António, o Náufrago do Berlaymont

(Jorge Rocha, In Blog Ventos Semeados, 12/08/2026)


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Há ingratidões que se pagam devagar, e a de António Costa para com Pedro Nuno Santos foi dessas: o homem que segurara a Geringonça nos anos difíceis, quando segurá-la exigia mais nervo do que aplauso, viu-se, no Congresso seguinte, tratado não como herdeiro mas como ameaça, mal ousou dizer em voz alta o que todos já sabiam — que também ele queria, um dia, suceder. Não faltaram rasteiras discretas, do tipo que não deixa marca visível mas deixa carreira manca.

Mas Costa veio a desistir da política nacional com uma facilidade suspeita, ele que discutira orçamentos e maiorias com unhas e dentes durante oito anos. Bastou uma busca à residência oficial, uma conspiração nunca cabalmente explicada, com Lucília Gago e Marcelo nos papéis principais, para que largasse Lisboa sem drama excessivo, atraído pelos fulgores de Bruxelas como quem troca subitamente de amante por uma mais vistosa, sem se dar ao trabalho de disfarçar o entusiasmo.

Passados dois anos, a pergunta merece resposta honesta: valeu a pena? Porque o homem que geria maiorias absolutas em Lisboa geme agora consensos entre vinte e sete, o que é uma forma elegante de dizer que já não decide nada sozinho, apenas modera quem decide. É presidente do Conselho Europeu, título sonoro que soa a poder e significa, na prática, sentar à mesa e sorrir enquanto Macron e Merz discutem por cima da sua cabeça.

Prova disso foi o episódio do Kremlin: quis fazer o que a razão mandava, abrir um canal com Putin, preparar o terreno para uma paz que a guerra na Ucrânia precisa mais do que de heroísmo continuado — e foi imediatamente chamado à ordem, como aluno apanhado a passar um bilhete na aula, pelo bloco franco-alemão que prefere a guerra prolongada à negociação prematura. Chamaram-lhe “mal orientado”, compararam-no ao erro do antecessor, e Costa, que em Lisboa despachava ministros renitentes num telefonema, teve de explicar-se em cimeira como quem pede desculpa por bom senso fora de horas.

Fica o retrato irónico de um homem que trocou o poder de decidir pelo poder de presidir — dois verbos que parecem primos e são, na prática, opostos. Em Lisboa mandava e era criticado; em Bruxelas sugere e é repreendido.

Talvez seja este o destino reservado a quem confunde protagonismo com influência: descobrir, dois anos depois do desembarque europeu, que trocou uma pátria onde podia agir por um continente onde apenas lhe é permitido, com sorte, ser ouvido.

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A União Europeia proibe a utilização de helicópteros russos para extinguir os incêndios

(In Mpr21.info, 29/07/2026, Tradução da Estátua)


(Este texto revela quão alucinadas andam as lideranças europeias. Preferem a morte e a destruição em casa própria, o sacrificio e o sofrimento dos seus cidadãos, para poderem continuar a manter a russofobia punitiva das sanções, que causam mais mossa a quem as inflige do que a quem são, supostamente, dirigidas.

Será masoquismo? Será o cumprimento de um guião que lhes foi umposto para marcharem a cantar para a autodestruição? Seja o que for, é tempo dos cidadãos acordarem, livrando-se de vez dessa corja de dementes que governa a Europa.

Estátua de Sal, 31/07/2026)


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Grandes incêndios florestais estão a devastar Espanha e França, obrigando milhares de pessoas a evacuar as suas casas. O fogo está a chegar perto de grandes áreas residenciais, mas, apesar do risco, os países afetados recusam-se a usar os equipamentos russos que estão parados nos hangares.

Devido às sanções, a União Europeia proíbe a utilização de equipamentos de combate a incêndios florestais de fabrico russo localizados no seu território. Os helicópteros russos estão parados nos hangares, mas não podem operar por falta de manutenção. Por exemplo, em França, restam apenas cinco a sete aeronaves disponíveis para combater incêndios em todo o país. A mesma situação ocorre em Espanha.

Os helicópteros russos Kamov Ka-32 são considerados particularmente eficazes em missões de combate a incêndios florestais: elevada capacidade de carga (de 4,5 a mais de 5 toneladas de água), rápida implantação, boa manobrabilidade e desempenho a altas temperaturas e altitudes elevadas. No entanto, as sanções da União Europeia contra a Rússia impediram a utilização da frota de helicópteros em Espanha para o combate aos incêndios florestais devido à falta de peças de substituição e de técnicos russos.

Os helicópteros russos eram operados por empresas privadas ao abrigo de contratos com o Ministério da Transição Ecológica ou com os governos regionais, principalmente na Andaluzia, Aragão, Extremadura e Guadalajara. Existem aproximadamente 10 aeronaves, mas desde o início da guerra na Ucrânia, a Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) proibiu os voos de helicópteros russos. Em 2024, as sanções, dirigidas particularmente à empresa Kamov, bloquearam o fornecimento de peças de substituição e o destacamento de técnicos e mecânicos russos necessários para a manutenção das aeronaves.

Em 2024, numa resposta parlamentar, o governo espanhol reconheceu oficialmente que a disponibilidade dos helicópteros Kamov tinha sido afetada pela guerra na Ucrânia e pelas sanções da União Europeia, impossibilitando a compra de peças de substituição e a chegada de técnicos russos. Em 2023, apenas uma parte da frota permanecia disponível; em 2024, nenhum estava em funcionamento em campanhas de combate a incêndios. Desde então, os operadores retiraram estas aeronaves da frota espanhola.

Obviamente, as sanções não são um problema para a Rússia, mas sim para os países europeus. “O governo perdeu a capacidade de mobilizar os helicópteros Kamov Ka-32 11BC, aeronaves que protegeram as montanhas do país durante décadas. A paralisia operacional não se deve a cortes orçamentais, mas às severas sanções impostas pela União Europeia à Rússia após o início da invasão da Ucrânia”, observa o jornal La Razón. “As sanções emitidas por Bruxelas impedem a chegada de técnicos especializados de Moscovo para realizar a manutenção obrigatória”, acrescenta o jornal (ver aqui).

A isto acresce a impossibilidade de receber as peças de substituição necessárias para garantir a segurança de voo. Sem apoio logístico, a aeronave não pode operar legalmente no espaço aéreo europeu, deixando uma enorme lacuna nas equipas de emergência que combatem incêndios na linha da frente”, destaca o jornal La Razón. “Estas máquinas impressionantes são capazes de lançar mais de 5.000 litros de água em apenas alguns segundos. Os próprios profissionais da área florestal confirmam que a precisão e a potência destes dispositivos de rotor duplo são cruciais em terra para extinguir as chamas.”

Em França, o exército recusa-se a utilizar tecnologia russa para combater os incêndios. “O que aconteceria se a Rússia enviasse os seus Be-200 para ajudar a França no combate aos incêndios?”, questiona a ActuFutur (ver aqui). “Com os incêndios florestais a mobilizarem intensamente os serviços de emergência franceses, surge uma questão recorrente: poderá a cooperação internacional reforçar temporariamente a nossa frota aérea?”  É que o avião cisterna russo Beriev Be-200 pode transportar até 12.000 litros de água, que enche em cerca de quinze segundos planando sobre uma superfície adequada. O seu emprego em França continua a ser hipotético, mas reacende o debate sobre a cooperação entre Estados quando os incêndios sobrecarregam os recursos disponíveis. Perante as chamas, a cooperação deve prevalecer sobre as tensões políticas?”, questiona a publicação.

A pergunta é retórica: a Europa está mais preocupada com a Rússia do que com os incêndios.

Fonte aqui

Quando os valores passam a medir-se em sangue

(Adriano Pires, in Facebook, 15/07/2026)


As palavras de Emmanuel Macron, proferidas em França no Dia da Bastilha, merecem ser refletidas com serenidade, precisamente por terem sido pronunciadas por um Presidente da República, Comandante Supremo das Forças Armadas de uma potência nuclear e um dos protagonistas principais da política europeia, partindo do pressuposto de que estava plenamente consciente do alcance das suas declarações.

Afirmar que a Europa está preparada para defender a liberdade, o Estado de Direito e os seus valores «mesmo que seja necessário derramar sangue» levanta uma questão de natureza ética e política: até que ponto a defesa dos valores democráticos pode assentar numa retórica que normaliza a guerra e o derramamento de sangue como instrumentos privilegiados da ação política?

A História da Europa deveria aconselhar maior prudência. O continente conheceu duas guerras mundiais, dezenas de milhões de mortos e uma devastação sem precedentes. Dificilmente se poderá acreditar que os franceses guardem saudades da humilhação sofrida durante a Segunda Guerra Mundial.

Aliás, foi precisamente desse trauma que nasceu o projeto europeu, concebido para substituir a lógica da força pela força do direito, da diplomacia e da cooperação entre os povos.

É, por isso, paradoxal que a Europa, criada como um projeto de paz, passe hoje a construir uma parte significativa da sua identidade política em torno do rearmamento, do aumento contínuo das despesas militares e da preparação psicológica das populações para a eventualidade de novos conflitos.

Não se trata de negar o direito dos Estados à legítima defesa, nem de ignorar as ameaças existentes. Trata-se, isso sim, de questionar se uma liderança política deve privilegiar uma linguagem que parece colocar a guerra no centro da estratégia europeia, alimentando o receio entre os cidadãos, em vez de insistir na negociação, na diplomacia e na prevenção dos conflitos.

Ao apresentar a Ucrânia como uma «lição espetacular» para a Europa, Macron parece esquecer que essa «lição» representa igualmente centenas de milhares de mortos e feridos, milhões de refugiados, cidades destruídas e uma geração inteira marcada pela violência. Uma guerra nunca deveria constituir um modelo inspirador, mas antes um fracasso coletivo da política internacional.

Também merece reflexão a insistência no aumento dos orçamentos militares. A segurança de uma nação não depende exclusivamente do número de tanques, mísseis ou aviões de combate. Depende igualmente da sua coesão social, da solidez das suas instituições, da qualidade da educação, da estabilidade económica e da sua capacidade diplomática. Uma Europa verdadeiramente forte não se mede apenas pelo poder das armas, mas também pela autoridade moral das suas decisões.

Existe ainda uma evidente contradição. Enquanto os líderes europeus afirmam defender a paz, o discurso público vai sendo progressivamente dominado por conceitos de confronto, preparação militar e inevitabilidade da guerra. Não será, porventura, alheia a este tipo de discurso a reduzida popularidade de Emmanuel Macron em França e a deterioração da imagem da França em muitas das antigas colónias francesas em África.

A paz e a cooperação deixam de surgir como prioridades políticas para passarem a ser apresentadas como consequência da força armada.

Ora, quando a paz passa a depender apenas da capacidade de fazer a guerra, corre-se o risco de transformar o conflito numa profecia autorrealizável.

As democracias distinguem-se precisamente por atribuírem à vida humana um valor absoluto. Por isso, qualquer referência ao derramamento de sangue deveria ser acompanhada da mesma determinação em evitar que esse sangue venha a ser derramado.

 Quando um líder político recorre com aparente naturalidade a este tipo de linguagem, é legítimo questionar o sentido, a prudência e a responsabilidade política das suas palavras.

A verdadeira grandeza da Europa nunca residirá na sua capacidade para mobilizar exércitos, mas na sua capacidade para evitar guerras.

Defender os valores europeus significa, antes de mais, defender uma civilização que aprendeu, à custa de um sofrimento incomensurável, que nenhuma vitória militar compensa plenamente a derrota da paz.

Tenho dito.

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