“Se eu tiver de morrer” — o último poema de Refaat Alareer

(José Catarino Soares, in Tertúlia Orwelliana, 26/12/2023)

O número de civis palestinianos assassinados em Gaza, vítimas dos ataques das forças armadas de Israel nas últimas 11 semanas, atingiu os 20.258, enquanto 53.688 ficaram feridos, informou o Ministério da Saúde palestiniano no sábado, dia 23 de Dezembro de 2023. Entre os mortos, mais de 9.077 eram crianças, informou o Euro-Med Human Rights Monitor. Presume-se que outros milhares de cadáveres, de adultos e crianças, estejam presos sob os escombros em toda a faixa de Gaza.


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Mário Cen…tino

(Por José Gabriel, in Facebook, 17/11/2023)

É surpreendente a falta de senso que vai acompanhando as intervenções de alguns dos nossos líderes institucionais, dos quais esperaríamos um horizonte cultural mais amplo. O suficiente, pelo menos para, quando se querem ilustrar polindo os seus discursos com citações de autores – os poetas são as vítimas maiores – evitarem disparatar ofensivamente. Ou – e aqui lhes presto um serviço – não caírem no ridículo que, como se sabe, é veneno para quem quer manter uma pose de institucional solenidade.

Ora, o dr. Centeno, no contexto de um discurso em que, desajeitadamente – a oratória não é o seu forte – defendia o seu direito a pensar pela sua cabeça sem por isso ser incomodado ou atacado pela comunicação social, não encontrou melhor citação para ilustrar o seu caso que os quatro primeiras versos do poema “Abandono” de David Mourão-Ferreira (ver aqui).

O orador sabe do que está a falar? Sabe até que ponto é absurda a referência com que se está a identificar, o modelo que está a evocar? Acredito que não, que foi só ignorância, iliteracia. Isso não seria um mal – quem, de entre todos nós, sabe tudo, nunca erra? – não fora a prosápia com que enfatizou a citação.

Eu ajudo-o. Não sei se sabe, mas este poema foi cantado por Amália Rodrigues e popularizado com o nome de Fado de Peniche. Consegue perceber porquê? E consegue perceber porque, apesar do respeito que o regime salazarista tinha pela figura de Amália, já então artista de impacto internacional, a censura proibiu a divulgação deste fado? E o próprio Alain Oulman, seu compositor, veio, mais tarde, a ser expulso do país pala PIDE?

Porquê tudo isto? Basta ler com inteligência todo o poema, não apenas os dois ou três versos que, provavelmente, o seu assessor lhe segredou. Sabe onde é o “longe” onde foi encerrado o destinatário do poema? É Peniche, Forte de Peniche, prisão de antifascistas. Por isso, “…E apenas ouves o vento/ E apenas ouves o mar”. E, já agora, para que nada fique por dizer: apesar deste canto ser reconhecível e apropriável por todos os oprimidos e presos pela ditadura, sabe de que personagem fala o poeta, a que o inspirou? Foi, o próprio poeta o garantiria mais tarde, Álvaro Cunhal, que tinha sido encarcerado em Peniche, onde ficou preso 11 anos. É com ele que V.Exa, se está a identificar na sua trôpega incursão poética. Que desmedida ousadia! Ou, talvez, que imprudente tolice.

(Ou então, se disto tudo sabia, olhe que algum jornalista ainda se vai lembrar de gritar que “Mário Centeno é comunista”! Mas não é, nós sabemos que não é, fique descansado)

Como ilustração deste comentário, aqui deixo, a quem quer conhecer ou relembrar, o poema em causa.

ABANDONO

Por teu livre pensamento

Foram-te longe encerrar.

Tão longe que o meu lamento

Não te consegue alcançar

E apenas ouves o vento

E apenas ouves o mar.

Levaram-te a meio da noite:

A treva tudo cobria.

Foi de noite, numa noite

De todas a mais sombria.

Foi de noite, foi de noite,

E nunca mais se fez dia.

Ai dessa noite o veneno

Persiste em me envenenar.

Oiço apenas o silêncio

Que ficou no teu lugar.

Ao menos ouves o vento!

Ao menos ouves o mar!

(David Mourão-Ferreira)


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Tarquinices

(Carlos Coutinho, 11/09/2021)

Chamava-se Tarquínio e tinha um dos nomes mais esdrúxulos ou proparoxítonos que eu conheço. Era etrúrio e, apesar de ter Soberbo como apelido, foi o último rei de Roma, mandando em tudo entre 535 e 509 a.C. Depois de tricas e traições de um filho e um sobrinho, com ainda hoje acontece, até dentro de famílias tão bem instaladas na vida como os Salgados, ainda se viu pontapeado para o Norte, onde ainda havia a sua Etrúria original.

Deixou os romanos na posse de uma república breve, mas não desistiu da monarquia que em vão tentou restaurar de ambos os lados de Tibre. Da última vez que voltou aos pinhais e soutos bravios da velha Etrúria foi, tanto quanto sei, para desaparecer da História, porque nunca mais houve notícia dele.

Também nos Açores, mas só 2 000 depois, apareceram alguns Tarquínios e entre eles, um génio que, além de suicida, ficou na História da Literatura e da Pintura portuguesas como um caso inatingível até hoje. Na Pintura vemo-lo no Museu Nacional de Arte Contemporânea, num retrato de Columbano que o madrileno Museu do Prado escolheu há poucos anos para, juntamente com o autorretrato de Aurélia de Sousa, que agora está na Gulbenkian, exemplificar numa exposição de âmbito internacional os casos mais extraordinários do retratismo.

Este terrífico Tarquínio parece ter 80 anos, apesar de haver morrido com apenas 49. Tinha Antero como nome e na sua testa desmesurada, no seus olhos virados para um longínquo chão de mundo intolerável, no seu grandioso bigode alourado pelo tabagismo e na ausência negra das suas mãos férteis o que imaginamos é alguém que atravessa o mar para voltar ao nada.

Foi ele que escreveu aquele soneto deplorável em que diz:

Na mão de Deus, na sua mão direita

Descansou afinal meu coração.

Do palácio encantado da Ilusão

Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita

A ignorância infantil, despojo vão,

Depois do Ideal e da Paixão

A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,

Que a mãe leva ao colo agasalhada

E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…

Dorme o teu sono, coração liberto,

Dorme na mão de Deus eternamente!

Não admira, pois, que se tenha sentado certo dia num banco de jardim em Ponta Delgada e perfurado a têmpora direita com a bala mais perversa do mais inconsciente dos revólveres. Mas também foi um dos fundadores do primeiro Partido Socialista Português – esse, sim, proudhoniano e bem de esquerda –, andou pelo ensaio filosófico e nas “Odes Modernas” escreveu poemas eternos de que só as odes de Fernando Pessoa se conseguiram aproximar um século mais tarde. Esgrimiu valentemente na Questão Coimbrã e, na ínclita Geração de 70, foi, com Eça, Junqueiro, Teófilo, Ramalho, Oliveira Martins e mais uns quantos, um fundibulário temível.

Também deixou escrito:

Erguendo os braços para o céu distante

E apostrofando os deuses invisíveis,

Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,

A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante

Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,

Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,

N’um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente

Do nada e do que ainda não existe,

Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»

Mas os deuses, com voz inda mais triste,

Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»

P. S. – O suicídio de Antero de Quental ocorreu no dia 11 de Setembro de 1891. Como não podia deixar em claro esta infelicíssima data, falo hoje dela, porque não quero apagá-la com o lastro do vigésimo aniversário do mega atentado de Nova Iorque e com o falecimento de Jorge Sampaio que acaba de chegar ao meu conhecimento. Foi um cidadão incomum. Dói saber deste seu ocaso. Chegou cinco anos antes de mim e partiu também mais cedo. Conscientemente ou não, recusou-se a sofrer para nada. Não o merecia, de facto. Parabéns, Presidente Sampaio.


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