Olha o passarinho!

(José Pacheco Pereira, in Revista Sábado, 21/08/2015)

Pacheco Pereira

              Pacheco Pereira

Lá fora ouve-se pela enésima vez a Cabritinha, a Garagem da Vizinha, o Perfume de Mulher, Chama o António, e o Afinal Havia Outra. Um conjunto típico de passagem cantou de vivo corpo uma coisa a que chamou o “Vira da Troika”. Não se percebia uma palavra da letra a não ser que havia um coelho. Ninguém lhes liga mais nem menos. O que é isso da troika? Já se foi. O relógio do CDS já está desligado. Estes que cá vêm de vez em quando, são o fantasma da troika.

Lá fora está tudo bem e quase tudo como dantes. As tasquinhas, que na realidade é só uma, está cheia. O negócio vai bem. O que se consumia antes, continua a consumir-se hoje. Cerveja, cerveja, cerveja, frango assado, moelas, chouriça, morcela, bacalhau. Há uma roulotte de farturas e uma banca da Tupperware, uma novidade. Aliás a única novidade. O tempo parou? Não, o tempo não parou, anda é devagar. Onde não há factores de mudança, muda-se muito pouco.

Gente de sempre, os mais velhos. É uma terra de velhos, como quase todo o País. Os mais novos foram- -se na maioria. Estão em Angola para as obras, e devem estar a regressar. Foram para Lisboa, ou andam por aí com trabalhos de circunstância ou desempregados. De que vivem? Não se sabe, ou sabe-se demais. É certo que o mesmo Coelho do “Vira” diz que a culpa é deles. Se calhar é, mas é por não fazerem outras coisas. É o mal da terra, da nossa terra maior, Portugal.

Claro que há outros sinais. Quase metade das casas estão à venda. São ruas de “vende-se” casa sim, casa não. Isto aumentou exponencialmente nos últimos quatro anos. À venda e não se vendem. Não há actividades económicas locais a não ser um café, um café-restaurante e um minimercado. Há uma pequena empresa de construção civil. Já houve muito mais, cabeleireira, mais mercearias, restaurante, pecuária, aviários e, muitos anos atrás, vinho, agricultura.

Não há uma única fábrica. Compreende-se. Quem é que abre aqui um negócio apesar de estar a 45 minutos de Lisboa, numa terra que deixou de ter posto de saúde, posto de correios e que para toda a burocracia exige que se ande 15 quilómetros, sem um sistema de transportes capaz? Com excepção de uma camioneta de manhã e outra à noite, só táxi a pedido e muito caro para os recursos das pessoas.

Fechou a escola. Fechou o centro de dia. Fechou o atendimento médico. Fechou a farmácia, agora há um posto que precisa de encomendar os medicamentos de um dia para o outro.

Com a fusão das freguesias, a proximidade da Junta deslocou-se para outra aldeia, e já não é próxima. Parece pouca a distância? É enorme, são dois mundos que se fizeram com outros “centros”, como dizem os geógrafos, e o resultado é que a ordem administrativa não tem qualquer relação com a realidade. Poupou-se algum dinheiro? Duvido, mas a qualidade dos serviços, apesar da enorme dedicação dos autarcas, vai -se deteriorando. Deixou de haver limpeza regular, só há pontual.

A gente olha para o passarinho como nos mandam os cartazes do PAF. É verdade que parece não ter havido nenhum cataclismo com a chamada crise, mas há uma usura em várias coisas que significavam melhorias e progresso, andou-se para trás, não no que era inútil, mas no que significava o progresso material de uma terra ou seja o aumento das oportunidades para quem cá vive. Só isso, cada vez mais oportunidades e não cada vez menos. Será que nos gabinetes já se sabe o que isso é?

Há um pó fino de desgaste nas pessoas, e nas coisas, e não há qualquer dinamismo e futuro. Só longe. Até a música da Festa é hoje pior, muito pior. Não há dinheiro para comprar mais do que uma cassete, ou melhor, os direitos de autor destas músicas que passam em festas. Não há dinheiro para contratar melhores conjuntos e cantores. Ficamos presos na Cabritinha, que é de 2004, na Garagem da Vizinha e no Afinal Havia Outra que são de 2000. Na verdade, as datas das canções são até mais modernas do que o tempo para que Portugal recuou, meados dos anos 90.

O poder aquisitivo das pessoas não é suficiente para justificar virem mais atracções, e onde antes havia matrecos e tiros, artesanato e outras distracções e pequenos comércios, hoje há farturas e algodão de açúcar. Ah! e os Tupperware. Ponto.
É importante haver tirinhos? Perguntarão os que gozam profissionalmente com estas coisas, do alto do seu conforto serventuário ao poder? Não, não é importante haver tirinhos, nem matrecos, nem artesanato, nem nada em si mesmo, o que é importante é haver coisas que melhorem e não que andemos para trás.

Nenhuma destas coisas é vital, mas vinham como agora se diz “em pacote”, moviam-se junto com outras que desde o 25 de Abril mudaram Portugal. Como ter um razoável serviço de correios, médico na Casa do Povo uma vez por semana, e algum trabalho e comércio local: tudo coisas irrelevantes, como agora se diz, de um “País que vivia acima das suas posses”.

Isto é “Portugal profundo”? Não, isto é Portugal, o meu muito amado país. Rude, pouco qualificado, sem grandes exigências, que só se move quando sai para fora daqui e pode, depois, voltar daqui a 10, 15 anos diferente.

É só Portugal que é assim? Não, é muita da Espanha, da Itália, da Grécia, do Sul da Europa, dos países do Leste, e também alguma coisa do Norte, mas mais escondida por outra parte que já não é assim.

A minha querela com o PAF, um excelente nome se corresponder ao gesto, é que eles não conhecem nada disto e estão absolutamente indiferentes a que “este” Portugal, que nem sequer é o dos mais pobres, mas que arrasta consigo na sua melhoria os mais pobres, avance. Pelo contrário acham-no um anacronismo, em detrimento de deslumbramentos vários e interesses muitos.

É por isso, por esta usura do tempo do futuro e do tempo das pessoas, que estamos pior neste ano da graça de 2015. Se houvesse na oposição a Sua Majestade outra competência, era isto que estava em causa nas eleições. Olha o passarinho!

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