Entre ruínas e morte

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/04/2020)

Miguel Sousa Tavares
“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”

1 O que nos propõem é simples e convém que todos estejam cientes da proposta, para que cada um carregue consigo o fardo da escolha: os que não morreram da doença não querem agora morrer da cura. E morrer da cura é continuar a deixar a economia em coma induzido, sem a trazer de volta à vida. Devagar, por sectores, com vários cuidados recomendados e diversas precauções. E, ao mesmo tempo, libertando a população da prisão domiciliária onde estamos todos encerrados, mas por fases e segundo critérios etários: primeiro, adultos saudáveis, na força da idade laboral; depois, jovens; e, a seguir, crianças. Porém, há uma excepção, e disso depende o êxito — ou a ousadia — de todo o plano: os velhos devem continuar encerrados, porque representam um perigo sanitário público e uma ameaça à sustentabilidade dos serviços de saúde. Devem, então, ser mantidos longe da vista, afastados de qualquer contacto com os outros, até que haja uma vacina e a sua distribuição seja universal — talvez no Verão do próximo ano, na melhor das hipóteses. Encerrados em casa sozinhos e entregues a si mesmos ou fechados em lares, em hotéis, em pavilhões, onde for. Confiados à cura de profissionais, de voluntários ou, se necessário, das Forças Armadas.

Muita coisa vai mudar depois disto passar, dizem alguns. Vamos ter de olhar para a vida de maneira diferente, juram. Uma das coisas que talvez mude é a ideia de que vale a pena viver tanto tempo.

2 Muitos deles, aliás, já cumpriram a sua função, deixando-se abater ao activo, vítimas do vírus ou de outras doenças que, por força do vírus, não foram tratadas ou eles próprios não quiseram tratar. Aqui, como em Espanha, um terço dos mortos da covid ocorreram em lares onde os velhos estavam acantonados e foram apanhados sem defesa, a coberto de uma ilusão de segurança que, de tão frágil, chega a parecer indiferença. Quando um utente infectado num lar é retirado dele, consegue recuperar cá fora e depois é devolvido ao lar onde permanece o foco de infecção, que outra palavra podemos usar que não indiferença?

3 Tal qual como os 90 trabalhadores cingaleses das estufas de Odemira, ou os 70 nepaleses do Algarve, ou os 130 ciganos de Moura — quando aparece ali algum infectado, a solução é simples: fecham-se todos juntos onde puder ser, mesmo que, no limite, isso signifique a infecção de todos. Em Moura, rodeou-se o acampamento cigano de arame farpado e colocou-se a GNR a vigiar todas as passagens, para que ninguém pudesse entrar ou sair. Chamem a isto o que quiserem, eu chamo-lhe um campo de concentração, por provisório que seja. Há dias, a ministra da Agricultura dizia que talvez se pudesse pegar nos novos desempregados e enviá-los para trabalhar no campo. Julgo que a ministra, que já percebi ser uma entusiasta do olival intensivo do Alqueva e desse tipo de agricultura “industrial” predadora, se estava a referir a essa mão-de-obra que agora vai escassear. Que vive em contentores, que trabalha sem horários e que nenhum sindicato protege. E que, acha ela, os desempregados talvez quisessem substituir. Não sabe do que fala.

4 Olho para as previsões internacionais económicas e a primeira conclusão que tiro é de que todos estão à espera que nada de essencial mude depois de tudo isto passar — e se tudo isto passar, o que também têm por adquirido. Aparentemente, a nata dos economistas do mundo acredita que vamos todos produzir o mesmo, consumir o mesmo, viajar o mesmo, trabalhar da mesma maneira, investir igual. E, por isso, assim como prevêem quedas a pique no PIB de todos os países em 2020, logo prevêem substanciais recuperações em 2021. Oxalá, por uma vez, estejam certos!

Para Portugal, o FMI prevê uma queda do PIB de 8% este ano e uma recuperação de 5,5% já em 2021, com a dívida pública — que tanto custou a fazer baixar até aos 120% do PIB — a disparar de novo até aos 135%. Parece-me, apesar de tudo, demasiado optimista, assim como me parece optimista esperar que os 13 mil milhões que o Governo espera despejar nas empresas e nas famílias chegue para segurar as coisas até passar o grosso da tormenta. Porque, mesmo depois disso, vai haver mais subsídios de desemprego para pagar, mais apoios às empresas para manter, menos receitas na Segurança Social e no Fisco, e tudo isso vai entrar por 2021 adentro. Mas há muita gente que ainda não percebeu que, quando tudo isto assentar, a conta terá de ser paga. Como? Conhecem outra maneira que não seja a de aumentar mais os impostos a quem ainda estiver vivo? Como disse o ministro Siza Vieira, “a despesa do Estado hoje são impostos amanhã”. Só não o percebe quem não paga impostos.

5 É evidente que há muitas coisas que a China ainda terá de explicar ao mundo e muitas coisas que a China terá de garantir ao mundo que não voltam a acontecer por lá. E talvez a OMS tenha também de explicar a forma como tratou inicialmente os dados vindos da China, mas isso, como disse António Guterres, é uma conversa para ter depois. Agora, a meio de uma crise de saúde planetária de uma dimensão jamais vista, cortar o grosso do financiamento da OMS, quando ele é mais necessário do que nunca, é coisa que só podia ser levada a cabo por um tipo tresloucado, cruel e obcecado com a sua reeleição, antes de tudo o mais. Numa longa e terrível reportagem em dois hospitais do Bronx, esta semana, “The New York Times” recolheu o depoimento de médicos dizendo o que toda a gente teve ocasião de perceber por si mesma: que as semanas que Donald Trump levou a não querer aceitar a gravidade do coronavírus custaram milhares de mortos americanos. E é por isso, e também por não conseguir explicar como é que o país mais rico do mundo foi apanhado completamente desarmado em termos clínicos para esta crise, que ele procura todos os dias um novo culpado que possa desviar as atenções de si próprio. Este é o homem mais perigoso do planeta e está à frente da nação mais poderosa do planeta. E pensar que Marcelo o convidou para visitar Portugal! E que, para cúmulo da humilhação, ele desdenhou e recusou o convite!

6 “António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
— São tristes? — perguntava o velho.
— De chorar rios de lágrimas — garantia o dentista.
— Com pessoas que se amam mesmo?
— Como ninguém nunca amou.
— Sofrem muito?
— Eu quase não consegui suportar — respondia o dentista.
Mas o doutor Rubicundo Loachamin não lia os romances.”

E você, leitor, já leu isto em algum lado? Se não leu, leia agora, porque “o velho que lia romances de amor” já não os escreverá mais. Luis Sepúlveda perdeu para o inimigo sem rosto chamado covid uma vida em que nunca perdera para os inimigos com rosto, chamassem-se eles Pinochet ou outros cujo apelido também era morte. Uma vida que foi em si mesma o maior dos romances que escreveu e que, por isso, só lendo-os se percebe que valeu mesmo a pena ter sido vivida. Faz-me raiva pensar que um tão grande sobrevivente, um tão imenso vivente, tenha sucumbido a uma tão traiçoeira emboscada.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


“Ligação de Bolsonaro aos suspeitos de matar a Marielle é aterrorizante”

(In Diário de Notícias, 09/03/2019)

Um ano depois do crime, Fernanda Chaves, a assessora que seguia no carro e sobreviveu, conta ao DN os pormenores daquela noite, quais as suas impressões da investigação e porque, desde então, prefere omitir o seu paradeiro.


Marielle Franco e Fernanda Chaves.

No dia 14 de março de 2018, uma rajada de tiros atingiu a viatura onde seguia Marielle Franco, no centro do Rio de Janeiro. A vereadora pelo PSOL (extrema-esquerda), cuja carreira política estava em fase ascensional, morreu no ataque. O motorista Anderson Gomes também. A terceira passageira, a assessora Fernanda Chaves, sobreviveu sem nenhuma consequência física.

Durante uma semana, para assinalar um ano sobre a execução, Fernanda enviou depoimentos áudio ao DN, a partir de uma cidade que prefere não revelar e durante o horário de trabalho de um emprego que também opta por omitir, sobre a noite do crime, a perda da amiga íntima e como o crime afetou a sua vida desde então.

Sobre as investigações, a jornalista de 43 anos age com prudência. “Não devo dar respostas, tenho é o direito de recebê-las.” Mas confessa-se assustada por a polícia suspeitar de uma milícia, o Escritório do Crime,cujos chefes têm forte ligação ao clã Bolsonaro.

Do que se recorda daquela noite?
Tínhamos saído por volta das 21.00 de um evento chamado Jovens Negras Movendo as Estruturas, com jovens negras ligadas ao cinema, à comunicação, à produção. Foi um encontro muito positivo, ficou lotado, e saímos muito satisfeitas. Muito satisfeitas, portanto, entrámos no carro. A Marielle foi para trás, coisa que ela nunca fazia, gostava de ir à frente, porque ela sempre foi muito do tipo copiloto, de reclamar com o trânsito e tal. Nesse dia, ela ainda chegou a abrir a porta da frente, mas atirou as bolsas para lá e brincou com o Anderson, dizendo que ele ia de motorista e ela de madame. Ele então puxou o banco para a frente para lhe dar mais conforto.

Marielle Franco e a assessora Fernanda Chaves.© D.R.

Ela queria ficar junto a mim porque precisávamos de escolher fotos do evento e, sobretudo, de combinar uma reunião do dia seguinte que estava a deixá-la ansiosa, já que ela seria proposta como pré-candidata a vice-governadora do Rio pelo PSOL, ao lado do Tarcísio Mota. Penso que ela quis ir atrás, também, porque não queria expor muito essa ansiedade perante o Anderson, até porque ele não era muito íntimo nosso, ele era o motorista substituto.

Estávamos também a falar sobre um artigo dela no Jornal do Brasil, que seria enviado nesse dia e que eu tinha revisto antes de chegar ao evento. Ela perguntou o que eu tinha achado, eu disse que mudara o título e outros detalhes. Vínhamos falando ainda com as famílias por WhatsApp, ela hesitava se passava numa padaria para levar um pãozinho para casa porque a Mónica [companheira de Marielle] estava meio febril e eu falava com o meu marido sobre a minha filha, que também estava febril. E, entretanto, ela ainda comentava sobre o jogo do Flamengo que tinha acabado de começar. Portanto, estávamos as duas com as cabeças baixas a olhar para os celulares quando, de repente, oiço um “eita”, algo do tipo, da Marielle, mas não em forma de susto, ainda acredito que a interjeição se referisse a alguma coisa que ela estivesse a ver no celular e não com algo em que ela tenha reparado do lado de fora. Foi nesse momento que chegou a rajada, os vidros estouraram, eu não vi nada, nada, nada, porque os vidros do Anderson eram de película muito escura, a Marielle estava do meu lado ombro a ombro, ela era grande, de cabelo volumoso, tapou-me a visão. O Anderson deu um “ai”, um gemido baixo, e eu percebi que as mãos dele soltaram o volante. Puxei então o travão de mão. Entretanto, ainda abaixada, com o rosto entre os bancos da frente e as pernas da Marielle, só pensava que tinha havido um tiroteio, porque naquele lugar, no Carnaval de semanas antes, isso havia acontecido. Por isso, saí rastejando para ver se via alguma movimentação por baixo da porta do carro.

Como estava tudo muito silencioso, comecei a chamar pessoas na rua, que se aproximaram, sem entender também o que tinha acontecido. Não encontrava o meu celular, perdido no carro, e pedi para uma senhora chamar uma ambulância. Disse, “por favor, avise que é uma vereadora!”. Mas ao dizer isso as pessoas começaram a tirar fotografias, a filmar, a gerar caos. A polícia chegou então ao local para isolar a área, já eu tinha visto o meu celular a piscar no chão do carro e por isso conseguido ligar para o meu marido e para um colega da coordenação do mandato. Para mim, àquela hora, a Marielle estava apenas desmaiada. É que eu sentia-me tão inteira, tão bem, apesar do sangue e dos estilhaços na cara, que não concebia que ela e o Anderson pudessem estar algo além de desmaiados. Nessa hora, o agente via rádio informou à minha frente “são dois mortos por tiro e uma sobrevivente”. Foi dessa forma que eu soube que a Marielle estava morta. Esse foi um dos piores momentos de todo este processo. Antes eu estava muito nervosa, trémula, abalada mas esforçando-me para ficar racional. Quando ouvi aquilo ali foi difícil não me descontrolar porque não tinha ninguém com quem dividir. E estava preocupada porque sempre trabalhei com a realidade da polícia do Rio e de repente via-me com vários agentes num lugar isolado, escuro. Lembro-me de que os agentes não tinham identificação no uniforme…

A ambulância, entretanto, chegou mas eu não queria deixar a cena. Os polícias até diziam “você não está sozinha, está aqui a polícia, você não confia na polícia?”, o que gerou uma espécie de “saia justa”. Mas o meu colega da coordenação e o meu marido entretanto chegaram e convenceram-me a entrar mesmo na ambulância. Acabei por recusar ir para o hospital e fui diretamente para a delegacia na Barra da Tijuca prestar depoimento durante toda a madrugada.

De então para cá, onde esteve?
Amigos meus, advogados da área dos direitos humanos, começaram logo a avaliar que seria importante para mim sair do Rio de Janeiro. E algumas pessoas da polícia também me aconselharam a sair de cena. Eu recebi essa informação como se me tivessem a dizer que bastava ir para o sítio do meu sogro uma semana. Só depois, ao não me ser permitida a ida ao funeral e a todos esses rituais de despedida por ordem de especialistas em segurança, é que eu comecei a entender a gravidade da situação e que eu precisava de sumir, de sumir mesmo do Brasil. O Marcelo Freixo [hoje deputado federal pelo PSOL e padrinho político de Marielle] falou-me, entretanto, da possibilidade de ir para Madrid, ao abrigo de um programa de proteção da Amnistia Internacional. E no dia seguinte bate à porta de casa a [antiga presidente] Dilma Rousseff, que foi de extrema sensibilidade e explicou-nos que a Marielle se tornaria um Chico Mendes [referência do ambientalismo mundial assassinado em 1988]. Ela disponibilizou-se para me ajudar com contactos de entidades fora do Brasil mas eu acabei optando pelo tal acolhimento da Amnistia Internacional, em Madrid, onde ficaria três meses, o tempo do visto.

Chico Buarque exibe placa em homenagem a Marielle Franco num comício de Fernando Haddad, candidato do PT, derrotado, nas eleições de outubro, por Jair Bolsonaro.© Ricardo Moraes/Reuters

Como eu saí do Rio achando que em poucas semanas o crime fosse resolvido mas depois senti que não havia expectativa de regresso, que não havia nenhuma informação das investigações, que o assunto até parecia ir morrendo, esses tempos foram muito difíceis emocionalmente. Contraí até uma infeção séria no ouvido, no processo. Quando melhorei, o meu marido, que é jornalista freelance mas teve de abandonar o escritório para ir comigo e com a minha filha de 7 anos, que esteve esse tempo todo fora da escola, insistiu que fizéssemos passeios para me distrair um pouco.

Quando eu estava num deles, em Paris, a polícia civil pediu-me para voltar ao Rio para fazer uma reconstituição do crime. Como a Amnistia Internacional é que teve de pagar essa viagem, que foi de última hora e cara, os fundos do programa que me mantinham em Madrid terminaram após dois meses e não três. Fui então para Roma, a conselho de um amigo diplomata que reforçou que era muito importante ficarmos afastados do Brasil enquanto durassem as investigações e nos acolheu em sua casa. Por lá, algures em junho, como já havia calor na Europa, tinha uma comunidade brasileira em redor e participei até em seminários no Senado italiano sobre direitos humanos a propósito do caso, eu já estava melhor de humor. Na passagem de junho para julho, recorri a um programa de proteção a defensores de direitos humanos no Brasil e voltei. Não voltei para o Rio. Eu não posso voltar ao Rio, o Rio não é opção, pelo menos enquanto não descobrirem os autores e os mandantes, sobretudo os mandantes, do crime. Estou noutra cidade. Eu não sou testemunha ocular, não tenho muito mais a contribuir com informações porque não vi nada, nem percebi nada a não ser a rajada de tiros, logo, não sou propriamente uma testemunha ameaçada. Mas, quando a gente não sabe quem disparou e quem mandou disparar, a gente não sabe como e de quem se proteger, não é? Eu trabalhei toda uma vida no Parlamento do Rio e veio à tona que parlamentares podem estar envolvidos, por isso como é que eu posso voltar a um lugar onde está gente que pode ser responsável do atentado a um carro onde eu estava?

Escola de samba Vai-Vai homenageou Marielle Franco nos desfiles de Carnaval.© Amanda Perobelli/Reuters

Em que cidade está e em que está a trabalhar?
Prefiro não divulgar ambas as informações. Assim como prefiro não partilhar dados ou fotografias da minha família, do meu marido, da minha filha. Espero que compreendam.

Qual a sua opinião sobre a investigação?
Durante esse tempo todo eu tenho evitado divagar sobre as possibilidades da autoria do assassinato. É uma posição pensada porque eu sinto que não tenho de dar respostas, tenho é de recebê-las: o estado brasileiro, a polícia é que me está a dever respostas a mim, a todos nós, ao mundo. No entanto, não dá para negar, pelo perfil do crime, pela arma utilizada, que há envolvimento de milícias. E não é novidade que a família do presidente Jair Bolsonaro tem ligação com as milícias – ele já as exaltou e o filho dele homenageou polícias envolvidos em milícias.

As milícias são grupos armados compostos por polícias, bombeiros, agentes penitenciários – uma espécie de braço armado do Estado atuando no crime, portanto. No fundo, são máfias, porque dominam territórios, cobram às populações por serviços de gás, televisão por cabo ou aluguer de forma criminosa. E agem sobre decisões políticas. As ligações de Bolsonaro e do filho, através de muitos membros dos seus gabinetes, a milícias e, mais precisamente, ao grupo miliciano acusado de executar a Marielle, são aterrorizantes. E têm de ser investigadas e cobradas. Mas a minha avaliação sobre o assunto acaba aí. Quem tem de falar são as autoridades.

Porque acha que a queriam matar?
A Marielle foi morta por causa do seu pensamento: foi um crime político. E a extrema-direita tem que ver com esse crime bárbaro. E as milícias estão ao serviço da extrema-direita. Basta ver quem são os políticos que as homenageiam e quem são os políticos que elas ajudam a eleger. É assustador. E o Brasil tem de dar uma resposta para o mundo.

Marcelo Siciliano, deputado estadual pelo PHS, chegou a ser dado como responsável. Ele nega e afirma-se amigo de Marielle. O que acha?
Acho uma loucura. Diz-se que seria por uma disputa de território mas a Marielle não fazia disputa territorial, não era esse o tipo de atuação dela. Por isso, parece-me um engano. Ou uma enorme cortina de fumo.

Manifestante participa em protesto pela morte de Marielle Franco em frente à embaixada do Brasil em El Salvador, em março de 2018.© Jose Cabezas/Reuters

Jean Wyllys, deputado do PSOL, abandonou o Brasil por medo das ameaças. A Marielle era ameaçada? Vocês tinham medo?
A Marielle impressionava-se muito com a situação do Jean. Os deputados do PSOL do Rio encontravam-se com frequência, fosse em reuniões, fosse em atividades de rua das sextas-feiras, fosse até num bloco de Carnaval. E o Jean nunca estava. E não estava por causa das ameaças. A Marielle sempre dizia que não suportaria o que o Jean suportava, que jamais conseguiria viver ameaçada, que jamais conseguiria viver enclausurada. Ambos são alvos da extrema-direita, que vive de ameaças. E, quando não ameaça, mata mesmo em vez de disputar ideias na base do diálogo. Agem como monstros, como primatas.

Nós tínhamos medo da violência, claro, como quaisquer cidadãs cariocas. Mas não tínhamos medo de que acontecesse algo do tipo do que aconteceu. Se tivéssemos, teríamos tomado alguma atitude. Ela nunca foi ameaçada, nem de forma implícita. No máximo, de vez em quando havia um ataque de ódio ou outro nas redes sociais. E ela era especialista em segurança, por isso jamais negligenciaria esse lado. Até porque, além do mais, ela era uma apaixonada pela vida. O que ela tinha, por outro lado, era preocupação com as pessoas em redor porque nós tínhamos no gabinete outras mulheres faveladas, negras, LGBT, transexuais, pessoas de religiões de origem africana que, pela roupa ou por outro motivo, causavam incómodo até em vereadores que se recusavam a subir no mesmo elevador… Com ela própria, no entanto, nunca detetámos algo suspeito.

Seria Marcelo Freixo, que tem um histórico de ameaças de milícias, o alvo dos criminosos?
Não, não acredito. Mas acho que quem matou a Marielle quis assassinar uma ideia e aí o Marcelo está incluído, como padrinho político dela, por se sentir que ela era uma continuidade dele.

Familiar de Marielle Franco chora sobre o seu caixão no dia a seguir à sua morte, a 14 de março de 2018.© Ricardo Moraes/Reuters

Qual a sua relação com a Marielle?
Eu conheci-a em 2006, através do Marcelo, na Lapa, lembro-me bem do dia. Eu fui coordenadora de campanha dele a deputado estadual e ela, que já atuava na favela da Maré e cursava Sociologia, começava a aproximar-se da política. Trocamos contactos e passamos a conversar muito. Eleito, o Marcelo convidou-nos a trabalhar com ele. Tornámo-nos colegas, depois amigas, fomos madrinhas de casamento uma da outra, e ela foi madrinha de consagração da minha filha. Entretanto, fui para a Bolívia como correspondente do jornal Brasil de Fato, depois passei por Brasília, como assessora de um outro deputado, mas mantivemos sempre o contacto. Eu participei à distância na campanha dela. E estava com ela no dia da eleição, quando ela se virou e perguntou: “E agora? Tamo junto?” Aí, uns quatro dias depois ela liga-me a perguntar como estava a correr a mudança de Brasília para o Rio. Eu disse: “Espera aí, Marielle, eu te ajudo mas daqui.” Ela respondeu: “Não, você teve a vida toda a fazer assessoria para homem, agora eu fui eleita, não abro mão de te ter aqui na coordenação, conto com isso.” Falei com o meu marido, ele sentiu-se empolgado, e não era para menos porque a eleição dela coincidia com a eleição de um bispo da IURD para prefeito [Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo], o que era extraordinário, empolgante, de facto. E foi assim.

Marielle Franco numa fotografia do seu Facebook com a data de 2 de agosto de 2017.© D.R.

Um ano depois, como vai viver a data?
Estou muito contente porque no dia em que se completa um ano estarei na Universidade de Princeton a convite da [ativista negra norte-americana] Angela Davis, que a Marielle idolatrava, a assinalar a data e a homenageá-la. O nome da última iniciativa em que ela participou, Jovens Negras Abalando as Estuturas, era até baseado numa frase da Angela. Estou contente não apenas pelo evento mas porque saio do Brasil: seria doloroso estar novamente aqui mas afastada dos ritos, das missas, das orações. Não poder ter dado ainda um abraço nos pais da Marielle ou na Ágata, a mulher do Anderson, é talvez o mais difícil.


Metam-se na vossa morte

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 25/05/2018)

quadros

Qualquer dia, até morrer mata! Que chatice! Já não se aguenta este tipo de informações. Agora faz tudo mal à saúde. Já não bastava o álcool, a carne de porco, o tabaco, o sal, o açúcar, agora, até a eutanásia mata!

Representantes de oito comunidades religiosas, com “perspectivas distintas” sobre muitas matérias, estiveram esta quinta-feira reunidos com o Presidente da República, a quem transmitiram estar “absolutamente convergentes” em relação à eutanásia, que consideram ser “um retrocesso civilizacional”, tal como a lei do aborto, dos casamentos homossexuais, da adopção gay, do divórcio, etc.

As comunidades religiosas estão assustadas com este retrocesso civilizacional. Se isto continua assim, qualquer dia ainda acabamos a fazer exorcismos, a canonizar pastores ou a andar quilómetros de joelhos por acreditar em milagres.

Católicos, evangélicos, judeus, muçulmanos, hindus, ortodoxos, budistas e adventistas foram recebidos por Marcelo Rebelo de Sousa, e foi um bocado confuso porque o PR não sabia se podia cumprimentar todos com beijinhos. Por exemplo, os budistas, que tinham tomado uma pastilha, já queriam abraços e carícias.

Imagino que, se Marcelo tirou a habitual selfie, com toda aquela gente, fique uma coisa parecida com um cartaz da Benetton.

Custa-me entender que os hindus estejam contra a eutanásia, porque para quem acredita na reencarnação, no fundo, isto é deixar outro ser à espera. Está ali um indivíduo em sofrimento quando já podia ter falecido e regressado ao mundo como uma bonita e saudável gazela e andar a correr feliz pela savana.

Esta ideia de que estar contra a eutanásia é “Lutar pela tua vida” faz pouco sentido. Na eutanásia, as pessoas não querem lutar pela sua vida, querem ter direito à sua morte. O que esta gente quer não é que as pessoas em estado terminal lutem pela sua vida, mas sim pedir às pessoas que estão com saúde, e que não têm nada com isso, que se vão meter na vida e na morte dos outros.

Há na nossa sociedade uma espécie de glorificação do sofrimento. Basta ver as condições em que estão alguns doentes nos hospitais. Deve ser uma coisa que nos ficou do tempo da troika.

Entretanto, o PCP já veio afirmar que vai votar contra a despenalização da eutanásia. Para o PCP, o sofrimento faz parte da vida, daí o apoio ao regime do Maduro. Segundo o PCP, despenalizar a eutanásia “não corresponde a uma necessidade prioritária para a sociedade”, a não ser que entretanto o Sindicato dos Profissionais do sector funerário se manifeste por falta de trabalho.

O CDS também vai votar contra, como ficou bem expresso num cartaz onde o partido afirma que “A Eutanásia Mata.” Por esta é que eu não esperava! Que surpresa! Ia morrendo com esta revelação. Qualquer dia, até morrer mata! Que chatice! Já não se aguenta este tipo de informações. Agora faz tudo mal à saúde. Já não bastava o álcool, a carne de porco, o tabaco, o sal, o açúcar, agora, até a eutanásia mata! Irra!


TOP-5

Aguenta terminal

1. Governo chocado com falta de segurança na Academia do SCP – Provavelmente, precisava do mesmo tipo de segurança que o Governo tinha assegurado no Paiol de Tancos.

2. Pedro Siza Vieira acumulou funções de ministro com gerência de empresa imobiliária. Ministro adjunto abriu empresa imobiliária um dia antes de tomar posse como ministro – Isto é de quem acredita que a sua participação no Governo vai mesmo fazer crescer a economia.

3. Visita de António Costa a Luanda está a ser preparada e acontece em breve – Pelo menos, a justiça já fez a sua parte.

4. CM (sobre morte de Júlio Pomar): “morreu autor do retrato de Mário Soares” – Se morresse João Paulo II, escreviam: “Morreu o dono do papamóvel.”

5. Respeito institucional imbuído de sangue verde – Mas o Grupo Stromp não é só gente de sangue azul?!