A Hidra de duas cabeças

(Estátua de Sal, 21 de Agosto de 2015)

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“A hidra é um animal da mitologia grega com várias cabeças de serpente, sendo uma delas imortal, e corpo de dragão. Foi criada por Juno e era um dos doze trabalhos de Hércules. Era conhecida como “Hidra de Lerna“. O seu sangue assim como o seu hálito era venenoso. Se suas cabeças fossem cortadas, elas voltavam a nascer.”

Cada um tem a hidra que merece ou que pode ter. Portugal também tem a sua hidra de estimação. É a coligação PAF e também temos direito a duas cabeças, qual delas a mais venenosa, uma é a de Pedro, outra é a de Paulo, e tal como na mitologia, são inseparáveis, siamesas, uma faz PAF e outra faz PUF.

Ora, queria a oposição que a coligação se apresentasse aos debates para as legislativas cortando uma das cabeças da hidra e apresentando-se apenas só com uma delas. É óbvio que o animal, não se querendo auto mutilar, só podia recusar tal desafio abstendo-se de debater. Não é que esta decisão seja surpreendente. Os debates sérios, mais que atacar ou mostrar as fraquezas dos adversários, servem para provar que as propostas próprias são as melhores e as mais construtivas. Mas como a coligação PAF nada mais tem a apresentar ao País do que aquilo que foi fazendo durante os quatro anos de governação, não tem nada a perder em não debater seja o que for. E para destruir as propostas alheias, tem toda a comunicação social infestada de comentadores, figurantes em painéis de debate político e outras sumidades desencantadas de baús de velharias, para já não falar das homílias dominicais do professor Marcelo.

Neste exercício de desconstrução das propostas dos adversários, esta semana foi elucidativa. O PS, refez as contas do programa macroeconómico e Centeno veio falar na criação de 207000 empregos a surgirem durante a próxima legislatura caso o PS ganhe as eleições. A Direita exultou e os oráculos da economia foram chamados a discutir o número. Não sei se também chamaram a Maia, lançando as cartas do Tarot, para afiançar da credibilidade de tão ambiciosa intenção, porque não sou cliente da CMTV.

O primeiro argumento esgrimido foi que Sócrates também já houvera prometido 150000 empregos e foi o que se viu. O segundo argumento foi que o número, além de exagerado, era demasiado rigoroso, logo pouco credível: porque não 203500? 199999? Porquê, afinal, 207000? António Costa lá teve que vir a terreiro dizer que o número era o que resultava do modelo econométrico e que refletia, mais que uma certeza matemática, a prioridade maior dos seus objetivos de política económica. E só.

Qual a ilação subliminar que se pode retirar deste confronto de posições? Vejamos:

1) Se a Direita tivesse um programa político diferente daquele que levou a cabo durante estes últimos quatro anos, promovendo o emprego e não o desemprego, promovendo o desenvolvimento do País em vez da sua pauperização, teria apenas dito que se o PS se propõe criar 207000 empregos, ela criaria 307599, ou seja que ela faria melhor, e muito melhor, em matéria de emprego.

2) Ficou claro que não tem tal programa, nem quer ter, pelo que só lhe resta minar a seriedade daqueles que o tem e que o querem levar a cabo.

3) Ficou claro que a Direita não é forte em contas, desconfia dos números, porque os números não enganam, sendo ainda mais elucidativos do que o algodão, e todas as propostas da coligação repousam num quadro de embustes e mensagens de propaganda que ruiriam como um castelo de cartas se fossem inseridas num cenário quantificado e quantificável.

4) Mais que não ter números para mostrar, a recusa da Direita em debater e em quantificar justifica-se pela sua necessidade de não ter que evidenciar, de forma clara perante o eleitorado, os objetivos últimos do seu programa de política económica ultraliberal, tomando os cidadãos consciência plena do impacto que tal terá nas suas vidas: desmantelamento do Estado social que ainda resta, privatização das empresas de prestação de serviços públicos que ainda restam, ataque ao quadro de regulação do mercado de trabalho que ainda resta. É que para destruir, não são precisas contas nem cenários. Basta navegar à vista, e saber a cada momento quais os amigos que importa beneficiar, e sempre, cinicamente, em nome da liberdade de escolha e do espírito empreendedor.

E é neste quadro que o País se vai discutindo, por Agosto adentro. Apesar da campanha eleitoral não ter ainda começado oficialmente, seria de esperar que as propostas dos vários partidos que já são conhecidas fossem tema de confronto e análise. Mas não. Mais que as propostas os temas do mês têm sido a forma de fazer chegar tais propostas aos eleitores.

Primeiro foram os cartazes o grande tema do debate. Se os rostos dos cartazes correspondiam a verdadeiros ou falsos desempregados, se os rostos dos cartazes, felizes, joviais e de sorriso aberto, tinham dado ou não consentimento para mimar o Portugal feliz e Para a Frente. Como se a questão séria e premente não fosse discutir se há ou não desemprego. Como se a questão séria não fosse debater se ainda há espaço e futuro em Portugal, com as atuais políticas, para uma maioria de gente feliz e com vontade de sorrir.

Agora passou-se a discutir se há debates ou não há debates. Se Portas entra ou se Portas sai. Se Portas é príncipe consorte ou se apenas faz figura de primeira-dama. É claro que quem vende a alma ao diabo não pode querer depois ser senhor do seu destino e ter voz própria. Portas acolitou-se na coligação para não ser julgado pela sua revogada “irrevogabilidade”, para não ser julgado por o “partido dos reformados” ter passado a ser o partido do corte nas reformas, sob a batuta do inefável ministro-lambreta. Portas está sob o “protetorado” de Coelho – para usar uma expressão de que ele tanto gosta -, tal como ele dizia que Portugal estava sob o protetorado da troika, antes de ter terminado o programa de resgate ao País. Não pode, portanto, querer ter direito a debater em pé de igualdade com os outros líderes políticos. Ele é uma espécie de “voz do dono” e não pode ter direito a uma soberania discursiva política que não tem porque a hipotecou no altar da coligação.

Mas, mais uma vez, discute-se a forma e não o conteúdo. Mais uma vez discute-se o mensageiro e não a mensagem. Parece que ninguém quer seriamente discutir a política, a economia, o País, a Europa, o Euro, o mundo, o presente e o futuro, e assim sendo, resta a discussão do folclore da propaganda e da política enquanto espetáculo e não enquanto instrumento de transformação da vida e de construção da realidade.

No fundo, há também aqui uma assunção implícita subliminar. No quadro atual de inserção na Europa e de soberania partilhada (e cada vez mais espartilhada), já não somos senhores de determinar as grandes opções de política que poderão determinar o nosso destino coletivo, como se está a ver pelos últimos capítulos do folhetim grego. Se a economia é global e cada vez mais integrada, se não há soberania monetária, como pode haver política interna própria e autónoma? Este sim, será um debate político sério que algum dia terá que ser feito.

Talvez por isso, porque não se pode questionar, no essencial, o guião da peça, se ande a dar tanto relevo à discussão das vestes dos atores, ao seu desempenho, e aos meios que utilizam para comunicar. E talvez por isso também se perceba melhor a razão por que as eleições presidenciais têm sido objeto de tão grandes parangonas. É que, para a Presidência da República não é necessário discutir opções para o País, programas de governo, opções de política económica, incumbências que não competem ao Presidente da República. Basta apenas discutir nomes, sensibilidades, percursos, apoios e currículos. No fundo, discutir os atores sem questionar a peça.

Como diz o provérbio: “Agosto arder, Setembro beber”. De facto houve fogo a rodos, e o almanaque bateu certo. Arderam milhares de hectares mas ninguém se insurgiu, nem se comoveu e quer o Governo quer a oposição já consideram banal que tal suceda.

Como se os fogos fossem tão inevitáveis como ser o epicentro da campanha eleitoral para as legislativas a discussão dos cartazes, o formato dos debates e quais os candidatos presidenciais: se Portas entra ou se Portas sai, se Belém vai vai fazer trapézio com a rede do PS ou se vai apenas com um pacote de aspirinas no bolso fornecido pela Associação Nacional de Farmácias e pelo seu amigo João Cordeiro.

Só não há futuro quando há conformismo. E o conformismo é larvar e deletério. Está entranhado. Eu quero acreditar que é mal de Agosto. Espero. Voltando aos provérbios: “Tardes de Agosto, passam de encosto”. Tem mesmo que passar.

 

 

 

Olha o passarinho!

(José Pacheco Pereira, in Revista Sábado, 21/08/2015)

Pacheco Pereira

              Pacheco Pereira

Lá fora ouve-se pela enésima vez a Cabritinha, a Garagem da Vizinha, o Perfume de Mulher, Chama o António, e o Afinal Havia Outra. Um conjunto típico de passagem cantou de vivo corpo uma coisa a que chamou o “Vira da Troika”. Não se percebia uma palavra da letra a não ser que havia um coelho. Ninguém lhes liga mais nem menos. O que é isso da troika? Já se foi. O relógio do CDS já está desligado. Estes que cá vêm de vez em quando, são o fantasma da troika.

Lá fora está tudo bem e quase tudo como dantes. As tasquinhas, que na realidade é só uma, está cheia. O negócio vai bem. O que se consumia antes, continua a consumir-se hoje. Cerveja, cerveja, cerveja, frango assado, moelas, chouriça, morcela, bacalhau. Há uma roulotte de farturas e uma banca da Tupperware, uma novidade. Aliás a única novidade. O tempo parou? Não, o tempo não parou, anda é devagar. Onde não há factores de mudança, muda-se muito pouco.

Gente de sempre, os mais velhos. É uma terra de velhos, como quase todo o País. Os mais novos foram- -se na maioria. Estão em Angola para as obras, e devem estar a regressar. Foram para Lisboa, ou andam por aí com trabalhos de circunstância ou desempregados. De que vivem? Não se sabe, ou sabe-se demais. É certo que o mesmo Coelho do “Vira” diz que a culpa é deles. Se calhar é, mas é por não fazerem outras coisas. É o mal da terra, da nossa terra maior, Portugal.

Claro que há outros sinais. Quase metade das casas estão à venda. São ruas de “vende-se” casa sim, casa não. Isto aumentou exponencialmente nos últimos quatro anos. À venda e não se vendem. Não há actividades económicas locais a não ser um café, um café-restaurante e um minimercado. Há uma pequena empresa de construção civil. Já houve muito mais, cabeleireira, mais mercearias, restaurante, pecuária, aviários e, muitos anos atrás, vinho, agricultura.

Não há uma única fábrica. Compreende-se. Quem é que abre aqui um negócio apesar de estar a 45 minutos de Lisboa, numa terra que deixou de ter posto de saúde, posto de correios e que para toda a burocracia exige que se ande 15 quilómetros, sem um sistema de transportes capaz? Com excepção de uma camioneta de manhã e outra à noite, só táxi a pedido e muito caro para os recursos das pessoas.

Fechou a escola. Fechou o centro de dia. Fechou o atendimento médico. Fechou a farmácia, agora há um posto que precisa de encomendar os medicamentos de um dia para o outro.

Com a fusão das freguesias, a proximidade da Junta deslocou-se para outra aldeia, e já não é próxima. Parece pouca a distância? É enorme, são dois mundos que se fizeram com outros “centros”, como dizem os geógrafos, e o resultado é que a ordem administrativa não tem qualquer relação com a realidade. Poupou-se algum dinheiro? Duvido, mas a qualidade dos serviços, apesar da enorme dedicação dos autarcas, vai -se deteriorando. Deixou de haver limpeza regular, só há pontual.

A gente olha para o passarinho como nos mandam os cartazes do PAF. É verdade que parece não ter havido nenhum cataclismo com a chamada crise, mas há uma usura em várias coisas que significavam melhorias e progresso, andou-se para trás, não no que era inútil, mas no que significava o progresso material de uma terra ou seja o aumento das oportunidades para quem cá vive. Só isso, cada vez mais oportunidades e não cada vez menos. Será que nos gabinetes já se sabe o que isso é?

Há um pó fino de desgaste nas pessoas, e nas coisas, e não há qualquer dinamismo e futuro. Só longe. Até a música da Festa é hoje pior, muito pior. Não há dinheiro para comprar mais do que uma cassete, ou melhor, os direitos de autor destas músicas que passam em festas. Não há dinheiro para contratar melhores conjuntos e cantores. Ficamos presos na Cabritinha, que é de 2004, na Garagem da Vizinha e no Afinal Havia Outra que são de 2000. Na verdade, as datas das canções são até mais modernas do que o tempo para que Portugal recuou, meados dos anos 90.

O poder aquisitivo das pessoas não é suficiente para justificar virem mais atracções, e onde antes havia matrecos e tiros, artesanato e outras distracções e pequenos comércios, hoje há farturas e algodão de açúcar. Ah! e os Tupperware. Ponto.
É importante haver tirinhos? Perguntarão os que gozam profissionalmente com estas coisas, do alto do seu conforto serventuário ao poder? Não, não é importante haver tirinhos, nem matrecos, nem artesanato, nem nada em si mesmo, o que é importante é haver coisas que melhorem e não que andemos para trás.

Nenhuma destas coisas é vital, mas vinham como agora se diz “em pacote”, moviam-se junto com outras que desde o 25 de Abril mudaram Portugal. Como ter um razoável serviço de correios, médico na Casa do Povo uma vez por semana, e algum trabalho e comércio local: tudo coisas irrelevantes, como agora se diz, de um “País que vivia acima das suas posses”.

Isto é “Portugal profundo”? Não, isto é Portugal, o meu muito amado país. Rude, pouco qualificado, sem grandes exigências, que só se move quando sai para fora daqui e pode, depois, voltar daqui a 10, 15 anos diferente.

É só Portugal que é assim? Não, é muita da Espanha, da Itália, da Grécia, do Sul da Europa, dos países do Leste, e também alguma coisa do Norte, mas mais escondida por outra parte que já não é assim.

A minha querela com o PAF, um excelente nome se corresponder ao gesto, é que eles não conhecem nada disto e estão absolutamente indiferentes a que “este” Portugal, que nem sequer é o dos mais pobres, mas que arrasta consigo na sua melhoria os mais pobres, avance. Pelo contrário acham-no um anacronismo, em detrimento de deslumbramentos vários e interesses muitos.

É por isso, por esta usura do tempo do futuro e do tempo das pessoas, que estamos pior neste ano da graça de 2015. Se houvesse na oposição a Sua Majestade outra competência, era isto que estava em causa nas eleições. Olha o passarinho!

As forças ocultas do PS

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 14/08/2015)

Baptista Bastos

Baptista Bastos

Há qualquer coisa de suicidário nas ocorrências registadas no PS nas últimas semanas. A negligência nos cartazes, além das frases, ocas e compridas (…); e, agora, esta designação embrulhada, sem elegância nem grandeza, que impugna, afinal, a candidatura de Sampaio da Nóvoa.

A apresentação de Maria de Belém como putativa candidata à Presidência da República, apoiada pelo PS, abre uma cisão naquele partido, semelhante àquela que opôs Manuel Alegre a Mário Soares, e empurrou o dr. Cavaco para as mais altas funções do Estado. Com os resultados dramaticamente conhecidos. A ambiguidade do comportamento socialista só se explica pela correlação de forças naquele partido, e pela cedência de António Costa à ala mais conservadora, que parece ser dominante em força e em poder.

Há qualquer coisa de suicidário nas ocorrências registadas no PS nas duas últimas semanas. A negligência nos cartazes, além das frases, ocas e compridas, com módico impacto público; e, agora, esta designação embrulhada, sem elegância nem grandeza, que impugna, afinal, a candidatura de Sampaio da Nóvoa. O PS, assim, demonstra uma indecisão ou uma dicotomia larvar, oposta e, até, antagónica da coesão exigida a uma organização daquela natureza. E não me venham com a conversa de o PS ser um partido “plural”, que mantém opiniões diversas.

Sampaio da Nóvoa congregou, em torno da sua candidatura, três ex-Presidentes da República, além de alguns dos nomes mais prestigiosos e respeitados da sociedade actual. O que incomodou alguns “socialistas” com ouvidos meigos foi a clareza meridiana com que o antigo reitor disse ao que vinha, e que colide, fortemente, com a mansuetude calculada da vida portuguesa.

É extremamente preocupante a distanciação com que o PS se colocou em relação a Sampaio da Nóvoa, cuja atitude e orientação continua uma tradição que vem de Soares, de Jorge Sampaio e de Eanes. Uma tradição cultural progressista que se antagoniza com o errático e se fixa numa acepção moral da sociedade. O dr. Cavaco representa o outro lado dessa interpretação. Faltam-lhe a dimensão intelectual e o entendimento “do outro”, e, para lembrar um querido e saudoso amigo, Luís Fontoura, militante e alto dirigente do PSD, “entre mim e ele medeiam três quilómetros de livros.”

As responsabilidades do PS de António Costa sobrelevam as de um mero plebiscito. E, pelos vistos e ouvidos, caso o secretário-geral não altere o prometido e ajuramentado, o que já me parece difícil, ele pode constituir o definitivo encerramento de um ciclo funesto e tenebroso. A máquina de propaganda do PSD, o despudor com que os seus máximos dirigentes mentem e manipulam a verdade dos factos, a inexistência de uma crítica ideológica e política eficaz e não estipendiada, têm causado fortes danos ao ideal democrático.

Perante o que Sampaio da Nóvoa representa, qual o desejo secreto deste PS amolgado numa deriva perigosíssima para o País. Dir-se-á que aquele partido sempre foi o que foi, e as alianças que fez são de molde a deixar desalentados e perplexos o comum dos portugueses. Costa pareceu arrastar consigo o entusiasmo de muita gente, entusiasmo que tem esmorecido com o desenrolar dos acontecimentos políticos. Onde está o PS que ele prometeu?

Este episódio de que Maria de Belém, infelizmente, é protagonista secundária, porque em causa estão interesses mais elevados e ocultos, fornece-nos a dimensão do que, afinal, ambiciona este PS. Creio que António Costa perdeu o ímpeto inicial, calafetado pelo que de mais reaccionário se oculta naquele partido. Mas ele conhecia e conhece, melhor do que ninguém, as forças dissimuladas naquela agremiação. Esperemos para ver. Mas o andar da carruagem deixa certas dúvidas.