Razões da ascensão da extrema direita num país à beira-mar plantado

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 29/09/2022)

Quando alguns de nós nos surpreendemos e até nos indignamos com as subidas eleitorais (como já aconteceu em Portugal) e até com a ascensão ao poder (como está a suceder em Itália, por exemplo) de forças e personagens da extrema direita, bem faríamos se procurássemos atentar devidamente nas circunstâncias e nos factores que a tal conduzem e nas formas de os alterar de forma clara e consistente. É que se analisarmos isto com rigor, não são só fascistas e nazis que votam em tais forças. Ao invés, tem havido um número crescente de pessoas que se deixam levar pelo discurso demagógico e até mentiroso, mas por vezes aparentemente apelativo, das promessas fáceis, das denúncias ocas, mas ribombantes, do discurso do ódio contra o outro e do apelo aos instintos mais baixos e mais primários.

Sobretudo em épocas de profunda crise económica e social e em estado de necessidade grave é isso que inevitavelmente acontece quando os partidos e os dirigentes políticos que se dizem (e alguns ainda dizem, outros já nem isso) de “esquerda”, “socialistas” e até “comunistas” traem e rasgam as ideologias e abandonam por completo as bandeiras que foram desde sempre apanágio das forças de esquerda, tais como a preocupação e a protecção dos mais pobres, dos mais doentes, dos mais fracos e dos mais vulneráveis da sociedade e a defesa de adequadas e decentes condições de Educação, de Saúde, de Protecção Social e de Justiça para todos.

E quando a isto se soma a substituição das ideias e dos princípios pelos chamados “tacticismo” e “pragmatismo” (leia-se, oportunismo) e se aceita que a governação possa ser feita com base na ilusão, na mentira e até no medo, a porta fica escancarada para aqueles que, com peles de cordeiro, logo aparecem a clamar ruidosamente contra a corrupção e a incompetência dos políticos tradicionais, contra os imigrantes e aqueles a quem chamam “subsídio-dependentes” e a defender, de forma cada vez mais arrogante e acintosa as velhas e salazarentas ideias do “Deus, Pátria e Família” ou do “A Pátria e o Governo não se discutem”.

Deste modo, o discurso ideológico de que “não há alternativa”, de que “as ideologias morreram”, de que “os fins justificam os meios” e de que a vitória e o sucesso a qualquer preço são a única coisa que importa, constituem aquilo que tenho designado de uma autêntica e viscosa missa hipnótica com que somos bombardeados todos os dias e a qual nos adormece e entorpece a vontade e a capacidade de reagir perante o abuso e a injustiça.

Na verdade, se olharmos para a Saúde, o que hoje vemos são quase um milhão e quinhentos mil portugueses sem médico de família, urgências hospitalares (agora claramente já sem o pretexto da covid-19) absolutamente atafulhadas, encerramentos de serviços inteiros como os de Ginecologia e Obstetrícia, a continuação da desarticulação e definhamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a permanência das infindáveis listas de espera e a subida em flecha, e de todo não explicada, da mortalidade infantil e dos mais idosos. E, todavia, o discurso oficial é o de que até estamos bem neste campo da Saúde…

No campo económico e social, a Pobreza não pára de crescer. Enquanto os salários e pensões permanecem iguais ou têm aumentos irrisórios, a inflação, sendo seis a sete vezes superior a esses mesmos aumentos, corrói por completo o poder de compra de quem vive dos rendimentos do seu trabalho ou da sua pensão de reforma. Mas enquanto as estatísticas europeias e os dados e relatórios das instituições de solidariedade social que estão no terreno (como a Caritas, por exemplo) mostram um mais que notório agravamento da pobreza, este não é afinal reflectido nos números oficiais portugueses, que assim manipulam as estatísticas.[1]

Como justamente afirmou, em depoimento prestado ao semanário Expresso do passado dia 17 de Junho, o economista e professor do ISEG, Carlos Farinha Rodrigues, “temos uma quebra no poder de compra brutal entre 2021 e 2022, que resulta essencialmente da inflação e não tanto da alteração de rendimentos e que, portanto, não irá alterar os indicadores de pobreza. Até pode não haver um aumento da pobreza monetária em 2022, mas há uma perda de condições de vida muito significativa.”

Deste modo, cada vez mais portugueses deixam de conseguir comprar peixe ou carne para se alimentarem condignamente ou pagar os medicamentos ou as despesas de educação dos filhos, só conseguindo subsistir deixando de pagar a renda de casa ou a prestação do banco. Famílias inteiras dependem da ajuda de instituições, de familiares ou até de terceiros e (sobre)vivem abaixo dos limites da dignidade humana.

Se e quando conseguem trabalhos, eles são quase todos precários (ou até mesmo informais, ou seja, por “debaixo da mesa”), com remunerações muito baixas, vivendo estas pessoas com o permanente sobressalto de a todo o momento poderem perder esse magro meio de subsistência. E, todavia, o discurso oficial também a este respeito é o de que não estamos assim tão mal, de que o Governo tem uma “Agenda de Trabalho Digno” e que até já aprovou em Dezembro uma “Estratégia Nacional de Combate à Pobreza” (aliás, sem qualquer desenvolvimento desde então) e se comprometeu, a nível europeu, a atingir a meta, até 2030, de retirar da situação de pobreza 660 mil pessoas, das quais 230 mil são trabalhadores e – pasme-se! – 170 mil são crianças!

Entretanto, o que esta gigantesca (e sempre crescente) legião de pobres vê, ouve, lê e sente é que os sacrifícios, por maiores que sejam, têm de ser suportados só por eles, pois os grandes interesses económicos e financeiros não devem ser hostilizados e, por isso, puderam, com o maior desplante e tranquilidade e precisamente à conta da crise e à custa dos que com ela sofrem, embolsar ganhos absoluta e pornograficamente gigantescos.[2]

Ora, se aquilo que os dirigentes e partidos ditos de esquerda têm para dizer aos pobres deste País é que “aguentem”, quem se pode depois admirar quando o desespero e até a raiva de quem é assim maltratado e espezinhado o faça correr a apoiar aqueles que lhes aparecem como “salvadores”?

Finalmente, temos a Justiça, que se mostra com uma balança cada vez mais desigual: extremamente cara, acessível apenas aos mais ricos e (tal como sucede com o Fisco, por exemplo), muito forte, pertinaz e até implacável com os alvos fáceis, ou seja, os mais fracos, mas lenta, ineficaz e até benevolente com os mais ricos e protegidos do sistema. Entidades administrativas e governamentais (da Segurança Social ao dito Fisco, passando, por exemplo, pelas autarquias locais e os ministérios) sabem que, com o “poço sem fundo” que é hoje e desde há muito a Justiça Administrativa e Fiscal, a esmagadora maioria dos cidadãos atingidos por actos e decisões ilegais não têm quaisquer disponibilidades (financeiras, anímicas ou temporais) para aguentar demandas judiciais que chegam a ultrapassar, só na primeira instância, a dúzia de anos de duração, conferindo-se assim àquelas mesmas entidades, quais autênticas “companhias majestáticas”, uma sensação e um estatuto de arrogante e acintosa impunidade.

O Conselho Superior da Magistratura (CSM) – supostamente o órgão superior da avaliação da gestão e da disciplina dos Juízes – funciona como uma instituição feudal, fechada no seu terreno dominial, sem efectivo controlo, quer jurisdicional quer político-democrático, das suas decisões, e num registo de permanente opacidade da sua actividade e das suas decisões. E, ciente disso mesmo, permite-se liquidar princípios constitucionais como o do “juiz natural” (chancelando distribuições manuais de processos ou até determinando, ele próprio, distribuições ad hominem). 

Simultaneamente, com o tipo de avaliação que faz dos juízes e com o “modelo” de juiz que com aquela tem vindo a construir (o de que muito bom juiz é o que despacha muito, independentemente da qualidade das suas decisões e da sua postura no processo), tal revela-se fatal, em particular para jurisdições como a de Família e Menores (com decisões bárbaras de retirada dos filhos aos seus progenitores com base em relatórios ditos “técnicos” falsos e cuja veracidade os juízes não fiscalizam) ou a do Trabalho (onde deixa de interessar o apuramento da verdade dos factos e a materialidade das coisas passa a ceder o passo à formalidade, relevando sobretudo a capacidade de despacho do contingente processual, abdicando-se assim, em favor da estatística, de se controlarem com rigor as mais recentes e inovadoras técnicas e manobras patronais de fuga e de fraude à lei, como despedimentos colectivos transvertidos de transmissões de estabelecimento, ou vínculos laborais disfarçados de contratos precários).

Também na Justiça Criminal (como já se viu em decisões como as tristemente célebres da autoria do Juiz Desembargador Neto de Moura, e não só…!), a benevolência machista com os autores de violações e outros crimes sexuais ou de violência doméstica contrasta em absoluto com a dureza das penas aplicadas ao pilha-galinhas e toxicodependentes. 

Contudo, bem mais graves ainda do que tudo isso são as estarrecedoras conclusões de um recente inquérito efectuado pela insuspeita Rede Europeia de Conselhos de Justiça (abrangendo 27 países), no âmbito do qual foram inquiridos 15.821 juízes europeus, dos quais 494 portugueses, sendo que mais de 1/4 (26%) destes últimos declararam acreditar que o fenómeno da corrupção já se infiltrou no próprio sistema de Justiça português e que alguns dos juízes terão mesmo aceite subornos ou praticado outras graves ilegalidades no período destes últimos três anos[3]!

É certo que esta realidade já vem sendo referida, ainda que por muito poucas vozes incómodas – logo silenciadas ou até ameaçadas, inclusive de processos-crime – que salientavam não só a absoluta estranheza de algumas decisões judiciais (como algumas daquelas que têm valido humilhantes condenações do Estado português nos Tribunais internacionais, seja o Tribunal de Justiça da União Europeia, seja o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos) como também a observação de que a corrupção, muito em particular na Justiça Criminal, poderia passar não propriamente pela entrega e recebimento de dinheiro, mas sim pela promoção pública e benefício da carreira do prevaricador, por exemplo, num caso de violação do segredo de justiça a troco daquelas.

Mas perante a enorme gravidade dos resultados do referido inquérito às tais perto de cinco centenas de juízes portugueses, o governo declarou, pela boca da ministra da Justiça, que… o ano de 2021 “foi um ano excepcional”! E aquilo que o CSM entendeu fazer foi apressar-se a recusar qualquer “leitura apressada” (sic!?) daqueles resultados e a autoelogiar-se, afirmando enfaticamente ter actuado disciplinarmente “sempre que teve conhecimento de actos censuráveis imputáveis a Juízes”!?

É então assim que dirigentes e responsáveis da Justiça assumem as suas responsabilidades?!

Doentes e sem a assistência médica e medicamentosa a que têm constitucional direito, cada vez mais pobres e inclusive com fome, diariamente sujeitos ao risco de despejo das suas casas ou do despedimento e permanentemente confrontados com uma Justiça que funciona desta forma, há portugueses que, mais do que justificadamente, se sentem, e cada vez mais, abandonados, destratados, enganados e profundamente angustiados[4].

E se a Saúde do Povo, o combate à Pobreza, o Trabalho e a Justiça em condições compatíveis com a dignidade da pessoa humana não são prioridades absolutas daqueles que se proclamam de esquerda e se dizem verdadeiramente preocupados com os problemas do mesmo Povo, quem se pode admirar de que uma parte deste – também privado, é certo, da memória histórica pois igualmente a esta pouca ou nenhuma importância se dá – aceite dar o apoio e o voto àqueles lobos que, embora por enquanto disfarçados de afáveis cordeiros, sempre foram, e sempre serão, os seus algozes?

Retomar, e de forma competente, o ataque a estes problemas e assumir sem hesitações a defesa dos mais pobres, mais fracos e mais vulneráveis, é que devia ser, verdadeiramente, o desafio dos homens e das mulheres de esquerda, em Portugal e no mundo!


[1] Segundo revelou recentemente um estudo do Eurostat, com dados relativos a 2021, Portugal é o segundo país da União Europeia (só atrás da Roménia) com maior percentagem de desempregados em risco de pobreza e de exclusão social (60.4%, número significativamente muito superior ao apresentado pelas estatísticas portuguesas, de apenas 46.51%), o mesmo se passando com os chamados “trabalhadores independentes” (32,4% daqueles que, na sua grande maioria, são trabalhadoras por conta de outrem disfarçados de por contra própria) e com os reformados (22,3%).

[2] Para não irmos mais longe, e a título de meros exemplos, importará referir que, nos primeiros seis meses de 2022, os lucros da Galp foram de 420 milhões de euros, os da EDP de 306 milhões, os do Grupo Jerónimo Martins – Pingo Doce de 261 milhões, os do Banco Santander de 241 milhões, os do BPI de 201 milhões e os da Sonae – Continente de 118 milhões!

[3] Neste aspecto, essa percentagem de 26% dos 494 magistrados portugueses inquiridos apenas foi igualada pela Lituânia e ultrapassada pela Itália (36%) e a Croácia (30%).

[4] Segundo o Relatório do Bem-estar e Teletrabalho – 2022 da NFOM, uma plataforma de comunicação empresarial, este ano, o consumo de indutores de sono subiu de 38% para 62,6%, o de suplementos alimentares sem prescrição médica para 34% e o de produtos legais de canábis de 24% para 43,3%.


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A direita atrasada para o século XXI

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/10/2019)

Daniel Oliveira

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Dê as voltas que der, Rui Rio não conseguiu mobilizar o eleitorado de direita. Nem depois de Tancos. Nem perante uma monumental derrota do CDS. PSD e CDS conseguem menos 230 mil votos, menos 2,4 pontos percentuais e quase menos dez deputados do que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. E Pedro Passos Coelho foi responsável por um pacote de austeridade de dimensões nunca vistas na nossa democracia. Rio também não contrariou o aprofundamento da decadência do PSD nos meios urbanos, sobretudo em Lisboa, Porto e Setúbal. Se isto ditará a morte política de Rio só as guerras de barões e baronetes laranjas ditarão. Já começaram.

Quanto ao CDS, só podemos comparar os seus resultados com 2011, quando concorreu sozinho. E a comparação é avassaladora. O CDS perde 440 mil votos (fica com um terço da votação), 7,5 pontos percentuais (também um terço) e 19 deputados (fica com um quinto). Em relação a 2015, perde 13 deputados. Fica próximo, em votos, dos resultados das eleições europeias. E isto acontece sem pressão do voto útil: a direita tinha estas eleições perdidas. A pressão era tão pequena à direita que até deu para eleger dois deputados de dois novos partidos. Quando se anda pelo mapa eleitoral a coisa torna-se ainda mais deprimente. O CDS fica atrás do BE em todos os círculos, incluindo em Vila Real, Bragança, Viseu, Aveiro, Leiria ou Açores. A exceção é só a Madeira. E fica atrás do PAN em Lisboa, Porto, Setúbal e Algarve. Desaparece de quase todos os distritos.

As razões para esta hecatombe parecem-me óbvias. Enquanto o PSD é um partido sem identidade, o CDS é um partido com demasiadas identidades. Já foi quase tudo o que se pode ser à direita. Quando se trata de partilhar poder e a liderança é forte, este é um problema menor. Quando o projeto é ficar na oposição tudo se complica. A sociologia do eleitorado de direita mudou e os dois partidos não conseguiram acompanhar essa mudança.

O dinamismo partidário da esquerda, marcado pelo nascimento do BE há quase 20 anos, acompanhou e continua a acompanhar uma sociedade cada vez mais segmentada. A direita ficou paralisada, sem que nada mudasse nela em quase meio século. A clivagem entre liberais e conservadores, moderados e autoritários, não teve repercussões partidárias. O pragmatismo do poder encobriu mudanças e divergências que são centrais para a representação política.

O que o PSD trata através do silêncio que a miragem da chegada ao Governo permite (mesmo não escondendo que o problema existe, como se vê pela resiliência dos passistas), o CDS resolve pela esquizofrenia. Paulo Portas disfarçava-o com a sua arte de transformismo político. Assunção Cristas não tem essa capacidade. O último ano foi uma autêntica montanha russa. Promoveu Adolfo Mesquita Nunes, dando sinais de liberalização do partido; autoproclamou-se líder da oposição depois das autárquicas, passando a ideia de que ocuparia o espaço do PSD e criando expectativas impossíveis de acompanhar; escolheu o ultraconservador e trauliteiro Nuno Melo como cabeça de lista a umas europeias coladas às legislativas; e depois julgou que podia fazer a síntese de tudo isto. Não pode. Num partido da dimensão do CDS não cabem Adolfo Mesquita Nunes e Francisco Rodrigues dos Santos (o quase bolsonarista “Chicão”, líder da JP) sem que um se imponha ao outro.

O CDS acabou ensanduichado pelo ultraliberalismo da Iniciativa Liberal e o racismo e autoritarismo do Chega! – na realidade, no que interessa a cada um, estão os dois à direita do CDS. Tem de escolher com qual deles quer competir. Ou se até prefere ser um partido conservador católico, com preocupações sociais. Não pode, com 4%, ser tudo isto ao mesmo tempo.

O CDS deixou de ser uma barreira à extrema-direita. Ela entrou no Parlamento e terá de ser combatida por forças mais poderosas. Se for inteligente, o CDS clarificará a sua estratégia, irá buscar alguém como Adolfo Mesquita Nunes e tentará representar os liberais de direita, sobretudo os mais jovens que não se reveem no PSD. Se o fizer, não precisa de acompanhar o delírio libertário de direita da Iniciativa Liberal, que cresceu menos pelo seu programa radical e mais pelo descontentamento com a oferta disponível. E só precisa de ser relativamente moderado nos costumes. Não sei quantos votos vale este caminho, estou seguro de que é o que tem mais futuro numa direita democrática que não esteja próxima do centro.

Claro que antes das grandes opções há o curto prazo. Os incentivos eleitorais vão empurrar o CDS para uma coligação com o PSD. O mapa de distribuição de deputados favorece essa opção, porque a direita coligada ganha eleições com resultados medíocres. Mas Rui Rio não tem grande apetência para estes entendimentos e o CDS seria obrigado a ir negociar lugares em péssima situação. Parece não haver caminhos fáceis a partir daqui e dois pequenos partidos estarão a morder as canelas do CDS. Com uma diferença: a IL crescerá às suas custas, o Chega! tenderá a crescer à custa de quase todos, incluindo o PCP.

Alguns comentadores de direita têm escrito que o nosso sistema partidário está a implodir. Olham para a realidade a partir dos seus umbigos políticos. O que implodiu nestas eleições foi o espaço da direita. O da esquerda está a adaptar-se há pelo menos 20 anos e a entrada de novos atores faz-se por folga de votos, não por falhas graves de representação.

Falta à direita fazer o que a esquerda fez e continua a fazer: adaptar-se às novas clivagens, representando-as com projetos diferentes que se podem entender em soluções de poder ou até em frentes eleitorais. É nesta reorganização que o CDS tem de decidir qual é o seu futuro, sabendo-se parceiro do PSD no poder. Se não clarificar, outros, que franquearam as portas do Parlamento tomarão o seu lugar. Quem tudo quer representar tudo acaba por perder.

Nota: deixo para a edição em papel do Expresso o fim das negociações para um acordo de legislatura entre o PS e o BE e o que isso quer dizer quanto à sobrevivência de qualquer coisa que se assemelhe com a “geringonça”


Chamar à democracia “sistema” e depois ser contra o “sistema”

(Pacheco Pereira, in Público, 16/02/2019)

JPP

Pacheco Pereira

Um dos mecanismos do discurso do crescente populismo português é apresentar-se como “anti-sistema”. É um discurso que começa na direita mais radical, passa pela extrema-direita e pela extrema-esquerda, e mergulha profundamente nas cloacas das redes sociais e dos comentários. Funciona como atestado de honestidade própria versus a ladroagem alheia, e mete no mesmo saco da cupidez toda a gente que está na mesa do café virtual ao lado, até aos confins do mundo. Apenas fica como pilar de honestidade a mesa própria em que o autor de comentários zangados com o “sistema” está sentado e, mesmo assim, quando sai alguém, fica logo fora do halo de santidade, a dois metros do epicentro da virtude.

É um discurso cada vez mais comum na comunicação social, que molda a sua actuação pelo populismo, pelas audiências e as vendas, pelo sensacionalismo e pelo justicialismo, com “procuradores”, justiceiros e denunciadores todos no prime-time televisivo, que funciona como uma espécie de tribunal popular sem regras, sem rigor, misturando casos sérios com casos venais, sempre numa linguagem insultuosa. E é um discurso que tem os seus jornalistas, políticos e intelectuais e não estou a falar dos próceres do Chega!, todos na indústria da culpa. Um dia que virem o retorno, alguns, os mais sérios, vão-se assustar, mas já é tarde.

Quando se vai ver o que é isso do “sistema”, verifica-se que é da democracia que estão a falar. Alguns nostálgicos do salazarismo dizem-no claramente, mas a maioria acha que existe algures “fora do sistema” uma forma de democracia qualquer ideal, e não percebe que aquilo que estão a propor pela negativa está longe de ser democrático. Os temas comuns do “anti-sistema” são a corrupção dos políticos, sempre apresentada de forma genérica, como se ser “político” fosse ser ladrão. O discurso diferenciador – há políticos honestos e há corruptos, e não os misturar – não é aceitável pelo populismo, e isso é um dos aspectos que o tornam antidemocrático. Em democracia, há políticos eleitos, nas autarquias e na Assembleia, pagos pelo erário público, que representam, uns melhor e outros pior, diferentes interesses, terras, partidos e ideologias. As democracias que se conhecem e funcionam são democracias representativas, outro dos alvos dos “anti-sistema”, que defendem formas de democracia directa, sejam as “assembleias populares” militantes à esquerda, seja a chamada “democracia electrónica”, ou o poder da rua, como hoje a direita dos “coletes amarelos” e aqueles que confundem poder emitir livremente a sua opinião ao Governo pela “multidão” nas “redes sociais” ou nas audiências televisivas. Em todos os casos, menos pessoas participam no processo de decisão política e nenhum controlo eficaz é possível nestas formas “directas” de democracia “anti-sistémicas”. Ser “anti-sistema” significa ser contra as diferenças institucionalizadas nos partidos políticos, e contra os mecanismos de representação e mediação, sejam os parlamentos, os partidos ou os sindicatos.

Podia aqui escrever milhares de páginas sobre como tudo na democracia funciona mal, partidos dominados por oligarquias, corrupção generalizada, protecções indevidas aos partidos e políticos, pouco escrutínio, dificuldades à participação cívica, abusos e violências. Com tudo isto deve-se ser intolerante. Mas no fim escreveria sempre que este “sistema” é o que me assegura pelo voto as minhas escolhas, que me dá maior liberdade, que me protege pela justiça e pela lei, que respeita as minhas diferenças e me permite expressá-las, mesmo quando quase tudo funciona mal. Tudo isto é melhor do que qualquer “anti-sistematismo” antidemocrático, e se eu for um cidadão interventivo, votando, escolhendo, não permitindo nenhum abuso do Estado, defendendo o meu “território” legítimo com tudo o que tenho à mão, a democracia é melhor. Esse apelo à participação cívica é o oposto ao populismo, que vive do abandono das responsabilidades cívicas a favor da zanga, do ressentimento e da impotência.

Vamos voltar várias vezes a este tema, mas comecemos pela nostalgia de um Portugal onde todos se entendiam, onde havia “consenso”, onde todos trabalhavam pelo “bem comum”, sem corrupção que não fosse o roubo do pão pelos necessitados, onde havia “respeito” e boa educação. Ou seja, pela nostalgia do Portugal da ditadura.

Eu conheço bem a Censura que durou 48 anos, até por experiência própria. O país que não podia vir a público, ou seja, o país “real” como agora se diz, era muito diferente do que conseguia emergir nos jornais e nos livros, mesmo na imprensa clandestina. Um dos grandes sucessos da Censura foi criar uma imagem de Portugal pacificado, inerte, pouco conflitual, sem grandes violências, mais de bons costumes do que de maus, que foi eficaz mesmo com aqueles que lutavam contra a ditadura. E continua eficaz quando se lê o que se escreve hoje em dia sobre os malefícios da democracia, em particular a corrupção, com a sugerida e às vezes explícita ideia de que nada disto com esta dimensão existia antes do 25 de Abril. Uma das coisas que os atacantes do “sistema” fazem é acentuar a dimensão da corrupção em democracia, sugerindo inevitavelmente que ela vem com a forma do regime e, por isso, lutar contra a corrupção é também lutar contra o “sistema” de partidos e políticos corruptos.

Nunca ninguém se interroga por que razão nunca houve nada de parecido com a Operação Marquês ao longo dos extensos 48 anos de ditadura? Não havia corruptos nos altos lugares da nação? Não havia corruptos na União Nacional? Nenhum general, embaixador, deputado à Assembleia Nacional, ministro ou secretário de Estado, comandante da Legião ou graduado da Mocidade Portuguesa, nenhum governador colonial, bispo, “meteu a mão na massa”? Ou houve casos de corrupção que a Censura não nos deixou conhecer? Sem dúvida, como se vê nos cortes da Censura, do mesmo modo que escondia a pedofilia, as violações, os roubos, as violências, os suicídios.

Mas a resposta é pior ainda: não havia corrupção porque não havia justiça para os poderosos do regime, e a pouca que havia era para os escalões intermédios para baixo. E, por isso, a corrupção entre os grandes da Situação, fossem políticos, com a mais que comum transumância da política para os negócios, decidida quase sempre pelo próprio Salazar, fossem os banqueiros e empresários do regime, estavam naturalmente protegidos porque ninguém sequer se atrevia a iniciar um inquérito. A excepção com os “ballets roses” foi um caso de costumes, e mesmo assim fortemente protegido pela Censura.

Sim, meus caros “anti-sistémicos”, o Portugal ideal com que têm uma não-nomeada simpatia, era um regime profundamente corrupto e onde se escapava à punição muito mais eficazmente do que na democracia. A verdade é que, por muita malfeitoria que exista, os regimes democráticos são muito menos corruptos do que as ditaduras, ou os “paraísos anti-sistémicos”.