Agustina

(Por Joseph Praetorius, 08/06/2019)

Agustina Bessa Luís

O mérito de Agustina foi o da luz lançada sobre a gente odiosa que habita estas terras. Gente doentia. Violentíssima. Menos que animalesca, diria. Bem sei que alguns animais matam as suas crias. Mas não pela “ilegitimidade” da filiação, em todo o caso. O papismo traz a morte nas suas orlas e faz.se ópio para quem ali quer repousar da sordidez violenta, sem a perturbar.

Quem vive assim, aprende a conhecer isso nos ínfimos detalhes. Olhos de delinquente notam bem o delito nos olhos alheios. Mas também o inventam. Umas vezes por ódio à inocência, que os apoucaria se a deixassem existir. Chegam, não obstante, a ser incapazes de reconhecer a inocência, tal é a distância a que viverm dela (Possa isso elucidar-nos quanto à natureza e estado de alma do polícia e do filho do polícia, já agora).

Agustina olha bem esta gente apavorante. Sabe que é preciso sair dali, para que a distância permita o entendimento. E o entendimento atinge às vezes o perdão. Esse não é o meu caso, confesso. Nem o dela em muitos casos, como deixou tacitamente assente. Ouvi-a uma vez a falar de tais temas numa entrevista. Registei a veemência, que ali me pareceu parte imprescindível da relevância. Creio que o marido de Agustina lhe falou na doutrina (romântica, claro, que outra coisa poderia ser?) da culpa na formação da personalidade…

E Agustina redescobre o sentido do elenco dos pecados. A paróquia papista e as suas orlas reduzem isso ao catálogo de crimes morais e a uma contabilidade de culpas – a débito – em cujas técnicas de gestão há ali monstros habilíssimos.

Mas João Cassiano, como Evágrio de Ponto faziam disso o foco de uma Psicologia. E o objecto de uma terapia. Que passa pelo entendimento, claro. Pelo distanciamento, também. Pela devolução à liberdade dos filhos de Deus, evidentemente. Agustina intuiu perfeitamente.

Sentiu também as lacunas da formação filosófica, nesta terra cujas gentes odeiam na inteligência o perigo de serem descobertas. António Quadros falou-me um dia no desaparecimento dos espelhos na decoração das casas. Há um sobressalto diante da imagem própria nesta gente. (Sobressalto em curso permanente).

É verdade. Velha verdade, parece. Foi assim que guiei o olhar do meu filho nos painéis de Nuno Gonçalves. A tensão, o clima de “cortar à faca”, naquela gente de caras patibulares que se recusa a fixar o olhar seja onde for e reciprocamente se ignora, essa tensão suscitou-a o pintor que a retrata. E esse documento pintado desapareceu; como todos os outros, de resto. Sabíamos de Nuno Gonçalves porque Francisco de Holanda referira por escrito o seu génio (inequívoco). A verdade é difícil. Em Nuno Gonçalves estão já os estupores de Agustina – “olha ali o João”, dizia-me o rapaz a apontar o jurista obeso dos painéis. – “Sim, e ali tens o chavasco, acolá o botas, entre mil caras que irás vendo. O isolamento sobreviveu às descobertas e preservou o legado genético”. O isolamento. É preciso sair, como Agustina notou.

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O ódio à inteligência opera em defesa deste isolamento. Há isolamentos fecundos, mas este é estéril e esterilizante. Atingiu o paroxismo, de resto. Ilustra-o, quanto a Lisboa, o Campo Grande, com a sua densidade de Escolas Superiores mas de onde desapareceram as livrarias. O acesso à cultura nunca foi tão desigual. É inimaginável ter de passar a fronteira para ir a livraria digna do nome. Estamos há uns vinte anos a viver assim. E a cultura, a cultura humanística, no caso – e voltando a Agustina – é uma medicina. A única capaz de curar aqui. (Conclusão de Agustina).

Neste caldo infeccioso, surgem até os que mimetizam o olhar de quem entende, sem terem entendido seja o que for. Não são simples pretensiosos. Estes não têm nenhum interesse e aqueles são muito interessantes. Fazem-no para parecerem perigosos, se bem vejo. A inteligência é odiada por ser temida e se o medo guarda a vinha, melhor guardará a videirinha. É pelo menos a esperança das videirinhas, no uso da técnica respectiva.

Agustina foi estudar. Foi ensaísta. Umas expressões francamente rustres dos primeiros anos foram-se desvanecendo, daquelas que, sem excepção, me eriçam, por automatismo seguro, todos os pelos que tenho. Ainda Orlando de Carvalho recitava, em Coimbra, a “essência da personalidade humana” e já esta médica da alma própria tinha subido muitos patamares, havia muito tempo. Agustina viu quase tudo. E viu bem. Toca algumas vezes Paul Diel, até, e talvez não o tenha lido.

Ajuda a perceber que não estamos tão completamente doentes como chegamos a suspeitar. Porque isto adoece. E Agustina é ajuda importante para compreendermos os nossos impulsos de vómito.

Só falha quando se imagina a tocar o universal e se compara a Dostoievski. A malsã rusticidade pregou-lhe aqui a última partida. A doença é tenaz.

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Construir uma catedral

(António Guerreiro, in Público, 19/04/2019)

Notre-Dame

Em 1985, na Kunsthalle de Basileia, enquanto este santuário da arte contemporânea expunha as obras do artista italiano Enzo Cucchi, teve lugar um encontro entre quatro figuras importantes da história da arte na segunda metade do século XX: Joseph BeuysAnselm Kiefer, Enzo Cucchi e Jannis Kounellis. A discussão, conduzida pelo director do Kunsthalle, Jean-Christophe Ammann, resultou num livro em edição alemã e italiana (Ein Gespräch/ Una discussione).

A certa altura da discussão, Beuys incita à acção artística contra um inimigo, o materialismo (tanto sob a forma do capitalismo ocidental como sob a forma do capitalismo de Estado e do centralismo comunista do Leste europeu), que “reduziu o tamanho do ser humano em relação às suas possibilidades”.

A sua ideia é que a arte pode “recriar o ser humano na sua totalidade”. E, logo a seguir, prosseguindo a sua ideia da arte como grandioso empreendimento (mesmo quando é feita por todos), capaz de contrariar a redução do mundo e resgatar a consciência humana a essa redução, faz uma intempestiva injunção: “Devemos construir uma catedral”.

A catedral de Colónia tinha sido evocada pouco antes por Kounellis, que tinha dito que ela “remete para uma centralidade, engloba uma cultura e indica o futuro”. Mas não é uma catedral como a de Colónia que Beuys quer construir. Essa, diz ele, “é uma má escultura, daria uma boa estação de comboios. A de Chartres é melhor”.

E mais à frente, depois de ouvir as palavras mais prudentes de Kounellis (“Para construir uma catedral, é necessário um método e um conhecimento do passado”), reafirma a sua disposição: “Nós não estamos aqui reunidos para melhorar as nossa relações. Estamos aqui para construir uma catedral”, isto é, para retirar a arte da periferia e da não existência para onde ela foi empurrada “pelo sistema económico dominante”.

Podemos comentar estas afirmações, lembrando que muitos poetas modernos e romancistas, assim como artistas, embora conscientes, tal como Joseph Beuys, de que a cultura actual não pode ser marcada pelas catedrais góticas, recorreram ao símbolo da catedral e investiram nele uma enorme significação. Generalizando com algum cuidado, digamos que a catedral simboliza as aspirações culturais colectivas da Europa pré-moderna, mas também consagra a esperança de recuperar através da arte uma cultura perdida.

Muito em especial, foi esta a mensagem de Victor Hugo quando, na sua megalomania (Baudelaire disse uma vez que Victor Hugo era aquele que tinha a presunção de se tomar por Victor Hugo), afirmou que a sua obra, Notre Dame de Paris, esse colosso, tinha um poder destrutivo: “O livro vai matar o edifício”. Isto é: a catedral gótica seria reduzida à insignificância pelo monumento literário.

Balzac, por sua vez, comparou o trabalho de sua vida, a Comédie humaine, à catedral de Bruges. E Julia Kristeva, escrevendo sobre Proust, disse que o autor da Recherche perseguiu incessantemente o mesmo objectivo, de acordo com um programa que pode ser resumido nestes termos: “Se eu estiver à altura de penetrar nas memórias do tempo perdido, irei erigir uma nova catedral “

Voltemos à discussão no Kunsthalle de Basileia, para verificar que há uma diferença entre o projecto artístico de construir uma catedral, tal como Beuys e Kounellis o reivindicam, e o projecto literário de Proust. Afirma Kounellis quase no final de sua discussão com Beuys, Kiefer e Cucchi: “A construção da catedral é a construção de uma linguagem visível”. Nestas palavras, é o mundo “visível” que surge sublinhado.

Quanto a Victor Hugo e Balzac, ambos sentiram que a missão de criar uma comunidade cultural, literária, tinha-se deslocado da função ritual do culto para a leitura do romance de grande circulação. E enquanto Proust acreditava que o poder da memória individual era a base para construir o seu monumento literário, Kounellis pensa — e di-lo explicitamente — que “a construção de uma catedral é a construção da linguagem visível”.



Fernando Pessoa é pornográfico?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 16/01/2019)

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Qualquer miúdo ou miúda de 17 ou 18 anos sabe digitar a palavra “porn” no motor de busca do seu telemóvel para garantir acesso, instantâneo, a um mundo de milhões de vídeos de sexo explícito, convencionais ou bizarros, de casais ou em grupos, heterossexuais ou gays, divertidos ou violentos, de todas as variantes possíveis.

A facilidade de difusão massiva da pornografia no mundo de hoje terá certamente efeitos no comportamento sexual e afetivo de grande parte da população. Desconheço se estão apropriadamente estudados no universo académico (desconfio que não) e não me atrevo a escrever tiradas moralistas ou pseudo analíticas sobre a bondade ou a maldade dessa realidade.

Não tenho opinião formada sobre a massificação da pornografia e desconfio bastante de quem tem opiniões muito fortes sobre o tema: normalmente são cérebros com alma de censores.

Mas acho esquisito verificar ser relativamente banal haver casais que trocam mensagens com fotografias dos seus órgãos genitais: até um antigo secretário de Estado foi apanhado a fazer isso…. Usar a fotografia de um pénis como substituição de uma convencional frase de engate deveria, simplesmente, conduzir a um resultado desastroso… mas eu sei lá!

A geração dos meus pais, que lutou pela libertação sexual contra os rigores da moral católica e traficava às escondidas o Marquês de Sade, classificaria, mesmo assim, o ambiente atual de “dissoluto”: afinal, quando tinha 13 anos, tentaram evitar que eu lesse uma das novelas mais insonsas da literatura portuguesa, a “Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Dinis, com receio que o relato das paixões amorosas dos protagonistas me fizesse mal à cabeça de pré-adolescente.

É , portanto, num contexto que há 15 ou 20 anos facilmente, sem que ninguém se risse, seria classificado de “libertino” por vários líderes reverenciáveis da nossa sociedade, que surge, dissonante, a notícia do corte de três versos da Ode Triunfal de Fernando Pessoa, num manual da Porto Editora para alunos do 12º ano – ou seja, para rapazes e raparigas com 17 ou 18 anos de idade.

Os versos em causa são estes: “Ó automóveis apinhados de pândegos e putas” e, mais à frente, “E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o!/ Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada”.

Vejo aqui, entre muitos outros, dois fenómenos particularmente interessantes: por um lado, a desorientação de uma editora (com trabalho mais do que meritório ao longo de décadas) face ao criticismo com que a opinião publicada, provocada e amplificada pela orgia insultuosa das redes sociais, passou a apreciar, todos os anos, os conteúdos dos manuais escolares: desde a condenação dos livros diferentes para meninos e meninas até ao debate sobre o nível de exigência dos compêndios de matemática, tudo é escrutinado à lupa.

Provavelmente foi a antecipação da polémica que levou a Porto Editoria a cair na polémica.

Este é um pequeno exemplo de um efeito provocado pela desproporcionada relevância que os decisores, no Estado ou nas empresas, dão ao que se escreve sobre eles nos jornais e ao que se diz nas redes sociais: dar importância excessiva a tal pressão leva à prática recorrente de uma autocensura com critérios contraditórios e erráticos, castradora, reacionária, paralisante.

Quanto mais desbragado é o debate público, mais convencionais e ineficazes são as decisões dos responsáveis.

O outro fenómeno que queria aqui referir, a propósito deste incidente, é a perceção que me fica de uma tendência também generalizada para a infantilização dos adolescentes, a tentativa de perenizar uma superproteção física e moral que pais, encarregados de educação, pedagogos e instituições educativas procuram aplicar.

Os nossos miúdos, aos 18 anos, são legalmente considerados adultos, têm, para esta gente, maturidade para serem cidadãos autónomos, para se endividarem, para votar mas não estão preparados para enfrentar a mente atormentada de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa que escreveu os 240 versos da Ode Triunfal.

Ah! e ainda há outro ângulo: quantos professores, numa sala de aula cheia de alunos de 17 ou 18 anos, provavelmente desatentos, entretidos com o telemóvel, se sentem com arcaboiço para contextualizar, discutir, analisar e interpretar a Ode Triunfal, dizendo, em voz clara e firme, o verso “Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada”?…