A morte de BB, aquele que sabia bem onde estava no 25 de Abril

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Durante meses publiquei as crónicas de Baptista Bastos do Jornal de Negócios e também do Correio da Manhã, sempre que conseguia ultrapassar a aversão de visitar este último.

Baptista Bastos era senhor de uma prosa magnífica e de um refinado domínio da palavra, um português sempre cerimonial mesmo quando escrevia sobre casos simples, da vida dos mais simples, mas que nunca eram pequenos casos porque se transformavam em grandes paradigmas quando tratados pela sua pena.  É sempre com mágoa que vemos partir um viciado da liberdade, um lutador pela democracia, um artífice da palavra e do verbo a servir a liberdade e a democracia.

Que fiques entre flores, Baptista Bastos, para todo o sempre. Qual Cão Velho entre flores, como intitulaste um dos  teus mais emblemáticos romances que nos deixas.

Estátua de Sal, 09/05/2017


(In Diário de Notícias, 09/05/2017)

1934-2017. Conhecido como colunista nos últimos anos, começou na António Arroio pois queria ser arquiteto. Foi das palavras, apenas

Quem morreu hoje aos 83 anos nunca ponderou retirar o “P” do nome à conta de modernices e por isso ficou sempre Armando Baptista-Bastos. Havia esse cuidado nas redações em evitar um deslize que irritaria o jornalista, o escritor e o polemista que ficou conhecido por muitas reportagens e entrevistas, bem como o género que gostava de cultivar: a crónica. E livros, muitos, reeditados há uns anos em género de obras completas. Mesmo que a frase que mais lhe estava agarrada à pele nos últimos anos fosse “Onde é que você estava no 25 de Abril?”, que era a pergunta que lançava de rajada no início de um conjunto de entrevistas que fez. Sobre esse tema, desiludido com os passos atrás na Revolução de Abril, escreveu Elegia Para um Caixão Vazio. Está tudo dito.


Fonte aqui: Óbito – A morte de BB, aquele que sabia bem onde estava no 25 de Abril

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A tragédia dos êxodos

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 20/10/2016)

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Uma pergunta, entre outras, prementes e necessárias: para que serve a União Europeia, nas circunstâncias actuais?


A União Europeia já não é o que se pensou vir a ser, e a ideia de que tudo seria uma unidade perfeita de entendimento e de solidariedade cedo se verificou ser um desconchavo. Quem tem ganho com a ideia (ideia, aliás, generosa e límpida) tem sido a Alemanha, cujo enriquecimento e poder aumentam. A imprensa e os políticos nada de importante dizem acerca deste florescimento da riqueza unilateral. No entanto, as coisas parecem estar cada vez mais complicadas, com o florescimento alemão das tendências belicistas. Nenhum destes factos tem merecido a atenção que a sua natureza exige, e Angela Merkel é contestada pela vacuidade dos seus propósitos.

No entanto, um outro fenómeno político parece crescer entre a inanidade e a aceitação da hegemonia germânica. A Hungria tem sido a nação com mais desenvoltura em contestar esta cedência. Toma decisões unilaterais, a condizerem com a natureza da sua História e dos seus propósitos. Francisco Louçã, cuja voz devia ser mais escutada, pela especificidade do seu estudo e pela natureza das suas afirmações, já advertiu que a União Europeia, assim, não vai lá, e prognosticou o seu fim próximo. Sobre os vinte e sete países, que constituem a União, pouco ou nada sabemos. Tomamos ligeiro conhecimento de que a extrema-direita alemã está a subir, mas nada de importante do que ocorre é noticiado.

A Itália tem sido removida para os escalões do esquecimento, e a discussão de ideias desapareceu por completo das nossas intenções. A referência à democracia tem sido iludida pelas várias modalidades da lógica do mercado, e pouco se fala, ou fala-se esmorecidamente, dos verdadeiros problemas que afectam as sociedades modernas. Uma pergunta, entre outras, prementes e necessárias: para que serve a União Europeia, nas circunstâncias actuais? O discurso neoliberal passa ao lado das questões fundamentais do nosso tempo, e ignora as modalidades da organização e da partilha do poder que constituem as grandes modalidades do nosso tempo. A União Europeia é disso espelho e preocupação.

Que aconteceu à Hungria quando resolveu cerrar as suas fronteiras, rodeá-las de arame farpado e “precaver-se contra os motins adivinháveis”, como afirmaram os seus dirigentes? Estive dez dias doente e a prostração forçada permitiu-me aceder à grande imprensa, a fim de me informar das ocorrências. Nada de novo assinalei. A não ser as ocorrências em Calais, e as ninharias de umas opções governamentais, destinadas mais a “salvar a cara” do que a resolver a tragédia dos êxodos. O mundo atingiu um estado de indiferença assustador, e nada conseguimos com a leitura dos textos. Há um vácuo no pensamento europeu, conducente a uma indiferença humana que não é única na história dos povos.

O que tem caracterizado a lógica da perda da razão democrática é o surgimento de “valores” da sobrevivência e todo o custo. A Europa actual não serve de modelo a ninguém. A ganância, a ausência de normas valorativas, tornaram-se vectores do pensamento comum contemporâneo.
Estamos reduzidos ao modelo da lógica do mercado. O que quer que essa lógica signifique. Manifesta-se, cada vez mais acentuadamente, ao espalhar do desaparecimento dos princípios democráticos, substituídos por uma falsa noção de valores. Andamos um pouco à-toa, e vamos envelhecendo sem grandeza e com pouca dignidade. E é preciso muito cuidado com o caminho que temos tomado.

Embaraços na chamada União Europeia

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócos, 12/08/2016)

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Baptista Bastos

Estabelece-se esmerada confusão entre o propósito e o realmente tido como tal. O recente imbróglio, estabelecido na “União” Europeia, durante meses, a fim de apavorar Portugal e Espanha, resultou numa coisa pífia, afinal conducente a um resultado nulo. Mas preocupou populações durante meses. O próprio presidente da UE alimentou esse equívoco, especialmente provocado pela Alemanha. O mal-estar desenvolveu-se durante meses. E criou embaraços insistentes em países como Portugal. Entendeu-se que esta Alemanha deseja, antes de tudo, criar um nivelamento com duas nações a dirigir e o resto a ser dirigido.

Nada disto é vital, nada disto é normal e escapa ao equilíbrio estabelecido pelos ideais fundadores da União Europeia, que desejavam um equilíbrio de forças impeditivo de qualquer hegemonia. A ideia, generosa, é antiga, e nunca deu resultado, acicatando, pelo contrário, as históricas tendências dominantes germânicas.

Quem manda e quem dirige a Europa actual? O duo Alemanha-França é falacioso. A importância dos alemães advém do seu poder económico, da sua necessidade de desenvolvimento territorial que explica e justifica o seu poder. França obedece a uma estratégia antiga, que determinou a sua minimização. A história da invasão alemã é suficientemente elucidativa. E os livros e os filmes dessa miséria moral são elucidativos das componentes vitais de um tempo e de uma época desastrosos.

A União Europeia é tudo menos aquilo que a expressão pretende enunciar. Constituiu para nós, portugueses, uma ignomínia. As comissões dirigidas por Sócrates ou Passos Coelho, cuja subserviência em relação a Angela Merkel assumiram, tiveram sempre as características de total sujeição. E as coisas não vão melhorar. Alguns países não escondem a incomodidade em submeterem-se às injunções alemãs, ameaçando abandonar a União. Esta, devido a circunstâncias especiais, tem sido dirigida pela gestão de Direita, com os resultados conhecidos e uma crescente incomodidade da parte de alguns recalcitrantes.

Isto, para assinalar que as coisas não correm no melhor dos mundos. As grandes questões são constantemente ocultadas ou dissimuladas, e a recente saída do Reino Unido assinalou os abalos que a União atravessa. As coisas estão seriamente ameaçadas, e não se trata, apenas, da supremacia alemã, mas sim das próprias debilidades da construção do projecto. As coisas estão à vista, e nem os discursos apaziguadores dos dirigentes europeus conseguem neutralizar o mal-estar que se vive na Europa.