Balsemão, o Expresso e eu

(Carlos Esperança, in Facebook, 24/10/2025)


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Descansem leitores, não falarei das minhas relações com o ora defunto, em vida, claro, do cumprimento afetuoso, das refeições, do gosto em ouvir-me e de outros momentos que engrandecem o ego de tantos e, no meu caso, jamais aconteceram.

Só uma vez nos cruzámos, ele a entrar na SIC e eu a aguardar a ida a um programa, por presidir à Associação Ateísta Portuguesa. Devo-lhe dois ou três jantares, número igual de dormidas, e o pagamento de alguns táxis e bilhetes de comboio das deslocações entre Coimbra e Lisboa, nos dois sentidos. E, confesso, só agora pensei que teria sido ele.

Nunca esperei que no universo empresarial do grupo Balsemão, com Expresso, SIC ou qualquer outra publicação, nascesse um órgão anticapitalista. Apenas exigi informação decente, sabendo até que a decência tem limites, quando a ordem capitalista e interesses que a põem em causa estão em jogo. Paguei sempre o Expresso e este deu-me o mínimo que lhe exigi. Estamos quites nesta caminhada conjunta desde janeiro de 1973 até hoje.

O Expresso de hoje é dos mais desinteressantes de seus mais de 52 anos, ainda assim, a valer a pena, não pela informação, mas pelo que nele escreveram os que tiveram ou têm importância política. Esperava o panegírico do falecido, seria, aliás, ingratidão e motivo de incredulidade se assim não fosse.

Encontrei o depoimento dos que esperava. Mais uma vez, o Expresso não me desiludiu.

Não calculam o prazer que me deu Cavaco a falar de si próprio a pretexto de Balsemão e, em uma só frase, resumir a importância que se atribui e a dissimulação de que é capaz o neoliberal autoproclamado ideólogo da “social-democracia moderna”. Referindo-se ao Congresso do PPD na Figueira da Foz: “(…)  Balsemão liderou, com João Salgueiro, a lista de oposição à minha eleição para presidente do Partido”.

Quem descobre, entre a dissimulação e a hipocrisia, que João Salgueiro era o candidato e ele a criação inesperada do golpe de Marcelo, com proponentes falsos, garantidos por A. João Jardim, os da Madeira, para levarem o salazarista a líder do PPD? Derrotaram quem Marcelo designaria “um dos seus [de Portugal] mais brilhantes economistas da segunda metade do século XX”. Na morte, pois claro.

O resto da desgraça é conhecido. Deixo aqui, mais uma vez, o nome dos que apostaram em fazer regressar ao poder, por via democrática, a velha política, surgidos no início de 1984, organizados, sob o pseudónimo de “Nova Esperança”: Marcelo R. Sousa, José Miguel Júdice, Santana Lopes, Durão Barroso e António Pinto Leite. E triunfaram!

Já me alonguei e fico por aqui com a imensa mágoa de ver Ramalho Eanes a referir-se à ditadura por «Regime anterior». E votei eu neste militar de Abril contra o PSD e o CDS!

Não vou agora falar mais de Marcelo, do homem que escreve e fala bem e trai melhor.

Termino com a foto do ecrã do meu televisor (na imagem acima) quando Francisco Pedro Balsemão, filho do falecido, se referia aos Hipócritas e Tartufos que traíram o pai, alguns ali à espera da hóstia, «na altura em que foi injustiçado pela classe política» (sic).

Notas Soltas, entre a ironia e a cólera

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/04/2025, Revisão da Estátua)

Os cravos já não são vermelhos… (Imagem gerada por AI)

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Ministério Público – Na terceira vez que entrou em período eleitoral, prejudicando o PS, criou uma investigação preventiva para arquivar suspeitas graves sobre o líder do PSD; depois, inventou outra para, através da imprensa, criar suspeitas sobre o líder do PS.

Primeiro-ministro – Montenegro foi à Madeira inspirar-se em Miguel Albuquerque para aprender com o exemplo a ganhar as eleições. Não foi por acaso que prometeu continuar a governar(-se), mesmo que fosse constituído arguido. É a ética a render votos.

Funeral do Papa – Marcelo, Montenegro, Aguiar Branco e Paulo Rangel vão ao funeral do Papa, e deixam o Moedas. Acompanham o Papa à última morada, mas regressam. É, aliás, o regresso que preocupa, depois de gozarem a época baixa da hotelaria romana!

André Ventura – O homem é tão pequenino que cabe numa casa de 30m2 onde cabem ainda o Moedas e as malas do Miguel Arruda. Trump há de orgulhar-se dele por ver no discípulo um modelo tão inspirador.

Ministério da Administração Interna – Em 14 de abril disse ignorar em absoluto o apagão do capítulo sobre a extrema-direita do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) e como o Governo não mente só pode presumir-se uma relação difícil com a verdade e fácil com o álcool. (Ver na imagem ao lado).

Presidente da República – O homem gosta de funerais, mas podia ter-nos poupado às suas divagações sobre a vida eterna e à convocação dos telespetadores para comunicar estados de alma às 20h quando podia não o fazer ou tê-lo feito a qualquer hora.

25 de Abril (1) – Depois de ter substituído o Primeiro-ministro, o Presidente da Assembleia da República e a maioria, e alterado a correlação de forças na Assembleia da República, o Presidente da República não podia desejar melhor, para preitear o pai, do que deixar o país de luto no 25 de Abril e com as forças antidemocráticas à solta. Isto não se inventa.

25 de Abril (2) – A emigração do Estado e o luto papal no dia da Liberdade é a maior canalhice dos últimos 51 anos pós Abril. Isto é o recreio do Presidente da República, Primeiro-ministro e Presidente da Assembleia da República que exoneram o patriotismo, a democracia e a decência e transformam o Estado em offshore da democracia.

Morreu Francisco – Take 2

(Carlos Esperança, in Facebook, 22/04/2025, Revisão da Estátua)


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Para lá do escândalo da TV pública a dedicar infindáveis horas dos três canais à morte do Papa e das piruetas dos que nunca o apreciaram, surpreendeu a transferência dos comentadores das guerras na Ucrânia e na Palestina para o comentário pio.

Podiam ter-nos poupado a ouvir tantos padres e bispos, e a ver tantas batinas e tantos colares romanos a emoldurar cachaços eclesiásticos, enquanto o mundo continuou a girar e as outras notícias importantes foram omissas!

Quando disseram que Francisco sucedeu a um Papa erudito, ignoraram o valor dele e a razão dos padres jesuítas, os mais preparados, não quererem ser bispos, salvo em casos excecionais, o motivo por que foi ele o primeiro Papa oriundo dos discípulos de Loyola.

Foi inaceitável a manutenção do protocolo salazarista na declaração de três dias de luto para chefes de Estados amigos falecidos em funções, pelo que ele, Salazar, decretou três dias de luto insólito por Hitler, em teimoso zelo fascista que os Aliados ignoraram.

Era importante dizer por que motivo provável Francisco optou pela Casa de Santa Marta, onde morou desde a eleição em 2013, mais salubre do que os aposentos papais e com menos riscos alimentares ou medicamentosos em vez do habitat tradicional do Vaticano.

Talvez o desejo de ser enterrado longe dos antecessores revele uma mensagem do único Papa jesuíta, o que infligiu uma colossal derrota ao Opus Dei seita que, após dois papas seus, fracassou com Francisco, para azedume de todos os Venturas do mundo.

Ver os próceres das religiões concorrentes que não poupam a vida aos crentes das outras religiões a manifestar consternação pela morte de Francisco, é como ver um vegetariano com sanduiches de leitão na marmita ou um pacifista com o cinto de bombas à cintura.

Falta julgar os ratos de sacristia portugueses eleitos para os mais altos cargos do Estado, inimigos da descriminalização da IVG, das leis da eutanásia, do planeamento familiar, e da autodeterminação sexual da mulher. É urgente analisar o mal que o catolicismo fez às mulheres para impedir o que podem fazer religiões bem mais misóginas e perversas.

Foram pobres os testemunhos dos eclesiásticos sobre o Papa Francisco e oportunistas os dos políticos que se colaram ao cadáver na suposição de que renderá votos. Até o tartufo Ventura teve direito a um comício pio antes do tartufo-mor, um parasita da fé, ir debitar às 20h um ror de adjetivos laudatórios. E desperdiçou-se a oportunidade de discutir a discriminação da mulher nas Igrejas incluindo a do Papa que se finou.

Para quebrar a unanimidade podiam ter sido ouvidos João Monteiro e Ricardo Alves, respetivamente presidentes da Associação Ateísta Portuguesa e da Associação República e Laicidade no desfile no espaço televisivo onde até a tarologa Maya teve lugar.

As televisões preferiram ouvir as ovelhas mediáticas do rebanho católico com estúdios transformados em redis onde ecoaram redundantes e repetidos balidos encomiásticos!