PENSAR E FAZER COMO A DIREITA

(In Blog O Jumento, 14/05/2018)
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“Se pensarmos como a direita pensa, 
acabamos a governar como a direita governou”
(António Costa em 6 de Junho de 2016
durante a apresentação da candidatura às primária do PS )

A relação de Passos Coelho e do seu governo com os funcionários públicos era marcado por um ódio ideológico e quase pessoal, o ex-primeiro-ministro elegeu-os como culpados da crise, tratou-os como mera despesa inútil, espoliou-os, forçou-os a aumentos de horas de trabalho forçado e na hora de justificar tudo isto fê-lo atribuindo-lhes a culpa da crise e apontando-os como privilegiados, uma espécie de oportunista da sociedade.
Não é a primeira vez que um grupo étnico, religioso ou profissional foi tratado desta forma, nem é preciso um grande exercício de memória para encontrarmos tratamentos idênticos, as semelhanças são tantas que quase parece sabermos onde Passos Coelho se inspirou.
Não bastou todos os cortes e perdas de rendimentos, Passos Coelho também sentiu necessidade de difamar, apontar o dedo como se dissesse quem eram os culpados e num momento em que o país se afundava numa crise que o próprio Passos desejou os funcionários públicos eram acusados de ganhar acima da média, por isso seriam eles a pagar a crise. Sofreram todos os cortes e em cima destes ainda tiveram de suportar todas as medidas de austeridade que se aplicavam a todos.
Nunca alguém reconheceu os seus sacrifícios, apesar de declarados inconstitucionais os cortes subsistiram ainda durante algum tempo, ajudando ao conforto financeiro do Estado e ao sucesso governamental. O mínimo que um Presidente da República ou um primeiro-ministro poderia fazer era reconhecer os sacrifícios que lhes foram impostos, agradecer-lhes terem-nos suportado continuando a assegurar a qualidade dos serviços públicos e a dedicação aos seus utentes, mesmo quando foi a esposa de Passos Coelho a precisar deles, porque na hora da verdade esse traste de Massamá não procurou um hospital privado.
É lamentável que depois de tudo isto os governantes considerem que os vencimentos dos funcionários públicos devem continuar a sofrer cortes, ainda que de forma subtil, recorrendo à desvalorização continua resultante da inflação. É vergonhoso que uma reposição do horário de trabalho seja referido como uma benesse resultante da generosidade governamental ou que a eliminação de cortes nos vencimentos deva ser motivo de gratidão. Se António Costa tivesse reembolsado os cortes inconstitucionais e, portanto, ilegais, se tivesse pago as horas de trabalho escravo decididas por Passos Coelho, poderia agora esperar gratidão.
Mas apresentar tudo isto como benesses e achar que a contratação de mais funcionários públicos justifica que estes devem continuar a ser tratados como gente sem direitos é inaceitável, é pensar como a pior das direitas. Quem pensa assim acabará por se confundir com a direita e governar como esta, foi o próprio Costa que o disse em junho de 2016 e é bom que não se esqueça, porque foi uma das suas melhores frases.

Sugiro a António Costa que pergunte a um patrão sem princípios e a um com princípios se preferiam aumentar os trabalhadores ou aumentar os salários, o primeiro-ministro perceberá melhor o alcance político das suas declarações. A seguir o que vai dizer, que prefere cortar nos vencimentos para aumentar nos médicos e nos bombeiros?

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O Rei parece vestido

(Pacheco Pereira, in Público, 12/05/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Custa-me acrescentar mais água ao mar de palavras que as entrevistas e intervenções do Presidente da República têm suscitado, porque, com toda a franqueza, não me parece terem nada de relevante. Talvez porque não haja muito sobre o que falar.

Comecemos pelo princípio: por que razão o Presidente, que já fala muito todos os dias e produz um metadiscurso quotidiano sobre tudo o que acontece, resolveu dar uma série de longas entrevistas a vários órgãos de comunicação social? Aconteceu algum drama político, existe uma qualquer crise previsível a curto prazo, há alguma tensão escondida nalgum lado que precise da sua palavra para deixar de ser tensão? Não e não e não.

Talvez porque, como a sua natureza de comentador tenha horror ao vácuo, ele perceba que está a mergulhar nele, com a continuidade de um ciclo político no qual o seu papel acaba por se centrar nas questões “fracturantes”, um pouco como o Bloco de Esquerda. Talvez porque desde os incêndios ele não tem estado no centro dos acontecimentos por muito que fale. E talvez seja por isso mesmo que recorrentemente volta a falar dos incêndios, acabando por produzir numa das entrevistas a mais absurda das afirmações, a de que não se recandidataria, caso se repetisse o que aconteceu nos grandes incêndios do ano passado. O que é que tem uma coisa que ver com a outra? Para além de que é muito pouco provável que se repita a tragédia do ano passado — ou seja, o Presidente vai-se recandidatar —, significa a frase que considera nula a sua influência sobre o Governo, que não faz nada do que o Presidente pediu, ou considera que, como procedeu nesses meses todos como se fosse ele o chefe do Governo, assumiria a responsabilidade pessoal pela repetição da tragédia? Não se percebe.

Como também não se percebe o seu discurso sobre os perigos do populismo, um pouco out of the blue. Sim, sem dúvida que os riscos do populismo estão a crescer em toda a Europa, mas em Portugal o populismo nunca conseguiu ter um rosto e um movimento que penetrasse no escudo partidário, em que as fraquezas dos partidos são também uma força. Aliás, a maioria das prevenções que fez, aplicar-se-iam em primeiro lugar a ele próprio, que é o único que em Portugal está numa posição de popularidade com base pessoal, e no exercício “afectivo” que tem feito da Presidência, isso, sim, típico do populismo. Para além disso, o Presidente tem uma longa história de, em determinadas matérias, ter sido sempre um defensor de posições populistas em matéria de sistema político, desde quando era comentador. Uma dessas matérias é perigosíssima e diz respeito às questões de Justiça, em que o Presidente não está muito longe do CDS quanto à celeridade da Justiça à custa dos direitos dos acusados, nem do Bloco de Esquerda, quanto ao segredo bancário e à inversão do ónus da prova.

Por último, no meio de dezenas de frases, vieram os habituais recados aqui transmitidos pela imprensa, mas que o Presidente não se tem coibido de dar a toda a gente com quem fala. Um é de que se o Orçamento do Estado não for aprovado nem à esquerda, nem à direita, convocará eleições. Claro que sim, é natural que o faça, porque isso significa que o acordo político no qual assenta o Governo, em que essa é uma obrigação de todos os partidos que o subscreveram, perdeu a sustentação parlamentar. No momento em que o Orçamento for chumbado, há um ou mais partidos que não querem este Governo e ele terá de se ir embora para novas eleições. O Presidente não tem alternativa.

Neste contexto, António Costa respondeu sempre bem ao Presidente, o que nem sempre é fácil, visto que neste combate verbal o Presidente sabe-a toda. Mas Costa disse duas coisas mortíferas para esta logomaquia presidencial e que não tenho dúvidas deixaram o Presidente mais furioso do que o habitual. Uma de que “é muito difícil interpretar a arte moderna e nem sempre é possível interpretar os discursos modernos”. Esta foi no alvo e era menos tradicional. A outra, mais comum e menos original, mas que também é má para o Presidente, é a de que “o Presidente da República não manda recados pela imprensa”. Claro que manda por todos meios.

O Presidente é muito narcisista, como todos sabemos, e suspeita que Costa se possa sair melhor destes tempos do que ele. E sabe melhor do que ninguém que os “afectos” não duram muito e não ficam na história. Por isso, responde à ameaça de vazio da única maneira que conhece: falando. Só que a fala gasta-se.

QUE DESEJA AFINAL, SR. PRESIDENTE?

(Joaquim Vassalo Abreu, 09/05/2018)

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Que pretende, afinal, sua Exª o Presidente da República, Sr. Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, Marcelo por parte do padrinho, Rebelo por parte da mãe e Sousa por parte do pai e ainda PSD por adopção, V.Exª que sempre foi um simplificador?

V.Exª que é por demais conhecido por ter dois cérebros em um, o que o ajuda a simplificar, um que dorme enquanto o outro está acordado (um dorme pelos dois), um trabalha e escreve e o outro descansa, às vezes até escrevem os dois, mesmo que o outro pareça adormecido e diga que não responde pelo outro, é o que por aí se diz, e nisso da simplificação é tido como um mestre!

E ligou agora o complicodromo? Porque, o que desejava realmente dizer V.Exª quando fez as afirmações e discursos últimos, no mínimo estranhos para não dizer estapafúrdios, para um indivíduo tão inteligente e simplificador, como todos dizem ser?

Mas, antes de mais, quero-lhe dizer uma coisa, Sr. Presidente: V.Exª pode pensar tudo aquilo que entender, pode dizer tudo o que lhe der na real gana, tecer todos os cenários que lhe aprouver e, ainda, fazer todos os avisos que pretender mas, Sr. Presidente, recorrer aos malfadados incêndios e tragédias do ano passado? Que não se recandidatará se voltarem a acontecer? Isto é, se o ESTADO voltar a falhar, como tanto se disse no ano passado? Por amor da santa, Sr. Presidente…

Mas vamos então começar por aqui Sr. Presidente da República, supremo Chefe de ESTADO e Comandante de todas as Forças Armadas, concluindo de imediato uma coisa deveras simples, que qualquer cidadão minimamente atento concluirá: é que sendo V.Exª o ESTADO, e o ESTADO pelos vistos falhou, em falhando novamente, V.Exª concluirá pelas assunção das suas responsabilidades enquanto chefe desse ESTADO falhado e, como tal, declinará nova candidatura. Certo?

Isto seria o pensamento de um dos seus cérebros, mas temo que não seja bem assim e a outra parte não esteja de acordo! É que há um “mas”, como há sempre e em tudo um “mas”.

 É que tendo eu e muitos de nós concluído que V.Exª sacudiu durante todos estes meses as suas responsabilidades como Chefe de Estado, deixando que se instalasse na opinião pública a tese da Direita e de toda a imprensa que, neste caso, o Estado seria somente o Governo, optou pela posição do bom samaritano, de afagador e confidente de almas, uma espécie de Rainha Santa Isabel dos beijos e dos abraços, de receptáculo de todas as frustrações e mentor de todas as promessas, mas do resto do seu múnus nada de relevante, por que diz o que diz agora? Sim, se até saiu fortalecido do sucedido?

Essa de “se voltar a suceder o mesmo ser impeditivo da sua recandidatura é um indisfarçado “eufemismo” que quer simplesmente dizer: “se se renovar a Geringonça, para quê ser Presidente se a sua ideia de Presidente não consegue cumprir”? Impor um Bloco Central é o seu desejo, não é?

E, seguindo para o segundo capítulo da “complicodometria”, diga-me Exª o que pretendeu dizer quando afirmou que marcará eleições se não houver acordo quanto ao próximo Orçamento? Se não for aprovado um Orçamento, penso que quis dizer….

V.Exª pretende eleições antecipadas, primeiro para eliminar aqueles empecilhos do PC e BE, e depois para poder manifestar aquele poder que pretende ter e ainda não conseguiu porque a “porcaria” desta Geringonça tem conseguido levar a água ao seu moinho e, por isso, não tem podido ameaçar como queria, nem exercer a sua magistratura de influência como pretendia e isso será considerado por si como empobrecedor de uma Presidência, não será também?

Na verdade, a Geringonça foi um sapo demasiado grande que o Sr. Presidente teve que engolir, assim tipo um “aru” das Amazónias que lhe foi imposto. O que V.Exª pretendeu sempre, a meu ver claro, é que houvesse uma “jiga joga” onde V.Exª fosse o árbitro e ao mesmo tempo o “Var”, está a ver?

É o Bloco Central que deseja, seja claro Sr. Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e tal e daí, desiderato conseguido, daí eu até compreender que dando por concluído o seu contributo, o de ter ajudado aqueles intrusos (que nunca compreendeu como ao Poder foram parar…) a apearem-se desse mesmo Poder, decida afastar-se e voltar a dedicar-se aos livros, às memórias…sei lá! Tudo voltará ao passado, a História a renovar-se e o cidadão Marcelo a apaziguar-se…

E há sinais recentes de um refortalecer da velha amizade Rui e Costa, tenha esperança!

Mas deixe-se de fitas Sr. Prof. Dr. Marcelo de coisa e tal! É que já o conhecemos há quarenta e cinco anos, já pensou?