O que pode o mundo aprender com a pandemia do Covid-19

(Martin Wolf, in A Viagem dos Argonautas, 27/11/2020)

A coisa mais importante que aprendemos com o Covid-19 é quanto dano pode ser causado por uma pandemia relativamente suave se tivermos em conta padrões históricos de longo prazo. Chamar-lhe suave não é depreciar o sofrimento que tem causado, e continuará a causar, antes que um programa de vacinação eficaz seja lançado e sustentado globalmente. Mas o Covid-19 tem demonstrado uma vulnerabilidade social e económica muito maior do que os especialistas imaginavam. É importante compreender por que razão é assim e aprender a gerir melhor o impacto de tais doenças no futuro.

Num artigo recente, David Cutler and Lawrence Summers de Harvard estimam o custo total do Covid-19 só para os EUA em $16 milhões de milhões. Isto equivale a 75% do produto interno bruto anual dos EUA. Quase metade disto é o valor cumulativo do PIB perdido estimado pelo Gabinete do Orçamento do Congresso. O resto é o custo da morte prematura e da deterioração da saúde física e mental, de acordo com os valores habitualmente utilizados para as grandes economias mais ricas do mundo. O custo total é, segundo eles, quatro vezes superior ao da recessão após a crise financeira de 2008. Se o custo para o mundo fosse também de 75% do PIB anual, seria de cerca de $96 milhões de milhões, a taxas de câmbio de paridade do poder de compra. Isto é quase de certeza uma sobrestimação. Não obstante, o custo é enorme.

Até agora, o número global de mortos do Covid-19 está estimado em 1,4 milhões de pessoas. As mortes estão agora a um pouco menos de 10.000 por dia ou cerca de 3,5 milhões por ano. Se isto se mantivesse, as mortes acumuladas durante os dois primeiros anos poderiam atingir perto de 5 milhões, ou pouco mais de 0,06 por cento da população global. Para colocar isto em contexto, a gripe espanhola, que surgiu em 1918, durou 26 meses e custou entre 17 e 100 milhões de vidas, ou entre 1 e 6% da população global de então. Um número de mortes comparável para o Covid-19 seria hoje entre 80 milhões e mais de 400 milhões. Algumas pandemias, nomeadamente a Peste Negra no século XIV, foram muito mais letais mesmo do que a gripe espanhola.

Um relatório de 2006 do Gabinete de Orçamento do Congresso (GOC) defendeu que “uma pandemia envolvendo uma estirpe de gripe altamente virulenta (como a que causou a pandemia em 1918) poderia produzir um impacto a curto prazo na economia mundial semelhante em profundidade e duração à de uma recessão média do pós-guerra nos EUA”. Mas a gripe espanhola matou cerca de 675.000 americanos de uma população de apenas 103 milhões na altura. Isto equivale a mais de 2 milhões de habitantes hoje em dia. Se o GOC tivesse razão, o impacto económico desta pandemia deveria ter sido muito menor do que tem sido.

Um estudo semelhante para a Comissão Europeia, também publicado em 2006, concluiu que “embora uma pandemia tivesse um enorme impacto no sofrimento humano, muito provavelmente não constituiria uma ameaça grave para a macroeconomia europeia”. Esta conclusão estava bastante errada.

Por que razão, então, os prejuízos económicos de uma pandemia tão ligeira em termos comparativos têm sido tão grandes? A resposta é: porque poderia ser. As pessoas prósperas podem facilmente dispensar uma grande proporção das suas despesas diárias normais, enquanto os seus governos podem apoiar as pessoas e empresas afetadas em grande escala. Isto é também o que as pessoas esperam dos governos. A resposta à pandemia é um reflexo das possibilidades económicas e dos valores sociais atuais, pelo menos nos países ricos. Estamos preparados para pagar um vasto preço para conter as pandemias. E podemos fazer muito melhor do que antes.

Alguns defendem que os métodos escolhidos, nomeadamente os confinamentos não discriminatórios, têm sido largamente responsáveis por estes enormes custos económicos. Em vez disso, sugerem que a doença (e, portanto, os doentes) deveria ter sido deixada a vaguear livremente, procurando ao mesmo tempo proteger apenas os vulneráveis.

Isto é muito questionável. Uma razão é que quanto maior for a incidência da doença, mais pessoas estarão determinadas a protegerem-se a si próprias, um aspeto referido nas últimas Perspectivas Económicas Mundiais do FMI.

A experiência atual, em oposição às análises de custo-benefício de alternativas teóricas, reforça ainda mais a necessidade de suprimir totalmente a doença, sempre que possível. Um artigo recente do Institute for New Economic Thinking, To Save the Economy, Save the People First, sugere porquê. Um gráfico (reproduzido aqui) mostra que os países seguiram duas estratégias: a supressão, ou a arbitragem entre mortes e a economia. De um modo geral, o primeiro grupo tem feito melhor em ambos os aspetos. Entretanto, os países que sacrificaram vidas tenderam a acabar com uma elevada mortalidade e elevados custos económicos.

Agora, no meio de uma segunda vaga de infeções e confinamentos na Europa, a incapacidade de persistir até que terem alcançado o controlo total sobre o vírus na primeira vaga parece um grande erro. Evidentemente, testes eficazes, rastreio e quarentena seriam todavia melhores. Mas isso é impossível se as taxas de infeção estiverem próximas dos níveis recentes.

Ainda temos muito a aprender com o Covid-19, e devemos fazê-lo, porque a próxima pandemia pode ser muito mais letal do que esta. Entretanto, temos de procurar escapar à atual catástrofe tão bem e o mais rapidamente que for possível. Isto exigirá um elevado nível de cooperação global.

Embora os custos da pandemia tenham sido bastante extraordinários, assim, felizmente, tem sido a resposta científica. Agora as vacinas devem ser produzidas e distribuídas em todo o mundo. Um passo importante é que todos os países, incluindo os EUA, se juntem à Covax, a iniciativa de fornecer vacinas em todo o mundo. Os desafios globais precisam de soluções globais.

O Covid-19 tem sido um choque económico muito mais devastador do que os economistas esperavam. Esta é uma enorme lição. Uma doença ainda mais virulenta é perfeitamente concebível. Da próxima vez, temos de suprimir a nova doença muito mais rapidamente. Muitos agora tagarelam sobre a liberdade. Mas a segurança do povo deve continuar a ser a lei suprema da política, agora e para sempre.

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Publicado por 

em 24/11/2020 (ver aqui), tradução de Francisco Tavares.

O autor: Martin Wolf (1946-) é um jornalista britânico que se concentra na economia. É o editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times. Bibliografia: The Shifts and the Shocks: What We’ve Learned—and Have Still to Learn—from the Financial Crisis (Penguin Press 2014), Fixing Global Finance (The Johns Hopkins University Press 2008), Why Globalization Works (Yale University Press 2004), The Resistible Appeal of Fortress Europe (AEI Press 1994).

Congressos, só de cuisine

(César Príncipe, in blog A Viagem dos Argonautas, 26/11/2020)

Fonte aqui


Aprenda a aldrabar com os médicos pela verdade

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/11/2020)

Daniel Oliveira

Já aqui escrevi sobre esse grupo que usa a megalómana mas reveladora denominação de “Médicos pela Verdade”. De como, sem serem especialistas da área, se entretêm a lançar suspeitas sobre o que diz quem realmente investiga o coravírus ou trabalha de forma mais direta com a pandemia e, com o grau de segurança possível, vai dando ao Estado a informação para que tome decisões. Como enganam milhares de pessoas nas redes sociais, lançando a confusão e a dúvida fora dos lugares onde se faz o debate científico e vão convencendo os incautos que o contraditório científico se faz em posts no Facebook. Mas, acima de tudo, de como estes médicos, psicólogos, dentistas e enfermeiros têm o atrevimento de, apesar de meterem a foice em seara alheia, se atribuírem a propriedade da “verdade”, insinuando que os especialistas da área andam a enganar os cidadãos.

A Ordem dos Médicos, com a lentidão que é comum quando não estão em causa as lutas políticas e corporativas do seu bastonário, lá avançou com um processo disciplinar para quem, tendo deveres deontológicos, espalha desinformação nas redes. Desinformação que, no meio de uma pandemia, pode custar vidas. Mas era inevitável que a coisa acabasse por ir mais longe. E foi: uma das fundadoras dos Médicos pela Verdade foi apanhada, no Telegram, a “prescrever” uma forma de ludibriar os testes, para darem negativo.

Maria Margarida Gomes de Oliveira é mesmo médica (tem dado a cara pelo movimento) e, perante uma mãe cujo filho de 22 anos foi chamado para fazer o teste de rastreio do SARS-CoV-2 porque tinha contactado com uma pessoa infetada, disse-lhe para ele recusar fazer o teste PCR e, “se a pressão pidesca” fosse muita e o jovem não conseguisse escapar, usar a tal receita para que o teste desse negativo. Apesar de se defender com sigilo profissional, não há defesa possível. A “informação” foi dada com várias pessoas a ler. Se aquilo era uma consulta, a violação do dever de sigilo foi da própria. A verdade é que a “receita” foi replicada por muitas pessoas. E até foi repetida a uma grávida, que pretendia garantir que medidas de segurança não fossem tomadas, afastando-a do recém nascido – o que, na realidade, não está previsto. Alguns especialistas ouvidos dizem que a “receita” da anestesiologista é pouco eficaz. Como recordou Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, este comportamento pode ser punido pelo artigo 283.º do Código Penal.

Da parte criminal tratarão os tribunais, se isto lá chegar. Da parte disciplinar, tratará a Ordem, que também já abriu um processo a esta médica.

Mas seria interessante que o bastonário, no intervalo do seu trabalho sindical e político, condenasse de forma clara e audível estes irresponsáveis, contribuindo para os desautorizar aos olhos dos cidadãos. Há médicos a usar o título que lhes é garantido pela Ordem para ensinar pessoas a falsear testes no meio de uma pandemia. Bem sei que é politicamente mais promissor fazer guerrilha contra quem, mal ou bem, a tenta combater.

Até já há promessas de carreira autárquica. Mas, apesar de tudo, a Ordem dos Médicos ainda tem a função de regular a atividade médica. E isso faz-se por via disciplinar e tomando posições públicas. A forma descarada como estes médicos espalham desinformação mostra que não temem o poder disciplinar da Ordem ou o julgamento dos seus pares. Lá saberão porquê.