Reflexão – quando uma vitória é leal e sem favores

(João Gomes, in Facebook, 20/07/2026)


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Há vitórias que se conquistam pela superioridade técnica. Outras, pela resistência física. E há aquelas que ficam na memória porque parecem representar uma ideia simples, mas poderosa: quando o melhor vence sem depender de favores, a própria competição sai reforçada.

A Espanha conquistou este Campeonato do Mundo demonstrando exatamente isso. Foi uma equipa que soube sofrer, que nunca desistiu da sua identidade futebolística e que encontrou, nos momentos decisivos, a capacidade para resolver os jogos através da qualidade coletiva.

Portugal sabe bem quão difícil foi esse percurso. A seleção portuguesa caiu perante os espanhóis depois de um jogo extremamente equilibrado, em que pequenos detalhes fizeram toda a diferença. É legítimo pensar que, com opções diferentes do selecionador em determinados momentos da partida, Portugal poderia perfeitamente ter sido o finalista e até discutir o título. Não seria um cenário fantasioso; seria apenas uma das muitas possibilidades que um jogo tão equilibrado permitia.

Já a Argentina chegou à final rodeada por uma expectativa enorme. Ao longo da competição não faltaram vozes críticas relativamente a algumas decisões de arbitragem que, para muitos observadores, acabaram por lhe ser favoráveis. Naturalmente, essas leituras pertencem ao campo da opinião e continuarão a dividir adeptos. Isso não retira mérito ao talento de jogadores experientes que continuam a fazer parte da história do futebol mundial. Mas também é verdade que, na final, a seleção argentina esteve muito longe da intensidade competitiva que tantos esperavam.

Faltou irreverência. Faltou capacidade de reação. Faltou aquela personalidade que tantas vezes caracterizou o futebol argentino. Em vez de uma equipa disposta a discutir cada lance até ao limite, viu-se um conjunto demasiado resignado perante uma Espanha que controlou emocionalmente quase todo o encontro. Talvez por isso esta vitória espanhola tenha um significado que ultrapassa o próprio futebol. Porque transmite a ideia de que, apesar de todas as pressões externas, continua a ser possível vencer apenas pelo mérito.

Curiosamente, esta imagem pode servir de metáfora para aquilo que tem acontecido nos últimos meses na política internacional.

As divergências entre Washington e Madrid tornaram-se mais visíveis depois de o Governo espanhol ter assumido posições próprias em vários dossiês internacionais. Entre eles, destacou-se a recusa de participar em iniciativas militares relacionadas com o conflito envolvendo o Irão, opção que gerou fortes críticas por parte de Trump e declarações duras dirigidas ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

Ao mesmo tempo, Espanha tem sido um dos países europeus que mais consistentemente tem defendido um cessar-fogo em Gaza, o reconhecimento do Estado da Palestina e uma maior proteção da população palestiniana. Não se pode negar que Madrid tem mantido uma posição coerente na defesa da aplicação do direito internacional humanitário e da proteção dos civis. Essa postura transformou Espanha, para muitos, numa das vozes europeias mais firmes na denúncia do sofrimento vivido pela população palestiniana. Espanha está claramente pela defesa da dignidade humana que deve prevalecer sobre qualquer alinhamento político automático.

Também por isso, a vitória espanhola parece transportar um simbolismo que vai além das quatro linhas. É como se dissesse que nem sempre vence quem exerce maior pressão política, económica ou mediática. Por vezes vence quem simplesmente faz melhor o seu trabalho.

É igualmente uma oportunidade para Trump refletir sobre alguns aspetos da organização deste Campeonato do Mundo – que quis claramente que fosse um marketing turístico aos Estados Unidos. Desde os preços elevados dos bilhetes até às críticas dirigidas a algumas regras e procedimentos adotados durante a competição, houve quem considerasse que determinadas decisões favoreceram excessivamente os interesses do país anfitrião e da sua seleção. O futebol ganha prestígio quando todos entram em campo convencidos de que apenas o desempenho decide o resultado.

A Espanha conquistou o troféu precisamente porque deixou essa imagem: a de uma equipa que venceu sem necessitar de privilégios, de atalhos ou de proteção. E quando isso acontece, quem realmente levanta a taça não é apenas uma seleção. É o próprio espírito do desporto.

Futebol e espetáculos que justificam guerras e encobrem genocídios

(Por Tortuga, in Resistir, 19/07/2026)


O principal produto mediático destes dias, acompanhado por milhões de telespectadores de todo o planeta, é o campeonato mundial de seleções nacionais de futebol organizado pela FIFA a cada quatro anos. Um espetáculo para os entusiastas do desporto de massas, mas também um importante ponto de encontro de todo o tipo de interesses económicos, sociais e políticos.

Antes de entrarmos em pormenores sobre as particularidades específicas do facto de esta edição do Mundial de Futebol se realizar nos EUA, convém recordar duas circunstâncias negativas que ocorrem em cada edição do Mundial e também noutros eventos desportivos e competições culturais de características semelhantes.

Por um lado, há a questão ecológica:   cada um destes eventos representa uma grande agressão ao ambiente, sob a forma de construção de infraestruturas faraónicas, na sua maioria desnecessárias: estádios, estradas, edifícios para alojar as delegações visitantes… Sem esquecer o custo humano de tudo isto. Por exemplo, no último Mundial do Qatar, cerca de 500 trabalhadores migrantes morreram nas obras, devido à pressa da organização para que as construções estivessem prontas dentro dos prazos. É também necessário ter em conta os danos causados à atmosfera pelas emissões poluentes dos automóveis e aviões que transportam os milhares e milhares de espectadores que se deslocam para assistir aos jogos ao vivo.

Por outro lado, é preciso mencionar o fomento dos nacionalismos patrióticos que se verifica com este tipo de competições. É sabido que o patriotismo nacionalista é um poderoso catalisador do racismo, da xenofobia, da exclusão e também da corrida ao armamento e da própria guerra. Os mundiais de futebol e de outros desportos, longe de promover o encontro multicultural e o diálogo, aprofundam as rivalidades e as diferenças entre países, exacerbam o culto à própria nação e são fonte de diversos tipos de desconsideração e desprezo para com as demais.

Mas concentremos-nos na presente edição do campeonato. Como é do conhecimento geral, o principal país anfitrião são os Estados Unidos da América do Norte. Um Estado que, ao longo da sua história recente, deixou pelo mundo uma série de guerras, golpes de Estado, pilhagens e violações do direito internacional. Um país cujo governo, para nos referirmos ao mais recente, ameaça invadir Estados soberanos, orquestra guerras económicas, impõe bloqueios comerciais que geram escassez — e, consequentemente, pobreza —, sequestra e assassina líderes de outros países, bombardeia escolas cheias de meninas e, acima de tudo, em conjunto com o seu aliado íntimo, Israel, mantém em curso um genocídio indescritível contra a população civil da Palestina e do Líbano. Limitando-nos apenas ao âmbito do futebol, soube-se nestes dias que 566 futebolistas palestinos – o equivalente a 25 equipas completas – foram assassinados por Israel.

Talvez pensem que somos demasiado sensíveis, mas permitam-nos opinar que o facto de um Estado que faz todas essas coisas poder organizar um campeonato mundial e de os restantes países participarem com as suas seleções nacionais, como se nada fosse, é uma forma de minimizar a gravidade dos crimes cometidos, ações que continuam a decorrer até aos dias de hoje.

É um desviar o olhar e, por conseguinte, justificar e até mesmo avalar todas essas políticas que constituem crimes contra a humanidade, levadas a cabo incessantemente pelo principal governo anfitrião deste Mundial de Futebol. O mesmo se pode afirmar sobre o facto de se permitir que Israel participe em competições internacionais ou no Festival Eurovisão da Canção.

Como se não bastasse, a esta circunstância fundamental há que acrescentar mais um conjunto de razões que fazem com que a realização de um Mundial nos EUA não faça o menor sentido:   o elevado preço dos bilhetes, que torna o espetáculo elitista, classista e excludente para as pessoas com rendimentos mais baixos. A forma como a agência governamental ICE aproveita o Mundial para a sua caça permanente a migrantes. A discriminação, sob a forma de obstáculos e humilhações nas fronteiras ou recusa de vistos que as autoridades dos EUA impõem a pessoas provenientes de países do Sul ou inimigos dos EUA, chegando mesmo a afetar algumas das seleções nacionais participantes, ou o árbitro somali Omar Artan, considerado o melhor de África, a quem foi impedida a entrada no país. Tudo isto sem que a FIFA, organizadora do torneio, emita a mais mínima crítica. Recordemos que, em 2023, a FIFA retirou à Indonésia a organização de um Mundial Sub-20, por não ter permitido a entrada no país aos membros da seleção israelense como medida de protesto contra o genocídio.

Denunciar o militarismo, as guerras e os genocídios, bem como as agressões ao ambiente ou aos direitos humanos fundamentais, é uma obrigação que temos enquanto seres humanos decentes. Assim como evitar que esses factos e situações sejam normalizados, justificados ou legitimados. Um pequeno gesto, que pode ser eficaz se muitas pessoas o praticarem, é deixar de consumir, enquanto espectadores, produtos da indústria do espetáculo promovidos ou produzidos em países como Israel e os EUA. A Copa do Mundo de Futebol de 2026, por exemplo.

Fonte aqui.

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Como o último ato de Khamenei está a derrotar o NATOstão

(Pepe Escobar in Resistir, 10/07/2026)


Interrompemos este programa para anunciar que o “gato” do Memorando de Entendimento saiu do coma – e está praticamente sem sinais vitais.


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Era totalmente previsível.

O Babuíno da Bárbaria e os seus lacaios quebraram a promessa de suspender as sanções petrolíferas contra o Irão. O compromisso foi revogado pelo Departamento do Tesouro.

Quebraram o frágil cessar-fogo – com ataques aos postos litoraneos do sul do Irão; o Irão respondeu; os EUA intensificaram a resposta; e a escalada voltou a ganhar força.

Quebraram o acordo sobre a navegação no Estreito de Ormuz com provocações sucessivas contra petroleiros:   a Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) respondeu na mesma moeda.

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