combater a tirania tecnocrática ocidental.


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Se o novo capitalismo, segundo Kees van der Pijl, consiste em inteligência + mass media + TI, então o contra-capitalismo e a contra-hegemonia devem ser algo simétrico: a integração de um novo nível de inteligência com os mass media e o setor de TI. O termo chave aqui é “integração”. Quando esses três componentes são isolados, eles são limitados por esse mesmo isolamento. O novo capitalismo exige não apenas a sua adição, mas a sua multiplicação. É por isso que a CIA/FBI de hoje, os mass media  americanos modernos e as startups contemporâneas do Vale do Silício (Palantir, Musk, e a “República Tecnológica” de Karp) estão fortemente integradas umas nas outras. As redes de Epstein eram, na verdade, um dos módulos dessa integração.

Isso não se limita aos Estados Unidos. Inclui também a Mossad e os Cinco Olhos. Trata-se da unificação dos serviços de inteligência de toda a civilização ocidental.

O mesmo se aplica aos meios de comunicação de massa. Eles estão fortemente integrados em todo o Ocidente e muitas vezes partilham os mesmos proprietários.

O setor de TI também. Embora existam, sem dúvida, certas fronteiras entre a Europa, a América e Israel, em algum nível todos eles trocam algoritmos tecnológicos.

Que conclusões se podem concluir de tudo isso? O capitalismo russo atual é imitativo, atrasado e fraco. Tudo o que há de bom nele não provém da imitação do capitalismo, mas da soberania e do talento do povo. O resto apenas restringe o nosso crescimento. Mesmo que desejássemos seguir o Ocidente, precisaríamos, em todo caso, de desenvolver um projeto de longo prazo para integrar essas três esferas: comunidades de inteligência, mídia e TI. Deve-se dar atenção especial às parcerias com outros Estados multipolares e com as suas respetivas tríades. Algo desse tipo certamente existe na China e funciona com bastante sucesso. Deve haver algo semelhante também no Irão e no Paquistão. Noutros centros do mundo multipolar, isso precisa de ser investigado. É improvável que algo significativo exista lá, mas deveria existir. O BRICS é precisamente a zona onde se pressupõem estratégias de integração em domínios-chave. E o que poderia ser mais significativo do que esses três domínios?

Se quisermos derrotar a hegemonia — e estamos em guerra com ela — precisamos entender como ela está estruturada hoje. A divulgação dos arquivos de Epstein faz mais do que revelar o caráter criminoso e extremamente perverso das elites dominantes do Ocidente contemporâneo, cuja natureza verdadeiramente satânica confirma até mesmo as hipóteses mais ousadas e perturbadoras dos teóricos da conspiração; ela também expõe certos mecanismos pelos quais diferentes esferas-chave das sociedades ocidentais estão fundidas numa única rede. Não é coincidência que os serviços de inteligência, a mídia e os magnatas das tecnologias de informação desempenhem um papel central nesse contexto. Uma figura-chave é o criador da Palantir, Peter Thiel, que atualmente realiza uma tourné mundial de palestras sobre o Anticristo e o (tecno-)Katechon, e que, de muitas maneiras, facilitou a chegada à Casa Branca de outro frequentador assíduo dos encontros de Epstein, Donald Trump.

Estamos a lidar com um novo capitalismo. É claro que finanças, recursos e mercados ainda existem dentro dele. Mas a ênfase já se deslocou para a virtualidade — controle, informação, a criação de mundos artificiais e a transição para a tecnosfera: IA, bots, robots, drones e a substituição do ser humano pelo pós-humano.

Devemos levar em conta essa profunda mutação do capitalismo e formular-lhe uma resposta eficaz. Fingir ignorância não basta. É inútil opor-se à nova etapa simplesmente repetindo os mesmos passos da anterior. O vetor de movimento deve mudar, sem deixar de lado a compreensão clara de onde nos encontramos agora. A contra-hegemonia deve ser vanguardista. A integração de serviços de inteligência soberanos, mídia soberana e um setor de TI soberano é uma medida que se apresenta como necessária.

Fonte aqui.