(Tiago Franco, in Facebook, 15/04/2026, Revisão da Estátua)
Acho que vocês estão a ser algo injustos com o camarada Pacheco.
Ele prestou um serviço à causa e mostrou, a quem tem alguma atividade cerebral, que é perfeitamente possível mostrar as debilidades do Andrezito.
Todos percebemos que o Ventura se refugiou nos gritos, nas interrupções, na mistura de temas, nas respostas fora de contexto e na tentativa, absolutamente idiota, de comparar 5 décadas com 2 anos.
Ao fazê-lo está obviamente a validar a ditadura e a criar aquela balança do “foi igualmente mau”. É um pouco como este discurso ensaiado pelos Migueis Morgados da vida que há 5 anos introduziram a “extrema-esquerda” nas discussões políticas, tentando criar um espelho para o outro lado do Chega.
Mas enfim, para quem percebe o que foi discutido, o Ventura chegou a dar pena e até alguns ares de quando discutia futebol com o Aníbal não sei quantos na CMTV. Para a cheganada, a mensagem não era o detalhe histórico que Pacheco Pereira tinha para lhes dar. A mensagem era apenas “terrorismo de esquerda e de direita é igualmente mau…tire as palas”. E pronto, mais do que isto o chegano comum não conseguia compreender naquele debate.
E é por isso que Pacheco Pereira foi corajoso. Porque sabia perfeitamente ao que ia, debater com alguém que não tinha capacidade, conhecimento ou cultura geral para argumentar com um historiador, mas tinha todo o jogo de cintura para, em frente às câmaras, parecer estar a dominar a coisa.
A primeira frase de Pacheco Pereira foi: “você mete-se em cada sarilho…”, aludindo ao primeiro disparate dito pelo Ventura. E depois foi desfazendo, um por um, cada populismo que o pastor tentava ensaiar. Claro que no fim o Ventura já tinha a sondagem preparada para as redes sociais, o Pacheco Pereira até lhe deu a borla do “Ventura arrasa”, repetiu a história das palas sempre que não sabia o que dizer e foi interrompendo sempre, mas sempre, o raciocínio de um homem já com alguma idade, sem que o moderador lhe dissesse, por uma vez, “cala-te facho”.
Mais para o fim, claramente, o Pacheco Pereira foi perdendo a paciência e meteu-se por campos desnecessários (como por exemplo dar importância às candidaturas de Loures) mas louvo a coragem do homem.
Meteu-se a jeito para ser o meme da cheganada por uma semana: tem não sei quantos broncos, que não faziam ideia de quem ele era, a escorrer insultos e ainda teve que tentar ser educado em frente a um porco demagógico.
Contudo, mostrou a quem quis aprender, que o conhecimento é sempre a forma mais direta de se abalroar um populista. Dir-me-ão que deu palco a Ventura mas, convenhamos, para alguém que dá entrevistas “exclusivas” todas as semanas, que não são mais do que momentos de propaganda, acaba por ser serviço público vê-lo a ser entalado pelos factos e a ter necessidade de puxar de todos os truques dos tempos da CMTV.
Para o milhão que Ventura falou, nada muda. Muitos foram ontem ver o que era aquilo do PREC. Li uma apoiante de Ventura a dizer que, depois de ver o trauma do avô em resultado da guerra colonial, não tinha que estar a ouvir comunistas. Portanto, entre esta espécie particular de burros, há quem imagine que os comunistas é que mandaram os avós para África.
Para os outros 9 milhões, que estavam entre os alvos de Pacheco Pereira, certamente alguns ficaram mais esclarecidos sobre a diferença entre um facto e uma mentira. Ou até sobre formas básicas de misturar conceitos, criar narrativas e comparar o incomparável. Esteve lá tudo. Era só ouvir e depois, pensar.
(Por Agostinho Lopes, in Expresso Diário, 11/06/2024)
O que é extraordinário nesta abordagem de Pacheco Pereira (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza?
Para José Pacheco Pereira (JPP), Putin e Trump são não só dois homens perigosos, mas “Os homens mais perigosos do mundo” (1). Não é fácil ver todos os meandros do seu raciocínio, as curvas e contracurvas do seu deambular argumentativo para tão sonora e taxativa conclusão. Que logo foi consolidada por Clara Ferreira Alves (CFA) (2) na sua Pluma Caprichosa, da Revista Expresso “O Grande Tubarão Branco – Trump e Putin são os tubarões exemplares. Têm em comum a enorme persistência e a resistência à extinção”. Uma notável fábula sobre tubarões, “peixes condíctrios”, que “são grandes e perigosos. Ocupam o topo da cadeia alimentar das espécies marinhas e estão adaptados aos mais diversos ambientes oceânicos. São predadores (…) que atacam e devoram quando farejam sangue. Pressentem a ferida, a vulnerabilidade. Tanto viajam a grande profundidade como atacam à superfície (…)”. Mas os tubarões humanos como Trump e Putin,“tubarões em versão hardcore”, “São muito piores porque agem conscientemente e são dotados de um gigantesco Id, mal controlado pelo ego e o superego residuais. Parecem inamovíveis e são assustadores pela destruição causada”. “Deram à tona em bancos de areia da política, emergindo de múltiplos habitats. A finança, a empresa, o monopólio, a agência do governo, o império ou, simplesmente um dos múltiplos empregos e prebendas oferecidos por tubarões maiores”. Entretanto, parece haver quem se disponha a juntar mais alguns facínoras à lista dos perigosos tubarões de JPP e CFA. No Correio do Leitor, Público, 04JUN24, alguém acrescentava Netanyahu… e não vai ser fácil fechá-la. É que eles são mais que as mães… mesmo se CFA acha “Que não são muitos…”.
Resolvam-se à partida duas diatribes, que quem gosta deste tipo de análises ou efabulações sempre chama à colação. A mais habitual é a acusação – persistente contra os marxistas – de uma história ou leitura política fixada nas dinâmicas estruturais, subestimando, desvalorizando, negando o papel das personalidades/personagens, dos líderes/chefes, homens/mulheres que assumem/encabeçam/dirigem os movimentos/forças/processos políticos de mudança/alteração/revolução. Ou até o desconhecimento dos acasos/áleas da história, dos que não chegaram a horas ao encontro que a história lhes tinha destinado. Não é certamente o caso, pois não desconhecemos ou negamos a importância das atitudes, decisões que as duas citadas personagens possam tomar, mesmo se é impossível esquecer ou apagar os contextos, conjunturais e estruturais, económico, social, político e histórico em que se movimentam. A outra crítica é a de que quem assim discorre está feito com os “tubarões”, ou, no mínimo, simpatiza com tais personagens, como os que não são “candidatos da democracia e liberdade nas eleições portuguesas”, referidos por JPP. Asseguramos que não se perfilha qualquer idolatria particular ou empatia pelos perfis e opções político-ideológicas daqueles senhores.
Para JPP aquele par de jarras, Putin e Trump, “tem como objectivo primeiro deter um poder pessoal absoluto nos seus países. Por isso mesmo, são inimigos, antes de tudo, da democracia, o resto vem por acrescento”. O resto (“nacionalismo”, “isolacionismo”, vontade de alargar “o espaço vital”, etc.) são questões “secundárias e instrumentais” para “as suas ambições de poder”! Isto é, para JPP são umas boas promessas de “ditadores”. É claro que há aqui um lapso evidente de JPP: Putin, ao que nos rezam as crónicas e as notícias da “comunicação estratégica” ocidental (fundamentalmente produzida nos EUA e no Reino Unido) já o é há muito! Portanto não precisa de ir ser… já o é, já cumpriu o objectivo de “um poder pessoal absoluto”! Trump é que vai ter mais trabalho e tem que dar ao pedal para lá chegar!
Reflectindo sobre o assunto não nos podemos admirar do que acontece com Putin. Aquilo, ao que consta dos canhenhos da geoestratégia “ocidentais” faz parte da genética russa. É assim que a multidão de críticos, que acusam o materialismo histórico de estruturalismo, mecanicismo, determinismo, finalismo, tudo simplificam, reduzindo a complexidade ingénita da história a um simplismo atroz. Tudo se resume a “ditadura” naquelas paragens. Primeiro a autocracia czarista que terminou em 1917. Depois a ditadura do proletariado acabou em 1991. E ao breve interregno da democracia alcoólica de Ieltsin (só houve mesmo “democracia” porque os eflúvios de vodka assim o permitiram)… sucedeu a “ditadura” de Putin! Muitos ainda não perceberam aquela sucessão de regimes, como por exemplo JPP que avalia a actual “ditadura” na Federação Russa de Putin como uma emanação directa do “império social fascista”. Era assim que denominava e criticava a URSS nos idos dos primeiros anos da década de 70 do século passado, quando era um M-L encartado em maoísta! Nada a fazer com estes russos! Está-lhes na massa do sangue ou é uma questão de clima… A bendita democracia só reinará quando todo aquele espaço político se fragmentar como há muito se esforça por fazer o “Ocidente cristão”. Outra coisa não pretendeu Napoleão. Outra vontade não tiveram os exércitos das potências capitalistas ocidentais (EUA, RU, França, etc.) ao invadirem a Rússia em socorro dos Brancos para esmagarem a revolução proletária-bolchevique de 1917. Outro desejo não teve Hitler! E continua hoje nos planos estratégicos dos EUA congeminados por Brzezinski e Kissinger. O problema é que até hoje, apesar de muito esforço, o “Ocidente” ainda não conseguiu “democratizá-la”! Isto é, espartilhá-la, balcanizá-la, de forma a facilitar a exploração e colonização do “Ocidente”… alargando o seu (de algumas potências europeias) “espaço vital”. Para JPP Putin anda à procura de “espaço vital na Europa”, provavelmente porque é estreito, acanhado o “espaço vital” russo e não conseguem abrir os braços ou fazer umas passeatas dentro da Rússia! Ou será que Putin procura antes impedir que outros “espaços vitais” lhe calquem o rabo do seu “espaço vital”???
Já o problema do Trump abre outras perspectivas. Pode ser que não chegue a “ditador”! Mas o problema Trump levanta sérias interrogações, dúvidas, questionamentos que JPP não esclarece. Como é que Trump dá cabo do edifício da democracia nos EUA? Como é que o farol da democracia e dos regimes democráticos, que anda há décadas a exportá-la e exportá-los (nem que seja à bomba!) pode transformar-se numa ditadura, por simples vontade, ambição, manobra de um sujeito que parece um tanto ou quanto baralhado da cabeça… pelo menos às vezes? Uma personagem condenado em tribunais pelas mais diversas violações da lei. Diz JPP, “Como ameaça à democracia” Trump é “mais perigoso, porque actua num país democrático e, num quadro democrático.” Ainda por cima “ele anuncia, sem disfarce, querer subverter” o regime democrático! É mais fácil ao Trump subverter a democracia nos EUA? Então o que é feito e o que fazem as outras instituições do país? Então os famosos “Checks and Balances”, freios e contrapoderes não servem para impedir, derrotar, corrigir tais malignos e maléficos objectivos? Será porque a democracia americana é uma oligarquia, controlada/comandada pelo grande capital nos votos, nos medias, na educação/universidades, e Trump oligarca, é um dos deles?
Trump, afirma JPP: “Alterará o equilíbrio de poderes, exercerá o poder presencial sem qualquer limitação constitucional, e, talvez o mais importante, perseguirá todos os que se lhe opuseram, numa vingança que conduzirá o mais longe que puder”. Como é isto possível? Não haverá um tribunal ou juiz do Supremo, decisão do Congresso, cadeia de médias, e etc., etc., que se lhe oponha e o impeça de tal? Então o que faz o Congresso e a Câmara dos Representantes? E a CIA e o FBI? Então o Partido Republicano, e o Partido Democrático, e o Supremo Tribunal Federal? E os “Think-Thank”, e as Fundação Soros e a Rockfeller? E a National Endowment for Democracy, NED, “Suporting Freedom Around the World” que semeia por todo o mundo dinheiro para fazer brotar a democracia? E as Universidades tão entretidas que andam a chamar a polícia para malhar na estudantada pró-palestina? Chamem a Guarda Nacional e o Ku-Klu-Klan! Muito mal vai no reino dos ianques a democracia, exemplo único e supremo ideal de todos os adeptos da dita democracia liberal, aqui e nos algarves e na excelsa União Europeia. A Teresa de Sousa vai ficar muito triste…
Querem ver que para salvar a democracia americana, vamos ter que enviar uma delegação europeia do Grupo Bildeberg chefiada por Pinto Balsemão e a Teresa de Sousa a Washington?! Ou pedir à Sr.ª Von der Leyen que mande a UE decretar sanções económicas? Tudo às costas de Trump é um absurdo.
É o Trump um “isolacionista” como diz JPP? Sim mas já o Obama tinha sido e o Biden também não quer outra coisa, e em grau superlativo se tivermos em conta as recentes subidas de tarifas aduaneiras de 100% e outras medidas proteccionistas. É o que dá a “pessoalização” das maldades… Dizer tal não significa qualquer atributo de Trump porque é o resultado da resposta do grande capital americano ou de alguns dos seus sectores aos problemas de uma economia em declínio no confronto com a China e que quer garantir a continuidade da supremacia americana. Não é uma “característica”, ou “natureza” ou sequer “opção” de Trump. O Trump é um “nacionalista”? Mas qual o Presidente da República dos EUA, republicano ou democrata, que não assumiu “motivações nacionalistas” na definição das suas políticas externas? A defesa da globalização e da liberalização do comércio internacional, a criação da OMC, o comportamento face à ONU e às suas Organizações, alguma vez tiveram outra finalidade que não a defesa da “nação americana”?
É o Trump que “levará, como já de algum modo faz, os EUA a um clima de pré-guerra civil, e só a moleza dos democratas permitirá que ganhe”, como quer JPP??? Parece que se troca a causa pelo efeito: Trump é o resultado, não a causa de um Estado à beira da guerra-civil, “vítima” da crise do sistema capitalista e imperialista, das suas contradições, antagonismos e impasses e da vontade sem limite das suas oligarquias de continuarem a assegurar o poder dentro e fora dos EUA! Muita gente e insuspeitas personalidades o afirmam. Trump aparece para algumas dessas oligarquias como a hipótese de salvaguarda do essencial. É o capital, ou uma importante fracção do capital norte-americano, de que Trump faz parte, que o “fabrica” e o promove, e o faz eleger! É ver quem lhe paga as campanhas eleitorais. Tudo o resto é treta… O que não quer dizer que o Trump não dê uma mãozinha. A 19 de Abril, a Revista do Expresso publicou um interessante (e ao que se pensa, insuspeito) texto de Ricardo Lourenço (3): “A polarização nos Estados Unidos, que as presidenciais de novembro agudizam, gerou o receio de uma nova guerra civil – um cenário explorado agora na literatura e no cinema. O Expresso avaliou esse sentimento coletivo a partir de dezenas de conversas com americanos espalhados pelo país.” Que as diversas facções estão armadas – há milhares de milícias organizadas – não parece haver dúvidas, faces aos tiroteios e morticínios que vão acontecendo um pouco por diversos locais e regiões – “83 massacres registados no ano passado em estabelecimentos de ensino nos EUA” (3)!
Mas o grande problema para JPP (4) é que face aos comportamentos “perigosos” de Putin e Trump a Europa fica “entalada” “entre os dois”! Para JPP “Os termos do dilema são muito simples (…): ou se armam e se preparam para garantir a sua defesa sem terem os EUA de Trump como seu aliado” “ou ficam sem política externa e de defesa própria, como aconteceu com a Áustria e a Finlândia no pós-guerra.” Isto para a Europa Ocidental, porque a do Centro e Leste fica sob suserania russa.”! Valha-nos deus! E porque este “entalanço”, este dilema, é existencial, logo devia ter sido o centro/objecto das eleições para o PE, pelo menos dos “candidatos da democracia e da liberdade nas eleições portuguesas, que não são todos”. E porquê? Porque “a Europa é um continente de guerra” como nos diz a história (“com h minúsculo”) e logo… prepara-te para a guerra. O pequeno problema, que JPP não refere, é que essas guerras foram sempre desencadeadas pelas grandes potências da dita “Europa Ocidental”, França, Alemanha, Reino Unido, etc. até à penúltima na Jugoslávia… no Continente e muitas fora do Continente, como nos esclarece a história com “h” pequeno!
O que é extraordinário nesta abordagem de JPP (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. (Basta ver a quantidade de “salvadores”/profetas que por aí andam a escrever livros/tratados/receitas para o salvar… Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza???
Nada que não esteja presente como “filosofia” e “metodologia” histórica dos que só conseguem olhar a ditadura fascista portuguesas ancorada na figura e comportamento “perigoso”, ditatorial, de Salazar, sem invocar a “infraestrutura” dos monopolistas, latifundiários e do imperialismo/NATO. Ou do regime nazi em Hitler, esquecendo o papel do grande capital alemão na sua chegada ao poder, na alimentação da máquina de guerra e até na sobrevivência das raízes económicas do nazismo e figurões nazis no pós guerra. (5) Aliás, esta visão da história tem uma grande vantagem: mata-se o bicho, acaba-se a peçonha… e muitos historiadores ficam com a vida simplificada: a causas das ditaduras é dos ditadores…
(1) “Os dois homens mais perigosos do mundo: Putin e Trump…”, José Pacheco Pereira, Público, 01JUN24.
(2) “O grande tubarão-branco”, Clara Ferreira Alves, Revista Expresso, 07JUN24.
(3) “Estados Unidos da América: um país em estado de guerra”, Ricardo Lourenço, Revista Expresso, 19ABR24.
(4) “Coincidência” notável, na 2.ª feira 10JUN24, nos comentários aos resultados eleitorais para o PE, em Portugal e na UE, vários são os artigos que reproduzem as teses de JPP. No Público, Manuel Carvalho escreve “(…) que o PCP acredite que entre imperialismos agressivos e democracias só há uma escolha.” E António Barreto aflige-se com a “Europa sempre a sofrer dos ataques dos seus tradicionais inimigos, dos impérios que a rodeiam!”, “A Europa está ameaçada pelo afastamento americano. A Europa está posta em perigo pelo imperialismo agressivo russo.” É pena que não identifiquem os “outros imperialismos agressivos” e “os impérios que a rodeiam”, “seus tradicionais inimigos”! Mas parece não haver dúvidas, o “comunismo russo” está de volta…
(5) É muito esclarecedor o recente livro “Milionários Nazis – A história negra das maiores fortunas alemãs”, de David de Jong, Desassossego, 2023.
(Manuel Augusto Araújo, In AbrilAbril, 27/06/2022)
(Ó Pacheco, que porradão que levas nesses costados por navegares nos mares das “meias-tintas”. Sempre, sempre ao lado do povo, não é Pacheco? Mas, na hora da verdade, o Tio Sam é quem mais ordena, não é verdade?
Estátua de Sal, 27/06/2022)
O texto de José Pacheco Pereira intitulado «A “paz” para uma guerra abstracta, sem invasores e invadidos», publicado no sábado, dia 25, no jornal Público é must de sofismas para de forma encapotada e cavilosa se colocar fratalmente, nada como lá estar sem ser visto, na primeira linha dos defensores da ordem unipolar imposta pelos EUA e o seu braço armado NATO, que desde há dezenas de anos tripudia o direito internacional, impondo as suas regras assumidas como os valores ocidentais, os do Ocidente que desde o séc. XVII exploram as matérias-primas e humanas do resto do mundo em seu proveito.
Pacheco Pereira tem o desplante de a dado passo escrever: «Confesso que não entendo, ou entendo bem demais, a começar pela fórmula de abertura “Independentemente de opiniões diversas sobre os desenvolvimentos no plano internacional”. O que é que isto significa a não ser tornar a guerra, que se pretende condenar em termos genéricos, uma completa abstracção?»
Quem o lê é que percebe bem demais que quem considera a guerra, que na Ucrânia se iniciou em 2014, uma completa abstracção e que, contra todas as brutalidades daí decorrentes e outras actividades com ela correlacionadas, como a Ucrânia se ter tornado campo de treino das milícias nazi-fascistas da Europa, EUA e Canadá, é o Pacheco Pereira que esteve oito anos em cerrado silêncio completamente surdo, cego e mudo contra todas as evidências que o Conselho Português para a Paz e Cooperação, e já agora o PCP, iam denunciando, a par de outras guerras e outros atentados contra a Paz que sucediam no mundo.
Não é um acaso, como não é um acaso o autor escrever «ou se se quiser, do “imperialismo americano”», entre aspas evidentemente, porque para ele esse imperialismo é justificável e irrefutável, deve ser aceite como guardião dos chamados valores ocidentais recorrendo a sanções, golpes de estado, sabotagens para subverter o direito soberano dos povos se libertarem das suas garras e, sempre que esse arsenal se mostrar insuficiente, impô-lo à mão armada fomentando guerras de forma directa ou indirecta, como é o caso actual da Ucrânia.
Isso para Pacheco Pereira é justificável porque o essencial é que o «se se quiser “imperialismo americano”» continue a ser o grande defensor da cidadela que ele habita com a janela escancarada para os poderes da burguesia que bem sabem que ele lá estará sempre para os defender e justificar mesmo quando os critica, nos vários órgãos de comunicação social em que abundantemente debita.
Pacheco Pereira é, nesse seu Portugal, três sílabas de plástico, que é mais barato, como escreveu O’Neill, o mais acabado exemplo de intelectual orgânico. Nessa função tem escrito ultimamente até coisas inesperadas e interessantes, a par de textos como este último, um contínuo de escritos paradoxalmente em contradição com uma ideia que importou de França e que em certa altura andou a propalar, a da morte dos intelectuais universais, que desmente com contumácia quando continua com as suas copiosas teorizações a desempenhar um papel que dizia estar extinto, com pontos de vista sobre a história em que se assume como um gestor de existências, uma forma de enganar o público bem denunciada por Pierre Bourdieu, mas também por Derrida.
1. São as contradições das teias de aranha em que estão presos os intelectuais orgânicos. Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico. Esses intelectuais têm uma ligação vital com a classe que lhes deu origem. Para esse teórico marxista, a formação de uma massa de intelectuais não se justifica, apenas, pelas necessidades da produção económica, por meio de formação de técnicos, mas pelas necessidades políticas do grupo dominante. A relação dos intelectuais com o mundo da produção não é, como a dos grupos fundamentais, imediata. É mediatizada pelo conjunto das superestruturas das quais o intelectual é funcionário. Gramsci observa que em nenhum momento do desenvolvimento histórico real foi elaborada uma quantidade tão grande de intelectuais como na moderna sociedade burguesa. Um facto que se tornou mais óbvio nos nossos tempos com a proliferação de think tanks, gabinetes estratégicos, laboratórios de ideias, etc., etc., que se multiplicam mais que espécies invasoras.
«Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico.»
Mais que muitos outros e melhor que muitos outros, Pacheco Pereira enquadra-se nesta definição gramsciana. Os seus textos surpreendentes e mesmo surpreendentemente relevantes devem ser lidos com essa lupa. Mas há sempre um momento em que tem a necessidade de ocupar lugar de destaque na defesa dos valores da sociedade de que faz parte e o sustenta. Nunca a trairá. Empenhado na defesa da ordem unipolar, «se se quiser, do “imperialismo americano”», como se isso não fosse o que tem comandado o mundo nos últimos decénios, não seja a mão visível e invisível dos conflitos armados, das «guerras na Ucrânia, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, entre outros conflitos que flagelam o mundo» e «da situação na Palestina ou no Sara Ocidental», como refere o comunicado que apelava à manifestação pela Paz que tanto incomoda Pacheco Pereira.
Para ele só há uma guerra, a que sucede no território da Ucrânia, que é de facto uma guerra entre os EUA/NATO e a Rússia, por interposta Ucrânia, uma guerra que se iniciou em 2014 e culminou com a invasão da Rússia ao território ucraniano, o que ele oculta para justificar a arenga. Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos. Igualmente revelador é o facto de Pacheco Pereira denunciar que «o nome “Ucrânia” está lá no apelo, numa lista que mistura Palestina, Saara Ocidental, Iémen, Síria, Líbia e Iraque, onde a actual guerra é nomeada de passagem e sem relevo, como se fosse uma entre muitas comparáveis fortes e soberanos.»
As outras guerras referidas no comunicado, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, com mortes, devastações, refugiados, crises humanitárias incomparavelmente maiores que as que se registam na Ucrânia, para ele são cousas menores. Em relação à Palestina e ao Saara, nunca falou abertamente de uma das maiores injustiças da história moderna, pelo que faz uma miserável desvalorização do direito à auto-determinação desses povos e da importância da sua luta no contexto da paz.
Percebe-se, encara essas guerras e o direito à auto-determinação desses povos com a lógica do homem branco que Aimée Cesaire tinha denunciado: «sim, valeria a pena estudar, clinicamente, no detalhe, as trajectórias de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês do século XX, muito distinto, muito humanista, muito cristão, que ele carrega um Hitler que se ignora, que Hitler mora nele, que Hitler é seu demónio, que se ele o vitupera é por falta de lógica, e que, no fundo, o que ele não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, e de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até agora eram exclusividade dos árabes da Argélia, dos collies da Índia e dos negros da África.»
«Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos.»
Pacheco Pereira de forma subliminar, sem ter a coragem de o assumir frontalmente, considera que a Europa detém uma cultura única que lhe dá o direito e até a missão, comandada pelos cruzados dos EUA/NATO, de dirigir o mundo conforme a sua vontade.
A tralha do seu texto são encadernados sofismas em que a Paz, desde que não seja a Pax Americana, não interessa, pelo que mistura alhos com bugalhos com grande à vontade, num texto minado de tretas, em que a memória histórica é bombardeada com napalm, em que a questão central é combatida como se o autor do texto fosse ideologicamente detergentado para que se fique pela superfície das coisas e o alvo imediato, a luta pela Paz, se esvazie de significado.
Acaba o texto com o desafio de uma coboiada, propondo um duelo ao sol nos ecrãs televisivos, um dos aquários onde deposita regularmente os seus pensamentos. Arma-se em Shane, mas como não passa do excêntrico Lee Clayton, se, ao contrário do filme de Arthur Penn conseguir sobreviver, pode esperar solitariamente sentado por seriedade intelectual, ninguém irá responder ao desafio.