Viva o OE de 2025! – Autocensurado

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 25/09/2024)

(Esta versão do artigo só difere de outra, já pubicada antes, pois não tem a nossa nota final. Motivo: poder publicar no Facebook pois a primeira versão, com a nota da Estátua, “ofendia os padrões da comunidade” e era logo removida! VIVA A DEMOCRACIA E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO…

Estátua de Sal, 26/09/2024)


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Se estão de acordo com o essencial porque não estarão quanto às compras da semana, entre gastar mais em detergentes ou em desodorizantes?

O conclave dos cardeais que rege o regime desde Novembro de 1975 – o conselho de administração do Estado, enquanto grupo gestor dos interesses próprios que constitui o “centrão” que a si mesmo se qualifica de democrático, moderado e patriótico – está de acordo quanto à subordinação da política interna portuguesa e externa à da União Europeia e à da NATO, vamos às guerras com eles no Iraque, no Afeganistão, na Ucrânia, na Palestina, em África, está de acordo com a subordinação financeira ao BCE, está de acordo com a decadência política e económica da Europa, e com a crise que a crise na Alemanha anuncia, de desindustrialização, desemprego e desmantelamento do estado social, a mais ou menos curto prazo.

Os partidos políticos que captam 90% dos votos dos eleitores portugueses estão de acordo com o essencial:

  1. Acreditam que a vitória sobre a Rússia é certa.
  2. Que Israel é um estado democrático e de direito que defende os valores do Ocidente.
  3. Que a China é uma ameaça.
  4. Que as 7 maiores companhias do mundo – entre elas a Microsoft, Google, Amazon, X -, são uma garantia de segurança e liberdade, de virtude do mercado.
  5. Que o GPS gerido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos é um instrumento de boa localização que permite eliminar inimigos à distância e levar os clientes às portas dos hotéis escolhidos no TRIVAGO.
  6. Que os satélites da Starlink de Elon Musk (um filantropo) são um bem comum para fornecer imagens de locais de férias.

E 90% dos eleitores estão de acordo com a transformação do Alentejo numa área de agricultura intensiva de espécies exóticas e exigentes em água. Estão de acordo com o turismo de massas e com a sua eleição como base da economia nacional – a economia do alojamento local e do TUK TUK, tão cara a Carlos Moedas.

Enfim, estando de acordo que a Reserva Federal americana – o FED -, estabeleça o valor da moeda de troca mundial, o dólar, sem referência a qualquer bem material, mal seria que não estivessem de acordo com um orçamento doméstico. E desacordo reduzido diferenças dumas cagagéssimas percentuais no IRS jovem ou a caminho de o ser; se deve ser dado mais apoio à indústria dos fogos ou à dos eucaliptos; de quanto devem receber os industriais da saúde privada do orçamento geral da saúde. Ninharias.

O dissolvente

(Por J.J. Faria Santos in Blog O vagar da penumbra, 22/09/2024)

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Esta semana uma mudança tectónica ocorreu no complexo mediático-comunicacional de Belém: a troca de um jornal de referência por um tablóide na função de órgão de comunicação oficioso. O procedimento foi o usual: uma “fonte de Belém” jorrou ao Correio da Manhã que o Presidente convocará eleições se o Orçamento do Estado para 2025 for chumbado. É certo que a revelação, aparentemente, não proveio do próprio, mas se, digamos, um secretário de Estado é responsável pelas acções da sua secretária, o mesmo se aplica a esta situação, presumindo-se que um funcionário da Presidência não ande a divulgar informação sensível à revelia do supremo magistrado da nação. Acresce que, tendo em conta o “cadastro” de Marcelo na matéria, não é de afastar que tenha sido o próprio a promover a cacha, tornando-se irresistível rememorar as palavras que o mesmo pronunciou em Novembro de 2016: “a única fonte de Belém sou eu, é o Presidente”.

Marcelo estará preocupado com o efeito que a inexistência de orçamento aprovado terá no rating da República e nos pagamentos do PRR. Se a ameaça de convocar eleições é mais um recurso de alta pressão do que uma profissão de fé nas virtudes da “devolução da palavra ao povo” é o que resta para ver. O político que afirmou, na altura da demissão de Pedro Nuno Santos enquanto ministro da Infra-Estruturas, que “não podemos ter eleições todos os anos” e que o “experimentalismo não é a coisa melhor para a saúde das democracias” (citando uma conjuntura marcada por uma guerra, uma crise económica e financeira e um governo eleito há menos de um ano), é o mesmo que não muito tempo depois proclamava alegremente que “sem dramatizações, nem temores [era] preciso dar a palavra ao povo” para que do sufrágio resultasse um Governo que garantisse “estabilidade”. A única “estabilidade” discernível, tirando o facto de o orçamento ser o mesmo, é que passámos de um executivo com maioria absoluta no Parlamento para um outro que governa como se a tivesse.

Como impenitente homem de fé, Marcelo acreditava, há cerca de duas semanas, que iria “haver uma boa vontade grande para poupar o país a experiências de crise política”. Não sabemos se agora estará a passar por uma crise de fé, se deplora a arrogância delirante do primeiro-ministro pouco propícia à negociação ou se sente o apelo irresistível da dissolução. (Veremos que consistência terão as palavras do ministro dos Assuntos Parlamentares, invocando disponibilidade e interesse em “conversar, em negociar e em ceder onde for preciso ceder” para que o OE seja aprovado.)

Numa manobra enquadrável no estilo glutão de cobrir todos os ângulos (não confundir com a síndrome de cata-vento diagnosticada pelo Dr. Passos Coelho), a fonte de Belém teve mais uma aparição inesperada, desta vez no Observador (o enclave da direita radical versão elitista) para garantir que o Presidente acreditava na viabilização do Orçamento do Estado, mas não afastava a hipótese de eleições antecipadas.

Em Abril deste ano, Marcelo explicou que a dissolução “era um sonho antigo da direita portuguesa, desde 2016, mas só se concretizou porque houve essas duas ocasiões que se somaram: um processo que ninguém esperava nem imaginava e a demissão de primeiro-ministro e secretário-geral do PS”. As “ocasiões” fizeram a demissão, mas falta uma nesta análise e essa “ocasião” oculta é evidente: um Presidente demasiado empolgado em evocar o seu poder de usar a “bomba atómica” e com tiques de trigger-happy. Dá-se o caso feliz de a arma no arsenal do Dissolvente ser política e não militar.

Fonte aqui

A propósito do Orçamento! — Eleições, já!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 06/09/2024, Revisão Estátua de Sal)


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Isso não interessa nada! — a frase foi-me atirada por Tereza Guilherme há milénios, num programa que ela conduzia chamado “Eterno Feminino”, onde eu ia ser entrevistado sobre um romance que publicara. Ela tinha umas fichas preparadas com as perguntas e, presumo, com as respostas esperadas. Ia eu a falar sobre um assunto a propósito do qual a produção lhe dera a minha resposta e diz-me a Tereza com o desembaraço que lhe é conhecido: Isso agora não interessa nada. O que interessa é saber porque devem as pessoas comprar o seu romance.

Tinha toda a razão a Tereza Guilherme. Eu é que era um ingénuo que ia falar de enredos e personagens. O que interessa é o mercado, o negócio. Eu estava ali para vender um livro, deixemo-nos de tretas.

Quanto à discussão sobre o orçamento geral do Estado — do aprova não aprova, quem aprova e o quê, sobe um escalão do IRS e descem dois do IRC, há descontos para reformados e militares sem graduação, desce a tributação sobre a cerveja sem álcool ou sobe a do tremoço, alugam-se quartos a estudantes em antigos conventos de frades e freiras, quartéis e outras serventias. É música de adormecer. Tretas. O orçamento não interessa nada. O que interessa são os negócios entregues a dois ministros que, por acaso, têm um aspeto sinistro. A ministra da saúde e o ministro das obras públicas. Eles têm nomes, mas eu deixo aqui as fotos.

O que interessa a este governo são os negócios de milhões: o das grandes obras, aeroporto, acessos e TGV — negócios a cargo do ministro das obras públicas; o outro grande negócio é o do fim do Serviço Nacional de Saúde e a passagem do negócio para os grupos privados, a cargo da ministra que anda sempre de trombas. O que interessa é a caça grossa e não o milho para pardais.

O que está em jogo, o que interessa é muito simples: quem vai ao pote agora e só se saberá daqui a vinte anos! Ou se apoia que seja o atual grupo, que já tem prática, com as PPP da saúde, a degradação planeada e executada do SNS, que tem os rostos do anterior bastonário dos médicos e da enfermeira que fazia agitprop na anterior legislatura, mais o atual ministro das obras públicas que era secretário de Passos Coelho e que já esteve no negócio da TAP (um pequeno negócio comparado com o que está hoje em jogo), ou se vai para eleições para os portugueses decidirem claramente quem pretendem a gerir os grandes negócios e com que controlo, o que passa também pela escolha do próximo/a Procurador Geral da República, que o atual governo quer que seja um idiota útil.

Os dois únicos ministros que contam são aquele que domina as obras públicas .“os dinheiros de Bruxelas”, e aquela que domina o negócio da saúde privada. A seu tempo virá a importância do ministro que vai privatizar a segurança social e vender planos de poupança de fundos abutres americanos. Neste casino, o ministro das finanças é apenas um manga de alpaca ou o que designava por “guarda.-livros” com a função de explicar as artes performativas dos negócios com a clareza de um peixe dentro de um aquário!

Em tempo: é decisivo perguntar quem está a pagar a campanha de manipulação conduzida por grupos interessados nos negócios agora tão preocupados com a estabilidade, o compromisso, vamos lá que os totós dos portugueses estão quase a chegar ao Natal e querem o subsídio e o peru e a mensagem do senhor Presidente, do Senhor Primeiro-ministro, do senhor Cardeal patriarca.

Por fim: Eleições são indispensáveis para nos entendermos. A estabilidade invocada pelo Presidente da República e pelos os seus cães amestrados são dados viciados que apenas servem os abutres.