Mas quem é a Unilabs?

(Bruno Maia, in Esquerda.net, 19/08/2021)

Só um centro de vacinação foi entregue a um privado. Cortesia de Rui Moreira, com a anuência (pelo menos passiva) do governo. A multinacional suíça é dirigida em Portugal por Luís Menezes, ex-deputado pelo PSD.


O Serviço Nacional de Saúde está a completar a maior e mais exigente campanha de vacinação que alguma vez aconteceu em Portugal. Com as habituais exceções e percalços, a verdade factual é que está a ser um sucesso. Tal como no passado foi um sucesso a implementação do Plano Nacional de Vacinação, os números de cobertura vacinal que estão entre os melhores do mundo ou a abrangência e universalidade das vacinas, que é total. Em menos de um ano teremos vacinados 10 milhões de portugueses. Mais um sucesso do SNS e, sem sombra de dúvida, também dos operacionais responsáveis pela campanha.

Mas há uma pedra na engrenagem. Uma ilha isolada que ainda ninguém percebeu por que existe: um único centro de vacinação, em todo o país, que foi entregue a um privado. Cortesia de Rui Moreira, com a anuência (pelo menos passiva) do governo, claro.

No queimódromo do Porto, a Unilabs tem o seu centro de vacinação instalado. No mesmo local, onde há um ano, instalou um centro de testagem, também cortesia de Rui Moreira. Talvez não se lembrem, mas quando tudo começou a Unilabs fazia testes em massa naquele local e rapidamente se descobriu que dava preferência na fila a quem pagasse a centena de euros que cobravam por cada teste. Violava o princípio da equidade no acesso à saúde, a comunicação social descobriu, fim da história. Volta agora a ser notícia porque teve uma falha no sistema de refrigeração e terá injetado um milhar de pessoas com vacinas “estragadas”.

Volto a recordar: todo o país está coberto pelo SNS, à exceção deste local. E o mais grave caso de falha na qualidade técnica da campanha, regista-se precisamente aqui. Só um tolo pode achar que é coincidência! Mas afinal, quem é a Unilabs?

A Unilabs é uma multinacional Suíça que lidera o mercado europeu de exames complementares de diagnóstico. Em 2006 adquiriu 85% do Centro de Medicina Laboratorial Dr. Carlos Torres. A partir daí foi só crescer: comprou dezenas de pequenos laboratórios portugueses e construiu um monopólio. É dirigida por Luís Menezes, deputado pelo PSD entre 2009 e 2014, filho de Luís Filipe Menezes, antigo líder do partido. Em 2019, realizou 10,1 milhões de análises pagas pelo SNS. É hoje o maior laboratório de análises em Portugal e aquele que cresce mais rapidamente. Já em 2020, a Unilabs aproveita a pandemia da Covid-19 para dispensar trabalhadores a recibos verdes, forçar trabalhadores contratados a gozar férias durante o período de confinamento da pandemia e a mudar trabalhadores de posto de trabalho sem a respetiva compensação. O laboratório foi ainda acusado de criar um “banco de horas negativo” para os trabalhadores que ficaram em casa em confinamento obrigatório, com o intuito de “cobrar” mais à frente essas mesmas horas em trabalho.

Porque existe esta exceção na campanha de vacinação? Porque teima Rui Moreira em a manter? Quem vai assumir a responsabilidade das mil vacinas “estragadas”? É caso para dizer: valha-nos o SNS, senão não eram mil, eram milhões!

Sobre o/a autor(a)

Médico neurologista, ativista pela legalização da cannabis e da morte assistida


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Se Messi vier para Portugal já pode tirar o cartão do cidadão no Alandroal

(Domingos Lopes, in Público, 12/08/2021)

Um país que não é capaz de assegurar este mínimo dos mínimos não cativa os seus cidadãos, antes lhes causa raiva face à impotência de obter documentos absolutamente indispensáveis em pleno século vinte e um.


Portugal deixou há cerca de um mês e meio a Presidência da União Europeia, a União mais avançada do planeta, diz-se.

No próximo mês de novembro, Lisboa vai ser capital do Web Summit. São aguardadas mil comunicações e participarão mil duzentas e cinquenta start-ups. No solo de Marte máquinas estadunidenses e chinesas escabulham o solo daquele planeta. Os multibilionários da Terra dão passeios aeronáuticos fora da gravidade e voltam.

No Alandroal, na Conservatória do Registo Civil, enquanto aguardava pela emissão de certidões de óbito e nascimento que não podiam ser obtidas online, um casal e dois filhos esbaforidos aguardavam a sua vez para tratar do cartão de cidadão. Tinham saído de Lisboa muito cedo para chegar a tempo de tratar dos cartões, pois em Lisboa não havia vaga em qualquer conservatória.

E como também precisavam de obter os passaportes dos filhos iam de escantilhão do Alandroal para o Entroncamento para tratar dos respetivos documentos, embora morassem em Lisboa. Percorreram mais de duzentos quilómetros e continuariam a volta a meio Portugal para o Entroncamento, mais cerca de cento e oitenta quilómetros, e regresso a Lisboa mais cento e vinte.

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Enquanto os robôs escavavam o solo de Marte, este casal gastou doze horas porque em todas as Conservatórias em redor de Lisboa até um raio de mais de cem quilómetros não aceitavam o encargo. A mim já me sucedera com o pedido do registo criminal no ano passado. Impossível obtê-lo em tempo útil. Consegui-o no Tribunal de Redondo a cento e oitenta quilómetros de Lisboa.

Os governos de Portugal deviam ter mais humildade e em vez de proclamar grandes avanços de modernidade serem capazes do mínimo dos mínimos – assegurar aos cidadãos a obtenção e renovação do cartão de cidadão. A causa desta situação tem a ver com a míngua imposta à função pública impedindo a entrada de novos funcionários para substituir os que saem.

Um país que não é capaz de assegurar este mínimo dos mínimos não cativa os seus cidadãos, antes lhes causa raiva face à impotência de obter documentos absolutamente indispensáveis em pleno século vinte e um.

Como o país fugiu para o litoral, os serviços tendo menos funcionários implodem e não é tida em conta a nova situação. Há nesta realidade algo de doloroso. Só que essa realidade impõe que se não desista e em vez de os cidadãos se atirarem aos seus compatriotas dos serviços, deviam com toda a prontidão exigir o cumprimento dos deveres do Estado.

Será que a tal bazuca contempla o reforço destes serviços para que os meios disponíveis sejam bem empregues e respondam a necessidades tão prementes como esta ou Bruxelas não deixa porque segundo a sua bitola ainda há funcionários públicos a mais?

No Cosmos, em Marte, máquinas comandadas da Terra prosseguem as suas pesquisas. Lisboa incapaz de renovar cartões de cidadão vai receber o Web Summit. Finalmente é conhecido o destino de Messi e os media respiraram de alívio, não fosse ele ficar sem cartão de cidadão.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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A farda

(Daniel Oliveira, in Expresso, 09/07/2021)

Imaginem que, chegado a um centro com grandes filas, o político responsável pela vacinação se justificava com a falta de pontualidade dos técnicos e acrescentava: “colinho dá a mamã em casa”. O que diriam bastonários, oposição e comentadores? Foi a 9 de junho, no centro de vacinação de Monte Abraão. Recordo a data porque estive, na véspera, ao almoço, três horas à espera de receber a primeira toma num outro centro, na cidade de Lisboa (repetiu-se na segunda dose). Acontece em alguns lugares, quando abrem novas vagas de autoagendamento. A espera vale a pena, os profissionais e voluntários são de uma dedicação exemplar e a vacinação é um sucesso. Mas o episódio, que levaria ao massacre de qualquer político, foi mais um grande momento mediático para Gouveia e Melo. As reportagens no Monte Abraão foram excelentes, com o vice-almirante a pôr o centro de vacinação na ordem e a fazer esquecer as filas noutros pontos do país, nesses dias.

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A boa imprensa começou no dia em que tomou posse. Ainda nem se tinha instalado e os fura-filas desapareceram. Voltaram porque um caso envolveu uma apresentadora de televisão. Como há 216 inquéritos-crime a vacinações indevidas, sabemos que continuaram. Deixaram é de interessar. Quando aconteciam com Francisco Ramos, o facto de o Ministério Público os investigar valia raspas. O que interessava era saber se iam receber a segunda dose. Com Gouveia e Melo, seguem-se os mesmos procedimentos e o que faz falta é um vice-almirante em cada esquina. É verdade que Francisco Ramos teve uma declaração infeliz sobre os eleitores de Ventura. Mas quando Gouveia e Melo, militar no ativo, ofendeu os britânicos e disse que o país precisava de ser endireitado, relativizou-se. E bem. No dia em que Ramos se demitiu, Portugal era, com falta de vacinas, o quinto país da UE em que mais pessoas tinham recebido pelo menos uma dose, proporcionalmente. Estivemos quase sempre acima da média, antes e depois. Mas era impensável dizer que a vacinação corria bem. Com Gouveia e Melo continuamos no pelotão da frente. Mas os fura-filas deixaram de ser tema e é impensável fazer críticas.

Pode passar a ideia de que tenho má opinião do vice-almirante. Pelo contrário, ela é excelente. É muito competente e as falhas a que assistimos são inevitáveis quando se vacina mais de 1,5% dos portugueses por dia, um feito assombroso. Passa serenidade e autoridade, tem bons resultados e sentido político, evidente pelo uso do camuflado e pelas várias entrevistas pessoais que deu. Apesar de os ofuscar, tem sabido trabalhar com o SNS e as autarquias, principais obreiros deste esforço. A minha crítica não é para ele, é para o jornalismo. A farda põe muita gente em sentido. E o escrutínio que antes era um massacre recolheu obedientemente à caserna. “Sou alto, visto uniforme, tenho voz de comando e sou assertivo”, disse o vice-almirante numa entrevista onde nem uma pergunta difícil lhe foi feita. Usa essas vantagens para o deixarem trabalhar. Francisco Ramos era político e o jornalismo acha que só escrutina políticos, contribuindo para um desgaste desigual.

É por isso que ficámos surpreendidos com Tancos, o Tribunal da Relação de Lisboa, o BES ou a Raríssimas, que só ganharam centralidade quando envolveram políticos. António Costa sabia que se livrava de polémicas se escolhesse um militar. O perigo para a democracia está em nós, quando interiorizamos o desprezo pelos políticos e uma farda é o que sobra para o Estado ter autoridade. Pior: para a autoridade do Estado nem ser questionada.


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