Trump, a ilha das orgias de Epstein e a Babilónia de César Augusto revisitada

(Declan Hayes in Strategic Culture Foundation, 16/07/2025, trad. Estátua de Sal)


Bem-vindo à Babilónia, um subúrbio de Sodoma e Gomorra, onde tudo vale se, como o falecido Jimmy Savile, você tiver as conexões certas na BBC e em todos os níveis da política e do establishment financeiro.

Não conhecemos espetáculo tão ridículo quanto o público britânico num dos seus periódicos ataques de moralidadeThomas Babington Macaulay.


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Embora o alvo principal deste artigo seja o atual escândalo sexual infantil entre Trump e Epstein, ele desvia-se para a Roma antiga, para a Inglaterra vitoriana, bem como para o Quénia moderno, para o Nepal, as Filipinas e o Camboja, para atingir os césares políticos e financeiros da NATO que abusam sexualmente de crianças com os seus próprios petardos.

Uma visita à ilha sáfica de Capri, mostra que o imperador Augusto apreciava uma orgia sem limites e que Tibério treinava crianças – peixinhos como esse pervertido imperial lhes chamava -, para lhe mordiscarem as partes íntimas. Turistas afluíam em massa para rir daquela depravação. Veja a Inglaterra vitoriana, onde o Pall Mall Gazette expôs o tráfico de escravas brancas daquela época, onde “cavalheiros” ricos estupravam virgens traficadas, acreditando que o sexo com aquelas inocentes curaria a sífilis daqueles vagabundos.

Bem-vindos aos dias de hoje, onde reportagens sobre as FilipinasCamboja e Quénia  nos dizem que pedófilos adotam crianças para as violarem sistematicamente e que eles e seus parceiros não veem nada de errado nisso, já que os seus pais, empobrecidos, ficam felizes com a ninharia financeira que os violadores lhes dão.

Ouçam os argumentos do rapaz franco-cambojano que diz que ama as crianças que estupra, que a primeira experiência erótica das crianças é quando elas mamam no peito das mães, que as vítimas ficam felizes por serem fodidas em troca de educação e algo para comer, que foi assim que Deus o fez e que, portanto, ele deveria ter permissão para viver a sua vida como quiser, mesmo que destrua a vida de inúmeras outras pessoas.

Agora, observe que esse é o mesmo tipo de argumentos empregues por pedófilos como Kinsey, seus ativistas do Pedophile Information Exchange (PIE) e da North American Man Boy Love Association (NAMBLA) e seus apologistas do Little Red Schoolbook, tal como Margaret Mead fez durante um século, o que equivale a dizer que, se alguma tribo imaginária da idade da pedra nas Terras Altas da Papua Nova Guiné abusa dos seus abandonados, ou se pinguins ou bonobos se envolvem em algumas propensões sexuais sórdidas para passar o tempo livre, então nós também deveremos.

Em seguida, visite os vibrantes anos 60 de Londres, onde o grupo criminoso organizado Kray subornou políticos proeminentes  e predadores sexuais em série, Lord Boothby e Tom Driberg, e que todo o establishment britânico, e até o primeiro-ministro Harold Wilson, teve que se unir para abafar a história. Permanecendo em Blighty, pergunte a si mesmo quem, além de Lord Mountbatten e o chefe do MI6, Maurice, o informante Oldfield, fez sexo com as crianças traficadas do orfanato Kincora de Belfast,  e o que o Primeiro-ministro britânico e ex-líder da bancada Edward Heath estava fazendo com todas aquelas crianças de rabo de pêssego que ele entretinha no seu iate. Ou que tal a Princesa Diana, que tinha permissão para ter amantes contrabandistas em abundância no seu boudoir e pergunte a si mesmo porquê o MI6, que é encarregado de defender a Família Real, não enfiou uma Glock nas orelhas daqueles garanhões e jurou despedaçá-los, como fizeram com o gangster londrino John Bindon quando ele se aproximou demais da Princesa Margaret, irmã da falecida Rainha.

Bem-vindo à Babilónia, um subúrbio de Sodoma e Gomorra, onde tudo vale se, como o falecido Jimmy Savile, você tiver as conexões certas na BBC e em todos os níveis da política e do establishment financeiro tradicional.

Os exemplos acima são citados para mostrar que, desde a época dos Césares até à nossa, tem havido uma procura constante dos ricos por devassidão, que eles sentem que os pobres têm o dever de suprir para que possam ter uma refeição farta ou, no caso do estábulo de Epstein, uma bolsa Gucci ou alguma bugiganga semelhante.

Os exemplos políticos britânicos são apresentados para mostrar que os serviços de segurança não estão a cumprir o seu papel ou estão muito intimidados ou são mesmo cúmplices. Acrescente-se a isso a figura dos Legionários de Cristo, que compraram o silêncio do Papa com centenas de milhões de dólares em doações, e temos a essência de uma hipótese para lançar um olhar frio sobre as artimanhas de Epstein e dos seus cúmplices, que parecem incluir os presidentes Trump e Clinton, ambos com os seus próprios históricos desprezíveis de predadores sexuais.

Factos sobre Epstein

Jeffrey Epstein era um judeu da classe média baixa de Nova York, que conseguiu um emprego a ensinar matemática numa escola local, mesmo sem ter qualificações relevantes para isso. Num abrir e fechar  de olhos, ele passou a possuir a maior casa de Manhattan, passou a ter a sua própria ilha particular, a possuir uma série de quintas privadas e a administrar biliões de dólares em nome de empresas como a Morgan Stanley e o Deutsche Bank, que pagaram às suas supostas vítimas centenas de milhões de dólares para as calar, o que, para ser justo, é um método melhor do que a bala na cabeça que outros receberam. Epstein também se associou ao príncipe Andrew, que fez uma bagunça na televisão britânica e que da mesma forma pagou às suas supostas vítimas uma quantia principesca para as calar, o que é um negócio melhor do que aquele a que a falecida princesa Diana, também conhecida como a rainha das tortas,  teve direito quando foi morta.

A parceira de Epstein no crime, por assim dizer, era Ghislaine Maxwell, filha do notório agente da Mossad, Robert; ela agora cumpre 20 anos de prisão por tráfico sexual de menores, embora o presidente Trump pareça estar confuso sobre se houve tráfico sexual de facto. Quanto ao ex-piloto Jeffrey, ele aparentemente suicidou-se no notoriamente corrupto Centro Correcional Metropolitano de Nova York, onde foi forçado a dividir uma cela com um assassino em série, cuja forma característica de matar as suas vítimas era idêntica à de Epstein.

Para um vislumbre mais profundo desses canalhas, navegue por estes links aqui , aqui , aqui , aqui , aqui , aqui , aqui , aqui , aqui , aqui , aqui e aqui, bem como neste pedaço suculento sobre o pervertido sexual Tom Driberg MP, e você verá um bando de pervertidos que vivem no limite e que são viciados, por quaisquer razões, em perversões ilegais que são desaprovadas pelos ignorantes, mas que são ímanes para aqueles que querem o que eles acham que será uma exaltação maior ou mais personalizada e que, por causa de suas personalidades e perversões, são, portanto, de interesse para os serviços de inteligência da NATO, que gostam de explorar os que gostam de viver vidas arriscadas, “para o bem maior”.

Se você der uma olhada nas dezenas de milhares de vídeos sobre o caso Epstein que os apoiantes da NATO postaram no YouTube, verá inúmeras referências às chamadas teorias da conspiração, inferindo que grande parte da fumaça e da névoa em torno da Ilha das Orgias  é obra de malucos, que não sabem a diferença entre a realidade e a ficção. Embora os malucos estejam todos no comando deste escândalo, as camadas de ofuscação que cercam toda a saga, juntamente com o branqueamento do mal e a hipocrisia descarada em que a Mossad, o MI6, a CIA e o FBI evidenciam, sugerem que este é o pai de todos os escândalos de espionagem.

Antes de prosseguir, volte para o lendário chefe do FBI, J. Edgar Hoover, que coletou informações sujas sobre presidentes americanos, mas que foi controlado pela Máfia, que permitiu que ele se entregasse aos seus fetiches homossexuais e travestis em troca de fazer vista grossa para todos os crimes que o crime organizado estava a cometer.

Agora, com Hoover, os Caesars e os Boothbys no banco, considere o papel da Mossad e de grupos de espionagem aliados na rede de espionagem sexual e corrupta de Epstein. Epstein, sabemos, era um depravado sexual, que teve uma ascensão meteórica, da miséria à riqueza, que só pode ser explicada pelo facto de ter sido escolhido não pela sua experiência profissional como professor de matemática ou gestor de fundos de capital de risco, mas pelas suas falinhas mansas e vulgares.

Pela parceria de Epstein com a colaboradora da Mossad, Ghislaine Maxwell, a filha desprezível de um dos espiões mais sórdidos da Mossad, e pelo facto de o ex-Primeiro-ministro israelita Ehud Barak ser um visitante frequente dos bordéis de Epstein, Israel tem algumas questões muito sérias para responder num tribunal apropriado. E essas questões vão muito para além da criminalidade desenfreada dos fetiches de Branca de Neve e A Bela e a Fera e da mutilação infantil, das merdas neonazis satânicas e ocultistas que são o credo dos amigos mais vis de Epstein e que anteriormente surgiram no escândalo Marc Dutroux na Bélgica, que foi um retorno direto à maldade desenfreada no coração dos Irmãos Karamazov e que também está no coração da Mossad e das suas organizações criminosas irmãs.

 Não apenas a Mossad e toda a Israel deveriam ser responsabilizados por isso, mas também o FBI, a CIA e todo o estado profundo americano, se conseguirmos encontrar um júri formado pelos seus pares (risos) e uma corda grande o suficiente para os enforcar.

Fonte aqui

A necessidade de pensar o impensável

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 09/06/2025)

Judeus ortodoxos em frente à Downing Street protestando em solidariedade com a Palestina

Já publicámos aqui muito bons textos, mas permitam-me que sublinhe a qualidade e a atualidade deste trabalho. Se mais pensadores existissem com a capacidade de reflectir aqui evidenciada, e admitindo poderem ser as suas ideias divulgados com profusão, e o mundo seria um lugar mais amistoso e habitável. Parabéns ao Boaventura Sousa Santos de quem tive o prazer de ter sido aluno, na já longínqua década de 70 do século passado.

Estátua de Sal, 12/06/2025)


Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores.


Este título não é uma proposta contraditória. É um apelo a que des-pensemos muito do que nos habituámos a pensar para poder enfrentar o maior desafio de sempre: o perigo de deixar de pensar. Novalis estava certo quando escreveu Die Philosophie ist eigentlich Heimweh, ein Trieb überall zu Hause zu sein (Na verdade, a filosofia é saudade, uma pulsão para se estar em casa em qualquer parte).

Por filosofia entendo todo o pensamento estruturado pela busca da verdade sem recurso a tecnologias que, em vez de se manter nos limites de instrumentos para ajudar o pensamento a pensar, pelo contrário, procuram substituir-se ao pensamento. Se deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.

O perigo de pensar que as liberdades autorizadas são uma fracção das liberdades possíveis

Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.

O perigo de pensar que o que se vê é, de facto, horroroso

O horror vivido pela maior parte da humanidade, diariamente, sempre diferente e sempre igual, desmente tudo o que pensámos sobre o progresso da humanidade. O horror, quando pensado a fundo, corre o risco de ser horror vivido por solidariedade com quem o sofre. Isso obrigaria a ir para a luta concreta no socorro, no estancamento da morte inocente, na destituição dos governantes cúmplices com a morte inocente. Mas como isso dá trabalho e obriga a riscos tão graves quanto desnecessários, o melhor é não pensar, não saber, fingir não saber, admitir que talvez seja um mal-entendido.

O genocídio do povo palestiniano, transmitido em directo todos os dias, é a primeira guerra conduzida conscientemente contra mulheres e crianças, os dois inimigos principais de uma limpeza étnica perfeita. Tem toda a lógica. Lógica e o apoio activo dos nossos governantes democratas.

Tal como Himmler, arquitecto do holocausto, entrava em casa à noite pela porta traseira para não acordar o seu canário de estimação, os arquitectos do genocídio de hoje fazem uma pausa no morticínio para fazer as suas orações e ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Isto degrada a tal ponto o que resta de humanidade na nossa raiva impotente que o horror de pensar tem de se reduzir a pensar o horror sem correr o risco de o viver por solidariedade.

Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores. Torna-se impensável pensar que, tal como não teve êxito a solução final contra eles por parte dos Nazis, também eles não terão êxito na solução final que pretendem infligir ao povo palestiniano. E como tudo isto é impensável, é melhor mudar de canal e voltar às redes sociais ou comentar o trágico-cómico entretenimento das zangas entre dois gorilas, Donald Trump e Elon Musk (sem ofensa aos gorilas).

O perigo de pensar que a comida mental está na mesa e que quem não comer morre de fome

A Inteligência artificial (IA) nada cria nem transforma. Apenas acumula e sintetiza segundo critérios opacos apenas acessíveis aos donos dos programas dos algoritmos, isto é, aos donos do mundo. A inteligência artificial refere-se a máquinas que executam tarefas cognitivas como pensar, perceber, aprender, resolver problemas e tomar decisões. Não é a primeira vez que se atribui inteligência a máquinas. Na década de 1950 era comum designar os computadores emergentes como “cérebros electrónicos”. Actualmente, a maioria das aplicações populares de IA – o reconhecimento de voz e imagem, o processamento de linguagem natural, a publicidade direccionada, a manutenção preditiva de máquinas, carros sem condutor e drones – envolve a capacidade das máquinas para aprenderem com os dados sem serem explicitamente programadas.

Trata-se de uma mudança de paradigma na tecnologia informática. O que vai realmente fazer a diferença na corrida às aplicações de IA é a disponibilidade de dados; o elemento crítico é a abundância de dados. Mais dados conduzem a melhores produtos, o que, por sua vez, atrai mais utilizadores, que geram mais dados para melhorar ainda mais o produto. A escala de dados necessária para desenvolver aplicações avançadas de IA é a base do impacto da centralização e monopolização da IA. As grandes empresas americanas de tecnologia lideram o mundo em aplicações de IA, mas a China é um gigante em ascensão. Isto conduz a um duopólio da inovação da IA: EUA e China.

A IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano. A vertigem da sua ilimitada expansão está a entrar em todos os domínios da actividade humana, da medicina ao direito, da comunicação à guerra, da educação aos mercados financeiros. O que significa ser humano na época da IA?

No fundo, a IA funciona como um dispositivo estatístico, mas, devido ao número infinito de dados que gere e aos algoritmos que regem o seu funcionamento, a IA projecta a ideia de criar conhecimento a partir do nada, de inventar. Ou seja, a IA dá a impressão de funcionar como um ser humano, ainda que de forma infinitamente mais eficiente. Daí as designações utilizadas para a caracterizar – inteligência artificial, aprendizagem profunda – características até agora reservadas aos seres humanos ou, no máximo, aos seres vivos. Estas designações são utilizadas de forma metafórica, mas mostram até que ponto a IA parece estar a atingir níveis de compreensão e de transformação ainda reservados aos seres humanos.

O efeito de realidade é impressionante, porque enquanto cópia parece criativa, enquanto extractiva parece inventiva, enquanto reprodutiva parece produtiva, enquanto baseada em correlações parece oferecer novas relações. À luz da credibilidade desta “aparência”, as questões sobre o que conta como ser humano ou se a IA significa uma mudança civilizacional têm sido levantadas por pessoas em lados opostos do espectro político e ideológico.

Não gosto de citar criminosos de guerra, mas neste caso faço uma excepção para citar Henry Kissinger. Escrevia ele em 2018:

O Iluminismo procurou submeter as verdades tradicionais a uma razão humana liberta e analítica. O objetivo da Internet é ratificar o conhecimento através da acumulação e manipulação de dados em constante expansão. A cognição humana perde o seu carácter pessoal. Os indivíduos transformam-se em dados, e os dados tornam-se reinantes.

No início do texto Kissinger interrogava-se:

(…) “Qual seria o impacto na história das máquinas de auto-aprendizagem – máquinas que adquiriram conhecimento através de processos particulares a elas próprias, e aplicariam esse conhecimento a fins para os quais pode não haver nenhuma categoria de compreensão humana? Estas máquinas aprenderiam a comunicar umas com as outras? Como seriam feitas as escolhas entre as opções emergentes? Seria possível que a história da humanidade seguisse o caminho dos Incas, confrontados com uma cultura espanhola incompreensível e até inspiradora para eles? Estaríamos nós no limiar de uma nova fase da história humana?

Com Chomsky a meu lado, considero que:

a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações… Por muito úteis que os programas de IA possam ser nalguns domínios restritos (podem ser úteis na programação de computadores, por exemplo, ou na sugestão de rimas para versos ligeiros), sabemos pela ciência da linguística e pela filosofia do conhecimento que diferem profundamente da forma como os humanos raciocinam e utilizam a linguagem. Estas diferenças impõem limitações significativas ao que estes programas podem fazer, codificando-os com defeitos inerradicáveis…

De facto, estes programas estão presos numa fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isto é descrição e previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência… O pensamento humano baseia-se em explicações possíveis e na correcção de erros, um processo que limita gradualmente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas.

Na sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer ([1819] 2020) faz uma distinção entre talento e génio. Enquanto a pessoa talentosa alcança o que os outros não conseguem alcançar, o génio alcança o que os outros não conseguem imaginar. O génio tem uma capacidade superior de contemplação que o leva a transcender a pequenez do ego e a entrar no mundo infinito das ideias. O génio é a faculdade de permanecer no estado de perceção pura, de se perder na perceção, o poder de deixar os seus próprios interesses, desejos e objectivos inteiramente fora de vista, renunciando assim inteiramente à sua própria personalidade durante algum tempo, de modo a permanecer um puro sujeito conhecedor, com uma visão clara do mundo.

À luz disto, podemos especular com segurança que, se Schopenhauer vivesse hoje, defenderia que a IA, por muito estimulantes que sejam as suas realizações, nunca poderá atingir os patamares da possibilidade humana. No máximo, poderá atingir o nível do talento. A genialidade é inacessível à IA. O génio é o limite superior da IA. O limite inferior é a actividade humana não registada ou, melhor ainda, a actividade humana que é registada e armazenada de formas que desafiam o extractivismo de dados.

Este jogo homem-máquina deixa escapar um ponto crucial: o facto de os seres humanos não existirem em abstracto, mas sim em contextos históricos, sociais e culturais específicos. Os exercícios sobre características universais construídas abstractamente convertem características locais centradas no Ocidente, capitalistas, colonialistas e patriarcais em características universais derivadas do conhecimento “visto a partir do zero”. Os preconceitos ontológicos e políticos são assim transformados em artefactos neutros em termos de IA.

O perigo de pensarmos que o que cai fora do algoritmo não existe é a nova forma do que tenho designado por sociologia das ausências. O perigo de pensar que o algoritmo é a única comida mental ao nosso dispor é o mesmo que pensar que o hamburger da MacDonald’s é a única comida ao nosso dispor.

O perigo de pensar que o pós-humano pressupõe que já fomos plenamente humanos

Desde o início do milénio tem havido um debate sobre o pós-humano. A morte do ser humano vinha de longe: de Nietzsche, de Heidegger, de Foucault, de Barthes, de Deleuze. Mais recentemente, a ideia do pós-humano centrou-se nos seres humanos sujeitos a xenotransplantes (transplantes de células, tecidos ou órgãos de outras espécies animais) ou vivendo com objectos tecnológicos inseridos no seu corpo. A ideia do pós-humanismo implica a crítica do antropocentrismo, a negação de qualquer privilégio ao ser humano no conjunto dos seres viventes do planeta.

Não vou neste texto discutir os méritos desta concepção. O que me interessa questionar é ideia de humano que subjaz à de pós-humano. É uma ideia substantivista e abstracta que pressupõe a existência prévia de uma natureza humana mais ou menos fixa. De resto, a questão de saber se há ou não uma natureza humana não é a questão que me preocupa. É antes a ideia de que os seres humanos foram sempre tratados como seres privilegiados e abstractamente iguais.

O perigo de pensar que, na verdade, isso nunca aconteceu na era moderna é um dos mais aterradores para a boa consciência liberal que formou a nossa consciência desde o século XVII. Ao longo dos anos, tenho mostrado que, com o colonialismo histórico, se traçou uma linha abissal, tão radical quanto radicalmente invisível, entre os seres tratados como seres plenamente humanos (a zona metropolitana) e seres tratados como seres sub-humanos (a zona colonial).

Essa linha abissal dura até hoje e a sub-humanidade que ela desenha abrange mais populações no mundo que durante o período do colonialismo histórico. Que o digam os imigrantes deportados com algemas e enviados para campos de concentração em El Salvador e em outros lugares de que um dia teremos notícia. Ou os camponeses da República Democrática do Congo martirizados pela maldição do lítio e dos minerais raros. O espectro da sub-humanidade paira sobre cada um de nós.

De um momento para o outro, como previa Brecht, pode caber a qualquer de nós ser atirado para a zona colonial onde as declarações universais dos direitos humanos e as garantias constitucionais não são mais que mentiras piedosas. Pensar que isto é um retrocesso é pensar que houve progresso. Claro que houve progressos, mas não houve Progresso com P maiúsculo.

Todos estes perigos obrigam a uma tarefa de des-pensar e de desaprender antes que seja possível dar sentido ao que não tem sentido.

Fonte aqui

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Um Mundo sem fascismo nem nazismo

(João-Gomes, In Facebook, 09-05-2025)


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As palavras de Putin durante as comemorações do 9 de Maio, evocando a Rússia como “barreira impenetrável” contra o nazismo, a russofobia e o antissemitismo, devem ser lidas com o peso da História e não com a ligeireza seletiva que hoje domina muitos discursos políticos no Ocidente. A verdade é que, por mais que se tente obscurecer ou relativizar, a Rússia – especialmente o povo russo e os povos eslavos em geral – suportaram o fardo mais pesado da guerra contra o nazismo, tanto em perdas humanas como em resistência moral e militar.

Com o colapso da URSS, a Rússia iniciou um percurso ambíguo, sim, mas voltado para uma maior integração com a Europa e para o comércio internacional. No entanto, nunca abdicou da defesa da sua identidade histórica, marcada por resistências sucessivas às invasões napoleónicas, ao delírio expansionista do Kaiser, à brutalidade do Terceiro Reich e, mais recentemente, às tentativas de contenção e cerco geopolítico por parte da NATO. Essa resiliência não pode ser ignorada. Ela assenta em séculos de sofrimento e resistência, e é por isso que a memória da Grande Guerra Patriótica ainda molda o imaginário coletivo russo – com razão.

Putin relembra ao mundo, com firmeza, que a luta contra o fascismo e o ódio é uma tarefa permanente. Quando menciona a operação militar contra o regime de Kiev como continuação desse combate, podemos e devemos discutir os métodos e as consequências, mas não podemos ignorar a realidade complexa que se vive na Ucrânia, onde símbolos e figuras do colaboracionismo nazi, como Stepan Bandera, são ainda hoje reabilitados e celebrados em segmentos do Estado e das Forças Armadas. É um facto incómodo, mas real.

Neste contexto, é legítimo afirmar que a Rússia, com as suas contradições, continua a desempenhar um papel de resistência – não apenas militar, mas simbólica – contra o ressurgimento da extrema-direita europeia. Enquanto muitas democracias ocidentais se mostram complacentes, ou mesmo cúmplices, com o avanço de partidos abertamente xenófobos e revisionistas, Moscovo continua a assinalar com clareza e solenidade a vitória sobre o fascismo como um valor fundador da sua identidade nacional.

Este 9 de Maio deve, portanto, servir não só para lembrar os horrores do passado, mas também para refletir sobre o presente. Que lição retiram hoje os países da União Europeia da memória da Segunda Guerra Mundial?

Quando os valores democráticos são usados como fachada para tolerar – ou mesmo legitimar – o avanço de ideias que os negam, algo está profundamente errado. Nesse contraste, a firmeza russa, por mais criticada que seja no plano diplomático, emerge como um lembrete incómodo: a memória histórica não pode ser seletiva, e a luta contra o fascismo não pode ser apenas retórica.