90º Aniversário do assassinato de Lorca – 18 de agosto de 1936

(Carlos Esperança, in Facebook, 18/08/2026, Revisão da Estátua)


(A Estátua associa-se ao sublinhar da efeméride. Há crimes sem perdão que não podem ser esquecidos. O fascismo também é isto.

Estátua de Sal, 18/08/2026)


Frederico Garcia Lorca foi um dos maiores poetas e dramaturgos espanhóis, fuzilado e enterrado em segredo por quem odiava a cultura, o amor, a vida e a liberdade.

Aos 38 anos assassinaram-no os fascistas. Os restos mortais nunca foram localizados e a sua poesia resistiu ao tempo, a recordar que lhe ocultaram o corpo com os versos de fora:

Romance sonâmbulo

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar

y el caballo en la montaña.

Con la sombra en la cintura

ella sueña en su baranda,

verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Verde que te quiero verde.

(…)

(Federico Garcia Lorca – 1928).

Nota da Estátua: O poema completo, traduzido para português por Afonso Felix de Sousa, pode ser lido aqui.

“Se eu tiver de morrer” — o último poema de Refaat Alareer

(José Catarino Soares, in Tertúlia Orwelliana, 26/12/2023)

O número de civis palestinianos assassinados em Gaza, vítimas dos ataques das forças armadas de Israel nas últimas 11 semanas, atingiu os 20.258, enquanto 53.688 ficaram feridos, informou o Ministério da Saúde palestiniano no sábado, dia 23 de Dezembro de 2023. Entre os mortos, mais de 9.077 eram crianças, informou o Euro-Med Human Rights Monitor. Presume-se que outros milhares de cadáveres, de adultos e crianças, estejam presos sob os escombros em toda a faixa de Gaza.


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Mário Cen…tino

(Por José Gabriel, in Facebook, 17/11/2023)

É surpreendente a falta de senso que vai acompanhando as intervenções de alguns dos nossos líderes institucionais, dos quais esperaríamos um horizonte cultural mais amplo. O suficiente, pelo menos para, quando se querem ilustrar polindo os seus discursos com citações de autores – os poetas são as vítimas maiores – evitarem disparatar ofensivamente. Ou – e aqui lhes presto um serviço – não caírem no ridículo que, como se sabe, é veneno para quem quer manter uma pose de institucional solenidade.

Ora, o dr. Centeno, no contexto de um discurso em que, desajeitadamente – a oratória não é o seu forte – defendia o seu direito a pensar pela sua cabeça sem por isso ser incomodado ou atacado pela comunicação social, não encontrou melhor citação para ilustrar o seu caso que os quatro primeiras versos do poema “Abandono” de David Mourão-Ferreira (ver aqui).

O orador sabe do que está a falar? Sabe até que ponto é absurda a referência com que se está a identificar, o modelo que está a evocar? Acredito que não, que foi só ignorância, iliteracia. Isso não seria um mal – quem, de entre todos nós, sabe tudo, nunca erra? – não fora a prosápia com que enfatizou a citação.

Eu ajudo-o. Não sei se sabe, mas este poema foi cantado por Amália Rodrigues e popularizado com o nome de Fado de Peniche. Consegue perceber porquê? E consegue perceber porque, apesar do respeito que o regime salazarista tinha pela figura de Amália, já então artista de impacto internacional, a censura proibiu a divulgação deste fado? E o próprio Alain Oulman, seu compositor, veio, mais tarde, a ser expulso do país pala PIDE?

Porquê tudo isto? Basta ler com inteligência todo o poema, não apenas os dois ou três versos que, provavelmente, o seu assessor lhe segredou. Sabe onde é o “longe” onde foi encerrado o destinatário do poema? É Peniche, Forte de Peniche, prisão de antifascistas. Por isso, “…E apenas ouves o vento/ E apenas ouves o mar”. E, já agora, para que nada fique por dizer: apesar deste canto ser reconhecível e apropriável por todos os oprimidos e presos pela ditadura, sabe de que personagem fala o poeta, a que o inspirou? Foi, o próprio poeta o garantiria mais tarde, Álvaro Cunhal, que tinha sido encarcerado em Peniche, onde ficou preso 11 anos. É com ele que V.Exa, se está a identificar na sua trôpega incursão poética. Que desmedida ousadia! Ou, talvez, que imprudente tolice.

(Ou então, se disto tudo sabia, olhe que algum jornalista ainda se vai lembrar de gritar que “Mário Centeno é comunista”! Mas não é, nós sabemos que não é, fique descansado)

Como ilustração deste comentário, aqui deixo, a quem quer conhecer ou relembrar, o poema em causa.

ABANDONO

Por teu livre pensamento

Foram-te longe encerrar.

Tão longe que o meu lamento

Não te consegue alcançar

E apenas ouves o vento

E apenas ouves o mar.

Levaram-te a meio da noite:

A treva tudo cobria.

Foi de noite, numa noite

De todas a mais sombria.

Foi de noite, foi de noite,

E nunca mais se fez dia.

Ai dessa noite o veneno

Persiste em me envenenar.

Oiço apenas o silêncio

Que ficou no teu lugar.

Ao menos ouves o vento!

Ao menos ouves o mar!

(David Mourão-Ferreira)


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