Nem mais um contrato diário

(Isabel Moreira, in Expresso, 17/11/2018)

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(O que se passa com os estivadores no porto de Setúbal é uma vergonha, a fazer lembrar esse excelente e emblemático filme de Elia Kazan, “Há lodo no cais”.

Um governo, supostamente “de esquerda” não pode permitir práticas de contratação deste jaez. E se são legais, mudem-se as leis.

Comentário da Estátua, 17/11/2018)


Ricardo tem 33 anos e trabalha há uma década no Porto de Setúbal. No entanto, dez anos de trabalho não são considerados um emprego permanente. Para os empregadores, Ricardo continua a ser um “trabalhador eventual”, cuja função seria suprimir necessidades temporárias.

Conta à TSF que vive de contratos diários. “Todos os dias somos escalados por turno. Cada turno que efetuamos é um contrato novo”. O primeiro turno diário corresponde a oito horas de trabalho, o segundo corresponde a sete. Muitas vezes, Ricardo faz ambos no mesmo dia.

O caso de Ricardo está muito longe de ser único. Corresponde à situação de 90% dos trabalhadores do Porto de Setúbal, de acordo com o Sindicato dos Estivadores e da Atividade Logística (SEAL).”

(Fonte: TSF)

Esta violência laboral justifica a greve da SEAL, a qual quase paralisou o Porto de Setúbal. O efeito é esse porque os trabalhadores precários, tratados como espécie de escravos ao dia, como gente com funções alegadamente não permanentes, afinal são absolutamente indispensáveis ao movimento do Porto de Setúbal.

Não me interessa entrar na história toda, que pode ser lida nas notícias, não me interessa saber se a ACT acordou agora, interessa-me isto:

É intolerável que em 2018 cheire a Estado Novo. Estes trabalhadores são evidentemente essenciais à empresa, têm funções permanentes e não sabem o que seja um contrato de trabalho com os direitos a ele associados. Acordam na incerteza. Sabem que vão trabalhar. Não sabem por quantas horas, a que valor, qual a duração do abuso. Nada os acode numa situação de doença. O seu “mínimo de existência” é grosseiramente validado pela entidade empregadora entre o nascer do sol e a noite escura.

Se há matéria a que a esquerda não pode ser indiferente é esta.

Estes trabalhadores têm de ver a sua situação de facto reconhecida, têm de ter segurança no emprego, absoluta liberdade sindical e direito ao trabalho digno, com retribuição justa, pondo fim a esta “praça da jorna” ou “praça da vergonha”.

Conseguem imaginar a situação relatada pela TSF?

“Todos os dias somos escalados por turno. Cada turno que efetuamos é um contrato novo”. O primeiro turno diário corresponde a oito horas de trabalho, o segundo corresponde a sete. Muitas vezes, Ricardo faz ambos no mesmo dia”.

É, pois, de louvar que os trabalhadores se recusem a trabalhar enquanto a entidade empregadora – a empresa Operestiva – não assinar contratos de trabalho permanentes com todos os precários (parece que perante as consequências da paralisação, houve uma proposta manhosa de dar trabalho a uns quantos).

Solidariedade no combate é isso.

Solidariedade pelo combate deve ser toda.

Nem mais um contrato diário.

Os que “amam” muito os touros e os torturam e matam

(Pacheco Pereira, in Público, 17/11/2018)

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A ideia de que ser a favor ou contra as touradas é uma questão de liberdade de expressão é um absurdo. Ser a favor ou contra as touradas é uma questão de civilização e, por muito que a palavra esteja gasta, nós sabemos muito bem o que é. É o mundo frágil que nos faz viver melhor, mais tempo, com menos violência do que no passado. É completamente frágil e contraditório, muitas vezes anda para trás e poucas vezes anda para a frente, mas representa o melhor da vida possível, feito por um olhar humanista sobre as coisas, que inclui condenar, limitar, punir a violência.

É o mundo em que há direitos humanos, em que os homens e as mulheres são iguais, é o mundo em que as mulheres e as crianças são protegidas da violência doméstica, é o mundo em que o direito de viver de forma livre o sexo é garantido, é o mundo em que a tortura, a pena de morte, o genocídio são condenados, é o mundo em que há liberdade religiosa, de opinião, política, etc., etc. Sim, é verdade que é também o mundo em que tudo isto não existe, mas escolham. Pode não ser o mundo que temos, mas é o mundo que desejamos.

Os animais não podem ter “direitos” equiparados aos direitos humanos, mas faz parte de uma sociedade humana que valorize a ética e combata todas as formas de violência olhar para os animais com um sentimento de especial proximidade que está para além da domesticidade.

Os movimentos a favor dos animais, ou melhor, os movimentos contra a crueldade com os animais, fazem parte da tradição humanista dos séculos XIX e XX. A ideia central era que o modo como tratamos os animais era um sinal de como tratávamos os homens, a crueldade contra os animais era um sinal de uma violência institucionalizada que não se limitava aos animais, mas se estendia aos homens, mulheres e crianças.

Não me estou a referir a nenhuma das variantes radicais modernas dos direitos dos animais que fazem parte da moda dos nossos dias. Não é isso, não tem que ver com aviários, nem com matadouros, nem com as mil e uma formas de industrialização da produção de alimentos, algumas das quais ganhavam em ser menos cruéis. Nem com a caça. A caça tem um valor económico, e tem um papel no controlo das espécies, e é cada vez mais moldada pela lei de modo a que o seu carácter lúdico seja subordinado a estas necessidades.

Tem que ver com as touradas. Podem dar as voltas que quiserem, mas as touradas são a exibição pública da tortura de um animal, que é esfaqueado para enfraquecer e depois, no caso das touradas de morte — que todos os defensores das touradas desejavam poder ter sem limitações —, ser morto. As touradas vivem do sangue, da dilaceração da carne, do cansaço até ao limite e da morte. Podem ter todos os rituais possíveis, ter toda a “arte” de saracotear à volta de um bicho, mas as touradas não são uma arte, são a exibição circense de um combate desigual entre homens e animais, cuja essência é a sua tortura para gáudio colectivo.

Não é um combate de iguais. Na verdade, os combates de cães e de galos — proibidos não se sabe porquê à luz da permissão das touradas — são muito mais um combate entre iguais do que o homem de faca e o touro sem armas a não ser os chifres, que muitas vezes são embolados. Mas é o sangue e a morte que fazem o espectáculo e, ao serem um espectáculo, são um sinal de barbárie.

O argumento da tradição também não é argumento. Se há coisas que a tradição encobre é um vasto conjunto de práticas que felizmente hoje são consideradas inaceitáveis, desde a violência doméstica à discriminação dos homossexuais, à excisão feminina, à pena de morte, à legitimação da tortura. Se aceitamos que a “tradição” por si só legitima a violência e crueldade, então podemos voltar ao “cá em casa manda ela e quem manda nela sou eu” e toca de lhe bater.

Os argumentos dos defensores das touradas são a versão portuguesa dos argumentos da National Rifle Association nos EUA, que também se identifica como uma “associação de direitos civis” e usa o argumento da tradição para justificar uma sociedade banhada de armas e em que a violência dos massacres é sempre culpa de outra coisa que não sejam as armas.

As histórias ridículas de como os defensores das touradas “amam os touros” (sic), de como prezam a valentia dos animais, de como o “touro bravo” enobrece os campos do Ribatejo, para depois ser trazido à arena de tortura e morte como se esse fosse o seu destino teleológico, a cultura machista da “coragem” perante os mais fracos (o touro é o mais fraco dentro da praça), devem pouco a pouco envelhecer no passado. É isso mesmo que chamamos civilização.

O mundo em que vivemos é duro, desigual, injusto, violento. Quem saiba história sabe que não há maneira de o tornar limpinho, higiénico, pacífico, nem em séculos, quanto mais numa geração. Mas acabar com as touradas, com a tortura dos touros para satisfação sádica das massas, é um passo no bom sentido. Porque senão vivemos na pior das hipocrisias em que matar ou tratar mal um cão e um gato pode levar à prisão — e bem —, mas em que no meio de cidades e vilas de uma parte do país podemos aplaudir a tortura, o sangue e a morte.

Antes de ter de lidar com Bolsonaro, agora vamos ter que aturar os bolsonarinhos

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 04/11/2018)

JPP

Pacheco Pereira

É a hora dos bolsonarinhos, como já foi a dos trumpinhos, ou seja os ajustes de contas daqueles que achavam e acham, mas não dizem, que foi muito melhor Bolsonaro ganhar, porque o inimigo do meu inimigo, meu amigo é.


Lá venceu o homem, agora é que se vai ver. Como Trump, não vai desiludir as péssimas profecias, porque é da natureza de algumas coisas que não se endireitam. Vamos ver, por esta ordem, a bala, depois o boi e por fim a Bíblia. Mas há uma coisa que convém não esquecer nesta euforia bolsonera, é que antes de Lula ser preso, e mesmo depois, ele estava muito à frente das sondagens, pelo que a recusa do PT que é real e que tem muitas razões, não explica tudo. E não leiam isto como justificativo dos estragos que o PT fez e faz ao Brasil, mas como preocupação com o que Bolsonaro vai fazer.

Mas agora é a hora dos bolsonarinhos, como já foi a dos trumpinhos, ou seja os ajustes de contas daqueles que achavam e acham, mas não dizem, que foi muito melhor Bolsonaro ganhar, porque o inimigo do meu inimigo, meu amigo é. As coisas são o costume, o anti-intelectualismo, a separação entre as elites e o povo, a jactância da esquerda quando o povo não vota o que eles querem, e por aí adiante. Já ouvi isto mil vezes, e a razão é simples: são-lhes mais importantes as “lições” que pregam aos seus adversários do que o risco do “outro”.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Passaram toda a campanha, desde que Bolsonaro começou a ficar à frente nas sondagens, a fazer textos falsamente salomónicos, mais irritados com os não Bolsonaros do que com os Bolsonaros. Juram a pés juntos que não gostam do homem, como de Trump, mas na verdade movem-lhes mais os sentimentos os adversários de sempre, da direita, dos alt-right caseiros, do que o risco de um homem que promete resolver a criminalidade à bala como Duterte faz, e que prega a violência em todos os azimutes.

O tribalismo ajuda estes bolsonarinhos, e o tribalismo é que mais cresce nestes dias. Mas, do tribalismo à violência é só um passo, que no Brasil será muito rápido, e nos EUA está a chegar agora mesmo, com o bombista MAGA e o homem que disparou sobre os judeus. Quem semeia ventos colhe tempestades, diz o povo. E quem fica mais furioso com os mansos de que não gosta e desvaloriza os brutos é com os brutos que está.


A Pátria está boa?
Não, não está. Está devidamente orçamentada, devidamente entretida, devidamente distraída, devidamente normalizada, contente por estar a passar os dias sem convulsões especiais. Já cá não estão nem troika, nem Passos nem os “passistas” do PAF, só ficaram os “passistas” do PS, diga-se Centeno, pelo que a possibilidade de acordarmos amanhã com mais um corte de salários, pensões e reformas, diminuiu exponencialmente. É um bem precioso, mas não dura sempre.
As ruas estão cheias de turistas que comem naqueles restaurantes que qualquer português sabe que nunca, jamais, em tempo algum, deviam ser frequentados.

Andam de tuk-tuk, ocupam passeios, praças e casas e voltam à sua terra contentes e com a perigosa sensação, para o futuro do turismo, de que já viram tudo. Como não são do género nem da idade que vai reformar-se para o Algarve, procurarão outras terras e, apesar do nosso orgulho nacional, não vão ver o que lhes falta ver no País, pelo menos com os olhos que usam.

Os partidos políticos estão bem com o status quo, não os move nenhuma vontade essencial, urgente, dramática, de mudar o estado de coisas, nem no Governo, nem na oposição. O PS está demasiado contente consigo próprio, o PSD demasiado descontente. O Bloco e o PCP presos no labirinto entre a fatia de poder que conseguiram, e a dificuldade de lhe manter o tamanho.

Apesar das fúrias das redes sociais e do crescente linguajar populista e antidemocrático, pouco se passa daí. Primeiro, porque as coisas parecem estar a melhorar, ou pelo menos a não piorar. Depois, porque se a fúria e a raiva são muitas, a preguiça é ainda maior. E por último, falta um capo, que viesse da televisão para pegar fogo às incandescências das redes sociais, de dentro para fora.

Santana Lopes percebeu a oportunidade, mas isso não chega, o homem da Ventura que quer fazer o “chega!”, também não chega, pelo menos para já. Mas se as coisas neste momento estão a seu modo castradas, isso não significa que não podem mudar de um dia para o outro. Há sempre um Bolsonaro escondido dentro de si, dentro deles.

Não a Pátria não está bem, está a cometer o pecado da acédia. Faz parte da lista dos pecados mortais.