O dia em que Schäuble e Dombrovskis engoliram um grande sapo

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 16/06/2017)

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Portugal sai hoje formalmente do Procedimento por Défice Excessivo, para onde tinha entrado em 2009. Por parte de alguns dos principais parceiros no Ecofin do ministro das Finanças, Mário Centeno, choveram os elogios. Wolfgang Schäuble, o homólogo alemão, diz que este facto (e o pedido de pagamento antecipado de 10 mil milhões ao FMI) prova que “o programa de assistência a Portugal é uma história de sucesso”. E o vice-presidente da Comissão Europeia, “Valdis Dombrovskis, disse ver “com satisfação que os ministros das Finanças tenham aprovado a nossa recomendação para a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo. Hoje é o dia para celebrar. Amanhã é o dia para continuar o trabalho árduo”.

Se a hipocrisia matasse, Schäuble e Dombrovskis deveriam ter caído fulminados logo que fizeram estas afirmações. É que ninguém esquece – eu, pelo menos, não me esqueço; e para os esquecidos há sempre o recurso ao Facebook – as sucessivas declarações de Schäuble sobre Portugal, dizendo que o país ia no bom caminho com o anterior Governo mas que com o Governo PS e a mudança de orientação política, estava preocupado com a eventualidade de Lisboa ter de pedir um segundo resgate (em 30/6/2016 e 15/3/2017). Disse-o não uma mas duas vezes, sempre que lhe perguntavam qual era a situação do Deutsche Bank (que era péssima na altura). Dombrovskis também foi sempre muito duro com o Governo do PS e os dois puseram sucessivamente em causa a capacidade de Portugal cumprir os seus compromissos europeus, em particular as metas orçamentais, com uma política económica diferente da seguida pelo executivo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas.

Mas não foram só eles. Outros responsáveis alemães, como Klaus Regling, presidente do Mecanismo Europeu de Estabilidade ou o comissário europeu Günther Oettinger falaram sobre a hipótese de Portugal precisar de um novo resgate (“Não sei qual é a probabilidade, mas é maior do que 0%”, disse Oettinger em 3/10/2016).

E é por isso que os aplausos e os sorrisos de hoje só podem esconder uma enorme estupefação sobre como foi possível, com uma orientação económica bem diferente daquela porque sempre pugnaram (falta ao ramalhete o inefável presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloen) e com um governo de centro/esquerda, apoiado por bloquistas e comunistas, atingir resultados orçamentais únicos na história do país, os melhores em 42 anos de democracia.

É que afinal todos eles foram desmentidos pelos factos: não havia só um caminho, a famosa TINA (There Is No Alternative, que sempre defenderam. A lavagem ao cérebro que nos tentaram fazer, a intimidação constante, a chantagem sucessiva, a pressão diária que fizeram afinal esboroou-se perante a realidade: era possível chegar a melhores resultados por outra via e com muito menor dor social do que aquela que nos impuseram durante cinco anos.

Ninguém se esquece os tratos de polé a que Mário Centeno foi sujeito quando chegou ao Eurogrupo. Ninguém esquece a forma sobranceira com que as suas propostas e a orientação que imprimiu à política económica foram tratadas durante longos meses. Ninguém esquece os avisos, os remoques, os alertas que lhe foram lançados, bem como as subtis ameaças, as cinzentas intimidações, o desprezo glacial.

Hoje é um grande dia para Portugal e para os portugueses. É também um grande dia para o Governo e para Mário Centeno. São eles que vão ficar para a História como o Governo e o ministro que conseguiram alcançar o défice mais baixo em 42 anos de democracia, 2%, um valor que se preparam para reduzir ainda este ano e no próximo; e são eles que ficam para a História como o Governo e o ministro que retiraram Portugal do Procedimento por Défice Excessivo, depois de nele termos caído em 2009.

Podem-se arranjar mil explicações, invocar milhentas atenuantes, mas factos são factos. E contra factos objetivos, palpáveis, não há argumentos.

O que falta agora é que outros representantes internacionais da hipocrisia, as agências de rating, venham reconhecer que a notação que atribuem atualmente à dívida emitida pela República (“lixo”) é totalmente inadequada à atual situação e que a subam rapidamente. Esta mesma semana, Portugal emitiu dívida a 10 anos abaixo dos 3% (2,8%), o que prova que mesmo os mercados reconhecem a melhoria consistente da situação económica portuguesa. O que falta para que, mesmo rangendo os dentes e cruzando os dedos, melhorem a notação da dívida portuguesa?


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Presidência do Eurogrupo seria um presente envenenado para Portugal

(Daniel Oliveira in Expresso Diário, 30/05/2017)

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Portugal tem sabido gerir a sua delicada posição negocial com Bruxelas. Sempre num ambiente de alguma tensão, foi revertendo medidas da troika mas mantendo-se sempre dentro dos limites impostos pela Europa. O orçamento de 2016, o aumento do salário mínimo nacional, as reversão de privatizações, concessões e outras medidas, tudo resultou de um braço de ferro que nunca chegou ao enfrentamento.

Tal só foi possível porque o Governo, também ele, se manteve dentro dos grandes objetivos europeus, mas contrariando a sua ortodoxia. Só assim a geringonça foi possível, aliás. Esta postura, cheia de contradições e dificuldades, não é possível se Mário Centeno tiver de representar a mediana europeia. Uma das formas mais eficazes de limitar o espaço de manobra deste Governo seria, por isso, entregar a Mário Centeno a presidência do Eurogrupo. Seria um presente envenenado para António Costa.

De cada vez que falasse na Europa Centeno deixaria de poder representar os interesses específicos de Portugal para passar a falar em nome de todos. Podendo parecer uma vitória para Portugal, a presidência do Eurogrupo seria um novo espartilho para o país no momento em que finalmente conseguimos respirar um pouco

É bom recordar que Centeno teria de acumular o cargo de presidente do Eurogrupo com o de ministro das Finanças. De cada vez que falasse na Europa deixaria de poder representar os interesses específicos de Portugal para passar a falar em nome de todos. E isso, num momento em que ganhamos alguma folga política, teria como único efeito limitar a nossa autonomia. Podendo parecer uma vitória para Portugal – que teria os mesmos resultados da ida de Barroso para Bruxelas ou de Constâncio para Frankfurt –, a presidência do Eurogrupo seria um novo espartilho para o país no momento em que finalmente conseguimos respirar um pouco.

Claro que há aqueles que acreditam que, mais importante do que os interesses nacionais, são os de toda a Europa. Mas quem pense que Mário Centeno no Eurogrupo poderia significar uma oportunidade para mudar alguma coisa na União ainda não percebeu nada do jogo político europeu. Numa estrutura marcada pelas relações entre os Estados e, acima disso, pelas posições das principais potências, não são os homens que fazem os lugares, são os lugares que fazem os homens. Porque os homens não são escolhidos pela vontade popular, mas pelos mesmos que têm determinado o caminho desta Europa. E deles dependem e dependerão absolutamente.

Dito de forma mais simples: Centeno só chegaria a presidente do Eurogrupo se Schäuble quisesse. E Schäuble, que não se costuma distrair, só o quererá se acreditar que Centeno lhe pode ser útil. Nem o presidente do Eurogrupo tem qualquer poder autónomo que lhe permita mudar o consenso imposto por Berlim, nem Berlim escolherá um presidente do Eurogrupo sem estar certo da sua obediência.


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Tadinho do Marques Mendes

(In Blog O Jumento, 29/05/2017)
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Se recuarmos uns anos, não muitos, veremos a comunicação social da direita elogiando Vítor Gaspar porque tinha escrito um artigo para publicar no site do ministério das Finanças alemão. O ministro achou que devia premiar o seu pau mandado em Portugal e escolheu essa forma. Mais tarde, Wolfgang Schäuble achou que Maria Luís Albuquerque merecia idêntica distinção e montou uma encenação a que chamou seminário, juntou uns quantos funcionários do seu ministério e a Maria Luís lá falou para as máquinas fotográficas.
Gaspar que até era doutorado, herdeiro das virtudes da avó Prazeres, mulher com a sabedoria ruralista da Serra da Estrela, era o novo Salazarzinho das nossas finanças públicas, dele se dizia ter um grande futuro e até já havia quem garantisse que o papel de Passos Coelho era transitório. Mas as coisas correram mal, num momento de lucidez Gaspar percebeu que tinha falhado e fugiu.
Maria Luís Albuquerque era a mulher cheia de virtudes próprias de quem era filha do cabo da guarda de Cabora Bassa, falando com voz grossa passava a mensagem da grande economista. Passos, um grande admirador desta licenciada na Lusíada com alguns conhecimentos de swaps e outros produtos financeiros, chegou a vê-la com uma grande pasta na Comissão Europeia. Passos até mandou o Moedas para Bruxelas porque achou que um mero cargo de comissária europeia era pouca coisa para tão grande sumidade.
Agora temos o pobre Mário Centeno, foi gozado pelos cenários macroeconómicos, desde então que a direita adotou como estratégia a ridicularização do ministro das Finanças, na primeira vez que foi ao parlamento a notícia foi a de que Passos riu até às lágrimas. Durante um ano todas as medidas económicas do governo foram chumbadas por Passos, com a preciosa ajuda da Dra. Teodora.
Desde o salazarismo que a direita está convencida da sua superioridade técnica em matéria de economia, os seus economistas até olham de soslaio para todo o economista que seja de esquerda, consideram-nos gente mal habilitada e nem reconhecem qualquer valor às escolas onde andaram. E se frequentaram  Harvard, como sucede com Centeno, lá descobrem que a sua especialidade era um qualquer tema menos importante.
Ver um político como marques Mendes, que é um caso raro de equilíbrio entre dimensão física e dimensão intelectual, desvalorizar Centeno (Ver notícia aqui) e insinuar que o ministro das Finanças se está a oferecer para presidente do Eurogrupo só pode merecer uma gargalhada.