(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 20/10/2016)

Uma pergunta, entre outras, prementes e necessárias: para que serve a União Europeia, nas circunstâncias actuais?
No entanto, um outro fenómeno político parece crescer entre a inanidade e a aceitação da hegemonia germânica. A Hungria tem sido a nação com mais desenvoltura em contestar esta cedência. Toma decisões unilaterais, a condizerem com a natureza da sua História e dos seus propósitos. Francisco Louçã, cuja voz devia ser mais escutada, pela especificidade do seu estudo e pela natureza das suas afirmações, já advertiu que a União Europeia, assim, não vai lá, e prognosticou o seu fim próximo. Sobre os vinte e sete países, que constituem a União, pouco ou nada sabemos. Tomamos ligeiro conhecimento de que a extrema-direita alemã está a subir, mas nada de importante do que ocorre é noticiado.
A Itália tem sido removida para os escalões do esquecimento, e a discussão de ideias desapareceu por completo das nossas intenções. A referência à democracia tem sido iludida pelas várias modalidades da lógica do mercado, e pouco se fala, ou fala-se esmorecidamente, dos verdadeiros problemas que afectam as sociedades modernas. Uma pergunta, entre outras, prementes e necessárias: para que serve a União Europeia, nas circunstâncias actuais? O discurso neoliberal passa ao lado das questões fundamentais do nosso tempo, e ignora as modalidades da organização e da partilha do poder que constituem as grandes modalidades do nosso tempo. A União Europeia é disso espelho e preocupação.
Que aconteceu à Hungria quando resolveu cerrar as suas fronteiras, rodeá-las de arame farpado e “precaver-se contra os motins adivinháveis”, como afirmaram os seus dirigentes? Estive dez dias doente e a prostração forçada permitiu-me aceder à grande imprensa, a fim de me informar das ocorrências. Nada de novo assinalei. A não ser as ocorrências em Calais, e as ninharias de umas opções governamentais, destinadas mais a “salvar a cara” do que a resolver a tragédia dos êxodos. O mundo atingiu um estado de indiferença assustador, e nada conseguimos com a leitura dos textos. Há um vácuo no pensamento europeu, conducente a uma indiferença humana que não é única na história dos povos.
O que tem caracterizado a lógica da perda da razão democrática é o surgimento de “valores” da sobrevivência e todo o custo. A Europa actual não serve de modelo a ninguém. A ganância, a ausência de normas valorativas, tornaram-se vectores do pensamento comum contemporâneo.