A abstenção é a alma do povo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 20/10/2016)

quadros

É o mal dos açorianos não terem um deputado como o José Manuel Coelho, que, com o seu trabalho parlamentar, nomeadamente ao nível da colecção de bandeiras nazis, fez com que todos já tenhamos visto imagens da assembleia madeirense.

 Quem também quase não deu pelas eleições nos Açores foi a maioria dos açorianos. Houve 59,1% de abstenção. Qual é a desculpa?! Não me venham com o desinteresse na política. Estamos num domingo, nos Açores, será que há alguma coisa para fazer para além de ir votar?! As eleições regionais nos Açores não deviam ser recebidas pelos ilhéus como, por exemplo, um concerto da Beyoncé?! Ou, vá lá, dos Dama.

 Mais de metade das pessoas da Ilha do Pico não foi votar porquê?! Porque nesse dia também havia Open do Pico, para o Master de ténis, e coincidia com a reunião dos G7 e Pico, e acabou muito tarde? Que desculpa é que um habitante do Pico tem para não ir votar, quando basta levantar-se da cama e dar vinte passos em qualquer direcção e dá um encontrão numa urna de voto?

Este desprezo dos açorianos pelos actos eleitorais vem ao encontro da minha teoria de que já chega daquela coisa de, quando há eleições nacionais, ter de ficar à espera dos Açores para saber as primeiras projecções de voto. Entre as sete e as oito da noite, ficam dez milhões de portugueses à espera de dois pastores do Corvo e de uma senhora de idade das Flores, que lhe dói o joelho, e ainda não sabe se vai votar. Porque é que não começam a votar uma hora mais cedo e fecham uma hora antes? Às dezoito horas, de domingo, nos Açores, já não há ninguém na rua, a não ser que haja um tremor de terra.

O resultado final das eleições regionais dos Açores, em termos de deputados, foi: PS: 30; PSD: 19; CDS: 4 BE: 2 CDU: 1 PPM: 1. Sim, leram bem, o Partido Popular Monárquico elegeu um deputado no Corvo. O que faz o isolamento, não é? Não tenho nada contra monárquicos, pelo contrário, até sou monárquico, mas na clandestinidade, porque não gosto de fazer figuras ridículas em público.

 Não vejo justificação para, no ano de 2016 da graça do Senhor, haver uma ilha portuguesa que deseja a monarquia. Bem sei que são só seis quilómetros e meio de comprimento por quatro de largura. É mais ou menos o equivalente à superfície de um Ikea. Mas eu não punha o Dom Duarte a gerir uma loja do grupo sueco.

 Faz um bocado de confusão ver os corvinos elegerem um deputado do PPM. Não é por morarem numa fajã lávica que vos posso desculpar tudo. Vocês ainda são, para aí, uns trezentos a votar. Em oitenta e tal que votaram PPM, de certeza que havia alguém sóbrio que podia ter tentado acalmar os outros mais bebidos.


top 5

Corvo lindo

1. Novo imposto sobre o património permite poupança de milhares a proprietários de casas de luxo que pagavam 1% de imposto de selo – Uma lei de esquerda caviar que agrada à direita lavagante.

2. “Enquanto houver Tratado Orçamental, Portugal não vai crescer” – São palavras de Manuela Mortágua Ferreira Leite.

3. Portugal é já o quinto produtor mundial de lítio – Mas, estranhamente, somos dos mais deprimidos.

4. Presidente da caixa vai ganhar 400 mil euros ano – Ou, como diria Cristas, “bem-vindo à classe média!”.

5. Marques Mendes sobre o novo imposto do património: “Numa casa de 600 mil euros, se calhar, uma família com 6 filhos já fica Apertada” – Sim. Já nem há espaço para uma gaveta com preservativos.

Um pensamento sobre “A abstenção é a alma do povo

  1. Meu caro João quadrado (perdão, João Quadros)
    Desculpe, estava a pensar mesmo em quadrado, um quadrado no cérebro, aí com vinte passos de lado e uma urna de voto em cada canto. Eu, picoense, açoriano e português (a ordem dos factores aqui é arbitrária, mas é por esta ordem que prefiro apresentar-me como cidadão), não sei se continuarei a achar piada às suas piadas que polulam nos media, depois de ouvir e ler o chorrilho de asneiras que você debitou para cima dos açorianos por causa dos resultados eleitorais mais recentes (se pretendeu fazer humor acho que foi de mau gosto). Quando eu andei na escola primária, os programas oficiais de ensino não ensinavam nada aos açorianos sobre a sua terra. Ele era só os rios todos do continente e respectivos afluentes, as estações de combóio do Minho ao Algarve, etc.. Por isso um açoriano tinha a noção do que era a “main land” e ao mesmo tempo bastava-lhe sair de casa para saber o que era uma ilha. Nem precisava de dar vinte passos porque o mar é a toda a volta. Por seu lado, a grande maioria dos continentais não fazia ideia nenhuma do que eram os Açores. Infelizmente ainda hoje isso acontece, não obstante a crescente onda de turistas que do rectangulo luso nos visita. Você deve pertencer à grande maioria dos continentais que infelizmente não fazem uma pequena ideia do que são os Açores e do que é viver em ilhas. Por isso do alto dos meus 1,67 m e da pouca experiência que 62 anos de vida me deram, aconselho-o a visitar os Açores, não como mero turista de fim de semana mas como alguém com interesse em estudar e perceber a idiossincracia dos ilhéus. E vá ao Pico para perceber a dimensão da ilha e consequentemente também a dimensão da asneira que proferiu sobre os tais vinte passos para encontrar uma urna. E vá também ao Corvo para perceber como os corvinos votam com inteligência num candidato monárquico que até é do continente, não por ser monárquico mas porque vive na ilha e defende os interesses dos corvinos na Assembleia Legislativa Regional. E visite as outras ilhas para perceber que a economia dos Açores sobrevive fundamentalmente da agro-pecuária, da pesca e do turismo, precisamente três áreas onde é necessário trabalhar aos sábados e domingos. E para saber que pelo menos um quarto da abstenção nos Açores não é real, deve-se à emigração, aos estudantes deslocados no continente e estrangeiro e o resto aos mortos que continuam a constar dos cadernos eleitorais. E isto porque os cadernos eleitorais não são actualizados, por um lado devido ao surgimento do cartão do cidadão e por outro porque isso não interessa às freguesias pequenas, cujas verbas encolhem com a crescente perda de residentes. E não é o cidadão comum que tem culpa disso. Assim, verá que a abstenção real nos Açores andará muito próxima da do continente. E se estudar um pouco de História saberá que os Açores deram ao país ilustres figuras que se destacaram nas mais variadas áreas. E aprenderá que Portugal faz hoje parte da alta roda do xadrês político internacional graças aos Açores e à sua posição geoestratégica.
    E por aqui me fico. Continue a escrever para o Herman e deixe os Açores e os açorianos em paz, que não tem estaleca intelectual (pelo que mostrou) para comentar o que se passa nos Açores. E venha cá, que os açorianos sabem receber muito bem.
    Haja saúde
    Manuel Silveira

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