Rios não confluentes

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/02/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Durante três dias observadores e oradores do congresso do PSD dedicaram-se ao “sexo dos anjos”, como lhe chamou Rui Rio: o regresso do bloco central. Se o debate é saber se o PSD está disponível para debater com o PS ou qualquer outro partido as grandes reformas que defende, é só um debate idiota. Qualquer partido que não seja liderado pelo ressentimento, como foi nos últimos dois anos, está disponível para aprovar as reformas que defende. Se se trata de permitir que o PS passe a governar com o pisca-pisca, umas vezes à esquerda outras vezes à direita, não me parece que o próximo ano e meio o permita e que seja sequer isso que esteja na cabeça de Rio. Nas suas duas intervenções Rio deixou clara a naturalidade com isto tem de ser encarado. O facto deste ser o grande cisma deste congresso diz até que ponto é nebulosa toda a restante linha estratégica de Rui Rio.

É significativo que o discurso politicamente mais clarificador na noite de sexta-feira não tenha sido o do novo líder, mas a do cessante. Passos Coelho reafirmou o que disse nos últimos anos sem que, em nenhum momento, tenha sido contrariado no congresso. A sua intervenção, que pretendeu reafirmar a natureza “pragmática” do PSD, não poderia ter sido mais ideológica. Uma intervenção fortemente antissocial-democrata, que insistiu em tratar serviços e prestações públicas como mera resposta a clientelas eleitorais. E que repisou aquela que foi a maior marca discursiva da sua liderança: a ideia de que tudo o que permita que as pessoas respirarem um pouco é irresponsável.

Se é tempo de crise são necessários sacrifícios, se a economia melhora continuam a ser necessários sacrifícios para prevenir o futuro. A austeridade eterna é a promessa que Passos Coelho quer que o PSD seja portador. O problema é que se o futuro for sempre uma promessa adiada a governação faz-se sempre contra a maioria das pessoas. Passos diz que isso é não querer agradar.

O grande problema das intervenções de Rui Rio (o de abertura foi muito mais fraco do que o de encerramento), é que julga poder manter-se na linha deste discurso passista em matéria económica, mudar o tom na agenda social e fazer ruturas do ponto de vista da saúde da nossa democracia. A crise da confiança dos cidadãos na democracia não resulta de questões institucionais, como o modo de eleição dos deputados, mesmo que essa seja a forma mais fácil de lidar com o problema. Ela é transversal a países com modos muito diferentes de eleger deputados e desenhos institucionais muito distintos. A crise da democracia corresponde à incapacidade da política responder às ansiedades das pessoas. É uma crise substantiva, com uma forte relevância no crescimento da desigualdade, não é uma crise formal. E Rio acredita que é mexendo na forma que resolve a substância.

Ninguém conhece em grande pormenor o que Rio considera serem “as reformas que são precisas” em matéria de regime político. Para além de umas generalidades, umas generosas outras disparatadas, elas não passam de um nobre desconforto com uma política que se afasta das pessoas e com um discurso demagógico que ganha espaço, a que ele próprio não consegue responder. Mesmo a sua corajosa posição em relação à judicialização da política e a politização da justiça, que subscrevo na integra, pouco ou nada depende de qualquer “reforma estrutural”. E a sua coragem logo tropeçou na escolha de Elina Fraga, antiga bastonária da Ordem dos Advogados que, em 2014, fez uma queixa-crime contra Passos Coelho e o seu governo por causa do mapa judiciário. Querem mais judicialização da política do que isto? Rui Rio tenta-se afastar da política de casos e escândalo, da demagogia e do justicialismo, em que a direita partidária e mediática tem apostado. É nobre da sua parte, mas poucas vezes um líder teve tão desfasado da corrente para onde segue o seu espaço político. Ao ponto de não conseguir rodear-se de pessoas que cumpram os mínimos nesta sua exigência.

Foi no discurso de encerramento que Rui Rio tentou o tão famoso recentramento, que ameaçava tornar-se no mito urbano deste congresso. Dedicou-se, acima de tudo, às políticas sociais. Cometeu alguns erros comuns. As suas boas intenções sobre a crise demográfica portuguesa teimam, tal como acontece com o CDS, em ignorar as condições sociais, económicas e laborais que levam os jovens a não tomar a decisão de ter filhos. Num partido que nunca teve na primeira linha no combate à precariedade, a conversa sobre a demografia vale de pouco. E Rio não falou de precariedade ou sequer de emprego. Quanto à segurança social, houve um piscar de olho ao PS sobre a sustentabilidade da segurança social. Só quando chegarmos às propostas é que saberemos de que massa é feito Rui Rio. Nisto, como em várias áreas que enumerou, ficou-se por um diagnóstico consensual. A exceção foi o que disse sobre o Serviço Nacional de Saúde, em que subscrevo todas as críticas que fez a este governo e lamento que não tenha tido a honestidade de as estender ao anterior. Mas Rui Rio parece querer mudar o tom sem fazer qualquer balanço do papel do PSD naqueles quatro anos de crise. Na educação, nem o tom muda. Repegou o discurso conservador de Nuno Crato, o ministro que reverteu um dos mais largos consensos que havia na política portuguesa. Espero que o moderado David Justino tenha, no seu novo cargo, tempo para explicar umas coisas a Rui Rio.

É quando chega à economia que Rio patina e isso está muito longe de ser um pormenor. Insiste na absurda dicotomia entre mercado interno e exportações, repetindo, mesmo que num tom menos castigador, todos os erros de análise do governo de Passos Coelho. A insistência em ver o aumento do consumo interno como um problema, ignorando que ele está aumentar ao mesmo tempo que assistimos a um crescimento económico acima da média europeia, demonstra que, apesar de toda a retórica, continua a subsistir um preconceito com a redistribuição da riqueza. Nunca chegou a altura das pessoas sentirem as vantagens do crescimento.

Juntando a intervenção de abertura e de encerramento, verificamos que Rui Rio tem um problema de dessintonia entre as suas várias agendas. Na justiça e noutras áreas, tem um forte cunho pessoal e quase nenhuma base de apoio política na área do PSD. Faz um discurso social muito genérico e quase exclusivamente concentrado no diagnóstico que se esforça por regressar ao PSD pré-passista, recentrando-o. Mas falta-lhe um discurso económico que o distinga de Passos Coelho, parecendo continuar a ver como um problema a participação de mais cidadãos nas vantagens de um crescimento acima da média europeia, visível com o aumento do consumo privado, e insistindo na falsa escolha entre exportações e mercado interno. Há uma dissociação de discursos que não se tocam para manter uma continuidade impossível com o passado recente. Ao ponto de comentadores e jornalistas acharem que Rio se aproximou, em simultâneo, do PS e do CDS. O que falta a Rui Rio é transformar as suas idiossincrasias políticas num discurso coerente. Aí acabarão as generalidades mais ou menos generosas que lhe permitem mudar o tom do PSD sem chocar com as grandes escolhas políticas que Passos fez.

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Esse corpo estranho chamado PSD

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 17/02/2018)

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Miguel Sousa Tavares

Há muitos anos, José Pacheco Pereira explicou-me quais eram as virtualidades intrínsecas do PSD, que o distinguiriam dos demais partidos políticos portugueses: o PSD seria o mais português de todos os partidos, representava genuinamente o maior denominador comum entre os portugueses dos vários estratos sociais, das várias regiões, das várias profissões, dos vários níveis culturais. Achei que ele tinha razão, mas não achei que isso fosse necessariamente muito recomendável: um partido ajudado a fundar por Ruben A. e que ia até… Valentim Loureiro! Mas a verdade é que isso fazia do PSD o partido indispensável a Portugal: podia estar-se fora, até se podia, circunstancialmente, chutá-lo para fora do Governo, mas jamais afastá-lo realmente do poder — das autarquias, das regiões, das grandes empresas, públicas e privadas, das corporações encostadas ao Estado.

Durante os dez anos da governação de Cavaco Silva, o partido estabeleceu, de forma firme, maciça e sustentável, como agora se diz, as bases de um poder, construído em pirâmide, de baixo para cima, para durar até à eternidade. Da mais recôndita botica do país, da mais remota freguesia, passando por todas as concelhias e distritais do rectângulo, o PSD montou todo um exército de militantes, caciques, autarcas e jovens em estágio para o poder, que, passo a passo, estrutura pública por estrutura, acabou por significar uma sufocante teia de empregos, sinecuras e postos aparentemente adormecidos de influência.

Sim, calma! Eu sei que o PS fez o mesmo onde pôde e o PCP não fez diferente nos seus coutos eleitorais do sul. Mas nesses dez anos determinantes foi o PSD que inaugurou o estilo, semeou os seus por toda a parte e mais tarde colheu os frutos como nenhum outro. E, apesar de tudo, acontece que o PSD nunca teve para apresentar ao país homens de um nível cívico e político como Mário Soares, Salgado Zenha ou António Guterres. Ninguém saído da sede da Buenos Aires conseguiu ultrapassar a fronteira do Caia e ser conhecido e prestigiado lá fora como Soares e Guterres.

Nesses dez anos de mando de Cavaco, o PSD viveu tempos de uma paz interna como nunca antes nem depois: o chefe era incontestado e infalível, as vitórias eram robustas, o bolo chegava para todos. Unia-os o poder, o único cimento que podia unir um partido que, desde a sua fundação, nunca conheceu um verdadeiro debate ideológico, por mais que o mundo e os tempos fossem mudando. Mas assim que Cavaco se ergueu ao assento etéreo a que estava destinado em Belém, e logo que Durão Barroso se pirou, sem sequer olhar para trás, à primeira oportunidade caída do céu, o PSD regressou ao seu hobby preferido: a conspiração interna e eterna. Para quem vê de fora, é muito difícil seguir as guerras de nomes e as alianças que lá dentro se fazem e desfazem e, sobretudo, perceber o que lhes está subjacente, além da contagem de espingardas, cargos, nomeações, caciques eleitorais, negócios ou qualquer outra coisa. Raras, raríssimas vezes, política.

Aos poucos, as coisas foram até piorando, pois que, como sucedeu também no outro grande partido tradicional de governo, o PS, os melhores foram-se afastando. Por razões que têm que ver com o desgaste da actividade política exposta a alguma imprensa de sarjeta ao nível do esgoto das redes sociais, mas também do massacre do estilo de cacicagem constante a que obriga a ascensão interna dentro de um partido. António José Seguro exemplificou-o bem no PS: não era preciso ter nenhuma ideia ou projecto político a prazo mais longo do que quinze dias: era preciso, sim, saber de cor o nome de todos os presidentes das distritais e concelhias e, se possível, dos vice-presidentes, das mulheres e dos filhos. Isso fechou as portas a quem vinha de fora, a quem tinha outra vida lá fora ou a quem tinha mais que fazer. Tal como Seguro, no PS, também Passos Coelho veio assim lá de baixo, da juventude partidária do PSD, até ao topo: toda uma escola de militância, não de reflexão política. Quando se sentiu preparado, escreveu um livrinho com umas ideias básicas e mágicas de como governar Portugal (fruto de várias contribuições de gente simples com ideias básicas) e ficou à espera que o poder lhe caísse nos braços. Caiu-lhe, sim: caí-lhe o poder, a troika e Paulo Portas. Convenhamos que era demais para qualquer um, quanto mais para quem tudo o que tinha de experiência na vida era ter colado cartazes na JSD e ter concorrido a uns fundos europeus para fazer formação para um suposto pessoal de uns aeródromos-fantasmas com que o interior do país iria ser coberto, sabe-se lá para quê, para quem ou para que aviões. Exactamente o oposto do desperdício que ele depois nos venderia como o mal absoluto a abater — e com razão.

Já toda a gente disse de Passos que a sua principal característica, e até qualidade, era a teimosia. A teimosia é, de facto, uma qualidade, desde que se esteja certo: Churchill é o melhor exemplo histórico disso. Mas quando se está errado, a teimosia de um governante é apenas um sintoma de arrogância do próprio e um desastre para os governados. Pagámos muito cara a teimosa obstinação de Passos com a versão punitiva-austeritária que Bruxelas e Berlim nos impuseram e que hoje todos, menos Passos, reconhecem ter sido, na sua dimensão e na sua duração, um erro que nos custou sacrifícios inúteis e trágicos. Não sendo, seguramente, nem uma pessoa mal intencionada nem desonesta, não tendo, como tantos outros, usado a política para seu benefício pessoal, chega a ser impressionante como é que essa teimosia de Passos Coelho não lhe permitiu reconhecer contra a opinião revista de todos os seus parceiros de então — UE, BCE, FMI — e contra todos os factos e números — crescimento da economia e do emprego, aumento das exportações, diminuição acelerada do défice — que afinal podia haver outro caminho que não o do “empobrecimento criativo”. É ele contra dez milhões de portugueses. Quando este fim-de-semana fizer o seu discurso de despedida do PSD, certamente que será amargo e pessimista, como vem sendo sempre, desde que a impensável jogada florentina de António Costa lhe roubou uma vitória eleitoral que, dadas as circunstâncias, tinha sido até notável. Dirá que os bons números da economia escondem um ciclo de ilusão que mais tarde ou mais cedo se esfumará, assim que razões internas ou externas dissiparem o nevoeiro e ficar a nu que nada de essencial este Governo fez para evitar que nos encontremos desarmados perante nova crise como a de 2008. Terá razão nisso, apenas lhe faltará explicar como é que com tantos sacrifícios impostos pelo seu Governo, com um ambiente propício a limpar de vez tantos cancros instalados na administração do país, ele se limitou a ter coragem para fazer o mal gratuitamente.

Avança então esse notável desconhecido que é Rui Rio. Ainda mal abriu a boca e já um saco de gatos lhe saiu ao caminho, uns criticando-lhe o que não disse, outros exigindo-lhe que diga o que os vencidos das eleições internas disseram. Um tal de Pinto Luz, ainda mais desconhecido da gente, ou um “senador”, como Marques Mendes, querem que ele garanta já que votará contra o Orçamento de 2019, a apresentar daqui a nove meses — antes de fazer uma pequena ideia das suas linhas gerais e da conjuntura interna e externa de então. Outros exigem-lhe uma oposição “dura” e intransigente” a qualquer aproximação ou proposta do PS, de modo a empurrar Costa para os braços e as exigências da extrema-esquerda. Acham que esse extremar de posições do PS, fomentado pelo PSD, será o caminho para a derrota de Costa. E se não for, se Rio não aproveitar, será o caminho para o afastamento deste. Chama-se a isto no bridge deixar o adversário squezeed: se puxar a espadas, ele lixa-o nas copas; se puxar a copas, ele lixa-o nas espadas. E o país? Ah, isso agora não interessa nada! É o PSD em congresso.


(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

UM FERRAZ “fascista” DEU À COSTA!

(Joaquim Vassalo Abreu, 16/02/2018)

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Quando hoje ainda madrugada li as capas dos jornais, como costumo sempre fazer antes de me pôr a adormecer, deparei-me com a do “I” e a minha primeira reacção foi vociferar um “não acredito”.

É que o referido pasquim traz na sua primeira página e em parangonas uma frase retirada de uma entrevista dada por Pedro Ferraz da Costa, antigo patrão dos patrões (CIP) e agora presidente do Forum da Competitividade, em que afirma esta coisa extraordinária: “As empresas não conseguem contratar porque as pessoas não querem trabalhar”.

E mais abaixo, ainda na primeira página, mais uma pérola retirada da referida entrevista: “É preciso gente nova. Qualquer dia as empresas são lares da terceira idade”.

Fiquei tão danado, tão danado, que me esqueci do sono, pois de outro modo iria remoer toda a noite e dormir era coisa que não aconteceria, e fui logo escrever umas notas, aquelas que me saltaram de imediato à mona, para que aquele sentimento de revolta e rejeição não se desvanecesse e desse lugar à costumada acalmia e ao “deixar para lá” também usual. Mas disse também para comigo: desta vez tens que deixar de parte a ironia.

E passou-me pela cabeça adjectivá-lo de tudo para além de fascista. Esses adjectivos todos que vocês que me estão a acompanhar já adivinham, razão pela qual eu de dispenso de os pronunciar! Mas também porque, num momento de maior lucidez, disse para comigo: é melhor não, pá. Que te adianta tudo isso se o que ele diz não é só ele que o diz e, antes sim, corresponde ao verdadeiro pensar de uma ampla direita retrógrada e saudosista, que tem perante o valor do trabalho e de quem trabalha uma visão puramente provocatória?

É que sendo ele o vigente presidente do Forum para a Competitividade, seja lá o que isso for, adivinham de imediato o que será para ele a competitividade.

É claro que, para eles, a riqueza não deve ser redistribuída, o progresso só se alcança com salários de miséria e um maior crescimento só com austeridade. É assim que ele e eles pensam e não toleram que um governo das Esquerdas esteja a provar o contrário.

Quando afirma essa barbaridade do “as pessoas não querem trabalhar”, e só faltou dizer (não sei se até disse porque não li) que o que querem é viver do rendimento mínimo, enfaticamente “rendimento social de inserção”, eles, no fundo, querem dizer isso mesmo: Têm que trabalhar e receber o rendimento mínimo. Não salário mínimo, mas o rendimento mínimo porque o salário mínimo é demasiado alto. Até o outro Pedro, o tal que vai dar aulas em universidades, o disse!

O que eles não sabem, ou fingem não saber é que, quem o rendimento mínimo recebe, já há muito não consegue trabalhar pois que, mesmo pagando-lhes esse rendimento mínimo, nem assim lhes davam trabalho! São os que tendo 45, 50 anos ficaram sem emprego e depois sem fundo de desemprego e passaram o prazo de validade. Deixaram de contar para coisa alguma, a não ser para as estatísticas do rendimento mínimo garantido.

Mas, como assim, senhor competitivo Ferraz da Costa? Como assim “não querem trabalhar”? Como assim se o Desemprego tem diminuído? Como assim se o Emprego tem sustentavelmente vindo a aumentar de forma líquida? Como assim? É porque as pessoas querem trabalhar, ou não será? E não será também porque muitos empresários, principalmente aqui neste Norte Trabalhador e Exportador, não pensam como os iluminados como V.Exª e outras Exªs como V.Exª? Não será mesmo?

Mas porque razão haverá falta de pessoas (naquela idade válida, estão a ver?), as tais pessoas que V.Exª e mais muitas V.Exªas tanto desejam? É porque quando V.Exª e outras muitas V.Exªs , com a politica suicida que resolveram seguir, provocaram falências em série e despedimentos em massa, mandaram centenas e centenas de pessoas não serem piegas e partirem. Pirarem-se daqui para fora, em suma. Mas foram-se embora daqui para quê? Para irem gozar umas férias? Não, foi para terem trabalho. Para poderem educar os seus e viverem uma vida digna. Foi porque não queriam trabalhar?

V.Exª e outras muitas V.Exªs como V.Exª e que pensam como V.Exª, querem é voltar ao antigamente. Têm imensas saudades desses tempos. Desses tempos em que o trabalho não tinha nem dignidade, nem direitos, nem valor e as pessoas iam trabalhar apenas quando para isso fossem chamadas (colheitas, vindimas, guerra etc. etc…) recebendo apenas uma côdea de recompensa. Ora a isso chamamos nós “fascismo”.

Quanto ao “As empresas parecem lares da terceira idade”, idade onde V.Exª já com certeza está, só um dejeto de gente com o cérebro em estado de profunda demência o poderá afirmar. E corresponde ao que mais degradante alguém poderá pensar quando, ainda para mais, se verifica que a idade limite para a Reforma tem vindo progressivamente a aumentar, isto é, que o direito à Reforma seja cada vez mais tarde. E por pressão e exigência de V.Exª e de muitas V.Exªs como V.Exª.

Mas, supondo que assim não é e que nós é que não sabemos ler, defende então o quê V.Exª? Reformas mais prematuras para extirpar o cancro dos “velhinhos” nas empresas? Já assim infelizmente o é, mas com cortes absolutamente escandalosos nas ditas reformas. Mas o que V.Exª e muitas Exªas como V.Exª querem é despedi-los! Sim, despedi-los! É a tal “reforma estrutural” nas leis do trabalho de que tanto falam. Pois é aqui que está, realmente, o cerne da questão.

V.Exª e todas as V.Exªs como V.Exª o que desejam é a institucionalização da tal “flexibilidade”. A tal que vos permitirá despedir apenas porque assim desejam e invocando os motivos que assim entenderem, tais como: inaptidão, inadaptação, custo do posto de trabalho, extinção do posto de trabalho, falta de rendibilidade, ser de cor, ir muitas vezes fazer xixi etc e muito mais…

Mas com que intuito? Poderem contratar em sua substituição gente a recibos verdes ou com contratos a prazo. Desde logo a preços mínimos e com um prazo limite em que serão dispensados e virão outros para os seus lugares recebendo o mesmo mínimo. É também isto o que vão ensinado as universidades tipo estações do ano, essas onde são formados os quadros políticos da treta e para onde Passos Coelho vai “ensinar”…

Assim como acontece nesses grandes “empreendedores” dos Hipermercados, também dos CTT etc, onde constantemente vemos caras novas e também caras fartas. Estas fartas de ver um rodopio de caras novas e estas, de tão entusiasmadas a princípio, a passarem para um estado de desilusão por finalmente verificarem que aquilo não era um sonho mas um pesadelo. O pesadelo de se verem peças de uma engrenagem diabólica, trituradora e traiçoeira.

Mas, que “chatice”, está a faltar essa tal gente, essa gente que eles queriam em abundância para usarem e manipularem a seu belo prazer. E que, de repente, passou a gente que “não quer é trabalhar”.

Preferem emigrar, não será? E aqui no Norte não há já gente para contratar, sabia? Porquê? Porque estando a economia a crescer, idem as exportações, o turismo, o consumo e coisas mais, o emprego tende a crescer e especialmente nessa faixa etária, essa que desejam contratar. Mas são contratados, como devem ver, se não forem cegos nem surdos.

Mas, por outro lado, toda aquela mole humana que emigrou na sequência das políticas seguidas e apoiadas por V.Exª e todas as Exªas como V.Exªs, a quem disseram para deixarem de ser piegas e mandarem-se à vida, só voltará se a isso for obrigada, pois não quererão voltar para ganhar o tal mínimo que lhes querem oferecer. Estão a ver?

E querem jovens letrados, formados, com mestrados, com doutoramentos até a ganharem o mínimo, esse mínimo que para V.Exª e todas as V.Exªs como V.Exª e como o Prof. Dr. Coelho que isso defende? A terem trabalhos de escravos e ganharem uma côdea?

Não podia V.Exª ter sido mais claro. E mais não digo…


Fonte aqui