Costa nas muralhas da cidade

(Valupi in Blog Aspirina B, 01/08/2019)

(Anda Pacheco! Mas que grande sova que aqui levas. De truz, como dizia o Eça. Essa Circulatura fez-me lembrar uma canção popular: “Juntaram-se os três à esquina a tocar a concertina e a dançar o sol e dó”. E dizia o Pacheco que o PSD teve o Duarte Lima, como se fosse coisa pouca. Então e o BPN e o Oliveira e Costa e companhia? E o próprio Cavaco, genro e animais de estimação? A memória dos homens é curta e a do Pacheco, para certos dossiers, é curtíssima…

P.S – Artigo dedicado ao comentador habitual deste blog, José Neves – para seu gáudio -, e também dedicado ao comentador de serviço, RFC, para sua exasperação… 🙂

Comentário da Estátua, 01/08/2019)


António Costa regressou ao convívio com os seus grandes amigos da política-espectáculo, Lobo Xavier e Pacheco Pereira: Circulatura do Quadrado – 11 de Julho. O evento não teve qualquer repercussão no comentariado que a minha distracção tenha apanhado. No entanto, e a vários níveis, é mais uma peça notável deste trio onde se pode ver o invisível da política nacional.

A chegar ao minuto 40, o Pacheco avança para a grande paixão da sua vida, entretanto amainada dado estar satisfeito com o auto-de-fé em curso mas ainda viva dado o investimento emocional e afectivo. Eis como ele apresenta a acusação:

«O PS permitiu, durante muito anos, o ascenso político no seu interior de pessoas... e aqui não é um problema de saber se foram julgadas ou não foram julgadas, isso é um problema da lei; é um problema de comportamentos. Quando o antigo primeiro-ministro diz que não usa dinheiro, que não usa cheques e que pretende pagar tudo com dinheiro vivo, quando coloca bens em sítios terceiros, quando vive de rendimentos não conhecidos por favores de amigos, há uma enorme obrigação, há muito tempo, de haver um corte, muito sério, no Partido Socialista em relação ao antigo primeiro-ministro José Sócrates. O antigo primeiro-ministro José Sócrates teve casos durante todo o tempo em que esteve dentro no PS. Como tinha poder, ninguém ligou nenhuma. Ou então remete para uma falsa ideia de que a ética republicana tem a ver apenas com os julgamentos e com o comportamento da Justiça. Não. Uma das razões porque o populismo cresce em Portugal é porque os dirigentes partidários mostram uma considerável indiferença em relação à corrupção no interior dos seus partidos, e permitem que pessoas façam carreiras quando toda a gente sabe que aquilo não é certo; e toda a gente sabe. [...] A gente dava um pontapé numa pedra e saía o Engenheiro Sócrates debaixo da pedra, em praticamente todas as coisas. Eu só estou a falar de coisas que ele admitiu fazer, nem sequer estou a falar das coisas que têm a ver com a "Operação Marquês" e com as conclusões. Portanto, se há um aumento do populismo em Portugal isso tem muito a ver com o facto de os partidos não serem muito duros com a corrupção no seu interior. E Isso significa que não podem permitir no seu interior carreiras de pessoas que se percebe que eram pobres e passam a ricos. E isso não depende apenas da investigação do Ministério Público ou dos julgamentos, depende também da nossa obrigação de saber o que se está a passar. Porque nós sabemos o que se está a passar. Dentro dos partidos, um dirigente sabe o que se está a passar, conhece o que se está a passar. Sabe que há práticas admitidas que são inaceitáveis. E, por isso, se há responsabilidade no crescimento do populismo em Portugal, passa muito pelo Partido Socialista, porque o caso do Partido Socialista é muito mais grave do que é no PSD. No PSD há o caso do Duarte Lima. [...] No PS, há um conjunto de pessoas que puderam fazer carreira no partido sem que nunca tivessem sido prejudicados pela circunstância de haver comportamentos que são absolutamente inaceitáveis

Trata-se de uma juliana de porcarias. O Pacheco não preparou a intervenção, ficou evidente. Entrou no estúdio para literalmente falar de cor, para virar mais um frango no seu ganha-pão, a indústria da calúnia. Saiu-lhe o discurso atabalhoado e repetitivo mas cumpriu o objectivo de se fantasiar de paladino da moral e da virtude enquanto continuava a perseguir Sócrates. Por saber que não seria contraditado, que nada teria de justificar, a displicência do seu argumentário espelha a obesa impunidade em que enche os bolsos. Mas olhemos para o subtexto, de que está a falar o Pacheco?

A ideia principal, de manual de retórica, consiste em apelar à identificação da audiência. O que marmeleiro está a dizer é tão-só o que “toda a gente sabe”. Logo, o seu lugar de partida institui-se como indiscutível na economia do seu discurso, é aquilo a que os ingleses (os cultos, os que tinham aprendido latim) chamaram “vox populi”.

Ora, o bom povo está farto de saber que os políticos são corruptos, que os partidos são escolas e antros de corrupção, que isto acontece assim desde que a água dos rios corre para o mar. O bom povo já julgou, condenou e transitou em linchado Sócrates. Apesar da falta de novidade, este número em que aparece alguém a tocar a mesma cassete populista pela enojéssima vez funciona e permite viver à pala disso calhando ter-se um descaramento debochado. É o caso do Pacheco.

Ir buscar informações vindas a público em 2014 e 2015 – as quais, nesta altura pelo menos, apenas são factuais para a esfera privada e pessoal de Sócrates e que não permitem estabelecer uma culpabilidade de corrupção por si só – para castigar um partido de poder e seus dirigentes e responsáveis é sofística, é demagogia, é pulhice. Antes da investigação do Ministério Público era impossível ter ostracizado politicamente Sócrates dentro do PS pela simples e evidente razão de não haver razões para tal. A esta falácia junta-se a outra de se apelar ao critério do boato para abater políticos. O Pacheco jamais aceitaria tal se estivesse activamente em funções no PSD, de imediato denunciando a baixa política indecente do intento, mas eis que, como profissional da calúnia, o está a reclamar para os outros, os alvos da sua retórica. Uma campanha de insinuações, ter órgãos de comunicação social engajados, está aqui a fórmula para decapitar a liderança de um partido e de um Governo, aparece em 2019 a defender para epater les burgessos.

Acima e antes de tudo, no fundo do fundo, a principal mensagem que a vedeta do comentariado nacional espalhou foi esta: “Eu sei que nos partidos andam todos a roubar, por actos e omissões, e que a elite governante medra neste meio.” Dito de outra forma, para este ilustre membro da Ordem da Liberdade o Estado de direito não se aplica dentro dos partidos e, por inerência, aos seus dirigentes, mais os actuais e futuros membros da Assembleia da República, Governo e Tribunais. “E toda a gente sabe”. Toda a gente sabe e concorda, pois a eficácia deste número de revista depende de não haver qualquer consequência na plateia e nos camarotes. A indústria da calúnia precisa de “moralistas” como o Pacheco, alguém que passou pelo Cavaquismo só para desenvolver teorias acerca da corrupção dos socialistas. Daí nunca ter partilhado connosco a logística do Cavaquistão de que foi cúmplice nesse tempo em que o Estado era 100 vezes mais fraco para sequer detectar a alta corrupção, quanto mais combatê-la e puni-la, do que ficou após as mudanças legislativas precisamente protagonizadas pelo PS e por Sócrates.

Nas duas últimas intervenções de Costa, das melhores de sempre da sua parte, vemos um Lobo Xavier exposto como cavalheiro de indústria e um Pacheco Pereira estatelado ao comprido com um golpe de judo. Imperdível o espectáculo em que a política rechaça nas muralhas da cidade quem vive de assaltar a democracia.


Fonte aqui

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Pacheco, esse profeta da desgraça

(José Neves, 22/04/2018)

pacheco_caricatura

(Publico amiúde os artigos que Pacheco Pereira dá à estampa, nomeadamente no Público e na Sábado. Não desconheço os antecedentes dele, mas há que reconhecer que, nos anos da troika foi das poucas vozes que, vinda da direita, denunciou a criminosa austeridade imposta pela governação pafiosa. A propósito de um texto de Pacheco que ontem publiquei (Ver aqui ), foi produzido por um leitor habitual deste blog, em comentário, o artigo abaixo.

Como o debate e o contraditório são sempre salutares, decidi dar-lhe especial relevo.

Comentário da Estátua, 23/04/2018) 


O caso, Pacheco, é que não fazes de Cassandra tu és a própria Cassandra mesmo no sentido em que os cristãos referem Deus sobre qualquer virtude. Claro, sobre maldades, Deus já não é a própria coisa em si como diria Kant.

Cassandrices tuas:

– Viste em Cavaco o melhor político e governante do país de todos os tempos e hoje é considerado o pior de todos de sempre e a maior desgraça que veio ao mundo no actual Portugal. E com a tua pronta e mui-elevada ajuda.

– Como disse o “Coelhone” foste conselheiro cultural de Rio no Porto e a Cidade tornou-se uma miséria cultural e em guerra aberta contra os agentes culturais e melhores artistas de teatro e música locais.

– Viste armas de destruição maciça no Iraque e deste o apoio a Bush e Durão para invadir o Iraque. Viu-se depois que, realmente, houve milhares de bombas terríveis sobre o Iraque mas foram as deixadas pelos teus amigos que apoiaste acerrimamente.

Na política tens sido sempre uma Cassandra por inerência e, novamente, voltas a sê-lo com Centeno. Sempre arengaste a língua contra o tal país sem emenda que não conseguia ter finanças certas e controladas e andava ao deus-dará ao mais pequeno abalo no mundo económico. Na tua inevitabilidade natural de ser Cassandra já vês desgraças e mortes aos molhos nos corredores dos hospitais e nem reparas que os teus camaradas PSD, das Ordens dos doutores e enfermeiros (e Rio e Cristas, claro, fazem política com isso), todos os dias põem uma notícia cá fora sobre qualquer queixa mixuruca que surja.

Também podias pensar que é preciso obrigar os administradores a gerir melhor os dinheiros ou achas que, como fazem os magistrados, que deve dar-se tudo o que cada sector pedir, à balda, sem estudar os casos? E como todos pedem, é fácil, lá se ia outra vez o bom controlo financeiro. Se se dá mais dinheiro para a Cultura ou outro ministério logo a azarenta Cassandra vem dizer que não é a lançar dinheiro sobre os assuntos que se resolvem os casos; se não se dá o gajo “vê” os hospitais sem uma bomba de oxigénio e montes de gente a morrer.

Para quem acompanha a tua carreira cada vez é mais visível o teu falhanço e desastrosa visão política pois, em tudo que pegas ou pregas sai merda quase de certeza.

Não há duvida a tua melhor ocupação é mesmo “andar aos papéis” porque já tens experiência e assim podes fingir de historiador.

Um país sem Estado e apenas com impostos

(José Pacheco Pereira, in Público, 28/10/2017)

JPP

Pacheco Pereira

Um dos aspectos que mais aceleraram a devastação do interior foi o processo de privatizações conduzido pelo Governo Passos-Portas.


Os fogos revelaram uma realidade que todos sabiam existir, de que muitos falam — ou melhor, de que muitos enunciam o problema —, mas a que também muitos têm nas últimas décadas fechado os olhos: a devastação progressiva do interior do país. Governos do PS e do PSD-CDS têm uma particular responsabilidade na situação, nos últimos anos dominados pelo “ajustamento”, nos do estertor do Governo Sócrates, numa parte de leão para o Governo PSD-CDS e numa parte igualmente de responsabilidade do Governo Costa. Há processos complexos que muito dificilmente são invertidos, incluindo a demografia com o seu rastro de envelhecimento, desertificação, falta de jovens e crianças, encerramento de escolas e ausência de força vital, implosão empresarial, mas há processos humanos, demasiado humanos, ou seja, políticos, que acentuam o caminho para o desastre que se verificou nos últimos dias, com concelhos que praticamente arderam todos, pessoas, casas, empresas, infra-estruturas, tudo.

Um dos aspectos que mais aceleraram a devastação do interior foi o processo de privatizações conduzido pelo Governo Passos-Portas que implicava um conjunto de obrigações de carácter nacional, em que umas ficaram no papel e outras não, apenas entregues à boa vontade das novas empresas privadas. Estas obrigações estão em muitos casos por cumprir perante a passividade dos governos PSD-CDS e PS. O abandono do interior pela EDP, pela REN, pelos CTT, pelas empresas de camionagem assumiu muitas formas — desde o encerramento de muitos serviços de proximidade, como é o caso das estações de correio, à geral negligência que se observa nestes fogos, com a obrigação de manter limpos os locais de passagem de linhas de energia, ou a deterioração dos serviços contratados — e foi duplicado pelo encerramento de muitos serviços públicos. Quem coloca uma empresa em terras onde não há serviços, muitas vezes não há estradas ou são caras, não há transportes, nem sequer um caro e longínquo táxi, não há correios, nem serviços de saúde e não há mão-de-obra mesmo não qualificada?

Ninguém. O resultado foi um interior sem defesa face a uma calamidade, agravada pela incompetência e negligência do poder central, e em que faltava tudo o que era necessário para combater os fogos: gente nova e activa, com braços com força, água, luz, máquinas, mesmo antes de faltarem os bombeiros. E, como estava, corre o risco de continuar a estar, se apenas se olha para o que aconteceu como uma calamidade de incêndios e não como um desastre económico, social, cultural e político, cujas consequências vão gerar um fosso ainda maior face a um Portugal do interior deserto e onde só vive quem dele não pode fugir.

É exactamente porque o problema não é apenas os incêndios que o que ocorreu deve ser visto em conjunto com outras áreas onde devia estar o Estado e não está. Embora não esteja a ver a mesma preocupação que existiu no caso de Pedrógão, de se saber como é que tantos fogos se desencadeiam quase simultaneamente, ou à noite, e abundem nas chamadas “redes sociais” todo o género de teorias conspirativas, devia querer saber-se mais.

Na verdade, o Governo, por medo de ainda agravar mais a imagem e a realidade de incompetência e negligência no combate aos fogos, e a oposição, que não quer que se fale de qualquer acto que possa ser concertado ou criminoso, e que possa parecer assim “justificar” as dificuldades no combate aos fogos pelo Governo, ambos não parecem muito interessados em saber o que se passou, mesmo quando visões completamente contraditórias circulam.

Uma, que teve acolhimento no relatório técnico, é que a maioria dos incêndios se deveu a práticas agrícolas imprudentes, como as queimadas; outra, que encontrou voz nalguns autarcas e responsáveis pelos bombeiros, é a de que houve uma acção “terrorista” concertada, incluindo uma tentativa de ganhar dinheiro com a madeira queimada, ou uma sucessão de actos individuais de fogo posto seja por vingança, seja por piromania, seja por excesso de álcool ou qualquer motivo deste tipo de que resulta um grave crime. Quer num caso, quer noutro, o problema dos incêndios remete para um problema prévio de insegurança: a maior parte do interior do país não tem lei nem ordem que proteja com eficácia quem lá vive.

Assim, um dos aspectos que tiveram relevo nos recentes fogos remete para a geral falta de policiamento e de segurança em grande parte do Portugal rural. Embora estranhamente tal não seja discutido em qualquer agenda política à esquerda e à direita, é um velho problema que desde o século XIX era considerado como muito grave, o do “policiamento rural”. Esta ausência da lei e da ordem permite que diante dos nossos olhos se deitem foguetes quando tal é proibido, se realizem festas sem qualquer responsabilidade dos seus organizadores, se façam queimadas ou se incendeiem matos, não se cumpra a legislação existente sobre as florestas, e haja uma generalizada incapacidade de intervenção face a roubos e agressões, burlas a idosos, violência doméstica e todo o tipo de abusos aos mais fracos, e indiferença perante riscos que não são combatidos, porque o tecido social de proximidade, em que todos são primos uns dos outros, ou vizinhos uns dos outros, com todo o arsenal de cumplicidades e ódios, o impede. Não é fácil viver na aldeia de Durkheim, e ainda é mais difícil quando a “solidariedade mecânica” se modernizou na “aldeia global”, nas redes sociais, depositário de todas as invejas, intrigas, calúnias e pseudocontrolos.

A obsessão urbana e radical chic com as questões de género e as causas fracturantes tem um efeito de distracção em relação ao que se passa em grande parte do país, para além de um menosprezo pelas questões de segurança dos mais fracos, seja na cidade, seja no campo, com medo de alargar um qualquer “Estado policial”. Mas a verdade é que o recuo de formas de protecção, como os diferentes “guardas”, nocturnos ou florestais, que em muitos casos foram substituídos por empresas de segurança privada que só alguns podem pagar e que só protegem os que lhes pagam, ainda mais agravou a situação. Quase que fazem pensar que uma instituição como os xerifes, eleitos e pagos pelas comunidades, com poderes circunscritos e controlados, mas em permanência nas terras e no terreno, podiam mais eficazmente garantir uma segurança que faz muita falta. Experimentem chamar numa emergência nocturna a GNR e ouvir que não é possível responder porque o único carro e os guardas estão no extremo oposto do concelho e não há mais ninguém disponível, mesmo com um roubo em curso… Ou um incendiário do outro lado do vale.