Antes de ter de lidar com Bolsonaro, agora vamos ter que aturar os bolsonarinhos

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 04/11/2018)

JPP

Pacheco Pereira

É a hora dos bolsonarinhos, como já foi a dos trumpinhos, ou seja os ajustes de contas daqueles que achavam e acham, mas não dizem, que foi muito melhor Bolsonaro ganhar, porque o inimigo do meu inimigo, meu amigo é.


Lá venceu o homem, agora é que se vai ver. Como Trump, não vai desiludir as péssimas profecias, porque é da natureza de algumas coisas que não se endireitam. Vamos ver, por esta ordem, a bala, depois o boi e por fim a Bíblia. Mas há uma coisa que convém não esquecer nesta euforia bolsonera, é que antes de Lula ser preso, e mesmo depois, ele estava muito à frente das sondagens, pelo que a recusa do PT que é real e que tem muitas razões, não explica tudo. E não leiam isto como justificativo dos estragos que o PT fez e faz ao Brasil, mas como preocupação com o que Bolsonaro vai fazer.

Mas agora é a hora dos bolsonarinhos, como já foi a dos trumpinhos, ou seja os ajustes de contas daqueles que achavam e acham, mas não dizem, que foi muito melhor Bolsonaro ganhar, porque o inimigo do meu inimigo, meu amigo é. As coisas são o costume, o anti-intelectualismo, a separação entre as elites e o povo, a jactância da esquerda quando o povo não vota o que eles querem, e por aí adiante. Já ouvi isto mil vezes, e a razão é simples: são-lhes mais importantes as “lições” que pregam aos seus adversários do que o risco do “outro”.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Passaram toda a campanha, desde que Bolsonaro começou a ficar à frente nas sondagens, a fazer textos falsamente salomónicos, mais irritados com os não Bolsonaros do que com os Bolsonaros. Juram a pés juntos que não gostam do homem, como de Trump, mas na verdade movem-lhes mais os sentimentos os adversários de sempre, da direita, dos alt-right caseiros, do que o risco de um homem que promete resolver a criminalidade à bala como Duterte faz, e que prega a violência em todos os azimutes.

O tribalismo ajuda estes bolsonarinhos, e o tribalismo é que mais cresce nestes dias. Mas, do tribalismo à violência é só um passo, que no Brasil será muito rápido, e nos EUA está a chegar agora mesmo, com o bombista MAGA e o homem que disparou sobre os judeus. Quem semeia ventos colhe tempestades, diz o povo. E quem fica mais furioso com os mansos de que não gosta e desvaloriza os brutos é com os brutos que está.


A Pátria está boa?
Não, não está. Está devidamente orçamentada, devidamente entretida, devidamente distraída, devidamente normalizada, contente por estar a passar os dias sem convulsões especiais. Já cá não estão nem troika, nem Passos nem os “passistas” do PAF, só ficaram os “passistas” do PS, diga-se Centeno, pelo que a possibilidade de acordarmos amanhã com mais um corte de salários, pensões e reformas, diminuiu exponencialmente. É um bem precioso, mas não dura sempre.
As ruas estão cheias de turistas que comem naqueles restaurantes que qualquer português sabe que nunca, jamais, em tempo algum, deviam ser frequentados.

Andam de tuk-tuk, ocupam passeios, praças e casas e voltam à sua terra contentes e com a perigosa sensação, para o futuro do turismo, de que já viram tudo. Como não são do género nem da idade que vai reformar-se para o Algarve, procurarão outras terras e, apesar do nosso orgulho nacional, não vão ver o que lhes falta ver no País, pelo menos com os olhos que usam.

Os partidos políticos estão bem com o status quo, não os move nenhuma vontade essencial, urgente, dramática, de mudar o estado de coisas, nem no Governo, nem na oposição. O PS está demasiado contente consigo próprio, o PSD demasiado descontente. O Bloco e o PCP presos no labirinto entre a fatia de poder que conseguiram, e a dificuldade de lhe manter o tamanho.

Apesar das fúrias das redes sociais e do crescente linguajar populista e antidemocrático, pouco se passa daí. Primeiro, porque as coisas parecem estar a melhorar, ou pelo menos a não piorar. Depois, porque se a fúria e a raiva são muitas, a preguiça é ainda maior. E por último, falta um capo, que viesse da televisão para pegar fogo às incandescências das redes sociais, de dentro para fora.

Santana Lopes percebeu a oportunidade, mas isso não chega, o homem da Ventura que quer fazer o “chega!”, também não chega, pelo menos para já. Mas se as coisas neste momento estão a seu modo castradas, isso não significa que não podem mudar de um dia para o outro. Há sempre um Bolsonaro escondido dentro de si, dentro deles.

Não a Pátria não está bem, está a cometer o pecado da acédia. Faz parte da lista dos pecados mortais.

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5 pensamentos sobre “Antes de ter de lidar com Bolsonaro, agora vamos ter que aturar os bolsonarinhos

  1. Os Culpados do Pacheco E Os Reais Culpados

    Dá jeito, dá likes e lava consciências.

    Dá jeito. Despejar culpas em cima das esquerdas dá jeito, dá likes e lava consciências.

    Enquanto o pau vai e vem folgam as costas e escondem-se os Fascistas Henriques Cardosos, os Cir’i’os Gomos de Laranja e os Ronaldos Atchins para quem a democracia brasileira nunca esteve em perigo e a eleição do neofascista bol’o’sonaro é um fait diver na lama de corrupção em que estão todos atolados.

    Vem esta raiva toda a propósito de mais um destrambolhamento do pacheco, a propósito de mais uma das suas invectivas contra as esquerdas, suave, sempre suavemente, culpadas de tudo o que de mal vem ao mundo, mas duplamente por ele culpabilizadas pela vitória nas urnas brasileiras do Messias neo-fascista. A propósito da salomónica e equitativamente distributiva visão do pacheco sobre as esquerdas duplamente “Culpadas”, primeiro pelo que fizeram enquanto oposição ao poder dos BBB’s instalado no parlamento de Brasília, e depois pelo que disseram enquanto candidatas à presidência de Brasília.

    Dá jeito, porque enquanto o pacheco destila culpas em cima dos discursos das esquerdas, tapa com poeira as acções dos democratadores candidatos das direitas e dos insignes pais das democracias, os por lá Cardosos e por cá Soares, que por lá e por cá, preferiram sempre as fontes iluminadas com as tochas das direitas às democracias socialmente preocupadas das “perigosíssimas” e “vermelhíssimas” esquerdas.

    Dá likes porque as equidistâncias mascaradas de objectividade, que deslocam a norma dos discursos e das d’i’sculpas para um ponto médio, situado entre a extrema direita neo-fascista e o centrão-oligárquico-sempre-no-poder, agradam à turba acrítica para quem são sempre todos iguais. São e serão todos iguais até ao dia em que surgir um Messias, travestido de Santa Ana ou de Bento Ventura, a cavalgar o ódio “à politica e aos políticos” que afinal somos todos nós e o que fazemos.

    E lava-lhe a consciência, pois, isso, o insigne ex-deputado e ex-apoiante dos neoliberais portugais-à- frente, actualmente remetido para historiador da marmeleira e opinador em horário nocturno nos caneiros bolsanamão, tem a consciência pesada, carregada com o peso de engrossar uma outrora social-democracia, hoje desenvergonhadamente neoliberal e por isso descambadamente neofascista. E sente uma imensa necessidade de a lavar, quanto mais não seja com a água suja das acusações contra os que nas ruas chamaram os bois pelos nomes.

    Pois é pacheco, desvia lá a pontaria um bocado para a direita. Ali para os lados dos Cardosos que agora andam aqui pela Europa a lavar com lixívia a cara do Messias. Para cima dos Cardosos que fecharam as portas e se sentaram nos sofás a ler uns livros, quando foi preciso barrar o caminho ao neofascismo. Desvia lá a pontaria para cima desses e do Cir’i’o, que veio passar umas férias na Europa e deixou o irmão a atirar lama ao candidato anti-fascista.

    Vá lá pachecozito, perdes uns likes mas a água com que lavas a consciência vai sair mais limpa.
    (https://referenciasemmais.blogspot.com/2018/11/os-culpados-do-pacheco-e-os-reais.html)

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  2. Preferiria ir à procura do artigo do MST, onde se aborda o assunto, mas deixo-o aqui que também fica bem acompanhado.

    Nota, a propósito. Como já disse muitas vezes, o que os críticos assanhados, este e os outros e vosotros, fazem ou deixam de fazer é como a lasca de uma unha comparado com o que o José Pacheco Pereira faz civicamente no projecto Ephemera… Entretanto, digo que entrei no blogue linkado que exibe uma epígrafe do Sérgio Godinho, LOL, e que habita na charneca alentejana ou no Sahel e, decerto, o contador passou a ter um leitor… a mais.

    Os evangélicos e a ditadura militar
    Documentos inéditos do projeto Brasil: Nunca Mais – até agora guardados no Exterior – chegam ao País e podem jogar luz sobre o comportamento dos evangélicos nos anos de chumbo

    https://istoe.com.br/141566_OS+EVANGELICOS+E+A+DITADURA+MILITAR/

    15/06/2011 nº 2170, hum, para os interessados e muito antes de, portanto.

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