Não importemos problemas

(João Rodrigues, in Ladrões de Bicicletas, 14/09/2018)

roda800

A esquerda portuguesa já tem problemas suficientes para enfrentar e não precisa de importar os problemas dos outros, até porque estamos em reconhecido processo de renacionalização da política, o que não quer dizer que não devamos estar atentos e solidários internacionalmente. É preciso efectuar análises concretas das variadas situações nacionais concretas. Estou a pensar na ascensão da extrema-direita. Porque é que não temos tal problema por cá?

Em primeiro lugar, por razões fundamentalmente geoeconómicas, não temos tido afluxos significativos de refugiados políticos ou de imigrantes económicos. Num contexto de crise e numa sociedade desigual e causticada pela austeridade, tal já teria criado condições objectivas que poderiam ser exploradas politicamente. No nosso caso, muitos com palco até se podem dar ao luxo de falar como se a ausência de fronteiras, ou seja, de comunidade e de responsabilidade democráticas, fosse alguma norma que se possa e deva prosseguir na área das migrações, como noutras.

Em segundo lugar, somos tradicionalmente um país de emigração, o que pode ajudar a alimentar em muitos por cá um sentimento de reciprocidade, que facilitaria o cultivo de uma certa simpatia para com os imigrantes.

Em terceiro lugar, existe a memória do fascismo e uma cultura anti-fascista, com reflexos constitucionais e ideológicos, ainda actuante.

Em quarto lugar, a esquerda não abandona as classes populares e a questão da independência nacional, em nome de miragens pós-classistas e pós-nacionais. Temos a felicidade de ter uma esquerda resolutamente patriótica, por muito que isso incomode alguns sectores intelectuais. Felizmente, algumas tendências académicas dominantes no pensamento dito crítico têm reduzido impacto político-partidário. Predominantemente, o nacionalismo actual por cá é anti-colonial e anti-fascista, cívico e constitucional. Nunca esqueçamos que nacionalismos há muitos, dos indispensáveis aos dispensáveis. Este é um campo que não se abandona nunca.

Em quinto lugar, o nosso sistema político, filho de uma revolução democrática, apesar de algumas entorses à representação proporcional, tem-se revelado plástico e resiliente. O seu grande problema é mesmo, por um lado, a reduzida participação das classes populares, como se vê, por exemplo, quando se olha para os representantes e suas origens sociais predominantes, e, por outro lado, a pós-democracia com escala europeia. Não podemos ser complacentes.

Devemos estar descansados? Nunca. Mas também não devemos estar sobressaltados. Afinal de contas, o PNR e quejandos são casos de polícia e não de política. Tendo em conta o passado fascista, a direita portuguesa tornou-se relativamente civilizada, pelo menos na retórica, embora haja aqui e ali tentações populistas ditas triádicas, mas que não se inscrevem politicamente.

As esquerdas portuguesas devem conduzir campanhas eleitorais para as chamadas eleições europeias sem cair na armadilha, bem denunciada por Serge Halimi e Pierre Rimbert no último Le Monde diplomatique, do enquadramento do debate entre o campo neoliberal e o do populismo das direitas, literalmente duas faces da mesma moeda europeia, sem cair em europeísmos vagos e descontextualizados, sem cair nessas farsas da eleição para presidente da Comissão Europeia e dos chamados partidos europeus, estes últimos de resto em decomposição, da esquerda à direita.

As eleições europeias são contra o eixo Bruxelas-Frankfurt e contra os aliados internos das suas políticas. Em nome da soberania nacional, social e democrática de um rectângulo que deve ser de todos os que aqui vivem e que partilham instituições e vivências que se querem bem mais inclusivas.

Adenda. Francisco Assis presenteou-nos ontem com mais um artigo verborreico, confirmando que confunde o empilhamento de adjectivos com argumentos. Ataca os comunistas portugueses pelo seu voto a propósito da Hungria. Assis não se dá ao trabalho de apresentar os argumentos concretos aduzidos e, muito menos, de os refutar. Enfim, para efeitos de debate, deixo aqui a posição dos comunistas, com a qual de resto estou basicamente de acordo.


Fonte aqui

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Jovem sueca impede deportação de afegão em aeroporto na Suécia 

A notícia:

suecaUma jovem sueca obteve uma pequena vitória contra a onda anti-imigração que paira sobre a Europa. Nesta segunda-feira (23), ela impediu que um avião descolasse para não deixar que um afegão de 52 anos fosse deportado. A maioria dos passageiros sabem que a aeronave não pode decolar até que todos estejam sentados e com os cintos afivelados, desta forma, ela ficou em pé, em protesto, até que o homem fosse retirado do avião….

Continuar a ler aqui: Jovem sueca impede deportação de afegão em aeroporto na Suécia – Jornal Tornado


E se tivesse sido cá?

(Por Joseph Praetorius, 27/07/2018)

O que teria plausivelmente aontecido se isto se tivesse passado num avião português e com portugueses? Que teria acontecido, no local, à rapariga e o que se passaria depois em tribunal?

Do ponto de vista da análise social, ocorreria que os funcionários fariam violentamente desembarcar a rapariga; a polícia por seu turno espancá-la-ia.

Os relatórios seriam viciados não só, como é hábito, no sentido de dizer que ela teria agredido os polícias e que teria portanto havido resistência e coacção a funcionário – motivo pelo qual o uso da força teria sido necessário – como se faria constar que a perigosa arguida se teria lesionado a si própria para comprometer os agentes da polícia. No caso de a violarem, os relatórios trariam menções de extrema perigosidade da arguida, a fim de mais ninguém falar com ela ou nela acreditar.

É plausível que – imediatamente e no local – os atrasados mentais, entre os passageiros, além de protestarem, começassem a dizer que ela pretendia desviar o avião. Tal versão daria mais colorido às vidinhas pardacentas e essa gente, teria, enfim, uma coisa interessante para contar. Os funcionários e polícias ganhariam pontos. Apareceriam nos jornais. E os jornais, sempre no desespero de se venderem, acolheriam as piores versões. Assim sendo, a tentativa de desvio do avião passaria a integrar as imputações escritas. A prisão preventiva seria decretada. O telemóvel teria sido apreendido e todas as pessoas que nos contactos existissem seriam interrogadas sob suspeita de rede terrorista.

Os familiares seriam incomodados. E as televisões descobririam os conflitos de vizinhança, e apareceriam depoimentos atestando convicções radicais e, plausivelmente, a arrogância. “Sempre teve a mania de ser mais inteligente que os outros”, viria um janado dizer às televisões, um antigo colega dela no secundário, que a via ao longe sem nunca lhe ter falado.

Sob prisão preventiva, a natural revolta e protesto seriam reprimidas com selvajaria. E ela seria submetida a medicação psiquiátrica severa. Ao ponto de adormecer diante do defensor e de não conseguir dizer coisa com coisa.

O defensor, oficioso, aceitaria as versões dos funcionários. Talvez recorresse, mesmo assim, da prisão preventiva. Mas o desembargador Ventosidade Santa, ou Campeador Gonçalves, ou Agosto Paliçadas, viriam dizer que ninguém em seu juízo pararia uma descolagem sob a alegação – estupida em tais circunstâncias – de querer salvar a vida a alguém, sem pretender realmente desviar o avião. A experiência comum ensina, diriam, que um repatriado vai simplesmente para casa dele, com viagem paga e refeições a bordo. A invocação das pretensas intenções denotaria o perigo a que a prisão preventiva deveria fazer frente. Quem foge ao vácuo mental, pretende algo de mal, acrescentaria Agosto Paliçadas, lembrando um aforismo muito popular em Palma de Baixo. As renovações da prisão preventiva seriam feitas pela invocação mágica e proibida da fórmula “rebus sic stantibus” (mantendo uma inversão proibida do ónus da prova por exigir ao preventivo a demonstração das razões para ser libertado, dispensando o sistema de demonstrar as razões para o manter preso).

A CMTV publicaria imagens da rapariga de avental e luvas, suscitando a provável filiação maçónica. O Sol descobriria que já da avó se suspeitou que tinha namorado com um homem do PRP BR.

O juiz de instrução pronunciaria, por ser mais provável a condenação que a absolvição, como ensina o Marques da Silva em Palma de Baixo contra toda a jurisprudência do Tribunal Europeu (porque expressar convicções de culpa é anular a presunção de inocência). Talvez a audiência fosse secreta, para ninguém ver a sobredosagem de psico-fármacos. A sentença seria demolidora. E os juízes do colectivo seriam convidados para comissões de serviço úteis à carreira.

Os relatórios do SIS assinalariam então ao governo a operatividade de células perigosas no território e fariam a eterna recomendação do aumento das suas competências, dos seus meios e dos seus efectivos, recomendando ainda o aumento da cooperação internacional que faça viajar mais os dirigentes da estrutura, insistindo no aumento das suas conferências públicas e assinalaria, também, a premência de incutir. pela máxima divulgação nas escolas, o objectivo securitário da “comunidade de segurança”, i.e. da denúncia delirante generalizada. Os relatórios do SIS dizem sempre a mesma coisa, a propósito seja do que for.

Todas as personagens são ficcionais, evidentemente. Sobretudo o Marques da Silva, que nem sequer pode existir e ninguém conseguiria inventar.

Isto posto, que é feito da Diana Andringa? Acho que só ela nos conseguiria salvar.

Absurdos

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 08/07/2018)
JPP

Pacheco Pereira

É preciso controlar o fluxo de imigração para a Europa? É. É preciso distinguir entre imigrantes e refugiados? É. É necessário controlar fronteiras e ter medidas para integrar os imigrantes e os refugiados que já entraram nos últimos anos na Europa? É. É necessário estar atento às questões de segurança e criminalidade que um fluxo destes comporta? É. É necessário garantir os direitos das mulheres e das crianças que muitos refugiados e imigrantes não respeitam lá na sua origem e que pensam que podem desrespeitar cá? É. É preciso não esquecer os conflitos culturais, religiosos, de modo de vida, que a alteridade das culturas e religiões provocam sempre? É. É necessário fazer valer o primado dos direitos humanos para todos, e não instalar guetos de impunidade por razões religiosas? É.

Podia continuar a escrever estas coisas triviais, que, no entanto, são mais fáceis de enunciar do que de fazer.

Mas pensar que para responder à extrema-direita crescente na Europa a solução é fazer uma espécie de campos de concentração no Norte de África para manter lá os refugiados e os imigrantes indesejados, é um absurdo. Admitindo que tal possa ser possível – estamos a falar de países soberanos e que eu saiba a Europa já não tem protectorados na Argélia, em Marrocos, na Tunísia, no Egipto (na Líbia não sei), duvido muito que queiram gerir campos de concentração com centenas de milhares de pessoas nas suas costas, que, como se sabe, irão tornar-se eternos.
E presumo que as Nações Unidas já estão nos seus limites, com o caso recente dos refugiados rohingya. Brevemente estes campos, a existirem, vão ser problemas tão graves como a entrada descontrolada.

A homenagem à chuva

Há muita fita na política portuguesa. Mas sem querer ser ingénuo pareceu-me que todos, Marcelo, Costa, Ferro, estavam genuinamente a participar na homenagem ao Zé Pedro dos Xutos, contentes de lá estar debaixo da monumental carga de água a cantar e a dançar. Mérito de quem os uniu e de todos eles.

Ó homem, faça lá o novo partido de uma vez

Nem sequer vale a pena olhar com ironia para mais um remake da mesma coisa – Santana zangado com o PSD, que não o merece, bate com a porta e diz que vai fazer um novo partido, pela enésima vez – e lembrar-me das explicações esfarrapadas e falsas com que pretendeu negar o que eu tinha dito sobre uma tentativa anterior. Nunca tive dúvidas sobre em quem é que as pessoas acreditavam e por isso nem sequer me dei ao trabalho de rebater.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Agora pelos vistos há mais uma cena e eu espero sinceramente que desta vez tenha consequências e que Santana faça lá um novo PSL. É bom para o PSD, é bom para Rui Rio, e é residualmente bom para Santana Lopes. Na verdade, basta olhar para os números necessários para eleger um deputado em Lisboa e verificar que ele tem muitas probabilidades de ser eleito, como aconteceu com o Manuel Sérgio. Penso aliás que é esse o principal objectivo, visto que Santana Lopes sabe muito bem que enquanto os opositores de Rio tiverem a esperança de o derrubar antes das legislativas e de controlarem a composição das listas de deputados, ninguém deixa um grande partido para ir atrás de um micro.
Uma das coisas em que Trump acredita…

…é no seu poderoso magnetismo pessoal. Ele pensa que se lhe colocarem um homem a frente, seja que homem for, ele se renderá à sua fabulosa capacidade de persuasão. Há uma excepção: ele tem medo dos clérigos iranianos, que são demasiado severos para lhe permitir intimidades. Mas o resto, é só trazê-los à mesa e Trump atira-lhes ondas e ondas de toda a radiação possível do seu fabuloso ego.

Foi a pensar assim que se foi encontrar com Kim e veio de lá deslumbrado com as virtudes pessoais do dito e, pelos vistos, mesmo do mérito da governação na Coreia do Norte. Ele lá muito no fundo acha que Kim é uma coisa exótica, atirou -lhe com um vídeo infantil e péssimo, mas tê-lo à frente é para Trump todo o caminho andado. Ele precisa de espelhos para a sua vaidade. O mesmo acontecerá com Putin, mas aqui já se pode prever menos surpresa e mais subserviência. Ele sabe que Putin não é Kim, onde Kim é uma curiosidade, Putin mete respeito e tem muita coisa que Trump gostaria de ter.

Trump adora Putin, aqueles dourados do Kremlin, aquela longa passadeira vermelha, aquelas portas de bronze, aquela multidão de sicofantas alinhados a bater palmas, e ainda por cima ser um dos grandes do mundo, que tem bombas nucleares, aviões, porta-aviões, submarinos e muitos, muitos tanques. Mas acima de tudo adora a autoridade sem peias, de um homem que pode matar os seus opositores, a começar pelos jornalistas incómodos, metê-los na cadeia e genericamente pô-los na ordem. Com Kim quis seduzir o oriental estranho, com Putin quer aquilo que este nunca lhe dará: respeito e reconhecimento. E se com Kim ele é o mestre -de -cerimónias, com Putin sente-se inseguro, muito inseguro.