(Por Albarda-mos, in Estátua de Sal, 03/05/2026, revisão da Estátua)
Alguém marca um livro de história sobre a Europa destacando as palavras unidade e progresso que, entretanto foram abolidas do projeto europeu… Imagem gerada por IA.
(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de João Gomes sobre o fim da Segunda Guerra Mundial e a tomada de Berlim pelo exército soviético, (ver aqui). Pela análise que faz às motivações que levarão a UE a tentar reescrever a História, conectando tais motivações à morte do “projeto europeu”, resolvi dar-lhe destaque.
A UE é um projeto tecnocrata, tem um programa próprio que se impõe sem grande atenção às necessidades reais das populações dos países e regiões que a compõem, às suas diferentes característica, culturas e necessidades. Em tempos apregoava a coesão, a convergência socioeconómica entre os estados membros, a atenuação das desigualdades sociais, um mercado comum e aberto, a defesa de valores humanistas, democráticos e o progresso civilizacional, etc.
Hoje em dia tudo isso se inverteu, alguns estados põem e dispõem e ditam aos outros as regras orçamentais, a política sectorial, fiscal, empresarial, económica, etc. Há uma canalização absurda de verbas para Estados que não são membros e chegam a condicionar mais as políticas da UE que alguns dos membros. As desigualdades sociais e entre países são cada vez maiores, a convergência é um mito, tudo encarece e a vida dos europeus não abastados – a grande maioria -, é cada vez mais difícil, com menos tempo e recursos, mas muito mais desinformação, ruído, propaganda, controlo mental e pressão – as exigências e deveres aumentam, os direitos diminuem.
Os valores progressistas e igualitários foram substituídos pelo ódio, a xenofobia, a discriminação, a marginalização e a segregação. A verdade é um alvo a abater, e se na guerra ela é a primeira vítima, numa sociedade belicista, armamentista e militarista como se pretende a UE, ela já vem a definhar e é tratada como uma pobre coitada que só alguns iluminados e outros vultos da comunicação social estão em condições de nos dizer qual é: já nem sequer pode ser procurada e conhecida por intermédio de outras fontes que não as dos especialistas de painel, que ora são generais e tenentes-coronéis ora diretores da Cruz Vermelha ou da AMI, manobrados por jornalistas que ora são moderadores, ora comentadores, ora editores, por vezes tudo no mesmo dia e até à mesma hora, consoante o discurso, a narrativa e a mensagem programadas naquele horário.
E perante toda esta demência, há cada vez uma maior deferência aos centros institucionais de poder e aos seus líderes, mesmo apesar dos escândalos cada vez mais frequentes de corrupção, alienação e outros crimes de lesa-pátria, como os emails da Ursula às farmacêuticas, a Mogherini que desapareceu rapidamente das notícias, entre outros casos que pelos vistos não abalam mas reforçam a crença da bondade e da solidariedade europeias, assim como da defesa dos direitos humanos e das liberdades individuais.
Tudo isto numa UE a reboque e na sombra dos EUA, coisa que não acontece em mais nenhuma organização continental relativamente a outra nação de outro continente, não com os mesmos níveis de submissão, aculturação política e sabujice. Até o inglês continua e é cada vez mais a língua oficial dos líderes da UE, mesmo após o Brexit! E não me venham dizer que é por causa da Irlanda ter ficado na UE…
Perante tudo isto, como esperar que o “projeto europeu” tenha qualquer respeito pela “verdade” ou “realidade” históricas, se sucumbiu a fantasias, divagações e a lucubrações corporativas e pessoais de poder?
E sucumbiu em detrimento do bem comum e do progresso social e civilizacional, com o retorno ao volkismo e às correntes racistas e segregacionistas do século passado, antissocialistas e profundamente não igualitárias, tão em voga no “farol do mundo livre” pelo qual a UE se orienta e define atualmente, e onde a separação de poderes é tão ténue e manipulada.
A guerra contra o Irão mostra como a fascização das relações internacionais avançou de tal forma que EUA e Israel já nem mostram um assomo sequer de preocupação simulada com o direito internacional.
Desde, pelo menos, a Guerra do Golfo (1991) que tínhamos percebido que a cobertura das guerras americanas as tinha transformado num puro espetáculo mediático, “uma encenação tecnológica”, um “simulacro” que, aos olhos dos seus espetadores (nós próprios), procura substituir-se à realidade. Víamos a escuridão riscada pela trajetória brilhante de mísseis que explodiam em Bagdade, mas, ao contrário da cobertura da guerra do Vietname, 20 anos antes, já não nos mostravam os mortos e os feridos que resultavam daquela espécie de videojogo. Os bombardeamentos da NATO em Belgrado (1999) ou dos EUA no Iraque (2003), nos quais os civis mortos sob as bombas eram descritos como “vítimas colaterais”, vieram acentuar o processo de insensibilização face à violência e à morte. A guerra foi transformada numa encenação que, como escreve Adlene Mohammedi, “segue os códigos da cultura pop e dos videojogos”.
Reforçado por um uso deliberadamente grosseiro das redes sociais – por Trump, mas não só –, “o ataque contra o Irão desencadeado por Washington e Telavive confere a este mesmo fenómeno uma outra dimensão. A morte é banalizada, é até glorificada em certos casos (o assassinato do Guia Supremo Ali Khamenei)” (Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, abril 2026). Para Louis Lapeyrie, um investigador da Sorbonne, “esta mudança não é insignificante. Elevar o domínio visual à condição de vitória política, tornar o poder tecnológico no ecrã um fim em si mesmo, é substituir a estratégia pela estética”, especialmente adequado numa “guerra travada sem um objetivo claro, impulsionada apenas pelo espetáculo do seu próprio poder” (Le Monde, 21.3.2026). Por isso, sempre que este padrão de guerra-videojogo se dissolve perante as imagens dos efeitos reais da guerra, da fome e do genocídio em Gaza, por exemplo, percebe-se quer o empenho totalitário de Israel em proibir a entrada de jornalistas independentes, quer o negacionismo desenfreado do genocídio que ele e os seus aliados ocidentais montaram, no que constitui o mais desavergonhado contributo para a negação do próprio Holocausto.
A guerra contra o Irão, que Israel, no seu velho projeto colonial, alargou ao Líbano, é a enésima confirmação de como a fascização das relações internacionais avançou de tal forma que estadunidenses e israelitas, que se apresentam sempre como “campeões do Ocidente”, já nem mostram um assomo sequer de preocupação simulada com o direito internacional. Como sempre, não faltaram as vozes europeias a dar-lhes razão. Para Von der Leyen, discutir se a guerra de Trump e Netanyahu é ilegal “não capta a essência” (9 de março). Para Luc Ferry, ex-ministro da Educação de um Governo da direita francesa, “o direito internacional é algo fantástico entre nações respeitáveis (…), mas com Estados párias criminosos é uma piada” (8 de março).
Depois de 73 mil palestinianos mortos em Gaza pelas tropas israelitas (20 mil dos quais crianças) desde 7 de outubro, de outros mil na Cisjordânia (a maioria às mãos dos colonos), de 1500 no Líbano só no último mês, da ocupação ilegal continuada da Palestina, de parte do Líbano e da Síria, a UE ainda não encontrou motivos para romper o seu acordo comercial com Israel, muito menos as relações diplomáticas e o apoio militar. “Piada” é o que os governos de quase toda a Europa acham do direito internacional. “Piada” é Von der Leyen continuar a considerar Israel “uma democracia vibrante” e não se lhe conhecer vontade alguma de apurar os comportamentos genocidas nem de Netanyahu, nem de Trump, como manifestou com os de Putin. Trump virou o Hitler narcísico e patético que Chaplin representava no Grande Ditador (1936), promete “apagar uma civilização inteira” e fazer regressar o Irão “à Idade da Pedra”, mas isso não impede que Mark Rutte, o liberal que dirige a NATO, continue a ver nele uma “liderança e visão ousadas”, num tom de “autoflagelação e a auto-humilhação” que ofereceu a Trump “na condenação [da atitude] dos seus compatriotas europeus” (Guardian, 11.4.2026). E esta talvez seja a melhor representação da vacuidade política e ética das “nações respeitáveis” da Europa. E nós no meio delas.
O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
(Viriato Soromenho Marques, entrevista à CNN Portugal, 02/03/2026)
ENTREVISTA || O que está a acontecer no Irão não anuncia uma abertura política trazida de fora, diz Viriato Para Soromenho-Marques, mas antes o risco de um país empurrado para o caos, para a fragmentação e para uma guerra de consequências incalculáveis. “A mudança pretendida por Israel e pelos EUA consiste na destruição do Irão como Estado funcional.” Nesta entrevista, o filósofo argumenta que é Israel que domina os EUA e não o inverso, mas independentemente de quem lidera quem: “O terrorismo de Estado israelita e norte-americano é de uma sinistra eficácia”.
No Irão, o presente chega sempre carregado de passado. Ali Khamenei, líder supremo desde 1989, morreu este sábado num ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao complexo onde se encontrava em Teerão, depois do colapso de novas negociações sobre o programa nuclear iraniano. A morte abre um período de transição incerto, num sistema em que o líder supremo concentra a última palavra sobre o Estado, as Forças Armadas e o aparelho judicial, e em que um conselho interino deverá segurar o poder até ser escolhido um sucessor.
Mas o Irão raramente cabe apenas na urgência do dia. A memória do derrube de Mohammed Mossadegh, em 1953, num golpe apoiado por Londres e Washington, e a revolução de 1979 que instituiu a República Islâmica continuam a atravessar tudo: o modo como o país se pensa, o modo como olha para o Ocidente, o modo como reage quando a pressão externa regressa com linguagem de salvação. É nesse fio longo que Viriato Soromenho-Marques lê a ofensiva atual: não como atalho para uma democratização, mas como mais um capítulo de uma história de violência, tutela e disputa pela soberania.
Filósofo e professor catedrático da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho-Marques descreve uma sociedade “muito complexa e sofisticada”, com elevada capacidade tecnocientífica, que coabita com o regime sem lhe entregar “nem particular simpatia, nem um apoio incondicional”. Em entrevista à CNN Portugal, rejeita a ideia de uma transformação imposta a partir do exterior, acusa o “paternalismo democrático de Washington” de prolongar uma velha gramática imperial e deixa um aviso: destruir um Estado funcional não é libertar um povo. É abrir espaço a mais ruína, mais medo e mais arbitrariedade.
Quando Washington e Telavive falam em “mudança de regime”, de que falam exatamente no caso iraniano: da queda de um homem, o aiatola Khamenei; da queda do seu círculo dirigente; da desmontagem de uma arquitetura de poder religioso, militar, económico e simbólico que levou décadas a consolidar-se? Pode mesmo haver uma mudança de regime?
Para começar o nosso diálogo, gostaria de assinalar a gravidade do momento que estamos a viver. Este ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos, com o que me parece ser a liderança de Telavive sobre Washington, tem todos os ingredientes para, no menor dos casos, atirar o nosso mundo para um turbilhão económico — imaginemos uma longa privação do mercado mundial relativamente ao fluxo de petróleo que sai pelo estreito de Ormuz, ou pior ainda — ou para uma guerra generalizada, se não existir um recuo dos agressores. Neste terceiro dia de guerra já é possível ver o impacto do conflito sobre as bolsas e a subida vertiginosa do preço dos combustíveis fósseis no mercado mundial, em particular o petróleo e o gás natural.
A mudança pretendida por Israel e pelos Estados Unidos consiste na destruição do Irão como Estado funcional. É patético acreditar no conto de fadas do derrube do regime nascido da Revolução de 1979 para instaurar uma democracia. Como muito bem escreveu o jornalista norte-americano Stephen Kinzer — veja-se o seu livro de 2006 “Derrube: o século dos Estados Unidos a mudar regimes, do Havai ao Iraque” —, veterano premiado em estudos sobre relações internacionais, o Irão já teve uma democracia representativa constitucional, com um primeiro-ministro culto, honesto e amado pelo povo, que teve a coragem de devolver os recursos petrolíferos persas à sua nação através da nacionalização da Anglo-Persian Oil Company [APOC, hoje BP], que desde o início do século XX sugava essa riqueza para o império britânico.
Esse primeiro-ministro foi Mohammed Mossadegh.
Que governou entre 1951 e 1953. Foi derrubado por um golpe organizado pelo MI6 britânico — preparado pelo governo trabalhista de Clement Attlee, mas realizado no tempo do último governo de Winston Churchill – e pela CIA, no tempo do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower. Como? Usando os instrumentos do costume: sanções económicas; suborno de altos funcionários e militares; organização de grupos de civis armados, muitos deles delinquentes comuns, e, sobretudo, oferecendo ao Xá Reza Pahlavi poderes absolutos, em violação clara da Constituição então vigente.
E a democracia no Irão “desapareceria” — defendem muitos politólogos. Porque a seguir ao regime autoritário dos Pahlavi emergiu, em 1979, na Revolução de 1979, a República Islâmica — liderada pelos aiatolas.
Os Estados Unidos destruíram a única democracia liberal iraniana.
Voltando ao princípio — ou ao presente. A morte de Ali Khamenei abre automaticamente uma sucessão ou abre, antes de mais, uma luta pelo controlo da sucessão — entre o clero, a Guarda Revolucionária, o aparelho de segurança e as elites que vivem à sombra do regime?
Teerão já revelou o caminho da sucessão. O que importa é perceber como os pormenores do assassínio de Khamenei são horríveis. Parece que terá saído sexta-feira do seu abrigo para falar com os negociadores sobre as promessas das conversações com os Estados Unidos. Apesar da armadilha montada por Washington e Telaviv aos negociadores iranianos antes da Guerra dos 12 Dias, em junho passado, Khamenei continuou a acreditar na bondade de um acordo com os Estados Unidos que trocasse a renúncia ao nuclear pelo fim das sanções e relações pacíficas com Washington. Terá sido isto que o fez perder a vida. . Importa salientar, também, que este ataque mortífero foi premeditado com antecedência, e a acreditar na sombría alegria manifestada por Trump na sua mais recente mensagem, terá ceifado a vida a mais de quarenta líderes religiosos e militares iranianos. Nessa mesma intervenção de Trump, ele falava em retomar as negociações. É inqualificável pedir diálogo depois de ter trucidado a coluna vertebral da confiança que lhe serve de base
O terrorismo de Estado israelita e norte-americano é de uma sinistra eficácia. Contudo, só quem não conhece o valor do martírio na cultura xiita é que não percebe que este abominável assassínio de um chefe religioso não irá unir apenas o xiismo.
Então?
O mundo sunita pensará mais do que duas vezes no modo desprezível como o Ocidente trata o mundo islâmico. Estou à espera de uma declaração condenatória deste ato terrorista por parte do Papa Leão XIV, líder de mais de mil e quatrocentos milhões de católicos. Espero que o ecumenismo não tenha morrido com o Papa Francisco.
Mesmo entre iranianos que “odeiam” a República Islâmica, pode haver aceitação de uma mudança trazida por bombardeiros americanos e israelitas? Ou a origem externa da violência contamina à partida qualquer futuro político que saia daqui?
Importa recordar que esta guerra está a ser preparada há muito tempo, em particular depois do fracasso da Guerra dos 12 Dias, em junho de 2025. Os meios de comunicação social aqui no Ocidente tendem a apresentar a morte violenta de milhares de manifestantes nas ruas de Teerão e outras cidades — mais de 3000 vidas perdidas, cujos nomes foram divulgados pelo governo de Teerão — nos confrontos de 6 a 10 de janeiro, que aparentavam ser manifestações pacíficas iniciadas em 28 de dezembro de 2025, num surto revolucionário popular contra o regime.
E não o foi? Uma tentativa de revolução?
Tudo indica que, à semelhança do ocorrido em agosto de 1953 em Teerão [quando Mossadegh foi derrubado num golpe apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido], e noutros países, como em fevereiro de 2014, na morte de quase 100 pessoas na praça Maidan, em Kiev, houve a presença de agentes armados externos, neste caso ligados à Mossad e a agências dos Estados Unidos, incluindo o apoio da Starlink, de Elon Musk, o que foi fundamental para transformar um protesto pacífico contra a perda do poder de compra, devido sobretudo às sanções norte-americanas, num massacre.
O que é incrível é a existência de uma narrativa condenatória do regime já estar pronta antes mesmo de os acontecimentos sangrentos estarem consumados. A repetição de 1953 é tão grosseira que até foram buscar Reza Pahlavi, o filho já idoso do antigo Xá, como se daí viesse alguma melhoria para o povo iraniano.
A operação militar, incompetente e mal-organizada dos Estados Unidos, pode matar muitos milhares de pessoas, sobretudo se os israelitas usarem o método de Gaza, como já o fizeram no primeiro dia matando cerca de 150 estudantes numa escola primária feminina em Minab, que é o extermínio sem contemplações de civis. Mas, internamente, acabará por unir a resistência em torno do regime.
Quando Donald Trump justifica a ofensiva com a ameaça nuclear e com a defesa da segurança americana, estamos perante um perigo iminente e demonstrável ou perante uma formulação política que mistura factos, perceções e oportunidade estratégica? A Agência Internacional de Energia Atómica vinha reportando enriquecimento de urânio até 60%: isso, para si, aponta para uma arma em preparação, para uma lógica de dissuasão ou para uma moeda de negociação levada ao limite?
Horas antes do início do ataque ao Irão, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Sultanato de Omã, Badr al-Busaudi, explicou, com visível satisfação, perante as câmaras da Al Jazeera, os pormenores, considerados positivos por iranianos e americanos, atingidos nas negociações nesse dia e que deviam prosseguir esta segunda-feira.
No essencial, Teerão iria renunciar à produção de armas nucleares, neutralizando o urânio enriquecido que já tinha em seu poder, recusando-se também a manter reservas futuras. Ficaria apenas com as instalações nucleares para fins civis, nomeadamente para usos médicos.
O que é que isso significava?
Isso significava que o Irão respondia positivamente à única exigência de Trump no seu recente discurso sobre o Estado da Nação, onde pedia ao Irão que nunca produzisse armas nucleares. Trump não falou nos mísseis convencionais, apenas nos nucleares.
Imagino que este avanço nas negociações precipitou a agressão de Trump e Netanyahu. Na verdade, as negociações foram um pretexto para dar tempo à mobilização de forças e, pelos vistos, um isco para fazer Khameni sair do seu abrigo, para ser imolado na sua própria credulidade.
Uma palavra, ainda, sobre o diretor da AIEA [Agência Internacional de Energia Atómica], Rafael Grossi: o seu comportamento tanto no dossiê do Irão como no caso da central de Zaporizhzhia, na Ucrânia, mostram-no mais interessado em ser o sucessor de António Guterres nas Nações Unidas, com apoio de Washington, do que na busca da verdade objetiva, como é seu dever na liderança da AIEA.
Mas quero voltar a Teerão. Fala-se muito do regime como se fosse um bloco único. Mas o que é hoje, na prática, o coração do poder iraniano: o princípio religioso da República Islâmica, a máquina coerciva da Guarda Revolucionária ou a fusão entre ideologia, negócios, repressão e sobrevivência?
A sociedade iraniana é muito complexa e sofisticada. O grau de instrução da população, incluindo a feminina, é muito elevado. A relação com o Ocidente, apesar de todos os motivos de queixa, está longe de ser hostil, como qualquer turista europeu disso tem experiência como turista. Estudos de opinão revelam que até os Estados Unidos são mais populares no Irão do que, por exemplo, em França. Os autores ocidentais, modernos e clássicos, são apreciados. A cinematografia iraniana é uma das melhores do mundo. Ao contrário do mundo árabe, que se ressentiu asperamente contra as brutalidades do imperialismo europeu e ocidental — da Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos —, os persas e os xiitas em geral têm uma aproximação crítica, mas mais moderada. Isso traduz-se no facto de as maiores organizações islâmicas que praticam ações terroristas serem sunitas, como é o caso da Al Qaeda ou do ISIS, e não xiitas.
Num país onde 17% da população com 25 anos ou mais já tem pelo menos uma licenciatura — ou equivalente — e onde há mais de 3,2 milhões de estudantes universitários, reduzir o Irão a um retrato de atraso é, no mínimo, “preguiçoso”?
Sim. A sua capacidade tecnocientífica faz inveja à maioria dos países europeus. Em 2024, um estudo do Australian Strategic Policy Institute indicava que o Irão estava entre os primeiros cinco países mais avançados em oito tecnologias, de entre as 64 mais críticas na atualidade. É uma sociedade que coabita com o regime, sem lhe dar nem particular simpatia, nem um apoio incondicional. Contudo, julgo que Washington e Telavive nunca podem ser “padrinhos democráticos” de um povo que querem lançar no caos e na miséria, como têm feito por todo o Médio Oriente.
O paternalismo democrático de Washington é hoje a versão mais hipócrita do argumentário neocolonial e imperialista. A “anomalia” iraniana de um regime teocrático apenas se explica pela ditadura sangrenta do Xá e pela continuada perseguição dos Estados Unidos a um país e um povo que querem preservar a sua soberania. Nos anos da ditadura do Xá, os clérigos foram os setores de resistência mais poupados à violência da repressão policial, e com uma capacidade de ecoar, transversalmente a toda a sociedade, uma memória de identidade cultural profunda. Lembremo-nos, também, como os Estados Unidos lançaram o Iraque de Saddam Hussein contra o Irão numa sangrenta guerra entre 1980 e 1988. Sem a pressão externa dos Estados Unidos, com o acesso aos seus recursos naturais, sem a ameaça do outro regime teocrático, que capturou a democracia israelita, o povo iraniano encontraria — encontrará? — o caminho interno e livre para reformar o seu sistema constitucional e político.
No fundo, quem quer o quê no Irão de amanhã? Os Estados Unidos querem neutralizar uma ameaça e redesenhar o equilíbrio regional. Isso é algo muito claro. Israel quer remover um inimigo estratégico. O que é também algo óbvio. Parte da oposição quer aproveitar a brecha — quando falamos de Reza Pahlavi, filho mais velho do último xá do Irão. Mas o que querem os iranianos comuns, depois de anos de sanções, medo, repressão e morte: reforma, rutura, vingança, ordem ou simplesmente voltar a ter um país habitável?
Vou responder isto. Os Estados Unidos querem continuar a manter o mais possível a sua hegemonia, usando o único argumento que lhes resta: a força bélica e a influência no sistema financeiro internacional. Ao lançar o Irão no caos, os Estados Unidos atingem, também, a China, que é um importantíssimo cliente do petróleo iraniano.
Por seu turno, Israel quer realizar a última etapa que falta de um projeto com 30 anos, uma nova estratégia desenhada a pedido de Netanyahu, na primeira vez que assumiu a liderança do governo de Telavive, em 1996. Esse documento, coordenado pelo neoconservador norte-americano Robert Perle, intitula-se “Uma rutura limpa: uma nova estratégia para proteger o reino”.
Ao contrário da estratégia de pacificação com os palestinianos e de troca de “terra pela paz”, impedindo mais colonatos – que foi o caminho que levou ao assassínio de Isaac Rabin por um terrorista sionista em 1995 —, a nova estratégia propôs replicar com Israel no Médio Oriente aquilo que os Estados Unidos pretendiam à escala mundial: hegemonia unipolar exclusiva e sem rivais que a pudessem desafiar.
O que é surpreendente é o modo como os Estados Unidos se identificaram com a causa de Israel, como é o caso agora, mesmo quando ela é contrária aos próprios interesses de Washington. Em 1996 foram identificados uma série de países a abater: Iraque, Líbano, Líbia, Síria, Irão. Só falta mesmo o Irão.
Recomendo, para quem queira aprofundar a bizarra subordinação das elites políticas e mesmo económicas dos Estados Unidos aos interesses dos sionistas mais extremos em Israel, a leitura de um livro extremamente revelador da autoria de duas personalidades maiores do universo académico dos Estados Unidos, pela inteligência e independência: “O Lobby de Israel e a Política Externa dos EUA”, de 2007, da autoria de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt.
Mas regresso ao início da nossa conversa. O Irão está motivado para resistir, e tem os meios para isso. Neste terceiro dia da guerra, já foram atingidas 14 bases e instalações dos Estados Unidos e afetados 12 países e territórios, onde Teerão tem visado interesses americanos, diretos e indiretos. Os Estados Unidos podem decidir fazer uma guerra total ao Irão. Trump pode tentar usar a guerra, qual César embriagado, para enterrar o que sobra da democracia americana, cada vez mais infetada pelo cancro da plutocracia. Mas, nesse caso, o preço a pagar poderá ser a destruição da infraestrutura energética de todo o Médio Oriente. Não se trata apenas de fechar o Estreito de Ormuz — o que já foi feito. Trata-se de destruir materialmente todos os sistemas de exploração, produção, transporte e exportação de petróleo e gás natural, deixando o mundo privado durante meses ou até anos de mais de 20% da energia fóssil que continua a ser a alavanca maior que faz mover a economia mundial.
Muito bem.
E, já agora, deixo uma palavra final para expressar a minha profunda tristeza pelo colapso político, para não dizer ético, da União Europeia. Tenho desgosto em dizê-lo, mas parece que somos governados por vultos e sombras, quase indistintos entre si, tal a ausência de pensamento, para já não falar de carácter, que campeia. Esses vultos, em vez de condenarem o ataque, juntam-se aos lobos.
Contudo, essas sombras não produzem os poderosos uivos de predador, mas sim latidos suaves de obediência e submissão ao chefe da alcateia.