O Governo quis passar de mansinho

(Ricardo Paes Mamede, in Público, 22/09/2025)

Paes Mamede

A grande diferença entre o anteprojecto de lei da reforma laboral e outras grandes alterações ao direito do trabalho está no actual contexto político.


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No fim de Julho, com o país já a banhos, o Governo aprovou um anteprojecto de lei para a reforma da legislação laboral. O objectivo declarado seria aprovar as alterações antes da discussão do Orçamento do Estado para 2026. Aproveitava, assim, a distracção das férias de Agosto e o ruído da campanha para as autárquicas.

O executivo de Montenegro usou a estratégia trumpista: em vez de duas ou três alterações relevantes, introduziu mais de uma centena de modificações à lei do trabalho. Isto tem duas vantagens para quem o faz: primeiro, a multiplicidade de temas dispersa a oposição, retirando-lhe eficácia; segundo, permite ao Governo alimentar a discussão em torno de um ou dois temas, sobre os quais possa mais tarde recuar e dizer que cedeu.

Foi isto que se passou com as polémicas em torno da licença de amamentação ou do luto gestacional: depois do confronto inicial, o Governo vai sugerindo ter disponibilidade para recuar. Estes temas têm uma vantagem acrescida: permitem ao Chega (partido de que o PSD poderá depender para aprovar a nova lei) vestir a pele de suposto defensor da família, reivindicando os louros do recuo.

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Acontece que os temas da amamentação ou do luto gestacional são apenas dois entre muitas dezenas de direitos que são visados. De acordo com o anteprojecto apresentado, o Governo pretende mexer em domínios tão diversos como: a facilitação dos despedimentos individuais, a eliminação do direito de reintegração de um trabalhador ilegalmente despedido, o poder dos empregadores para definirem os horários de trabalho, o alargamento do âmbito e da duração dos contratos precários, a possibilidade de substituição de trabalhadores do quadro por empresas de trabalho temporário, a restrição do direito à greve, ou a redução do poder negocial dos sindicatos e dos seus direitos de intervenção nas empresas. Sobre estes aspectos o Chega nada diz e percebe-se porquê: o seu objectivo é criar confusão para ganhar votos e não proteger os direitos de quem tem de vender a sua força de trabalho para pagar as contas.

Cada uma das modificações propostas, por si só, não constitui uma alteração paradigmática à legislação em vigor. No seu conjunto, no entanto, trata-se de um pacote vasto e transversal, com impactos cumulativos na vida da maior parte dos portugueses em idade activa.

Se alguém duvida do sentido das alterações, há duas formas de fazer o teste. Um é ler e ouvir o que dizem os especialistas em direito do trabalho, que na sua grande maioria têm vindo a criticar as propostas do Governo. Outro é pedir aos representantes das confederações patronais para indicarem uma alteração, entre as mais de uma centena de propostas, com a qual não concordam. Manuel Acácio, jornalista da TSF, fez há dias essa pergunta a Armindo Monteiro, presidente da CIP. A resposta foi um silêncio repleto de embaraço.

No meio de tanto spin e ruído comunicacional, algumas vozes de protesto começaram a ouvir-se. Foram surgindo artigos de opinião nos jornais, a tentar trazer luz à confusão que o Governo quis criar. Dirigentes sindicais, incluindo as direcções da CGTP e da UGT, começaram a pronunciar-se de forma dura sobre as alterações. Manuel Carvalho da Silva e José Manuel Torres Couto, os dois históricos ex-dirigentes daquelas organizações – e durante décadas vistos como arqui-rivais –, juntaram-se para denunciar o que está em causa e apelar ao protesto. No sábado passado, a jornada de luta da CGTP levou à rua muitos milhares de pessoas no Porto e em Lisboa, em protesto contra o pacote laboral.

O espaço dado pela comunicação social a estas e outras vozes tem sido exíguo, por diferentes motivos. Mas a pressão foi já suficiente para que o Governo recuasse na intenção de fazer aprovar as alterações antes do Orçamento do Estado. Agora diz que não tem pressa, que quer estender a discussão por algumas semanas. As razões deste recuo são evidentes: primeiro, o tema está a tornar-se tóxico e há umas eleições autárquicas pelo meio; segundo, a polémica pode criar dificuldades no próprio processo de aprovação do OE. Mas o executivo só recuou nos prazos, não na intenção de fazer aprovar as propostas em causa.

Entretanto, o Governo de Montenegro vai continuando o seu spin: apresenta as alterações como uma mera modernização da legislação laboral, como se Portugal não fosse recordista de mudanças profundas ao direito do trabalho nas últimas duas décadas; diz que as alterações são necessárias para tornar a economia portuguesa mais competitiva, como se existisse alguma evidência de que a regulação do trabalho constitui hoje um entrave ao desempenho económico do país; insiste que são alterações ligeiras, sem importância, como se mais de uma centena de alterações, a maioria das quais merece a contestação de académicos e sindicatos, fosse irrelevante.

Se as propostas do Governo forem aprovadas, não estaremos a resolver um problema de competitividade — porque ele não está nas leis laborais. Estaremos, sim, a fazer um favor aos sectores menos ambiciosos do tecido empresarial português, incentivando a aposta num modelo de desenvolvimento assente em trabalho descartável, menor investimento em inovação e maior desigualdade.

A grande diferença entre o anteprojecto de lei da reforma laboral agora em discussão e outras grandes alterações ao direito do trabalho, como as conduzidas pelos governos de Durão Barroso ou de Passos Coelho, não é a extensão das mudanças introduzidas, muito menos a direcção da reforma, que é sempre a mesma: mais facilidade de despedimento, mais precariedade, menos controlo de quem trabalha sobre a organização da sua vida profissional e familiar, menos poder negocial para os sindicatos. A diferença está no contexto político: as esquerdas – no Parlamento, nos sindicatos e nas ruas – estão mais enfraquecidas. Isto dá confiança ao Governo para fazer as alterações à legislação laboral que os partidos de direita e alguns interesses empresariais sempre defenderam em Portugal. A confiança é tanta que se mostram dispostos a rever a Constituição – com a participação do Chega, claro – caso o Tribunal Constitucional venha a pronunciar-se contra as alterações agora propostas, muitas das quais têm sido apontadas como incompatíveis com a Lei Fundamental.

Resta saber se a tentativa de imposição desta Agenda do Trabalho Indigno (a expressão é de António Monteiro Fernandes, académico e ex-secretário de Estado do Trabalho) vai selar a vitória de uma contra-reforma liberal em Portugal, ou antes um momento de inflexão para quem luta por um país mais justo, mais sofisticado e menos desigual.

O autor é colunista do PÚBLICO

4 pensamentos sobre “O Governo quis passar de mansinho

  1. Escravo que se diz alforriado. Mata los? Não estarás a pensar no Carlinhos Igreja?
    Não, está descansado que ninguém quer matar o teu líder com um tiro certeiro como aconteceu ao Carlinhos Igreja. Ele não vale isso. O Carlinhos Igreja também não valia mas um miúdo que não queria viver num mundo de ódio insano achou que valia. Só conseguiu dar mais força a escravos como tu. E mais forca ao ódio insano propalado pela extrema direita.
    Mas o teu lider, cujo focinho vemos em todo o lado ao lado dos candidatos autárquicos de todos os concelhos de norte a sul do país nao vale que ninguém vá parar a uma cadeia onde será trucidado pelos guardas que sonham com impunidade e em menos de nada se juntara aos suicidados na prisão ou as vítimas daquela facada que ninguém sabe quem deu.
    Não, o teu líder não vale isso apesar de até ter inventado um assalto de ciganos ao Hospital de Faro.
    Um traste como ele não vale a vida de ninguém.
    Gostam muito de chamar a colação tachistas que viraram a direita.
    Essa gente nunca foi de esquerda. Simplesmente juntou se as hostes de esquerda quando pensou que seria esta a tomar o poder.
    Quando viu que não era bem assim e até que os correligionários estavam em vias de ver o traste que ali estava trataram de se por aí largo. E juntar se ao tacho.
    Quanto a tua ideia de rotina toma mas e vergonha no focinho.
    Se para ti segurança e direitos no trabalho, porque e acabar com tudo isso que está em causa e simplesmente rotina e deve desaparecer ou és patrão ou és um daqueles pequenos empresários sempre a beira da falência lamentando não poder pagar a um empregado a quem tiranizar porque tem de pagar segurança social e salário mínimo.
    De qualquer forma o que certeza és e um triste que devia ir ver se o mar da tubarão branco faminto.

  2. Estamos exactamente perante uma verdadeira declaração de guerra (é o tempo delas) ao sector trabalho e que já vinha a ser preparada bem antes. O facto de este governo, tal como todos os outros ter decidido aproveitar as vacances e o circo eleiçoeiro para impor mais um destrutivo pacote laboral, só revela a sua verdadeira natureza e os seus mais importantes objectivos: aumentar ainda mais a exploração de todas as formas, mesmo as mais insidiosas, esmagar a aptência dos trabalhadores para a luta e estabelecer um conformismo mascarado de uns laivos de paternalismo manhoso e esclerosado. Claro que o pretexto é sempre o mesmo e o objectivo central idem. Agitam o espantalho da falta de competitividade (que existe) para nos fazer engolir e justificar o injustificável. Dir-me-ão que o povão votou neles. Sim, alguns fizeram-no, claro, mas a larga maioria não o fez nem fará. Mas isso tb não preocupa o monteescuro. O que lhe interessa é que tudo continue como está para que a agenda agressiva vá sendo paulatinamente implementada com o aval do prof. martelo e dos mandarins de Bruxelas. Se acrescentarmos a tudo isto a deriva abertamente belicista da C. Europeia e o consequente saque dos activos públicos para satisfazer os fabricantes de armas, temos completo o quadro do lamaçal que nos espera e onde os principais partidos adoram chafurdar. Perante tudo isto, o que o povão pode e deve fazer e já é boicotar a sério as farsas eleiçoeiras que se aproximam. Mas isso é absoluto TABU para o rebanho assentado em S. Bento. Porque será?

  3. Fora do tópico.
    Efeitos do pensamento da esquerdalha.
    Não fujam com o dito à seringa.
    Quem enxameia estes lugares e decide, é gente que foi de esquerda e radical, tipo barrosão.
    https://pplware.sapo.pt/informacao/a-lei-das-cookies-da-europa-estragou-a-internet-bruxelas-quer-corrigi-la/
    O que não é de admirar, quem não percebe que 50 depois tudo mudou e a solução é chamar fascistas ao que pensam de maneira contrária e em desespero de causa, matá-los se possível, nunca perceberiam, que o pior que pode acontecer em termos de segurança, é a rotina.

  4. Já nos tempos da troika, quando também se aprovaram uma série de atentados que o Costa nunca reverteu se andou a batalhar na tentativa de imposição de meia hora a mais por dia.
    Ou seja, mais duas horas e meia de graça em cinco dias de trabalho.
    Claro que era uma atrocidade pois que oito horas de trabalho chegam e sobram.
    Mas entretanto só se falava na meia hora esquecendo se todos os restantes atentados.
    Foi um tempo de trevas em que também os ordenados foram congelados. Nem o miseravel ordenado mínimo subiu e então estava ficado em 485 euros.
    O Governo acabou por recuar na meia hora, a UGT cantou vitória e só a tal central sindical radical lembrou o obvio, que a meia hora era so um de dezenas de atentados contra quem vive de vender o seu trabalho a outros.
    Agora e a mesma coisa pois que que até ninguém tem tomates para pedir numa empresa privada o direito de amamentação e menos ainda tera consumado o atentado de facilitar os despedimentos.
    Principalmente se nem houver obrigação de reintegrar quem for despedido ilegalmente.
    A mulher vai pedir tempo para amamentação para ser despedida e mais tarde receber uma indemnização da treta sabe Deus quando pois que todos sabemos a velocidade a que os tribunais se mexem.
    Mas a estratégia e a mesma, recuo em questões que na prática serão na mesma “resolvidas” a contendo dos patrões se tudo o resto passar.
    E tudo o resto e uma atrocidade, uma verdadeira “americanização” das relações de trabalho.
    E o condenar dos novos trabalhadores a precarização, transformar todos os trabalhadores em precarios ao ritmo dos humores do patrão, e um “trabalha, trabalha, trabalha e cala a boca”.
    Uma porta ainda mais escancarada a emigração dos jovens pois que se e para poder ser despedido a americana melhor e ir para onde pelo menos pagam mais.
    Claro que os patrões estão nas suas sete quintas pois que e impossível meter na cabeça do patrão tuga que trabalhadores que se sintam valorizados e protegidos vao produzir mais e que sem trabalhadores não há empresas.
    Isso não entra na cabeça das elites e por isso tivemos o Belmiro de Azevedo a dizer a atrocidade de que o miserável ordenado mínimo de 485 euros ainda devia baixar.
    Enfim, sao os empreendedores que temos.
    Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.

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