A morte de BB, aquele que sabia bem onde estava no 25 de Abril

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Durante meses publiquei as crónicas de Baptista Bastos do Jornal de Negócios e também do Correio da Manhã, sempre que conseguia ultrapassar a aversão de visitar este último.

Baptista Bastos era senhor de uma prosa magnífica e de um refinado domínio da palavra, um português sempre cerimonial mesmo quando escrevia sobre casos simples, da vida dos mais simples, mas que nunca eram pequenos casos porque se transformavam em grandes paradigmas quando tratados pela sua pena.  É sempre com mágoa que vemos partir um viciado da liberdade, um lutador pela democracia, um artífice da palavra e do verbo a servir a liberdade e a democracia.

Que fiques entre flores, Baptista Bastos, para todo o sempre. Qual Cão Velho entre flores, como intitulaste um dos  teus mais emblemáticos romances que nos deixas.

Estátua de Sal, 09/05/2017


(In Diário de Notícias, 09/05/2017)

1934-2017. Conhecido como colunista nos últimos anos, começou na António Arroio pois queria ser arquiteto. Foi das palavras, apenas

Quem morreu hoje aos 83 anos nunca ponderou retirar o “P” do nome à conta de modernices e por isso ficou sempre Armando Baptista-Bastos. Havia esse cuidado nas redações em evitar um deslize que irritaria o jornalista, o escritor e o polemista que ficou conhecido por muitas reportagens e entrevistas, bem como o género que gostava de cultivar: a crónica. E livros, muitos, reeditados há uns anos em género de obras completas. Mesmo que a frase que mais lhe estava agarrada à pele nos últimos anos fosse “Onde é que você estava no 25 de Abril?”, que era a pergunta que lançava de rajada no início de um conjunto de entrevistas que fez. Sobre esse tema, desiludido com os passos atrás na Revolução de Abril, escreveu Elegia Para um Caixão Vazio. Está tudo dito.


Fonte aqui: Óbito – A morte de BB, aquele que sabia bem onde estava no 25 de Abril

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As vidas sem valor

(António Guerreiro, in Público, 10/02/2017)

Autor

   António Guerreiro

 

A discussão sobre a eutanásia precisava de algumas incursões históricas e filosóficas, através das quais vamos dar às questões biopolíticas do nosso tempo.


A discussão sobre a eutanásia, para não se tornar uma troca de argumentos vindos das regiões obscuras ou falsamente iluminadas, devia partir do seguinte princípio: a “vida” não se define por critérios médico-científicos, já que se trata de um conceito político, filosófico e teológico. Esta asserção foi formulada com clareza pelo filósofo italiano Giorgio Agamben e encontra-se subentendida nalguns textos de Michel Foucault, nomeadamente quando este filósofo introduz a noção de biopolítica: o facto de o homem, enquanto ser vivo, isto é, na sua realidade biológica, se ter tornado, na modernidade, objecto dos cálculos e das decisões do poder político. De tal modo que o velho direito soberano que consistia em mandar matar e deixar viver foi substituído pelo poder inverso de fazer viver e deixar morrer. A eutanásia, o aborto, o casamento homossexual e muitas outas questões entram no conflito biopolítico em curso, onde reside quase toda a política do nosso tempo. Como é sabido, a lógica biopolítica implica uma cisão entre aquilo a que Agamben chama “vida nua” (isto é, a vida entendida na sua realidade meramente biológica) e uma vida qualificada, aquela que faz do homem um sujeito jurídico e político. Os campos de concentração e de extermínio nazis realizaram uma biopolítica total, na medida em que foram concebidos e administrados de modo a isolar a “vida nua” das vítimas e cuidar do “corpo biológico da nação”.

A discussão sobre a eutanásia, para não se tornar uma presa da máquina humanista e antropológica que funciona em velocidade lenta e por caminhos cheios de buracos, devia também não se mostrar cega e ser capaz de reflectir sobre a sua própria dimensão biopolítica. Se tivesse de seleccionar uma biografia mínima sobre o assunto, começaria por um pequeno livro, quase um manifesto, O Direito de Morrer, que o filósofo Hans Jonas (um grande amigo de Hannah Arendt, também ele exilado nos Estados Unidos, onde morreu em 1993) publicou em 1978. O título é enganoso, não se trata de um discurso a favor da eutanásia, mas contra a obstinação terapêutica e o sofrimento causado pela interdição de morrer na era da técnica, quando os progressos da medicina permitem adiar a morte e manter o doente numa existência minimal. A palavra de ordem de Hans Jonas é “o direito de possuir a sua própria morte”.

Para a discussão sobre a eutanásia, também seria útil saber que em 1920 foi publicado um livro, na Alemanha, de um especialista de direito penal, chamado Karl Binding, que desenvolvia um novo e perigoso conceito: a vida que não merece ser vivida. Binding defendia que o homem tem completa soberania sobre a sua existência e o ordenamento jurídico não deveria fazer outra coisa senão reconhecê-lo, legalizando a eutanásia. Interessante é este conceito de “vida sem valor”, ou “indigna de ser vivida”. Binding aplicava-o a quem estava refém de uma vida absolutamente limitada por uma doença incurável e que, por isso, desejava em plena consciência a “libertação”. É Agamben quem comenta e descreve o livro de Binding, para salientar a proposta de que há um limite a partir do qual a vida deixa de ter valor e pode ser classificada numa nova categoria jurídica: a “vida indigna de ser vivida”. E que por isso pode ser extinta. A decisão sobre o limite para além do qual a vida deixa de ser politicamente relevante (e quais as vidas sem valor) é, ainda que de maneira inconfessada (mas muito mais facilmente do que admitem a eutanásia), o que todas as sociedades fixam na época da biopolítica. E eis como da eutanásia se chega facilmente aos refugiados.

 

Adeus Soares

(Cartoon, in Diário de Notícias, 10/01/2017)

cartoon

Ele adorava cartoons e caricaturistas, mesmo quando o pretendiam ridicularizar. Considerava mesmo essas produções uma forma de arte maior. E por isso, aqui fica mais uma dessas manifestações, provavelmente a última, que o retrata. O comboio da liberdade nessa forma de arte interventiva que é o cartoon, chegou ao fim da sua viagem. (Estátua de Sal, 10/01/2017)