Os pobrezinhos

(António Lobo Antunes, in Blog Resistir, Abril de 2017)

isabel_jonet

O texto é dedicado à Dra. Isabel Jonet

(A propósito do recente texto que publicámos sobre os Tempos de Salazar, resolvemos recordar esta excelente descrição, de António Lobo Antunes, sobre o que era a pobreza nos tempos de Salazar e a forma como as classes mais privilegiadas a encaravam. 

Infelizmente, a pobreza ainda abunda por aí e os mais deserdados continuam a ser encarados de forma semelhante àquela que o texto retrata, ainda que talvez de forma um pouco menos acintosa.

Comentário da Estátua, 29/12/2018)


Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres.

Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

– Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era “pobres”. O plural de pobre era “esta gente”.

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre.

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

– Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável.

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

– Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

– Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:

– O que é que o menino quer, esta gente é assim.

E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais.

A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

– Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado “Almanaque da Sãozinha”, se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.


Fonte aqui

Anúncios

TEMPOS DE SALAZAR

 

(Virgínia da Silva Veiga, 28/12/2018)

salazar4

(Se pensam que já não há saudosistas do ditador e dos tempos da ditadura, desenganem-se. Esta “pérola” foi publicada em 26/12/2018:

“A Direita portuguesa tem enjeitado Salazar, mas deveria integrá-lo no seu pensamento, na sua ordem ideológica. O país real ainda se revê em Salazar, apesar de as esquerdas afirmarem repetidamente os óbvios e inventados defeitos do ditador, numa lavagem ao cérebro que não tem fim.” (Ver aqui).

Ou seja, quanto mais os tempos são de descontentamento larvar, terreno propício ao florescer dos populismos de todos os matizes, mais os saudosistas saem da toca.

Comentário da Estátua de Sal, 28/12/2018)


Agora querem uma manifestação em memória de Salazar. Acho bem. Em matéria de presidentes há portugueses que adoram múmias. Não sendo original, é bonito.

Para recordarmos tempos em que uma percentagem de Portugal vivia à luz da vela e, logo, não tinha frigoríficos nem televisores. Água canalizada? Casas de banho? Para quê se havia uma fonte lá na aldeia e uma retrete ao fundo do quintal?

Também era bonito ver crianças descalças, a escrever em lousas, a trabalhar em idade escolar ou entregues aos soldados americanos das Lages para poderem ter que comer. E as raparigas? Essas, as que vinham dos confins das aldeias, sem estradas nem transportes, para chorar a distância das famílias, em tempos em que servir alguém era emprego de luxo mesmo que o rendimento fosse comer os restos na cozinha dos patrões.

Chique, chique, era então ver a malta a pagar a passadores para dar o salto para França, para a Venezuela, mas pela calada da noite, montes fora, passando a Espanha, porque de outro modo ia tudo preso. Se não levasse um tiro, claro. A emigração era proibida porque era precisa malta de olhos fechados e mãos abertas, que trabalhasse muito e pedisse pouco. Ir lá para fora era diminuir o contingente, era, sobretudo, mostrar-lhes que havia outro mundo.

E os monopólios? Que lindos eram os monopólios portugueses num globo que já então se abria à concorrência!

Que saudades da guerra colonial, dos filhos que as mães portuguesas por lá perderam, dos aerogramas que enviavam às famílias, essa espécie de postais, feitos ao propósito das notícias que as rádios e as televisões estavam proibidas de dar, ditados às senhoras da Cruz Vermelha porque os mais dos soldados não sabiam ler nem escrever, mas “estavam bem graças a Deus”.

E tudo caladinho, pois claro, que piar traz à memória a anedota dos pássaros dentro da dita, cuja palavra não digo.

Gosto da ideia. Sobretudo gosto que seja propalada no Facebook. Porque então os mais dos portugueses, se houvesse tal coisa em tempos de Salazar, nem podiam participar porque eram analfabetos. Voltássemos, aliás, aos tempos do homem de Santa Comba e era o descalabro nas ações do Zuckerberg, não havia Facebook para ninguém porque isso da liberdade de expressão não dava para ter um livro lá por casa quanto mais uma porta aberta ao mundo.

Perguntem lá aos organizadores como é que fariam para divulgar as convocatórias, sem Facebook, sendo proibida a distribuição de panfletos e os ajuntamentos.

E apreendiam tudo, os desgraçados! Até romances. Ah, pois é!

Primeiro meteu-se na cabeça destes novos organizadores da confusão que Portugal é a França. Agora andam a inventar o estilo espanhol, uma trapalhada escusada por mexerem no túmulo de Franco.

Em matéria de saudosismos ou de mexer no que está no sítio e sossegado, também era bom lembrar àqueles outros que o Carmona também já morreu e é para estar sossegado.
Quando é que alguém ensina a essa gente que isto é Portugal e que quem olha para trás só vê passado?

Salazar caiu de muito mais alto do que de uma cadeira de lona

(José Pacheco Pereira, in Público, 15/12/2018)

SALAZARY

A queda e a sua incapacitação representam uma espécie de labirinto borgeano, trágico e humano, mas que são uma metáfora sobre o fim do Estado Novo, que de facto com ele caiu da cadeira.


O livro de José Pedro Castanheira, Alberto Caeiro e Natal Vaz sobre a queda de Salazar mostra as virtualidades do discurso jornalístico de qualidade para dar origem a um livro rigoroso, com qualidade narrativa, ou seja, legível, acrescentando, e corrigindo, o adquirido histórico sobre um momento decisivo da história portuguesa do século XX.

Num país com muitos preconceitos académicos e em que cada vez mais, mesmo os jovens investigadores, se comportam como se existisse uma closed shop historiográfica nas universidades, este tipo de trabalhos tem muito mérito. Este tipo de livros são muito comuns nos países anglo-saxónicos e, embora não escapem a uma certa pecha jornalística com a “novidade” (como é a história interessante das estranhas injecções que Salazar recebia às centenas), nem por isso deixam de contribuir para um melhor olhar sobre a mais célebre queda da cadeira ocorrida em Portugal.

O livro mostra algo que é conhecido da história e da ciência política: a sucessão dos ditadores nos regimes autoritários e totalitários é um processo muito difícil e conflitual, que se conclui sempre com uma perda de legitimidade do sucessor, ou seja, de poder.

O enfraquecimento do poder autoritário é um sinal de crise e de fim de regime, que quase todos, da Situação e da Oposição, perceberam nos eventos de 1968. A decisão do presidente da República Américo Tomás, que acabou, apesar das muitas consultas realizadas, por ser discricionária, ao recair sobre Marcelo Caetano, deixou a ditadura, envolvida em três guerras em África, numa crise de autoridade que nunca foi sanada e que terminou no 25 de Abril.

O livro mostra o ambiente entre a elite do regime, de intriga e competição pelo poder político, que para muitos portugueses, habituados a uma imagem monolítica do poder ditatorial de Salazar, representa hoje algo de novo e que muitos, erradamente, atribuem apenas à democracia. Na verdade, essa competição e os truques sujos que envolvia faziam parte do tecido do regime, como a consulta aos vários diários deixados pelas personagens gradas do salazarismo revela.

Outro aspecto relevante que explica muito do “processo” político na ditadura, é a Censura. A Censura foi fundamental não só para que não se soubesse o que era “inconveniente”, como para controlar o tempo político. Neste período de crise grave do regime, os detentores do poder ditatorial moldavam pela Censura as escassas informações cuja divulgação era autorizada, mas, mais importante ainda, o seu timing, de modo a que existisse maior margem de manobra para os que mandavam “porem a casa em ordem” perante a confusão e crise gerada pela necessidade da sucessão.

Uns percebiam que a sucessão devia ser acelerada para não se criar um vazio do poder, outros queriam mais tempo para manter uma noção de fidelidade a Salazar doente e melhor se posicionarem para a sucessão. A Censura dava a todos a possibilidade de terem o “tempo do poder” e não o “tempo da informação”.