Os ditadores com votos mas sem lei

(Pacheco Pereira, in Público, 10/11/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Os novos ditadores têm uma corte. E há lá um sorriso enterrado e escondido atrás da boca dos nossos bolsonarinhos e trumpinhos.


 

Os novos ditadores nascem dentro da democracia e têm votos. Muitos votos. Cumprem uma das condições democráticas essenciais: são eleitos e mandatários da soberania popular expressa pelo voto. Mas não são democráticos, porque lhes falta o segundo requisito fundamental da democracia: o primado da lei. E, dentro do primado da lei, o respeito pelos procedimentos democráticos, pelos direitos humanos, pelas garantias, pelas liberdades, pela liberdade.

O facto de poderem mudar as leis para as compatibilizar com o seu poder autoritário não os faz menos ditadores, porque as novas leis já estão ao serviço do seu poder e não da democracia e da liberdade.

Na verdade, não há grande mistério nem complexidade nestes processos, é da dissolução da democracia por dentro que se trata e todos sabem que é assim, porque o ascenso do ódio e do medo acompanha a acção política dos novos ditadores. E os seus alvos percebem muito bem como o ar fica irrespirável. Seja com os gémeos Kaczynski, com Orbán, com Erdogan, com Duterte, com Trump e com Bolsonaro, todos sabemos o que está a acontecer e só por hipocrisia é que se arranjam pretextos para não os combater como devem ser combatidos, sem hesitações nem transigências. A melhor expressão é a de “resistência”.

Não é nova a conjugação destes factores numa tempestade perfeita. Aconteceu com Hitler, com Mussolini, com Salazar, todos em vários momentos das suas carreiras tiveram ou teriam a maioria do voto popular. Os nazis conseguiram chegar ao poder com o voto popular, tornando-se o maior partido alemão. Mas em todos estes casos as eleições já revelaram o abuso do poder, mesmo que isso pudesse não alterar a maioria dos votos. A violência política dos nazis e dos fascistas antecedeu os seus resultados eleitorais (no caso alemão) e a generalizada manipulação do direito de voto, principalmente das minorias nos EUA, acompanha também a hegemonia dos republicanos pela manipulação dos mapas eleitorais e pelas contínuas dificuldades criadas a quem quer votar. E é só o princípio.

O primeiro e mais grave processo de dissolução da democracia por parte destes ditadores com votos é essencialmente a apropriação do poder judicial, o ataque à sua independência, não só para garantirem a sua imunidade, como para o usar contra os seus adversários. O que Bolsonaro está a fazer, dando o poder político da Justiça a um juiz envolvido no processo de corrupção dos seus adversários, lança uma luz sinistra sobre esse processo, tanto mais que a sanha justiceira foi selectiva. Não tenho muitas dúvidas sobre a corrupção no PT, mas também não tenho nenhuma dúvida que a perseguição a essa corrupção foi politicamente motivada. A uma corrupção soma-se outra. O mesmo acontece com Trump, cujas medidas mais gravosas estão na moldagem de todo o sistema judicial nacional e federal, assim como nas polícias e serviços de segurança, no seu poder, através de escolhas de homens e mulheres sem carreira ou currículo, sem perfil moral mínimo para cargos vitalícios, pelo critério da lealdade pessoal ao Presidente. Destruindo todas as instituições de mediação e de contrapoder, o poder torna-se autoritário e quem o ocupa um autocrata.

Mas estes homens têm uma corte, porque o poder autocrático tem uma capacidade enorme de atrair a degenerescência da virtude, de poder ser usado para comprar e vender interesses e para dar aos pequenos da mesma espécie a ilusão de que também são grandes, porque estão à sombra dos gigantes. Aqueles a quem tenho chamado os nossos bolsonarinhos e trumpinhos desdenham Bolsonaro e Trump e não quereriam ver-se em sua companhia à mesa. (E daí não sei… Talvez, depende, não é impossível, podia ser, e se for uma selfie, não ficava mal, para pôr na mesa de cabeceira…) Por isso juram a pés juntos que não gostam deles. MAS GOSTAM DO QUE ELES ESTÃO A FAZER. Vai em maiúsculas por que é isso mesmo.

De uma forma tão evidente, tão psicologicamente evidente, tão reveladoramente evidente, sentem conforto e uma íntima vingança por eles baterem na “esquerda”, por eles desprezarem as “elites” (excepto as elites económicas, que dessas eles gostam e não desprezam), por eles serem “politicamente incorrectos”, por eles porem na ordem a comunicação social, que se julga superior e de referência, por eles serem o azorrague de Hollywood, do “pântano”, dos bem pensantes, por eles desprezarem a academia, a ciência, o saber. Gostam deles e pouco se importam por eles fazerem o trabalho sujo. Fazem-nos crescer uns centímetros. Há lá um sorriso enterrado e escondido atrás da boca dos bolsonarinhos e trumpinhos.

E não se iludam com as aparentes reticências e com as explicações rebuscadas, que não “reticenciam” nada, nem “explicam” nada, porque lhes falta o sentimento de nojo. E o nojo é o sentimento exacto. Eu vi a conferência de imprensa de Trump, em que ele disse que se os democratas investigarem os seus impostos, ele vinga-se investigando os democratas, coisa que ele diz que faz muito melhor. Senti nojo. Ponto.

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Bem-vindos à selva

(Pepe Escobar, in Resistir, 04/11/2018)

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Está escuro no pico do meio-dia (tropical) 

Jean Baudrillard definiu um dia o Brasil como “a clorofila do nosso planeta”. Contudo, um país tão amplamente associado em todo o mundo ao poder suave duma joie de vivre criativa acaba de eleger um fascista para presidente.

O Brasil é uma terra dilacerada. O antigo paraquedista Jair Bolsonaro foi eleito com 55,63% dos votos. Mas 31 milhões de votos foram de abstenção, ou brancos ou nulos, um autêntico recorde. Foram 46 milhões os brasileiros que votaram no candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, professor e antigo prefeito de São Paulo, uma das gigantescas metrópoles do Sul global. O facto impressionante é que mais de 76 milhões de brasileiros não votaram em Bolsonaro.

O seu primeiro discurso, como presidente, exalava o sentimento de uma guerra santa degradada feita por uma seita fundamentalista entrelaçada com uma vulgaridade omnipresente e a exortação a uma ditadura de inspiração divina, como a via para uma nova Era de Ouro brasileira.

O sociólogo franco-brasileiro Michael Lowy descreveu o fenómeno Bolsonaro como uma “política patológica em grande escala”.

A sua ascensão foi facilitada por uma conjunção sem precedentes de fatores tóxicos, como o enorme impacto social do crime no Brasil, que levou a uma crença generalizada na repressão violenta como única solução; a rejeição concertada do Partido dos Trabalhadores, catalisada pelo capital financeiro, pelos latifundiários, pela agro-indústria e pelos interesses oligárquicos; um tsunami evangélico; um sistema de “justiça” que historicamente favorece as classes superiores e encarnado por juízes e procuradores com “formação” financiada pelo Departamento de Estado, incluindo o conhecido Sérgio Moro, cujo firme objetivo, durante a alegada investigação Lava Jato, contra a corrupção, foi enviar Lula para a prisão; e a total aversão à democracia de amplos setores das classes dirigentes brasileiras.

Isto tudo se vai amalgamando num choque radicalmente antipopular, “caído do céu”, neoliberal. Parafraseando Lenine, um caso de fascismo como a última fase do neoliberalismo. Afinal, quando um fascista vende um programa de “mercado livre”, todos os seus pecados lhe são perdoados.

O reinado da bancada BBBB 

É impossível compreender a ascensão do bolsonarismo fora do contexto da Guerra Híbrida, extremamente refinada, que foi desencadeada no Brasil pelos suspeitos usuais. A espionagem da NSA – desde a gigantesca petrolífera Petrobrás até ao telemóvel da então presidente Dilma Rousseff – já era conhecida desde meados de 2013, depois de Edward Snowden ter revelado que o Brasil era o país mais espionado da América Latina. 

A Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, rendida ao Pentágono, sempre foi favorável a uma militarização gradual – mas ininterrupta – da política brasileira alinhada aos interesses de segurança nacional dos EUA. O programa das principais academias militares norte-americanas foi adotado sem reservas pela Escola Superior de Guerra.

Os gestores do complexo industrial-militar-tecnológico do Brasil sobreviveram sem problemas à ditadura de 1964-1985. Aprenderam tudo sobre operações psicológicas com os franceses na Argélia e com os americanos no Vietname. Ao longo dos anos, evoluíram o seu conceito de inimigo interno; não apenas os proverbiais “comunistas”, mas a Esquerda no seu conjunto, assim como as amplas massas de brasileiros espoliados.

Isso levou à situação vigente de generais a ameaçar juízes, se libertassem Lula. O vice-presidente de Bolsonaro, ogeneralito Hamilton Mourão, chegou a ameaçar com um golpe militar se não ganhassem. O próprio Bolsonaro disse que nunca “aceitaria” a derrota.

Esta militarização progressiva da política combina perfeitamente com o caricatural Congresso Brasileiro BBBB (Bala, Boi, Bíblia, Banco).

O Congresso está praticamente controlado por forças militares, policiais e paramilitares; pelo poderoso lobby da indústria agrícola e mineira, com o seu objetivo supremo de pilhar totalmente a floresta amazónica; pelas facções evangélicas e pelo capital da banca/finanças. Comparem isso com o facto de que mais de metade dos senadores e um terço do Congresso enfrentam processos criminais.

A campanha de Bolsonaro usou todos os truques conhecidos para fugir a qualquer possibilidade de um debate na TV, fiel à noção de que discutir política é para perdedores, especialmente quando não há nada a debater.

Afinal, o principal conselheiro económico de Bolsonaro, o boy de Chicago, Paulo Guedes – atualmente sob investigação acusado de fraude de seguros – já tinha prometido “curar” o Brasil, servindo-se dos feitiços de sempre: privatizar tudo; eliminar os gastos sociais; acabar com as leis laborais e o salário mínimo; deixar o lobby do Boi saquear a Amazónia; e aumentar as armas nas mãos dos cidadãos a um nível superior ao estipulado pela Associação Nacional dos Rifles.

Não admira que The Wall Street Journal tenha classificado Bolsonaro como um normal “populista conservador” e “drenador do pântano-Brasil”; esta designação esquece os factos e ignora que Bolsonaro é um político menor que só conseguiu aprovar dois projetos-lei em 27 apagados anos no Congresso.

Enviem-me um WhatsApp para a Terra Prometida 

Embora as grandes massas, muito mal informadas, tenham progressivamente tomado consciência dos golpes sujos da enorme campanha manipuladora de Bolsonaro no WhatsApp – uma saga tropical pós-Cambridge Analytica; e apesar de Bolsonaro afirmar, em direto, que os adversários só teriam duas opções depois das eleições de domingo, a prisão ou o exílio, isso não foi suficiente para deter o Brasil duma marcha inexorável para uma distopia, uma Teocracia Evangélica das Bananas militarizada.

Em qualquer democracia madura, um grupo de empresários – com contabilidade clandestina – que financiasse uma campanha de notícias falsas no WhatsApp, com múltiplos tentáculos, contra o Partido dos Trabalhadores e contra Haddad, o candidato de Lula, seria considerado um enorme escândalo.

O WhatsApp é extremamente popular no Brasil, muito mais do que o Facebook; por isso tinha que ser devidamente instrumentalizado nesta mistura brasileira de Guerra Híbrida ao estilo da Cambridge Analytica.

A tática foi totalmente ilegal porque foi financiada por doações à campanha, não declaradas, assim como doações de empresas (proibidas pelo Supremo Tribunal do Brasil desde 2015). A Polícia Federal do Brasil iniciou uma investigação que terá o mesmo destino da investigação que os árabes sauditas fizeram a si mesmos no fiasco daPulp Fiction em Istambul.

O tsunami de notícias falsas foi gerido pelos chamados bolsominions . São um exército voluntário de super leais, que castigam quem quer que se atreva a pôr em causa o “Mito” (é assim que se referem ao líder), enquanto manipulam conteúdos, sem interrupção, em memes, vídeos falsos virais e variadas expressões de ira do “enxame Bolso”.

Imaginem o escândalo de Washington se os russos interferissem nas eleições norte-americanos, usando as mesmas táticas que os EUA e as suas elites compradoras usaram no Brasil.

Esmagar o BRICS 

Na política externa, naquilo que respeita a Washington, o Reichskommissar Bolsonaro pode ser muito útil em três frentes.

A primeira é a frente geoeconómica: obter a parte de leão das enormes reservas de petróleo das camadas pré-sal para os gigantes energéticos dos EUA.

Seria esse o requisito na sequência do golpe de misericórdia contra Dilma Rousseff, em 2013, quando ela aprovou uma lei destinando 75% das royalties do petróleo para o ensino e 25% para a assistência à saúde; uns significativos 122 mil milhões de dólares americanos ao longo de dez anos.

As duas outras frentes são geopolíticas: rebentar com o BRICS por dentro e levar o Brasil a fazer o trabalho sujo numa operação de mudança de regime na Venezuela, cumprindo assim a obsessão de Washington em esmagar o eixo Venezuela-Cuba.

Usando o pretexto da imigração em massa da Venezuela para a faixa brasileira da Amazónia, a Colômbia – elevada ao estatuto de parceiro fundamental da NATO e apadrinhada por Washington – pode contar com o apoio militar do Brasil para uma mudança de regime.

Depois, há a história importantíssima da China. 

A China e o Brasil são estreitos parceiros no BRICS. A propósito, o BRICS agora fica reduzido a RC (a Rússia e a China), com grande desgosto de Moscovo e de Beijing, que contavam que Haddad seguisse as pisadas de Lula, que foi fundamental no reforço do peso geopolítico do BRICS.

Chegamos assim a um ponto de inflexão fundamental no golpe da Guerra Híbrida em curso, quando os militares brasileiros se convenceram de que o gabinete de Rousseff estava infiltrado de agentes dos serviços secretos chineses.

Apesar disso, a China mantém-se o principal parceiro comercial do Brasil – à frente dos EUA, com um comércio bilateral que atingiu 75 mil milhões de dólares no ano passado. Além de ser um consumidor ávido de bens brasileiros, Beijing já investiu 124 mil milhões de dólares em empresas brasileiras e em projetos de infraestruturas desde 2003.

Guedes, o boy de Chicago, reuniu-se recentemente com diplomatas chineses. Bolsonaro vai receber uma delegação chinesa de alto nível, logo no início do seu mandato. Durante a campanha, repetiu várias vezes que “a China não está a comprar no Brasil, a China está a comprar Brasil”. Bolsonaro pode tentar um surto de sanções contra a China à moda mini-Trump. Mas tem que ter em atenção que o poderoso lobby da indústria agrícola tem lucrado imenso com a guerra comercial entre os EUA e a China.

É garantido um enorme suspense na cimeira do BRICS em 2019, que se realizará no Brasil: imaginem um Bolsonaro durão frente a frente com o verdadeiro patrão, Xi Jinping.

Então, o que pretendem realmente os militares brasileiros? Resposta: a “Doutrina de Dependência” brasileira – que é uma verdadeira mestiçagem neocolonial.

A certo nível, a liderança militar brasileira é desenvolvimentista, orientada para a integração territorial, fronteiras bem patrulhadas e uma “ordem” interna, social e económica, perfeitamente disciplinada. Simultaneamente, acredita que tudo isso deve ser feito sob a supervisão da “nação indispensável”.

Os líderes militares consideram que o seu país não tem conhecimentos suficientes para lutar contra o crime organizado, para defender a segurança cibernética e a segurança biológica, e, no que se refere à economia, para dominar totalmente um estado mínimo, aliado a uma reforma fiscal e à austeridade. Para o geral da elite militar, o capital privado estrangeiro é sempre uma benesse.

Uma consequência inevitável disso é ver os países latino-americanos e africanos como untermenschen [seres inferiores – N.T.]: uma reação contra a ênfase de Lula e de Dilma na União das Nações Sul-Americanas (UNASUR) e uma integração energética e logística mais estreita com África.

Não se pode descartar um golpe militar 

Apesar disso, há dissidência militar interna – que pode abrir uma via para a remoção de Bolsonaro, um mero fantoche, em benefício duma coisa real: um general.

Quando o Partido dos Trabalhadores estava no poder, a Marinha e a Força Aérea ficaram muito satisfeitas com projetos estratégicos como um submarino nuclear, um jato supersónico e satélites lançados por foguetes made in Brasil. Veremos qual será a sua reação no caso de Bolsonaro abandonar totalmente estes avanços tecnológicos.

O problema fundamental pode vir a ser se há uma ligação direta entre a nata das academias militares brasileiras; os “generais dependentistas” e as suas técnicas de operações psicológicas; as diversas fações evangélicas; e as táticas pós-Cambridge Analytica de que a campanha Bolsonaro se serviu. Será uma nebulosa que congrega todas estas células ou será uma rede frouxa?

A melhor resposta provém de Piero Leirner , especialista em antropologia da guerra, que realizou uma profunda investigação nas Forças Armadas brasileiras e me disse: “Não há uma relação prévia. Bolsonaro é um pós-facto. A única ligação possível é entre determinadas características da campanha e as operações psicológicas (psyops) “. Leirner sublinha: “A Cambridge Analytica e Bannon representam a infraestrutura, mas a qualidade de informações – enviar sinais contraditórios e depois aparecer uma resolução como terceira via, isso é uma estratégia militar dos manuais de operações psicológicas da CIA”.

Mas há brechas. Leirner considera o arco de forças díspares que sustentam Bolsonaro como uma “bricolage” que, mais tarde ou mais cedo, se desintegrará. E a seguir? Um general sub-Pinochet?

Bolsonaro não é Trump. Porquê? 

Em The Road to Somewhere; The Populist Revolt and the Future of Politics , David Goodhart mostra que a força motora por detrás do populismo não é o amor fascista duma nação radical. É a anomia – um sentimento duma vaga ameaça existencial que a modernidade coloca. Isso aplica-se a todas as formas de populismo de direita no Ocidente.

Assim, temos a oposição entre “alguns locais” e “quaisquer locais”. Temos “alguns locais” que querem que a democracia da nação seja confinada apenas às etnias nacionais, sem que a cultura nacional seja contaminada por influências “estrangeiras”.

E temos “quaisquer locais” que habitam o vórtice pós-moderno, sem raízes, do multiculturalismo e das viagens internacionais de negócios. Estes são uma minoria demográfica – mas uma maioria nas elites políticas, económicas, educativas e profissionais.

Isso leva Goodhart a fazer uma distinção fundamental entre populismo e fascismo – ideológica e psicologicamente.

A distinção legal comum encontra-se na lei constitucional alemã. O populismo de direita é “radical” – portanto, é legal. O fascismo é “extremo”, portanto é ilegal.

É errado rotular Trump de “fascista”. Bolsonaro foi rotulado pelo Ocidente de “o Trump tropical”. O facto é que Trump é um populista de direita – até com algumas políticas que poderão ser caracterizadas como de Velha Esquerda.

Os registos revelam Bolsonaro como um tipo racista, misógino, homofóbico, defensor das armas, favorecendo um Brasil branco, patriarcal, hierárquico, hétero-normativo e “homogéneo”; um absurdo numa sociedade profundamente desigual, ainda devastada pelos efeitos da escravatura e em que a maioria da população é de raça mista. Além disso, historicamente, o fascismo é uma Solução Final burguesa radical com vista à aniquilação total da classe trabalhadora. Isso torna Bolsonaro um fascista total.

Trump ainda é mais moderado do que Bolsonaro. Não incita os seus apoiantes a exterminar literalmente os seus opositores. Afinal, Trump tem que respeitar o enquadramento duma república com instituições democráticas muito antigas, mesmo que defeituosas.

Isso nunca aconteceu com a jovem democracia brasileira – em que um presidente pode comportar-se como se os direitos humanos fossem uma conspiração comunista em conluio com a ONU. As classes trabalhadoras brasileiras, as elites intelectuais, os movimentos sociais e todas as minorias têm toda a razão para recear a Nova Ordem. Nas palavras de Bolsonaro, “serão banidos da nossa pátria”. A criminalização/desumanização de qualquer oposição significa, literalmente, que dezenas de milhões de brasileiros não valem nada.

Falem com Nietzsche 

A refinada Guerra Híbrida em curso no Brasil, que começou em 2014, teve um ponto de inflexão em 2016 e culminou em 2018 com a destituição de uma presidente; a prisão de outro presidente; o esmagamento da Direita e do Centro-direita; e à moda de uma pós-política enlouquecida por esteroides, abriu o caminho para o fascismo.

Mas Bolsonaro é um vazio medíocre. Não tem a estrutura política, os conhecimentos, para não falar da inteligência em ter chegado tão longe, a partir do nada, sem um sistema de apoio de informações super complexo, de alta tecnologia, transfronteiras. Não admira que seja um queridinho de Steve Bannon.

Em contraste, a Esquerda – tal como na Europa – mais uma vez ficou presa no modo analógico. De modo algum, qualquer frente progressista, especialmente neste caso, tal como foi constituído na décima primeira hora, podia combater com êxito o tsunami tóxico da guerra cultural, da política de identidade e das notícias falsas micro-dirigidas.

A Esquerda perdeu a batalha importante. Pelo menos, agora já sabem que isto é a doer, uma guerra total. Para destruir Lula – o prisioneiro político mais importante do mundo – as elites brasileiras tiveram que destruir o Brasil. Nietzsche continua a vencer; o que não nos mata torna-nos mais fortes. A vanguarda da resistência global contra o neofascismo como o estádio mais avançado do neoliberalismo mudou-se para sul do Equador. No pasarán.

Fonte aqui

 

Antes de ter de lidar com Bolsonaro, agora vamos ter que aturar os bolsonarinhos

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 04/11/2018)

JPP

Pacheco Pereira

É a hora dos bolsonarinhos, como já foi a dos trumpinhos, ou seja os ajustes de contas daqueles que achavam e acham, mas não dizem, que foi muito melhor Bolsonaro ganhar, porque o inimigo do meu inimigo, meu amigo é.


Lá venceu o homem, agora é que se vai ver. Como Trump, não vai desiludir as péssimas profecias, porque é da natureza de algumas coisas que não se endireitam. Vamos ver, por esta ordem, a bala, depois o boi e por fim a Bíblia. Mas há uma coisa que convém não esquecer nesta euforia bolsonera, é que antes de Lula ser preso, e mesmo depois, ele estava muito à frente das sondagens, pelo que a recusa do PT que é real e que tem muitas razões, não explica tudo. E não leiam isto como justificativo dos estragos que o PT fez e faz ao Brasil, mas como preocupação com o que Bolsonaro vai fazer.

Mas agora é a hora dos bolsonarinhos, como já foi a dos trumpinhos, ou seja os ajustes de contas daqueles que achavam e acham, mas não dizem, que foi muito melhor Bolsonaro ganhar, porque o inimigo do meu inimigo, meu amigo é. As coisas são o costume, o anti-intelectualismo, a separação entre as elites e o povo, a jactância da esquerda quando o povo não vota o que eles querem, e por aí adiante. Já ouvi isto mil vezes, e a razão é simples: são-lhes mais importantes as “lições” que pregam aos seus adversários do que o risco do “outro”.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Passaram toda a campanha, desde que Bolsonaro começou a ficar à frente nas sondagens, a fazer textos falsamente salomónicos, mais irritados com os não Bolsonaros do que com os Bolsonaros. Juram a pés juntos que não gostam do homem, como de Trump, mas na verdade movem-lhes mais os sentimentos os adversários de sempre, da direita, dos alt-right caseiros, do que o risco de um homem que promete resolver a criminalidade à bala como Duterte faz, e que prega a violência em todos os azimutes.

O tribalismo ajuda estes bolsonarinhos, e o tribalismo é que mais cresce nestes dias. Mas, do tribalismo à violência é só um passo, que no Brasil será muito rápido, e nos EUA está a chegar agora mesmo, com o bombista MAGA e o homem que disparou sobre os judeus. Quem semeia ventos colhe tempestades, diz o povo. E quem fica mais furioso com os mansos de que não gosta e desvaloriza os brutos é com os brutos que está.


A Pátria está boa?
Não, não está. Está devidamente orçamentada, devidamente entretida, devidamente distraída, devidamente normalizada, contente por estar a passar os dias sem convulsões especiais. Já cá não estão nem troika, nem Passos nem os “passistas” do PAF, só ficaram os “passistas” do PS, diga-se Centeno, pelo que a possibilidade de acordarmos amanhã com mais um corte de salários, pensões e reformas, diminuiu exponencialmente. É um bem precioso, mas não dura sempre.
As ruas estão cheias de turistas que comem naqueles restaurantes que qualquer português sabe que nunca, jamais, em tempo algum, deviam ser frequentados.

Andam de tuk-tuk, ocupam passeios, praças e casas e voltam à sua terra contentes e com a perigosa sensação, para o futuro do turismo, de que já viram tudo. Como não são do género nem da idade que vai reformar-se para o Algarve, procurarão outras terras e, apesar do nosso orgulho nacional, não vão ver o que lhes falta ver no País, pelo menos com os olhos que usam.

Os partidos políticos estão bem com o status quo, não os move nenhuma vontade essencial, urgente, dramática, de mudar o estado de coisas, nem no Governo, nem na oposição. O PS está demasiado contente consigo próprio, o PSD demasiado descontente. O Bloco e o PCP presos no labirinto entre a fatia de poder que conseguiram, e a dificuldade de lhe manter o tamanho.

Apesar das fúrias das redes sociais e do crescente linguajar populista e antidemocrático, pouco se passa daí. Primeiro, porque as coisas parecem estar a melhorar, ou pelo menos a não piorar. Depois, porque se a fúria e a raiva são muitas, a preguiça é ainda maior. E por último, falta um capo, que viesse da televisão para pegar fogo às incandescências das redes sociais, de dentro para fora.

Santana Lopes percebeu a oportunidade, mas isso não chega, o homem da Ventura que quer fazer o “chega!”, também não chega, pelo menos para já. Mas se as coisas neste momento estão a seu modo castradas, isso não significa que não podem mudar de um dia para o outro. Há sempre um Bolsonaro escondido dentro de si, dentro deles.

Não a Pátria não está bem, está a cometer o pecado da acédia. Faz parte da lista dos pecados mortais.