Os pobres e a marca do dinheiro

(Júlio Marques Mota, 17/12/2025, Revisão da Estátua)


Lamento profundamente que Fernando Alexandre tenha dito o que disse ontem, lamento profundamente que o ministro Fernando Alexandre diga agora, o que não disse da forma como o disse. e como todos os meios de comunicação informação noticiaram. Por exemplo o Expresso:

“Os estudantes bolseiros têm prioridade nas residências e só podem receber a bolsa com o valor do custo do alojamento fora da residência se não tiverem lugar na residência”, e a prática do Estado é “não misturar” e “pôr nas residências universitárias os estudantes dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos. E por isso também, já agora, é que elas depois se degradam, por isso é que elas depois não são cuidadas. E é por isso, devo dizer, que pedi ao CNIPES [Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior] que pusesse a reflexão essas ações, mas confesso que não estou nada otimista. Porque quando metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar do serviço público, nós sabemos que esse serviço público se deteriora”, disse Fernando Alexandre, que acrescentou que “é assim nos hospitais, é assim nas escolas públicas ( o sublinhado é do no original). Nós sabemos que é assim. Vamos ter residências todas renovadas que nos próximos anos se podem começar a degradar.” Fim de citação

Mandaram-me o vídeo com as declarações de Fernando Alexandre e reagi dizendo à pessoa que mo enviou: não tem qualidade para me ser vir dele . Frases soltas não me servem, disse. Lembrei-me de uma partida que em tempos que o Tempo e a memória já consumiram que fizeram à Manuela Ferreira Leite quando numa frase longa utilizaram só o primeiro período distorcendo assim a intenção da autora. Não quis correr esse risco.

À tarde leio o Expresso on-line e acabaram-se as dúvidas: ele tinha dito o que disse! Era inacreditável que um ministro da Républica tenha dito o que disse. Não era seguramente um ministro de Abril quem disse o que disse, era um ministro de 25 de novembro que estava a falar dizendo o contrário que não disse o que disse.

 Depois veio o comunicado do Ministro que anexo a este texto e onde não explica nada e é pena que não tenha aproveitado a oportunidade para se retratar. À Antena 1, Fernando Alexandre explicou que “Se andar uns segundos antes para trás na minha intervenção, estava a falar com um estudante que foi bolseiro, que viveu numa residência, e sabe bem que quando temos um serviço público onde apenas estão pessoas com rendimentos baixos e não têm voz, os gestores que são responsáveis por esses serviços não cuidam deles devidamente”.

Pasme-se, o ministro enganou-se afinal! Os problemas existem, um deles, e é o fundamental, é não haver residências que cheguem para alojar os estudantes que não tem dinheiro nas grandes cidades para alugar um quarto. Pediram-me há dias, por um quarto em Queluz para a minha neta, a módica quantia de 450 euros, para um ordenado que seria de novecentos euros; um segundo problema , o problema citado pelo ministro e comentado por ele da forma mais desastrosa que se possa imaginar: é a conservação das residências; um terceiro problema agora pelo ministro sublinhado é a qualidade dos gestores das residências universitários que “não cuidam deles devidamente” e um quinto problema, esse sim muito relevante, no contexto atual da juventude que temos: de jovens, muito jovens,. deslocados e a viverem longe das famílias, que precisam de serviços de apoios médicos e socais específicos que o governo não dá, e não dá este como não deram os governos socialistas anteriores. Para esta classe de gente política sem classe, os jovens só valem pelos votos que colocam nas urnas de voto e na altura própria. E, lembro aqui as conversas tidas com António Luzio Vaz que matou a fome a muita gente, que o grupo dos estudantes com depressão era sobretudo constituído por estudantes oriundos das ilhas, do Algarve e do Baixo Alentejo, ou seja, de gente jovem que vivia afastada dos seus lares, das suas famílias, gente bem especial que precisa de apoios bem especiais, apoios que não são as longas filas de espera para ir aos hospitais. Mas esses cuidados especiais, não existem e nem o ministro fala deles, e devia fazê-lo e tal não é sobretudo um problema de pobres, repito..

No argumento do ministro dado á Antena 1, já que reduz anedoticamente o problema, poderia ter dito: “os responsáveis por esses serviços não cuidam deles [e delas, das residências] devidamente”. Mas nem isso disse.

Quando digo [delas, das residências] é porque isso significa falta de investimento e o não investimento não tem a ver com os pobres; neste caso, tem a ver com a politica da AD e nada mais que isso. Quanto à falta do termo [delas] relata o jornal Publico hoje :

“Totalmente falso”: após críticas do PS, Fernando Alexandre nega que considere que cidadãos mais pobres degradem os serviços públicos. O ministro admite que o facto de as residências continuarem a ser ocupadas “apenas por estudantes bolseiros deslocados”, contribui para que persistam “os riscos da falta de investimento das universidades e politécnicos, o que pode levar à degradação destes equipamentos”. “Este risco na gestão das residências é o que está na origem da ‘degradação’ referida hoje na intervenção do ministro e não a sua utilização pelos estudantes”, refere o ministério no esclarecimento. Fim de citação

De novo, também aqui o ministro baralha as coisas pois não são os pobres afinal que degradam as residências é a falta de dinheiro dos pobres para pagarem a conservação dos edifícios que estão a ser utilizados de forma corrente. Sendo assim, como solução para o problema levantado pelo ministro, ou o governo financia a renovação das residências, o que ele não quer, ou aumenta-se as receitas através do aumento do preço de ocupação por quarto e os pobres não podem suportar esse aumento, mas também não podem ser insultados por isso, como fez o ministro. E como não podem pagar aumentos, o ministro quer pô-los fora das residências, na rua, porque o Estado também não quer gastar dinheiro na reabilitação das residências, mas isso não é dito, subentende-se..

 Mas naquela frase é apenas importante o que lá não está, a palavra delas. É igualmente a palavra que lá está: deles; como está, a frase diz-nos que os gestores responsáveis por esses serviços não cuidam deles, ou seja, não cuidam dos filhos dos pobres e se estes forem para a rua, entram para as residências outros universitários e então será que os filhos dos que têm não precisam de cuidados dos diretores de residências?

Ou seja, o dinheiro marca de uma maneira positiva os que o têm, marca com carimbo e de maneira negativa, fria e conscientemente, os que o não têm. Não há volta a dar ao texto do ministro para se poder eliminar a questão de discriminação da classe social.

Mas há um problema importante a sublinhar, com muitos créditos positivos para Fernando Alexandre, por enunciá-lo, mas com notações negativas pela forma como lhe responde e esse problema fundamental é o do mixing social.

Diz-nos o Gabinete do Ministro: A qualidade dos serviços públicos e da sua gestão é beneficiada pela diversidade social dos seus utilizadores, facto que está demonstrado por inúmeros estudos científicos. Por isso, é objetivo deste Governo que as residências académicas sejam espaços de diversidade social, integração e bem-estar para todos os estudantes. Fim de citação.

Este é um problema complexo, que exige muita lucidez, muito empenho e de todo o sistema porque a melhor forma de conduzir o mixing é no espaço de aulas, de bibliotecas, de outros espaços coletivos para estudar em grupo nas próprias Universidades e saúdo o ministro por enunciá-lo, saúdo-o apenas por isso, enquanto afirmo publicamente que neste momento não há nem pode haver condições para levar a cabo esse mixing, dada a forma como as Universidades e as suas carreiras estão estruturadas. Sobre isso nunca se ouviu uma palavra do ministro Fernando Alexandre nem dos anteriores ministros do PS ou do PSD.

 Desta triste história, só tiro uma conclusão alternativa à que escrevi ontem, a qual não a retiro do campo das explicações possíveis: o ministro ou tinha dormido mal, ou estava muito cansado, ou tinha bebido algum copo que lhe tinha caído muito mal, para dizer o que disse e da forma como o disse, mesmo no que disse à Antena 1 e ao jornal o Público.

) Paraa terminar. Tem-se dito que temos uma juventude universitária doente. O ministro di-lo, os jornais dizem-no, mas este problema , a existir, tem raízes profundas. Não querendo falar do caso português aqui vos deixo dois textos; um texto de fundo e extenso sobre sobre a juventude universitária americana e as suas universidades (ver aqui) e um texto curto de Mattews Yglésias de comentário ao primeiro (ver aqui). Se a leitura destes dois textos vos interessar comecem por em primeiro lugar o texto comentário de Yglésias.

Leiam-no com atenção e perguntarão, como nós, o que é que se passa com a juventude americana para se gastarem milhares de dólares em atestados médicos para que os estudantes possam fazer os exames padronizados em condições especiais quanto a ruído e com prolongamentos de tempo também eles especiais.

Depois de lerem os textos pensem na situação portuguesa e questionem-se sobre se os problemas de fundo serão ou não muito diferentes em Portugal e sinceramente, pelo que já vi, não vejo o ministro, e muito menos vejo a coligação AD , (para mim são coisas diferentes) a estarem à altura de resolução dos problemas que estão implícitos em toda esta história de pobres e não pobres que preenche os noticiários de hoje…

A entrevista a Boaventura de Sousa Santos – reflexões

(Raquel Varela, in Facebook, 01/04/2025, Revisão da Estátua)


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Vi a entrevista de Boaventura Sousa Santos que me merece vários comentários, longe dos apedrejamentos costumeiros.

O primeiro é a gravidade do que ali foi dito – destruído nos media e na academia, do qual foi afastado de vários lugares, disse que nunca viu um único documento ou prova contra si. Isto em qualquer Estado de direito basilar era intolerável. Os traços autoritários dos Estados vêm com pés de lã: nos EUA estas políticas começaram por alegadamente proteger as vítimas (mulheres, negros) e hoje servem para despedir mulheres e negros, homens e brancos, desde que se oponham a Trump. A suspensão dos direitos nunca pode ser defendida para ninguém e muito menos por gente de esquerda. Porque acaba a voltar-se contra as pessoas de esquerda. Abre-se a caixa da pandora da inquisição.

A ténue crítica de Boaventura aos media. Os mesmos jornais que têm a agenda do Metoo e nunca publicaram nada sobre dezenas de casos de queixas de assédio por professores de direita e de extrema-direita – alguns deles com processos disciplinares concluídos.

E, aqui, creio que Boaventura não compreendeu inteiramente o que se passou. A sua posição face à Ucrânia não foi determinante.

Boaventura é um dos poucos intelectuais deste país que pensa realmente (e eu discordo das suas teses e sempre discordei, nunca o “bajulei” e nunca deixei de o criticar), mas as suas teses não são estruturalmente incómodas. Por isso o seu projeto Alice, que citou amplamente, foi acarinhado pela UE porque defende a tese de que é possível regular o capitalismo na Europa assegurando direitos. O mesmo para as teses da epistemologia do sul – teses “campistas”, que se opõem à noção de luta de classes substituindo-a por uma noção de lutas autónomas, norte versus sul, homens versus mulheres, negros versus brancos.

Creio que a verdadeira razão foi outra. A Universidade portuguesa mergulhou na Nova Gestão Pública. É preciso afastar os catedráticos, para substituir as direções das universidades por gestores.

Boaventura é o alvo perfeito: o catedrático emérito de esquerda, coordenador de um projeto milionário, abatido, em direto. Se ele foi, os outros que tenham medo! Foi essa a mediatização. O último reduto da autonomia universitária está na figura do catedrático, que por conservadorismo resistia ao produtivismo gestionário.

Com os Conselhos Gerais das universidades dominados por externos á Academia, e com as faculdades a mudar estatutos para que não-catedráticos sejam eleitos, em breve teremos professores-gestores auxiliares a mandar nos professores catedráticos. Foi o que aconteceu nos hospitais, onde enfermeiros-gestores mandam em médicos; e irá acontecer também nos advogados, com a mudança do estatuto dA carreira imposta pelo PRR. A ideia é acabar com a autorregulação do trabalho.

Não vou perder tempo a explicar que o catedrático é uma figura fundamental. Pior que a Universidade conservadora medieval é a Universidade gestionária, liderada por métricas e plataformas, geridas por gestores-professores, que são autênticos sociopatas. E em que, claro, se criarão – e já criaram – condições para que o assédio sexual e moral seja muito pior do que no velho sistema medieval.

A isto juntam-se as avaliações da FCT, que divide o dinheiro pelos laboratórios de Humanidades – abatendo o CES sobra mais para os concorrentes.

E agora a parte mais importante da entrevista. O erro fulcral. Boaventura disse que estas mulheres não estiverem à altura em entrevistas, textos, artigos e contratos e por isso nunca conseguiram um lugar.

Tenho sincero desprezo pelos métodos inquisitoriais destas mulheres mas o que não falta neste país são milhares de mulheres e homens doutorados que concorrem aos projetos da FCT e ganharam, escreverem bons artigos, fazem investigação, são excelentes docentes e…não têm lugar. E é isso que cria este pântano – não é que “não estiveram à altura“. É que 75% do trabalho universitário é feito por precários. A quem prometem que “talvez” se ele fizer mais um concurso vai ter um lugar. Ora, estamos a falar de doutorados. Quem é doutorado deve ter um emprego seguro, para a vida, o doutoramento é a prova máxima.

E o que tem acontecido é que os poucos lugares são distribuídos de forma injusta. E serão sempre, porque todos os doutorados estão em pé de igualdade, por isso inventam-se critérios alegadamente justos mas arbitrários. Os defensores dos precários, muitas vezes, usam a cenoura de que “talvez venha um lugar para ti“, para ter os seus votos na luta dentro das instituições e depois negoceiam lugares para os seus apoiantes, esperando que os outros, cansados, emigrem. É este sistema que gera o assédio, que gera a denúncia caluniosa, e que gera todo o mal-estar existente nas universidades.

Lamento não ter visto Boaventura dizer isso mesmo – acusar o neoliberalismo, mas dizer que quem trabalha bem teve lugar, é uma contradição. A Universidade portuguesa transborda de pessoas que trabalham e não têm lugar. O lugar é dado aos obedientes, e como não há lugar para todos os obedientes, sobram também os ressentidos, e as falsas denúncias e, claro, os assediadores, que perseguem quem se lhes opõe.

A única forma de combater isto é defender lugar para todos os doutorados e autogestão democrática. Onde se criam relações de confiança e em que pode haver abraços, e ainda bem, sim ainda bem que nos abraçamos! É porque há confiança.

É preciso recusar-se a participação na distribuição de lugares a uns, deixando outros de fora. Mas isso chama-se greve. Nunca foi feito. É preciso uma luta coletiva que corporize a recusa a fazer parte do jogo pernicioso. Ou fazemos como um dia fizeram os estivadores, até serem despedidos na pandemia – ou há lugares para todos ou ninguém trabalha -, ou então vamos assistindo a diretores de institutos e instituições a distribuirem lugares para 25% deixando os outros 75% com a cenoura do “se publicares muito, se fores a muitos congressos, vais ter lugar…“.

Tudo correu mal neste episódio de “vigiar e punir” e que uniu a esquerda pós-moderna e a direita “atira a pedra ao Boaventura“. Depois deste episódio mais homens vão ter medo de galantear – sobra-lhes, no fim, apenas o Tinder, uma depressão por falta de afetos, e um contrato formal de consentimento jurídico. E muito mais mulheres – vítimas de assédio que apresentam provas e queixas nos lugares corretos, os tribunais – vão ter medo de o fazer porque o que estas mulheres fizeram foi mais um contributo para descredibilizar todas as mulheres.

Boaventura podia ter aproveitado esta entrevista para defender um sistema universitário com carreiras para todos, justas. E por isso, liberdade científica. O que fez foi defender a lei do mais forte (alegadamente em função do mérito) nos contratos.

Cabe-me – por fim – dizer que sou a favor do piropo; que acho o assédio moral e sexual deplorável, que sou contra a denúncia anónima, que acho que as custas judiciais devem ser eliminadas, e deve haver advogados bem pagos pelo público para defender as mulheres; que piropo, galanteio, assédio e violação são TRÊS COISAS muito DIFERENTES.

E que a notoriedade que se dá a tudo isto na Academia, e o desprezo pelas mulheres violadas ao sair do seu trabalho por turnos na periferia das cidades, só demonstram a total falta de noção da “bolha académica e mediática“.

Pode ver a entrevista a Boaventura aqui

Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber

(Frederico Lourenço, in Facebook, 27/10/2024)


Interregno. Exercício dominical para desanuviar as meninges. Estátua de Sal, 27/10/2024


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Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber. Este conhecido ditado inglês (“you can lead a horse to water, but you can’t make it drink”) conheceu uma divertida versão alternativa pela mão da impagável Dorothy Parker: “you can lead a whore to culture but you can’t make her think”. Subindo rapidamente o nível, uma carta de Bertrand Russell a Lady Ottoline Morrell atribui a Wittgenstein posição análoga: “ele diz que uns querem filosofia; outros não: assunto encerrado”.

Mas voltando ao cavalo. O problema de querer dar cultura a beber a outrem, para depois ser-se confrontado com recusas de toda a espécie, é a história de vida de todos os professores universitários.

Ao mesmo tempo, a universidade – com a oportunidade que nos oferece de contactarmos com as gerações mais novas para lhes dar a conhecer o que foi importante para as gerações de séculos anteriores – é motivante espaço de aprendizagem também para nós, os professores, porque temos de aprender a tornar relevante para as gerações de hoje a cultura ancestral que é nossa função transmitir. E isso – quer se queira, quer não – só se aprende com as gerações de hoje, todos os anos, a partir da estaca zero.

É difícil ser apóstolo da “Hochkultur”? A estaca zero acima mencionada é difícil. Perceber o que NÃO posso pressupor em termos de conhecimentos anteriores dos estudantes é todos os anos um desafio enorme. Há vinte anos os alunos ter-se-iam desmanchado a rir, pensando que eu estaria a brincar com eles, se lhes tivesse perguntado se já tinham ouvido falar na Revolução Francesa. Hoje, é mais prudente NÃO pressupor que alguém saiba o que foi tal coisa. Há sempre surpresas. Um powerpoint mostrado a estudantes de 1º ano em que ocorria uma fotografia da celebremente inclinada Torre de Pisa ocasionou a seguinte resposta, da parte do único aluno na turma que se sentiu capaz de identificar o monumento: “não tenho a certeza, mas acho que é o Mosteiro dos Jerónimos”.

O melhor é mesmo não pressupor nada.

É mau chegar à universidade neste estado de tábua rasa? Não tenho uma resposta unívoca. A minha educação de “geniozinho” foi melhor? De facto, a minha irmã e eu crescemos sem televisão, sem rádio, sem futebol e sem banda desenhada (“gibis”, no Brasil), num universo cultural que era mais ou menos o do século XVIII, com deuses como Shakespeare que no século XVIII já eram velhos. A realidade mais moderna da nossa infância chamava-se Beethoven. Esta axiologia era perfeitamente normal para nós. Era o que conhecíamos. Era o que os nossos pais achavam normal. O que não era normal (mas sim muito injusto) foi que tenham dado esse tipo de educação à minha irmã e a mim e que depois se tenham espantado com as dificuldades colossais de integração que sentíamos relativamente às crianças da nossa idade.

O que me leva a esta outra pergunta. A alta cultura faz-nos felizes? Sempre achei que sim. Mas no fundo, se olhar bem para a minha vida, se calhar teria sido mais feliz com futebol em vez de Bach – não sei. Esta consciência bateu-me forte, vários anos atrás, quando um episódio sentimental malogrado ocasionou discussões estranhas que me fizeram ter de engolir frases como: “não consigo namorar com uma pessoa cuja ideia de espairecer é ler Schiller em alemão”. Acho que foi aí que comecei a perceber que o apostolado da alta cultura, que sempre me encheu o espírito de fervor – fervor esse que, imagino, fará de mim (para alguns alunos) um bom professor universitário – foi ao mesmo tempo um dom cuja fatura tive de pagar em termos de vida privada. Talvez. Ou talvez não. Ainda não tenho a certeza.

Ser, de alma e coração, apóstolo da alta cultura trouxe-me uma enorme riqueza: uma riqueza que tem mais valor para mim do que tantas outras coisas a que outros legitimamente dão valor. É um apostolado que não me põe acima dos outros – nunca pensei nem pensarei isso. Põe-me longe dos outros. Faz de mim um chato, eu sei, e um “pedante” (ai, se eu tivesse um euro por cada vez que me chamaram pedante!). Claro que ser chato afugenta os outros tanto ou mais que a halitose. Na verdade, em termos da procura de uma vida feliz na companhia de outrem, ser apóstolo da “Hochkultur” pode ser um bocado como sofrer de mau hálito e, muito embora hoje eu tenha a bênção de ser feliz a dois, felizmente nasci com (ou desenvolvi ao longo dos anos) jeito para ser feliz sozinho.

Também é certo que a obra completa de Schiller sempre me faz ótima companhia.