O último suspiro?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 26/09/2024)

O apoio dos EUA tem limites. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir e as sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.


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mainstream mediático tem passado a ideia, ao longo dos últimos dois anos e meio da guerra na Ucrânia, de que a Rússia é chefiada por um indigente louco, é fraca e incapaz no campo de batalha. Sem capacidade industrial sofrerá facilmente uma derrota estratégica. Essa apresentação simplista, deliberadamente falsa e enganadora das capacidades da maior potência nuclear do globo é perigosa. Criou nos analistas do ar condicionado perceções enviesadas da realidade. Não obstante a falsidade óbvia, a tese foi profusamente difundida e convenientemente subscrita.

Mas nada do propalado se concretizou. A economia russa não só não descambou como se reforçou ultrapassando a alemã (com base no PPP), e Putin reforçou a sua posição. Ao invés, a Ucrânia está feita num farrapo. A lista dos problemas que atormentam Kiev é longa. A ajuda militar insistentemente implorada não chega na quantidade nem com a qualidade desejada; Kiev não consegue mobilizar e treinar capazmente novos recrutas, nem produzir energia suficiente para o inverno que se aproxima; Zelensky tem uma taxa de aprovação abaixo dos 20%, etc. Quem questionou a infantil subvalorização do potencial estratégico russo foi malevolamente apresentado como um membro da longa manus desinformativa de Moscovo.

O caso ucraniano traz-nos à colação a incapacidade de se aprender com os repetidos erros de cálculo estratégico de Washington. Esquecemos as armas de destruição massiva de Saddam Hussein, para não falar do Vietnam, Afeganistão e Líbia, entre outros, para os quais fomos de uma ou de outra forma arrastados, sem sermos ouvidos e sem participarmos na decisão. O fim da intervenção internacional no Afeganistão é o exemplo mais recente do que se acaba de afirmar. Tal, justificará, porventura, avaliações mais sensatas antes de se comprar o bilhete e se embarcar no comboio.

Tardiamente, começa-se agora a perceber aquilo para que poucos têm vindo a alertar. O recente relatório elaborado por Mario Draghi enumera os desafios com que a Europa se confronta sem, no entanto, explicar as suas causas diretas e imediatas. Recentemente, o “Washington Post” (WP) alertava para o erro de se subestimar Moscovo, ao afirmar que “os EUA e a UE já não acreditam que a Rússia vá perder no campo de batalha, ou que a sua economia vai ser destruída pelas sanções.” “A Rússia continua a ser um poder formidável. O Ocidente não deve presumir que é uma força militar esgotada. E, é por isso, que os parceiros da Ucrânia estão agora mais inclinados para negociar e estão a dar à Ucrânia várias pistas nesse sentido.”

Um outro artigo de opinião publicado também pelo WP, afirmava que a Ucrânia está a sangrar e não consegue lutar indefinidamente. Apoiar a Ucrânia “as long as it takes” não corresponde à realidade deste conflito. O chanceler alemão Olaf Sholz veio juntar-se aos que defendem “a necessidade de “explorar possibilidades” que “abram uma saída pacífica” para guerra da Rússia contra a Ucrânia”, falando abertamente em ser tempo para se pensar seriamente em conversações.

Alguns dos patrocinadores de Kiev começaram a questionar o realismo dos objetivos estratégicos da aventura ucraniana e a perceber que Kiev não tem capacidade para expulsar as forças russas do seu território, mesmo com ajuda internacional.

Numa entrevista ao The New York Times, o antigo chairman do Comité Militar da NATO e presidente da Chéquia Petr Pavel, apoiante indefetível da Ucrânia, apelava ao realismo de Kiev e à necessidade de reconhecer que terá de fazer cedências territoriais, indo ao ponto de considerar idealista o sonho da Crimeia retornar ao controlo ucraniano.

O desespero de Kiev aumenta quando percebe que não vai recuperar os territórios perdidos, e que a ajuda internacional vai reduzir-se, qualquer que seja o presidente que ganhe as eleições nos EUA. Como se vê o apoio dos EUA tem limites. Não pode continuar indefinidamente a alimentar o buraco negro ucraniano, sem ter boas notícias. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir. Aumenta a preocupação com a diminuição das reservas norte-americanas e o que isso pode vir a representar para a sua segurança nacional. As sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.

Zelensky e os seus próximos sabem que não conseguirão vencer o confronto com Moscovo. Com o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, ensaiam uma fuga para a frente, que passa por escalar a guerra tentando, entre outras ações, desencadear um conflito entre a NATO e a Rússia. A crença e a acrisolada fé de que as deep strikes e a utilização sem restrições de armas ocidentais de longo alcance vão alterar o curso da guerra está novamente na ordem do dia.

Nesta ilusão são acompanhados, por exemplo, pela “esclarecida” primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen: “acabemos com a discussão sobre as linhas vermelhas. Não, não, as linhas vermelhas são um dos melhores filmes de comédia” Amedrontado, Putin continuará a fazer bluff e não vai reagir. Fazendo escárnio da paciência estratégica do Kremlin, alguns conselheiros de Kiev empurram-na para o precipício.

Aproveitando a ida à Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, Zelensky vai apresentar o seu “Plano para a Vitória”, ao atual ocupante da Casa Branca e à candidata Kamala Harris para os convencer da bondade das suas ideias. Donald Trump declinou o encontro com o Presidente ucraniano. Embora se desconheçam os detalhes do plano, as ideias principais são públicas.

O “Plano para a Vitória” considera a adesão acelerada de Kiev à NATO e beneficiar, entretanto, de um estatuto análogo ao proporcionado pelo artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte; ter garantias de segurança por parte dos países ocidentais, semelhantes às de um pacto de defesa mútua aquando da adesão à NATO; assistência financeira para a recuperação económica do país. O plano incluirá ainda a utilização do equipamento ocidental com menos restrições, e a possibilidade de forças da NATO serem colocadas em território ucraniano libertando os contingentes de Kiev para combaterem no leste do país.

Com a informação de que se dispõe quando este texto foi redigido, o “Plano para a Vitória” de Zelensky não passa de um ato de desespero, de alguém desfasado da realidade. É completamente inverosímil admitir que Paris e Berlim aceitem neste momento a adesão da Ucrânia à NATO, ou as garantias de segurança exigidas. O Plano não passa de uma lista de desejos, sem surpresas e sem propostas que alterem o curso da guerra a seu favor.

A recente entrevista de Zelensky ao “The New Yorker” foi confrangedora pela falta de clarividência e pelo assustador desencontro com a realidade. Alguém terá de lhe explicar que quem está na mó de baixo não dita ao adversário os termos da paz. O seu plano de vitória esbarra com a realidade do campo de batalha onde as forças ucranianas perdem terreno todos os dias. Quando questionado sobre o objetivo do seu plano, Zelensky respondeu “que não sendo apenas isso, seria enfraquecer consideravelmente a Rússia, o que ameaçaria a própria posição de Putin”.

Ao mesmo tempo que diz que se o seu programa não for aprovado por Washington irá para negociações, coloca a possibilidade de continuar a negar a possibilidade de perdas territoriais, e tornar a situação numa espécie de guerra eterna, defendendo uma solução diplomática, mas sem negociações.

As suas contradições são cada vez mais notórias e estendem-se a alguns comentadores. O “The Times” dava conta disso quando entrevistou alguns observadores atentos sobre o “plano de vitória” de Zelensky. Se, por um lado, estão convencidos de que a Ucrânia não será capaz de recuperar os seus territórios a curto ou médio prazo – as negociações para Kiev serão “muito, muito, muito difíceis e dolorosas” – por outro, afirmam que congelar a guerra na linha da frente e negar à Ucrânia a adesão à NATO, “seria um resultado catastrófico” e “definitivamente não pode ser a base para negociações”. Como Zelensky, não sabem o que querem.

Um artigo no “Politico” interrogava se estamos a fazer as perguntas suficientemente difíceis sobre a Ucrânia. Como dizia o autor, “quando a poeira assentar, será que a cobertura mediática do Ocidente terá uma nota de aprovação, ou será que, por vezes, permitimos que a nossa simpatia pela causa ucraniana ignore assuntos que não devíamos?” Quanto tempo mais demorará a perceber a dura realidade de se ter entrado no comboio errado?

Tecnofascismo, tecnoterrorismo e guerra global

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 24/09/2024)

Exercícios do exército americano. Os EUA gastam um trilião de dólares em armamento, mas certamente não é suficiente porque os empresários da guerra inventam desvantagens dos EUA.

Explorando os paralelos históricos, o papel do capitalismo e a ascensão do tecnofascismo na paisagem geopolítica atual.


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O mundo caminha inexoravelmente para a guerra. Qualquer sondagem imaginária à população mundial mostraria que ninguém quer a guerra. Mas a guerra vai eclodir provavelmente antes do final da década. A maioria dos países do mundo dizem ter regimes democráticos, mas nenhum partido com algum significado eleitoral, da esquerda à direita, considera a guerra um perigo iminente e assume a luta pela paz como a sua principal bandeira. A paz não dá votos. A guerra dá mortos e os mortos não votam. Nenhum partido se imagina a fazer propaganda eleitoral nos cemitérios ou nas valas comuns. Tão pouco imagina que sem vivos não há partidos. Tudo isto parece absurdo, mas o absurdo acontece quando a razão dorme, como Francisco de Goya nos avisou há 225 anos no seu quadro el sueño de la razón produce monstruos. Não precisamos de recuar tanto.

As lições (ou ilusões) da História

Recuemos a 1900. A Inglaterra era então o país mais poderoso do mundo. Mas como todo o apogeu significa o princípio do declínio, começava a temer-se a concorrência pacífica dos EUA. O crescimento económico dos EUA era vertiginoso, aí tinham lugar as mais recentes invenções da revolução industrial e, entre as muitas vantagens em relação à Europa, uma era particularmente preciosa: os EUA gastavam muito pouco dinheiro em armas. Segundo relatos da época, um país de 75 milhões de habitantes tinha um exército de 25.000 homens e um orçamento de defesa ridículo para um país daquele tamanho. Ao contrário, os países europeus mais desenvolvidos (Inglaterra, Alemanha e França) estavam numa competição cada vez mais feroz entre si sobre a partilha colonial e a superioridade industrial (a Alemanha cada vez mais em evidência) e entravam na corrida aos armamentos.

Para além de que entre 1899 e 1902 a Inglaterra travava uma guerra colonial sórdida contra os Boers na África do Sul. Estava em causa o controle da produção do ouro e o sonho imperial de Cecil Rhodes: do caminho de ferro entre a Cidade do Cabo e o Cairo ao controle total do mundo de modo que “as guerras se tornassem impossíveis para bem da humanidade”. O domínio capitalista imperial exigia a guerra e a corrida aos armamentos, alegadamente para tornar a guerra impossível no futuro. Há alguma semelhança com os discursos bélicos actuais dos EUA e da União Europeia para vencer a Rússia e a China? Há, mas há diferenças.

Na primeira década do século XX eram visíveis dois movimentos: um na opinião pública e outro nos negócios. A opinião pública era dominada pela apologia da paz contra os perigos de uma guerra que seria fatalmente muito mortífera. O século XX devia ser o século da paz, sem a qual não seria possível a prosperidade que se anunciava.

Em 1899, realizava-se a primeira Conferência Internacional da Paz em Haia e, no ano seguinte, o Congresso da Paz Mundial. Daí em diante foram múltiplos os congressos e as reuniões internacionais sobre a paz. Deplorava-se que a cooperação internacional se estivesse a aprofundar em todos os domínios (correios, caminhos de ferro, etc.) exceto na política. Entre 1893 e 1912 publicaram-se 25 livros contra a corrida aos armamentos. Publicava-se com grande difusão Who is Who in the Peace Movement. Afirmava-se que as recentes invenções em material bélico (pólvora sem fumaça, espingardas de disparo rápido, substâncias explosivas como a lidite, a melinite e nitroglicerina etc.) tornavam a guerra, não só muito mortífera, mas impossível de ganhar por qualquer das partes em conflito. Terminaria sempre num impasse e depois de muita morte e devastação.

Um jornalista do English Echo demitiu-se do jornal para não ter de defender a guerra contra os Boers e 200 intelectuais ingleses de alto perfil organizaram um jantar para o homenagear. Entre 1900 e 1910, realizaram-se mais de mil congressos de pacifistas: operários, anarquistas, socialistas, livre-pensadores, esperantistas, mulheres. Dizia-se que o crescimento da democracia na Europa e nos EUA era incompatível com a guerra e que o grande número de acordos de arbitragem era a melhor demonstração disso. O sociólogo russo Jakov Novikov demonstrava que o bem-estar das massas populares nunca tinha melhorado com as guerras, antes pelo contrário. Escrevia-se sobre “a ilusão da guerra” e as publicações vendiam muitos milhares de exemplares.

Havia uma corrente de opinião para quem a verdadeira ilusão seria a “ilusão da paz”, se a luta não fosse reorientada contra o capitalismo. Se tal não acontecesse, a guerra seria inevitável. Era esta a posição dos socialistas, dos anarquistas e do movimento operário, que socialistas e anarquistas procuravam controlar. A guerra era o grande obstáculo à revolução social. A greve geral e a recusa do serviço militar eram duas das formas de luta mais referidas.

Mas o mundo da opinião pública era uma coisa e o mundo dos negócios era outra. No mundo dos negócios, desde 1899 avançava em grande ritmo, mas discretamente, a corrida aos armamentos. No Congresso Internacional Operário de 1907, realizado em Estugarda, Karl Liebknecht revelava o extraordinário crescimento das despesas em armamento, o que significava que os países se estavam, de facto, a preparar para a guerra.

Os lucros das grandes empresas de armamento eram reflexo disso: Krupp na Alemanha, Vickers-Armstrong na Inglaterra, Schneider-Creusot na França, Cockerill na Belgica, Skoda na Boémia e Putilov na Rússia. Tornava-se claro que a acumulação de armas conduziria à guerra. Aliás, as grandes empresas começavam a utilizar uma nova arma de propaganda: pagar a jornalistas e aos proprietários dos jornais para publicar notícias falsas sobre o armamento crescente dos prováveis adversários na futura guerra a fim de justificar o maior gasto em armas. Soa familiar aos ouvidos de hoje? Sim, mas há diferenças e para pior, muito pior.

Os socialistas tinham razão: a luta é contra o capitalismo

O apogeu do capitalismo global liderado pelos EUA ocorreu em 1991 com o fim do Bloco Soviético. Tal como cem anos antes, o apogeu da potência mais poderosa significou o princípio do seu declínio. E tal como antes, a indústria mais lucrativa em períodos de declínio é a que produz bens cujo uso consiste em destruir e ser destruído. Tais bens têm de ser incessantemente substituídos por outros enquanto a guerra durar.

Quanto mais tempo a guerra durar maiores serão os lucros. A guerra eterna é, por isso, a mais lucrativa. Agora as grandes empresas de armamento já não são europeias, são norte-americanas, e os EUA, ao contrário do que sucedia há cem anos, são de longe o país que mais gasta em armamentos e, portanto, mais necessidade tem de os usar (isto é, de usar destruindo e substituindo). Os EUA gastam um trilião de dólares em armamento, mas certamente não é suficiente porque os empresários da guerra inventam desvantagens dos EUA em relação aos seus inimigos que têm de ser prontamente superadas.

A luta pela paz é hoje mais que nunca uma luta contra o capitalismo. Por que mais que nunca? Se, na esteira de Immanuel Wallerstein, tomarmos o mundo como unidade de análise, podemos afirmar que entre 1917 e 1991 o mundo viveu um período de intensa guerra civil transnacional. Foi uma guerra civil porque ocorreu no interior de um só sistema — o sistema mundial moderno. Embora globalmente dominante, o capitalismo teve de enfrentar um outro sistema económico fortemente concorrente, o socialismo de Estado, cuja influência extravasava muito para além da União Soviética. Essa guerra civil foi lutada por múltiplos meios, nomeadamente, por contra- insurgência, ajuda ao desenvolvimento dos países dependentes e proxy wars (guerra da Coreia, guerra do Vietname, etc).

A Segunda Guerra Mundial foi um período de acalmia nesta guerra civil, uma vez que os EUA e a URSS foram aliados contra o Nazismo alemão. Com o fim da União Soviética e com as transformações que, entretanto, tinham ocorrido na China e que integrariam a economia chinesa na economia capitalista mundial, ainda que com algumas especificidades (manutenção do controle nacional do capital financeiro), a guerra civil transnacional entre capitalismo e socialismo terminou. Houve um interregno, que durou pouco mais de dez anos, em que a Rússia era um país capitalista de desenvolvimento intermédio como qualquer outro e a China era um parceiro económico, também de desenvolvimento intermédio, mas com um valor estratégico para as empresas multinacionais norte-americanas apostadas na conquista monopolista do mundo.

A partir da crise financeira global de 2008, iniciou-se uma nova guerra civil transnacional, desta vez entre o capitalismo das multinacionais norte-americanas e o capitalismo de Estado da China. Para neutralizar a China era necessário bloquear o seu acesso à Europa por duas razões: a Europa era, ao lado dos EUA, o outro grande consumidor afluente do mundo; através da cooperação com a China, a Europa podia ter alguma pretensão de escapar ao declínio cada vez mais evidente dos EUA na economia mundial e tornar-se um factor adicional de concorrência e de debilidade dos EUA. Para bloquear o acesso da China à Europa e submeter esta última aos EUA era necessário separar política e economicamente a Europa da Rússia (cujo território está maioritariamente na Europa).

A Rússia, com milhares de quilómetros de fronteira com a China, não só é a via de acesso da China à Europa, como é o território estratégico da Eurásia. Ora, vem de longe a ideia de que quem controlar a Eurásia controla o mundo. Assim se entrou numa nova guerra civil transnacional cujas primeiras proxy wars são a guerra Rússia-Ucrânia e a guerra Israel-Palestina.

Esta guerra civil é totalmente diferente da anterior. Na anterior, a luta era entre dois sistemas económicos (capitalismo versus socialismo), enquanto agora é entre duas versões do mesmo sistema económico (capitalismo de multinacionais versus capitalismo de Estado). Nada garante que esta guerra seja menos violenta do que a anterior. Pelo contrário, como vimos, no início do século XX, a disputa ocorria entre países com um longo passado em comum localizados num pequeno canto da Eurásia. Hoje, é uma luta por um domínio global que aliás se estende para além do planeta terra. O capitalismo monopolista nascia em 1900 quando o capital financeiro dos EUA começava a alargar-se aos caminhos de ferro e daí a muitos outros sectores e, potencialmente, a todos os países do mundo.

Para o capitalismo monopolista, a ideia de um mundo multipolar é tão ameaçadora quanto a ideia da concorrência com outros sistemas económicos, e a mesma pulsão destruidora está presente em ambos os casos. Acresce que o potencial e o grau de destruição são agora imensamente maiores que antes. Não me refiro à existência de armas nucleares, uma inovação tecnológica de destruição da vida que torna ridícula a preocupação dos comentadores do início do século passado com as invenções bélicas do seu tempo. Refiro-me à natureza do capitalismo e da (des)governação globais dos nossos dias, e à emergência de duas das suas consequências.

Estamos a entrar numa época em que formas de poder potencialmente destrutivo sem limites são suficientemente fortes para neutralizar, contornar ou eliminar qualquer processo democrático que lhes procure pôr limites.

O tecno-fascismo global: Elon Musk

No início do século XX vimos que a luta pela paz e pela resolução pacífica dos conflitos concebia os Estados soberanos como as unidades de análise e os actores políticos privilegiados. Sabemos que a soberania era um bem abstracto que só os países mais desenvolvidos podiam gozar efectivamente, para além de que grande parte do mundo estava sujeito ao colonialismo ou à influência tutelar da Europa.

Hoje, porém, o desenvolvimento tecnológico, a globalização neoliberal e a concentração de riqueza fazem com que o poder de controlar a vida humana e não humana tenha deixado de estar sujeito ao escrutínio democrático.

No início do século XX a ilusão da paz assentava no aumento e fortalecimento dos governos democráticos. Afinal, a democracia assentava na substituição dos inimigos a vencer pela guerra por adversários políticos a vencer pelo voto. Daí a capacidade mobilizadora da luta pelo sufrágio. Para muitos, a democracia teria a capacidade não só de promover a resolução pacífica dos conflitos, mas também de regular o capitalismo de modo a neutralizar os seus “excessos”.

Hoje, a maioria dos governos nacionais considera-se democrático, mas a democracia, se alguma vez nalgum país foi capaz de regular o capitalismo, hoje é estritamente regulada por ele, e só é tolerada na medida em que for funcional para expansão infinita da acumulação capitalista. Sem dúvida que os Estados nacionais mais poderosos continuam a exercer o poder formal, mas o poder real que controla as suas decisões está concentrado num pequeníssimo número de plutocratas, alguns com o rosto flagrantemente visível, outros, a maioria, sem rosto.

O poder real é potenciado a uma dimensão difícil de imaginar devido a uma fusão tóxica da capacidade tecnológica para controlar a vida humana de vastíssimas populações até ao mínimo detalhe e independentemente da sua nacionalidade, com a capacidade financeira para comprar, cooptar, chantagear ou obliterar qualquer obstáculo aos seus propósitos de dominação.

Trata-se de um poder fascista de tipo novo, um tecno-fascismo global, que não conhece limites nacionais. Elon Musk é a metáfora desse novo tipo de poder. Ao contrário do que sucedeu com Adolfo Hitler ou Benito Mussolini, a personalidade concreta de Musk, embora repugnante, tem pouca importância, uma vez que o que interessa é a estrutura de poder que ele hoje comanda e que amanhã pode ser comandada por outro indivíduo. A força deste novo tecno-fascismo global está bem expressa na dramatização mundial da luta de um Estado nacional relativamente poderoso contra um simples indivíduo estrangeiro apenas porque este é um tecno-fascista global.

Quando, em 31 de Agosto deste ano, a rede X foi suspensa no Brasil por decisão do Supremo Tribunal Federal pelo facto de o seu proprietário se ter recusado a eliminar contas da rede que chegavam a milhões de pessoas e cujo conteúdo difundia notícias falsas, violava gravemente os mais elementares valores democráticos e incitava ao ódio, à violência e mesmo ao assassinato, isso foi notícia em todo o mundo. Seria imaginável há dez anos que um individuo solitário e, além disso, estrangeiro, pudesse afrontar um Estado soberano?

O tecno-terrorismo global: do Cavalo de Troia aos pagers assassinos

No dia 18 de Setembro passado, milhares de pagers e de walkie- talkies explodiram no Líbano, mantando dezenas de pessoas (incluindo crianças) e ferindo milhares. Estes transmissores tinham sido comprados pelo Hezbollah aparentemente por serem dispositivos seguros que permitem as comunicações sem localizar os utilizadores. Este acto terrorista tem sido atribuído aos serviços secretos de Israel e na sua origem esteve a implantação de uma substância explosiva junto da bateria, codificada de modo a explodir por comando remoto.

Os pagers assassinos não são uma mera nova edição do Cavalo de Troia, o enorme cavalo oco de madeira construído pelos gregos para entrar em Troia durante a Guerra de Troia. O cavalo foi construído por Epeius, um mestre carpinteiro e pugilista. Os gregos, fingindo abandonar a guerra, navegaram para a ilha vizinha de Tenedos, deixando para trás o falso desertor Sinon, que persuadiu os troianos de que o cavalo era uma oferenda a Atena (deusa da guerra) que tornaria Troia inexpugnável. Apesar dos avisos de Laocoonte e Cassandra, o cavalo foi levado para dentro das portas da cidade. Nessa noite, guerreiros gregos saíram do cavalo e abriram as portas para deixar entrar o exército grego. A história é contada em pormenor no Livro II da Eneida.

A semelhança entre o Cavalo de Troia e os pagers assassinos reside apenas no facto de o termo “Cavalo de Troia” ter passado a designar a subversão introduzida a partir do exterior. A visibilidade e a transparência do artifício, corporizado num objecto que não era de uso corrente, impediram que ele fosse realisticamente reproduzido (se é que alguma vez o foi) com eficácia no futuro. Ao contrário, os pagers assassinos significam uma mudança qualitativa na tecnologia da guerra e do controle das populações.

A mesma tecnologia e a mesma cumplicidade assassina que instalou insidiosamente material explosivo nestes dispositivos pode amanhã instalar em qualquer outro dispositivo de uso eletrónico (telemóvel ou computador) qualquer substância que, em vez de matar, danifique a saúde, crie pânico ou altere o comportamento do seu utilizador, sem qualquer possibilidade de controle por parte deste. Com o desenvolvimento e a propagação da inteligência artificial, qualquer dispositivo de uso corrente pode ser utilizado para este fim, seja ele um carro ou um micro-ondas.

As convenções internacionais contra o terrorismo, que o genocídio de Gaza reduziu a letra morta, deixam sequer de fazer sentido no futuro quando qualquer cidadão não combatente em nenhuma guerra está condenado a viver numa sociedade em que o acto mais trivial de consumo pode trazer consigo, além da garantia e do prazo de validade, a sua certidão de óbito, o atestado de insanidade mental ou a compulsão para cometer um crime.

A divisão internacional do trabalho da guerra e a maldição de Cassandra

Em ambiente de tecno-fascismo e de tecno-terrorismo globais, o capitalismo euro-norteamericano prepara-se activamente para passar da guerra fria à guerra quente. Perante o olhar vazio ou revoltadamente impotente dos cidadãos, uma estranha divisão internacional do trabalho de matar está a ser preparada: a Europa vai ocupar-se de vencer a Rússia enquanto os EUA vão ocupar-se de vencer a China. Praticamente ao mesmo tempo, o primeiro comissário de defesa da União Europeia, Andrius Kubilius, ex-primeiro ministro da Lituânia, afirma que a Europa tem de estar preparada para a guerra com a Rússia daqui a 6–8 anos, e uma alta patente da Marinha norte-americana declara que os EUA devem estar preparados para a guerra com a China em 2027.

Não valerá muito a pena prever que a guerra terá lugar, mas que o seu resultado será muito diferente daquele que é imaginado por estes empresários da guerra intoxicados pelos think tanks financiados pelos produtores de armas. A maldição de Cassandra paira sobre os poucos que se atrevem a ver o que é evidente.


Fonte aqui.

Um projeto colonial racista chamado Israel

(Carlos Marques, in Estátua de Sal, 25/09/2024, revisão da Estátua)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos sobre o assassinato de jornalistas por Israel (ver aqui).

Pela sua atualidade e pela forma assertiva como põe a nu as atrocidades de Israel e desmonta o apoio do Ocidente ao genocídio em curso, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 25/09/2024)


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O projeto colonial racista chamado Israel, invenção de imperialistas genocidas anglo-americanos, tem a sua existência dependente da invasão injustificada, do massacre contínuo, da mais vil opressão à moda do apartheid, da limpeza étnica à moda nazi, e do genocídio, isto é, do extermínio de uma população inteira, homens, mulheres, crianças, e destruição completa das condições compatíveis com a vida.

Neste processo, é necessário para as mentes retorcidas do nazi-sionismo (a ideologia fundadora de Israel para a qual Albert Einstein e Hannah Arendt alertaram na famosa carta ao New York Times), invadir completamente a Palestina. A região da Galileia já foi completamente colonizada, a da Cisjordânia continua a todo o vapor, Jerusalém já é só para nazi-sionistas, e Gaza está a ser terraplanada, para lá os colonos ocidentais construírem as suas pocilgas.

Nesta estupidez toda, está incluída a ocupação permanente dos Montes Golã na Síria, e agora está a ser planeado o mesmo para a o Sul do Líbano.

No Egipto e na Jordânia, em vez de ocupação militar, a ocupação existe mas é “só” política. Os imperialistas anglo-americanos, em diferentes fases da história, garantiram que aqueles países são controlados pelas suas marionetas. Um “rei” em Amã após a “independência” do Mandato Britânico, e um “presidente” no Cairo após a “primavera árabe”, mais uma daquelas “revoluções” coloridas do menu da CIA, a agência terrorista que disputa com o Pentágono o 1º lugar dos que mais mataram na história da Humanidade.

Sempre que alguém fala deste projeto colonial racista, feito pelo império anglo-americano genocida, das três uma:

– ou é um corrupto avençado do império, a repetir a propaganda da “legítima defesa de Israel”;

– ou é um simplório (independentemente de ser analfabeto ou ter um doutoramento) daqueles que acha que se “informa” a ver os “notícias” da MainStreamMedia, e acaba a repetir a propaganda do império e do nazi-sionismo;

– ou é alguém fora destes 2 grupos. Neste caso, há 2 subtipos de pessoas: os covardes que toleram Israel, e os corajosos que percebem que este projeto colonial racista nem tem o direito de se defender, nem tem sequer o direito de existir, pois existe na terra dos outros, e a sua existência depende do que já disse atrás: apartheid, ocupação, limpeza étnica, genocídio.

Sabem que outro projeto é que também dependia disto para existir? O “Großdeutsches Reich”, projeto de Hitler mais conhecido como Third Reich, ou Terceiro Império, no que seria uma referência ao facto de ser o sucessor etnicamente “limpo” do Império Germânico (1871 – 1918) que colonizou África, e do Sacro Império Romano (800-1806), que nem era sagrado, nem Império, nem romano, mas isso é outra história…

Os ocidentais têm destas manias, em particular com relação à zona da Ásia Ocidental ou Mesopotâmia (o “Médio Oriente”), já desde os tempos das cruzadas. Mas até o Reino de Jerusalém, de invasores cristãos europeus ocidentais liderados por uma casa real Francesa, nem mesmo essa gente da Idade Média, romantizada como “Idade das Trevas”, nem essa gente rude e sem conhecimentos nem estudos chegou a este ponto. Qual ponto? O ponto do nazismo. E passo a citar uma passagem da Wikipédia sobre este reino: «The kingdom was ethnically, religiously, and linguistically diverse».

Era uma pequena elite minoritária seguidora do cristianismo, e muita gente seguidora do Islão, do judaísmo e samaritanismo, e ainda os drusos. Com exceção dos invasores Cristãos, os restantes eram semitas nativos daquela região. Podia-se lutar e morrer para saber quem é que mandava, mas no final havia espaço para todos lá viverem.

Com certeza havia episódios de brutalidade, guerras e vinganças, mas o cenário que vemos hoje nos nossos ecrãs, de nazi-sionistas a trucidarem propositadamente os corpos de crianças e a destruírem os locais de enterro, seria causador de vómito até a um cruzado banhado em sangue dos seus inimigos.

Antes deste reino de invasores europeus cristãos, tinha por aqueles lados havido uma coisa chamada “Jund Filasṭīn”, ou distrito militar da Palestina, e outro chamado “Jund al-Urdun”, ou distrito militar da Jordânia, isto tudo fazendo parte da Síria islâmica inicial, por sua vez parte dos califados (ou Impérios) Omíada (661 – 750) e Abássida (750 – 1258, 1261 – 1517), o primeiro dos quais tinha ocupado a Península Ibérica.

Antes disto, uma província romana (Império bizantino) chamada Palestina Prima (390 – 636). Nesses mapas já lá existiam cidades chamadas Ráfia (Rafá) e Gaza. Existia ainda uma Palestina Segunda que ia até aos Montes Golã, e uma Palestina Terceira que ocupava a península do Sinai. Previamente, no Império Romano inicial, era a Síria Palestina (136 – 390). É preciso recuar até aos anos 6 – 132 para encontrar uma coisa chamada Judeia, uma província romana com origem em reinos e dinastias de judeus.

Não vale a pena andar mais para trás. A questão que se coloca aqui é: quem decidiu que a história que interessa para a decisão dos mapas actuais é a de há 2000 anos? Porque tem este período mais legitimidade que outros? E qualquer que seja a resposta a estas perguntas, há alguma coisa que justifique em 2024 um genocídio? E um que nem sequer é uma matança entre locais (como aconteceu nos Balcãs) mas sim uma matança de colonos que invadiram aquelas terras nos últimos 80 anos, e que matam quem já lá vivia antes!

Meus amigos, eu devo ser dos poucos portugueses que sabem o que está escrito na Constituição da República Portuguesa e que fazem questão de respeitar e fazer respeitar esse texto. Nessa lei fundamental, definidora da primeira democracia em Portugal, uma que queria distinguir-se do regime anterior: fascista, colonialista, racista, imperialista, aliado de nazis, criminosos de guerra – o texto aprovado em 1976 diz coisas como:

Devemos ser militarmente neutrais (é a melhor garantia de segurança e paz de qualquer país), em vez de sermos vassalos no clube terrorista chamado NATO, que foi o seguro de vida do ditador Salazar desde 1949. Não temos nada que andar a invadir Iraques e Afeganistãos, ou a ameaçar potências nucleares participando (cada vez mais diretamente) nas invasões do Donbass e de Kursk (por falar nisso, os helicópteros Kamov que tanta falta fizeram para combater os incêndios, foram enviados de borla para os Nazis na Ucrânia irem matar crianças em Belgorod, Donetsk, Kursk, Sevastopol, etc);

devemos proibir o fascismo e o racismo (o nazismo está por isso mesmo implícito), em vez de legalizarmos Chegas, em vez de colaborarmos com nazis ucranianos. Está obviamente implícita a obrigação do Estado português de condenar a ditadura racista (i.e. o regime de apartheid) de Israel e de proibir qualquer organização que perfile a ideologia sionista, pois uma ideologia que implica um genocídio, é racista, é fascista, é nazi;

somos contra o imperialismo e o colonialismo, logo está implícito que não devemos continuar a ter as relações tão próximas que temos (muito menos de vassalagem) para com o Império anglo-americano, e para com o projeto colonial chamado Israel. Como é óbvio, seria obrigatório um corte de relações com quem (EUA, Reino Unido, Israel) invade e ocupa áreas cada vez maiores da Palestina, da Síria e (em breve) do Líbano;

defendemos os Direitos Humanos, como o direito à Autodeterminação, o que implica reconhecer o direito dos catalães a realizarem um referendo, assim como o do povo da Crimeia e do Donbass, e obviamente reconhecer o Estado da Palestina;

defendemos a soberania dos Estados, o que implica que Portugal não devia apoiar nem um regime nazi-fascista que ocupa Kiev a mando da CIA desde 2014, nem um governo nazi-sionista, Israel, que os próprios USAmericanos descrevem como a “sua maior base militar no Médio Oriente”;

e temos o direito a nem sofrer com a censura (ex: a que a ditadura EU-ropeia faz aos canais de notícias russos), nem a sofrer com a mentira/propaganda do regime, isto é, temos o direito a saber a verdade. Ou seja, temos o direito a ter JORNALISTAS que escrevam diariamente sobre o contexto histórico da Palestina antes da invasão nazi-sionista, e que expliquem que o que está a acontecer não é uma “Guerra Israel – Hamas” (pois isso são 3 mentiras em 3 palavras), mas sim um GENOCÍDIO dos nazi-sionistas contra todos os palestinianos e ainda contra sírios, libaneses e iemenitas.

Todos estes princípios constitucionais, leis fundamentais que definem o que devia ter sido a Democracia de Portugal desde 1976, estão a ser violados. Mas para quem chama “defensores da liberdade” a glorificadores de nazis que andam à solta desde Lviv até Kiev; “defensiva” a uma organização terrorista (NATO) que já destruiu a Sérvia e a Líbia; e “única democracia do Médio Oriente” a um projeto colonial racista que comete limpeza étnica há 80 anos e agora também um extermínio/genocídio em direto; sim, quem é disso capaz é capaz de tudo, até de limpar o cu ao papel onde estão alegadamente inscritos os ditos direitos fundamentais.

Os árabes, turcos, e persas, da Ásia Ocidental e Central, olhando para o que aconteceu no Iraque e Afeganistão, lá se vão contendo, falando em cessar-fogo, em votações simbólicas na ONU, e recusam intervir militarmente para travar um genocídio, preferindo só continuar a falar, blah blah, paz, blah blah, e reconhecer o Estado da Palestina, blah blah, fronteiras de 1967…

Mas o status quo é uma coisa que sempre muda, mais tarde ou mais cedo. E a história da região mostra que quem invade hoje, é invadido amanhã, quem governa agora, tem a sua dinastia interrompida a seguir e para todo o sempre. E os impérios que se expandem hoje, explodem amanhã.

Por isso, mesmo sabendo que no momento em que escrevo há um míssil da NATO/Turquia a cair numa casa curda, há um míssil da NATO/EUA/UK a cair numa casa iraquiana ou iemenita, e há muitos mísseis da NATO/Israel a cair em casas sírias, libanesas, e palestinianas, com mulheres grávidas a ficarem desmembradas, com homens jovens e velhos a serem esmagados por escombros, com crianças que ficam com pernas em pedaços ou ficam “inteiras” sem família nenhuma no Mundo, e apesar de saber que isto vai continuar enquanto houver “gente” viva em Washington, Londres e Telavive, apesar disso tudo vou dormir descansado.

Profundamente revoltado, mas descansado em relação ao futuro. Pois no futuro é inevitável a mudança. Quem assassina hoje, é castigado amanhã. Quem hoje oprime, amanhã tem de fugir da multidão revoltada. Quem hoje planeia no mapa que região vai invadir, amanhã desaparece do mapa. Um dia, as bandeiras de Israel, do Reino “Unido” e dos Estados Genocidas da América, vão deixar de esvoaçar ao vento. E isso faz-me ir dormir com um sorriso na cara.

Força Hamas! Força Hezbollah! Força Houthis! Força Resistência do Iraque! Força militares da Síria! Força xiitas em geral e persas em particular! E força a todos os que vão fazer parte da onda imparável anti-imperialista e de mudança de regime que está a crescer nos regimes vassalos do império naquela região. Ontem um ex-militar da Jordânia entrou em Israel para matar colonos ilegais, hoje o povo enche as ruas a protestar contra o nazi-sionismo e contra a colaboração do seu “rei”, amanhã um grupo inteiro de antigos e actuais militares entrará no palácio de Amã. Começa em Amã e acaba no Cairo, pode até ir a Riade. E depois, de Argel até Teerão, e quiçá também Ancara; unidos, colocarão um ponto final no tal projeto colonial racista chamado Israel, talvez ao mesmo tempo que numa arena maior, os corajosos russos e os bravos chineses dão a estocada final no império genocida anglo-americano. É inevitável.

PS: Um dia, um grupo de corajosos militares terá de tratar do estado a que isto chegou outra vez. Um estado de podridão total, de mentira permanente, de vassalagem a imperialistas assassinos, de colaboração com nazis e genocidas, com um sistema económico profundamente fascista e um sistema monetário insustentável e de traição à Pátria. Não há Otelo nem Maia, haverá outros. Só espero que não seja novamente preciso esperar até chegar ao ponto de ter milhares de portugueses a morrer numa guerra longe do país para que a revolta/revolução aconteça. Se tivermos a Restauração da Independência, então espero que esta se venha a chamar Restauração do 25-Abril.