O semestre europeu da defesa e policiamento dos 5% para a NATO

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 17/09/2025, Revisão da Estátua)


Talvez seja hora de “temos de” questionar o papel da UE e o nosso futuro sem ela.


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Muito poucos falaram do mais grave instrumento que Ursula von der Leyen anunciou no seu discurso sobre o estado da União. Bem sei que é difícil escolher por entre uma miríade de projectos e pretensões, grande parte delas discutidas apenas por quem tem acesso, nem que como espectador, à monolítica máquina burocrática sedeada em Bruxelas.

É enormíssima a quantidade de programas, projectos, relatórios, taxonomias, itinerários e tantos outros instrumentos, os quais, na sua maturidade, não deixam de assumir importantes reflexos nas nossas vidas, mas cuja complexidade tecnocrática e detalhada projecção apenas escondem uma intricada máquina de decisões top-down, na sua grande parte responsiva apenas a impulsos exteriores provindos de organizações como a NATO, Fórum Económico Mundial e dos Think Thank, que pululam como cogumelos sedentos na orla destas organizações neocoloniais.

Qualquer “moderado” cidadão europeu, que por ser “moderado” se afasta das coisas da participação política, se sentiria perdido, submergido, afogado, perante tal profusão de grupos, institutos, direcções, comissões, conselhos consultivos, consórcios técnicos e lobistas. O mergulho nesta realidade apenas lhe confirmaria o que no fundo sabe, mas gosta de esconder perante si próprio, que esta máquina burocrática tem vida própria e navega totalmente à margem das pretensões reais dos cidadãos. As suas vidas são tão longínquas, quanto abrangentes – à escala europeia e internacional – são as suas acções.

E é protegida por esta esta orquestra tão monumental como afinada por insondáveis afinadores, que emite milhares de páginas diárias de informação que muitíssimo poucos lêem, que a Presidente da Comissão Europeia anunciou que a EU vai instituir um Semestre Europeu da Defesa. Assim, sem mais. Sem qualquer discussão, reflexão, consulta pública, nada. Uma fiscalização dos principais instrumentos que corporizam a recente estratégia de “defesa” da UE, do Livro Branco para a defesa Europeia – Defesa 2030 ( Future of European defence – European Commission ), ao “Documento de Reflexão sobre o futuro da defesa europeia” ( Documento de reflexão sobre o futuro da defesa europeia – Comissão Europeia ), nenhum deles, em algum parágrafo refere o que quer que seja quanto à necessidade de um “Semestre Europeu da Defesa”.

O que me faz levantar a questão: o que é que está na base desta decisão; quem é que a tomou; quem é que a concebeu; de onde saiu a ideia? Será a máquina burocrática ao serviço de Von der Leyen, uma espécie de jogo “World of Warcraft”, mas no qual as nossas vidas são reais avatares?

Evocando paralelos com o já estabelecido Semestre Europeu para a economia e social, o qual visa coordenar e recomendar políticas económicas e orçamentais para o cumprimento das metas do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a sua versão defensiva levanta questões cruciais sobre o futuro da soberania dos Estados-membros e a concentração de ainda mais poder em Bruxelas, sabendo-se que, Bruxelas está longe de ser o receptáculo da tal poder, estando o mesmo armazenado em partes mais incertas, mas não menos desconhecidas, de onde os duplicados seres que compõem a máquina burocrática europeia bebem a sua legitimidade.

Valha-nos a verdade de sabermos que a ideia de um mecanismo de coordenação em defesa no âmbito da União Europeia não é inteiramente nova. Muitas são as expressões no discurso de oficiais não eleitos de Bruxelas, sobre a necessidade de coordenação deste esforço “defensivo”. O que espanta não é propriamente a existência deste esforço de coordenação, uma vez que o 3.º pilar da construção europeia, o Pilar Europeu de Segurança Comum, consta dos documentos enformadores da União. Também sabemos que uma das razões para este 3.º pilar nunca ter avançado se prendia com a presença da NATO e os superiores interesses que os EUA tinham em priorizar a expansão deste bloco, o que nos trouxe, como tantos disseram e poucos quiseram ouvir ou acreditaram, à guerra na Europa e ao militarismo. Há dezenas de anos que se previa o que está a acontecer, mas a culpa é da Federação Russa! Terá sempre de haver um alvo para que se projecte, construa e atire a seta.

O que nos deve tornar apreensivos sobre a estratégia anunciada por Úrsula Von der Leyen, tem a ver com o tipo de instrumento escolhido, logo um dos mais intromissivos na soberania dos estados-membros, que determina – sob a capa de simples “recomendações específicas” de política macroeconómica – qual a política económica a prosseguir por cada um dos estados membros. Instrumentos como os fundos estruturais e de coesão, ajudam a transformar estas “recomendações” em obrigações de facto, que vão condicionar em que medida um estado-membro investe mais ou menos nos serviços públicos, desregula as leis laborais, privatiza ou promove as célebres “Parcerias Público Privadas”, as quais, disfarçadas de “partilha do risco com o privado” e de “reformas para a concorrência e a eficiência”, mais não são do que o contrário, ou seja, a partilha dos recursos, até pela forma como são reguladas, de modo a garantir rentabilidade eterna aos consórcios “investidores” ( A critical reading EPSU Final.pdf ).

Também não nos deve descansar o facto de o momento escolhido coincidir com o de uma total confusão e transposição dos papéis da NATO e da União Europeia. Aliás, veja-se no caso da Ucrânia e Moldávia, à falta de condições para impor, pela força, a adesão destas nações à NATO, mascara-se esta adesão, de adesão à União Europeia, estrutura que, a partir das políticas de “coordenação” de defesa, impõe o projecto NATO, mesmo aos que não aderiram a esse bloco político-militar.

Depois de Mark Rutte garantir o alinhamento de todos os países da NATO para com o aumento dos gastos da defesa até 5% do PIB, depois de a Presidente da Comissão Europeia, de forma tão efusiva como veemente, ter defendido esse entendimento e, logo no dia seguinte ao do seu anúncio por Donald Trump e seu “filho” economicamente mais lucrativo  – o secretário geral da NATO – vir brindar-nos com um “boost” ( como ela adora estes slogans americanóides) no financiamento europeu de defesa, eis que, não contente, esta acena agora com o instrumento que irá garantir que os países europeus serão obrigados a cumprir o desiderato.

Agora perguntemo-nos: quando é que alguém votou para eleger governantes que, honestamente, tenham prometido aos povos que iriam gastar o dinheiro das suas pensões, educação, saúde e habitação, em armas americanas, alemãs, francesas ou espanholas?

Só quem não souber o que é o Semestre Europeu, enquanto instrumento anual de coordenação das políticas económicas e sociais da UE ( Semestre Europeu ) – não se deixem enganar pelo “social” – é que pode ficar sossegado.

A pretensão de Von der Leyen é simples: usar um Semestre Europeu da Defesa como um quadro para alinhar os objetivos de defesa dos Estados-membros com as ambições imperiais da UE e, por extensão, com os compromissos da NATO, promovendo um aumento coordenado dos gastos em defesa e o desenvolvimento de capacidades conjuntas. E como garante a UE que os estados membros cumpririam? Da mesma forma que o faz no Semestre Europeu para as políticas económicas. Usando o Fundo Europeu de Defesa e todas as verbas disponíveis para o “Rearm Europe Plan / Readiness 2030” ou o SAFE. Quem aplica as recomendações recebe, quem não aplica, não recebe. Veja-se que isto está tão bem pensado, que no discurso do Estado da União 2025, a Presidente da Comissão chega mesmo a anunciar um prémio a pagar a todos os que comprarem armas para entregar à Ucrânia. Ou seja, continuar a guerra com a Federação Russa até dá bónus! O quer terá Trump dito à senhora para que ela se sinta impelida a fazer uma coisa destas?

Se para aumentar salários dos professores e médicos, fazer casas para os trabalhadores que vão parar à rua, impelidos pela acumulação de propriedade imobiliária em fundos especulativos, construir hospitais ou escolas, tudo tem de ser feito dentro das regras do Pacto de Estabilidade, já para a defesa, prevê-se uma activação das cláusulas de escape nacionais para gastos orçamentais. Dizer que tal aumentará de forma brutal o endividamento dos estados-membros, o que não deixará de se reflectir negativamente na garantia de serviços públicos aos cidadãos, seria despiciendo. Uma vez mais, assalta-me a questão: quando é que alguém votou para trocar o investimento em melhores condições de vida, por investimento em guerra?

A introdução de um Semestre Europeu da Defesa, caso se concretize, trará consigo uma complexa teia de interacções entre a NATO, a UE e os Estados-membros, o que, dada a natureza agressiva da aliança atlântica, apenas perpetuará a compra de armas, o seu aumento permanente, a garantia de que as guerras começam mas nunca acabam, por falta de vontade para sequer dialogar – veja-se agora a recusa polaca relativa aos drones -, a submissão dos estados membros aos ditames de um ávido complexo militar industrial, tudo sob uma reforçada teia de policiamento político-económico europeu. É assim que Úrsula garante a Trump a compra do armamento prometido. Talvez não seja de todo desacertado prever um “Semestre Europeu do GNL norte-americano”.  O facto é que, sabendo-se como funcionam os estados militaristas, nem vale a pena perguntar o que acontecerá à liberdade que já se esvai…

Não tenhamos qualquer dúvida assim do que, a introdução deste “Semestre Europeu de Defesa”, importará:

  • Uma crescente promoção da transposição e confusão das pretensões da NATO com as da UE: A linha entre as responsabilidades da NATO e da UE em matéria de defesa tem sido historicamente transposta. Um Semestre Europeu da Defesa poderia solidificar essa intersecção, potencialmente conduzindo a uma maior harmonização das exigências de capacidade e investimento, institucionalizando a relação umbilical NATO/EU, instrumentalizando toda a política europeia em função dos interesses militares de quem controla a aliança – os EUA.
  • Enfraquecimento da soberania dos Estados-Membros: Este é, talvez, o ponto mais sensível. Ao atribuir à Comissão Europeia um poder de recomendação e coordenação em matéria de defesa, os Estados-membros correm o risco de ceder uma parcela significativa da sua soberania. A política de defesa tem sido, tradicionalmente, um dos pilares da soberania nacional. Um Semestre Europeu da Defesa poderia impor critérios de investimento e prioridades de desenvolvimento de capacidades que os Estados-membros seriam pressionados a cumprir, limitando a sua capacidade de definir autonomamente a sua estratégia de defesa em função das suas percepções de ameaça e das suas prioridades nacionais.
  • A forma como as decisões ligadas à Defesa influiriam noutras áreas, sem que a decisão caiba aos estados membros, afastando decisões estratégicas do escrutínio democrático: O Semestre Europeu económico já impõe restrições ao investimento público, com base em critérios de défice, dívida pública e crescimento. A introdução de um Semestre Europeu da Defesa, que importaria a necessidade de cumprir metas de investimento militar definidas pela NATO e pela Comissão Europeia, poderia agravar este dilema. Os Estados-membros poderiam ver-se forçados a desviar recursos de áreas cruciais como infraestruturas, saúde, educação e transição energética para satisfazer as exigências de defesa. Esta priorização da despesa militar em detrimento do investimento social e económico poderia ter consequências profundas no bem-estar dos cidadãos e no desenvolvimento sustentável.
  • Centralização do Poder em Bruxelas e os Perigos para a Democracia e a Paz: Um Semestre Europeu da Defesa, ao concentrar o poder de decisão e coordenação em Bruxelas, corre o risco de reforçar aquele que já é um sistema “top-down“, onde os Estados-membros se tornam meros executores de políticas decididas por uma burocracia europeia. Esta centralização excessiva levanta sérias preocupações democráticas. As decisões sobre gastos militares e prioridades de defesa têm um impacto directo na vida dos povos e na segurança nacional. Se estas decisões são tomadas a uma distância considerável dos eleitores e sem um envolvimento significativo dos governos nacionais e dos parlamentos, corre-se o risco de minar a legitimidade democrática e a responsabilização. A ausência de um debate público robusto e inclusivo sobre estas políticas pode levar a que decisões cruciais sejam tomadas por uma elite, com pouca consideração pelas aspirações de paz da maioria da população.

A proposta de um Semestre Europeu da Defesa, embora apresentada como uma ferramenta para reforçar a segurança e a coordenação europeia, levanta sérias questões democráticas e de soberania, para além dos critérios de segurança, independência e autonomia que devem presidir às decisões que afectam a vida de centenas de milhões de europeus.

A sua concepção e implementação, a partir de uma cúpula distante, sem o envolvimento genuíno dos povos e até mesmo dos governos nacionais, reforça e institucionaliza um precedente extremamente perigoso. A história tem demonstrado que decisões importantes sobre guerra e paz, quando tomadas sem um amplo debate democrático, podem ter consequências desastrosas. É imperativo que qualquer iniciativa de coordenação em defesa na Europa seja precedida por um escrutínio público rigoroso e por um debate aberto e inclusivo, garantindo que as decisões reflectem não apenas as preocupações de segurança, mas também as aspirações de paz e prosperidade de todos os povos europeus. O risco de que estas políticas, concebidas apenas por uma minoria de poderosos e trabalhadas por uma minoria de burocratas não eleitos, nos encaminhem para um futuro de conflito, desconsiderando a vontade da maioria, é uma realidade que não pode ser ignorada.

Ao contrário do que tantas vezes se afirma, que quem quer a paz não tem de apostar no armamento, quem quer a paz tem, isso sim, de apostar no conhecimento, desenvolvimento social e económico, amizade, amor, compreensão, tolerância, cooperação e diplomacia. Essas são as armas da paz e da prosperidade e as únicas que nos podem conduzir a um futuro radioso.

Ao invés, o caminho que nos propõe Bruxelas, sob forte influência de grupos derrotados na segunda guerra mundial, é um caminho de submissão, aniquilação e destruição. Nada de bom poderá advir do ódio, do fanatismo e da intolerância, de quem não é capaz, sequer, de ouvir, encarar e dialogar com o seu adversário.

O termo mais utilizados por von der Leyen ao longo dos seus anos de Presidente da Comissão Europeia é o “temos de”. Talvez seja hora de “temos de” questionar o papel da EU e o nosso futuro sem ela.

Fonte aqui

A tragédia europeia

(Por Joaquim Ventura Leite, in Facebook, 10/09/2025, Revisão da Estátua)


O Projeto Europeu: Destruído em menos de duas décadas por uma sofisticada, mas incompetente e desastrosa coligação política de liberais, socialistas e verdes, a que as restantes forças políticas europeias se submeteram sem oposição convicta ou simplesmente medo face a um vazio ideológico total. 

A Europa está presentemente mergulhada numa paranoia destrutiva, em consequência da sua posição em relação à invasão russa da Ucrânia. Para o público europeu, a narrativa que sustenta ou justifica esta paranoia é a da inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, o que exigirá uma despesa maciça na defesa, que obviamente levará a mais concentração de poder político em Bruxelas, e maior destruição da economia e das condições de vida dos europeus. O argumento infantil e perigoso mais recente de Ursula von der Leyen  para justificar esta nova narrativa é o de que a economia russa está a “florescer” (booming!)  por  se ter transformado numa economia de guerra. Agora ela já não diz que a economia russa está em “fanicos” (in tatters, como disse em 2022 ao Parlamento), mas que está a florescer! É uma afirmação que mostra a sua total incompetência e infantilidade num cargo como o que desempenha, não por qualquer mérito seu anterior mas, exclusivamente,  por conveniência de uma coligação política conhecida: liberais, socialistas e verdes. Esta é a coligação que a história registará como a que destruiu o projeto europeu.

Mas vamos à paranoia. A minha tese resulta de um texto longo e ainda não editado para publicação. Contudo, hoje adianto as conclusões absolutamente convictas a que cheguei, apoiadas em factos e não em percepções ou  agendas políticas.

1 – A paranoia europeia nada tem a ver com qualquer hipótese de invasão russa da Europa ocidental.

    Vamos a factos. Em 1968, através de forças do chamado Pacto de Varsóvia, uma resposta da Rússia e dos seus países satélites à NATO, a URSS ocupou a Checoslováquia para pôr termo ao que ficou conhecida como a Primavera de Praga.

    Naquela altura havia dezenas de milhares de soldados soviéticos e tanques em Berlim Oriental. Ocupar Berlim Ocidental era um passo minúsculo para a URSS. A  URSS tinha do seu lado todos os países de leste. E, todavia, a invasão da Checoslováquia não gerou nenhuma histeria e paranoia sobre uma iminente invasão da Europa Ocidental. E vivia-se em plena Guerra Fria. Houve manifestações de indignação  pelo Ocidente, mas ninguém pensou que se estava a caminho de uma invasão generalizada da Europa Ocidental. Porquê então agora essa paranoia?

    Os russos querem progresso, e não mais guerras. Sofreram brutalmente não apenas durante a Segunda Guerra Mundial, mas igualmente porque  depois dela foram submetidos a  restrições severas nas suas condições de vida para que a URSS pudesse manter a sua máquina militar de dissuasão, o Pacto de Varsóvia,  e pudesse ainda apoiar movimentos e guerras contra o Ocidente pelo mundo fora.

    Eu visitei e conheci uma parte dessa URSS e senti essas dificuldades materiais dos soviéticos. O que hoje desejam é poder desfrutar dos seus recursos e viverem bem como no Ocidente. Nada de guerras. Mas, há o Putin, dizem as elites e os seus funcionários! Putin tem a ambição de recuperar o território da antiga URSS. Até hoje, tal como as inúmeras doenças imputadas a Putin, não existem documentos ou intervenções políticas de Putin formulando esse objetivo estratégico. Nem a altos funcionários russos. É, pois, uma conveniente fabricação ocidental, associada ao medo histórico da URSS!

    Na realidade, quem tem medo de quem é o oposto. A Rússia é que tem medo das falsas promessas do Ocidente sobre a não expansão da NATO para Leste. E a Ucrânia é uma questão vital para a Rússia desde que a NATO manifestou vontade de a integrar. Porquê a importância especial da Ucrânia? Porque este foi o corredor das anteriores invasões da Rússia e da URRS, respetivamente por Napoleão e  Hitler. Portanto, se alguém teme alguém, é a Rússia, e ela tem antecedentes históricos suficientes para isso.

    Então, sendo assim, como se explica a paranoia europeia? Haverá outra explicação para ela? Sim, há. E são apenas  desgraças!  

    2 – Expectativas frustradas

    No início do conflito, a expectativa era clara: a Rússia entraria em colapso militar, a economia ficaria destruída sob o peso das sanções e Moscovo ficaria isolada no plano internacional. A Ucrânia, apoiada pelo Ocidente, resistiria heroicamente e, em poucos meses, o equilíbrio europeu voltaria a assentar-se sobre a vitória da ordem liberal.

    Esse ambiente de confiança manifestou-se em várias declarações públicas. Emmanuel Macron chegou a advertir que “o Ocidente deveria evitar uma humilhação de Putin” na solução do conflito. A frase é reveladora: pressupunha que a vitória ocidental estava assegurada e que a única preocupação era gerir a derrota russa de forma a não criar instabilidade.

    Boris Johnson foi ainda mais explícito. Contou ter dito a Putin, por telefone, que a invasão da Ucrânia era um “grave erro de cálculo político”. Mais do que isso, em março/abril de 2022 deslocou-se a Kiev para transmitir a Vlodymyr Zelensky uma mensagem inequívoca: se aceitasse um acordo de paz nos termos então em discussão, o Ocidente retiraria o seu apoio; mas se optasse por continuar a lutar, teria garantido financiamento, armas e logística para alcançar uma vitória total sobre a Rússia. O episódio mostra como a confiança na derrota russa era tamanha que até uma solução negociada foi rejeitada em nome da expectativa de vitória plena.

    Mas não só. Também Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, refletiu esse otimismo inconsciente ao afirmar no Parlamento Europeu que as sanções tinham deixado a indústria russa “de rastos” (in tatters). Foi mais longe, chegando a dizer que Moscovo, sem acesso a semicondutores, estava já a retirar chips de frigoríficos e máquinas de lavar loiça para os colocar em mísseis — uma imagem quase caricatural, que procurava desvalorizar a indústria militar russa e reforçar a narrativa de colapso. Noutra ocasião, sublinhou que a Rússia estaria condenada a paralisar a sua produção petrolífera por falta de válvulas fabricadas no Ocidente.

    Hoje, essas declarações soam infantis e superficiais, porque a realidade mostra ser o oposto: a Rússia não só manteve a sua indústria militar como aumentou a produção; não só não paralisou a exploração energética como reforçou exportações para mercados alternativos.

    Este conjunto de declarações — Macron, Johnson e Ursula — mostra com clareza o clima que dominava as elites ocidentais em 2022: uma confiança arrogante, baseada em avaliações ilusórias da realidade russa. Essa confiança e arrogância propaga-se à sociedade. Aos restantes políticos nacionais, ao comentariado televisivo. E quando essas expectativas não se confirmaram, a desilusão abriu espaço para a angústia da humilhação, que ajuda a alimentar a paranoia que hoje marca a política europeia. Mas não foi apenas a humilhação política sentida hoje pelas elites arrogantes! Algo mais, e também profundo,  frustra ou mesmo assusta esta Europa dominada pelos liberais, socialistas e verdes.

    3 – O simbolismo perturbador da Rússia

    O impacto não é apenas militar ou económico. Moscovo projeta-se como um “Estado-civilização” que recupera símbolos de soberania, religião, família, cultura e identidade conservadora, em contraste aberto com as recentes agendas consideradas “progressistas” da Europa. A Rússia não oferece, nesta altura, um modelo exportável como a URSS pretendeu depois da Segunda Guerra Mundial, mas a sua mera resiliência representa um desafio ao universalismo liberal.

    Para as elites ocidentais, este simbolismo é particularmente perturbador. Uma Rússia que se afirma culturalmente no oposto duma Europa arrogantemente auto promovida como “progressista”,  e que, ao mesmo tempo, não colapsa sob sanções, é percebida como uma ameaça civilizacional — não tanto pela sua força objetiva, mas pelo que revela das fragilidades internas do Ocidente.

    4 – Um mundo em mudança para a multipolaridade.

    A Rússia não colapsou apenas por causa da resiliência da sua economia, do seu renovado poder militar e dum estado politicamente forte e com capacidade estratégica. A Rússia contou com uma mudança estrutural no Mundo, e essa mudança apoia-se também na nova Rússia renascida do colapso da URSS. O pano de fundo onde isto acontece é a transição da ordem global unipolar para uma ordem multipolar. E o que isso trouxe foi que o chamado Sul Global se recusou a alinhar automaticamente com a estratégia ocidental no isolamento da Rússia. Pelo contrário, a Rússia reassumiu um papel internacional crescente em diversas zonas críticas do Mundo como África e Médio Oriente.

    O pesadelo ocidental e europeu não assenta apenas na humilhação pelas expectativas falhadas assentes numa postura arrogante e ridícula, ou no medo das elites perante o conservadorismo perturbador da Rússia. É também a constatação de que, enquanto o Ocidente se entregava a uma deriva destrutiva sob o céu liberal,  o resto do Mundo estava em mudança por uma autonomia e por um progresso não ditado e decidido pelo Ocidente. Perceber. de repente,  que o Ocidente já não dita sozinho as regras, e que os centros de decisão se diversificam, é algo que se tornou insuportável para um Ocidente arrogante.

    5 – Consequências desastrosas irrecuperáveis

    As elites políticas europeias percebem com horror que as consequências do erro estratégico cometido com a guerra na Ucrânia não são apenas catastróficas. São irrecuperáveis.

    E os povos europeus irão reagir a isso ao longo dos próximos tempos, virando as costas à coligação que destruiu um Projeto Europeu muito promissor, que colocaria a Europa como um protagonista central na geopolítica internacional. Hoje a Europa corre o risco de se tornar uma região periférica do Mundo em desenvolvimento. Sem credibilidade e mergulhada em problemas da sua própria génese, a saber:

    A – Uma política energética que está a destruir a economia europeia em nome da salvação do planeta.

    Poucos exemplos ilustram melhor esta arrogância transformada em fraqueza do que o dossier energético. Durante décadas, a Europa construiu a sua competitividade industrial sobre o gás barato vindo da Rússia. Essa dependência era criticada pelos EUA, mas vista como inevitável em Berlim e Bruxelas.

    Com a guerra, tudo mudou. O Nord Stream foi posto fora de serviço, os fluxos de gás russo caíram a pique e a Europa virou-se para o gás natural liquefeito americano — mais caro, mais instável e logisticamente mais difícil. O que era uma vantagem estratégica transformou-se em vulnerabilidade.

    O episódio mais simbólico ocorreu há dias: a Rússia e a China assinaram um memorando para a construção de um novo gasoduto gigante a partir da península de Yamal. O detalhe relevante é que esse gás tinha sido originalmente pensado para abastecer a Europa. Agora seguirá para a China, reforçando o crescimento do maior rival sistémico da União Europeia.

    É um pesadelo pensar na competitividade da Europa sem energia barata e disponível. O peso dos verdes destruiu esse quadro, e agora um outro quadro de desenvolvimento difícil de desenhar é necessário. Mas com liberais, socialistas e verdes essa correção é difícil nesta altura.

    B – Uma politica migratória que está a destruir os alicerces da sociedade europeia em nome não se sabe de quê, talvez de um complexo de culpa, tudo muito defendido pelos liberais, socialistas e verdes.

    C – Uma aventura irresponsável na guerra da Ucrânia, em vez de se ter batido pela paz, reconhecendo as razões de segurança da Rússia.

    Estes foram os desastres que a coligação liberal, socialista e verde, causou à Europa, e que não podem agora ser rapidamente corrigidos, muito menos pelas mesmas forças políticas. O desespero pela desorientação política na UE não podia ser maior do que o atual.

    6 – Uma complicação inesperada

    Num Ocidente que se apresentava monolítico, as fissuras dentro do bloco estão a começar a aparecer.

    A narrativa da unidade ocidental é hoje uma fachada, que esconde fissuras cada vez mais profundas. Os EUA seguem uma agenda de reindustrialização e protecionismo que choca com os interesses exportadores da Europa. Dentro da União Europeia, o Leste diverge do Oeste, o Norte do Sul, e as tensões políticas internas acumulam-se e irão intensificar-se à medida que as crises internas não puderem ser resolvidas pela própria UE.

    O Ocidente já não é o bloco monolítico da Guerra Fria nem o espaço unipolar dos anos 1990. Hoje, enfrenta divisões transatlânticas e internas que o fragilizam ainda mais perante a Rússia e a China.

    Conclusão: A coligação liberal/socialista/verde está perdida e desorientada. A narrativa da guerra contra a Rússia e o aumento do autoritarismo seguem-se de forma óbvia.

    E agora um fecho com chave de chumbo! Quem são os principais coveiros do Projeto Europeu? Emanuel Macron e Olaf Scholz.

    A sua ação política só trouxe fracassos ao Projeto Europeu e aos respetivos países que foram e são centrais para o rumo europeu. 

    Emmanuel Macron: está atascado até ao pescoço na gestão da França. Falhou em,  praticamente, tudo o que a França precisava. A sua aceitação pública não vai além dos 25%. Agora está com uma crise de governo, com dificuldades de aprovar um orçamento que tenta travar a situação financeira deficitária do Estado.

    Tenta manter algum protagonismo internacional à custa da Ucrânia, afirmando volta e meia que a França vai enviar tropas para a Ucrânia, mas acabando por se encolher, uma vez que não tem capacidade militar para ajudar a Ucrânia a defender-se. Começou por dizer que a guerra na Ucrânia não era entre a Rússia e a Ucrânia, mas entre a NATO e a Rússia. Mas depois viu uma oportunidade da Europa derrotar a Rússia. Agora não sabe o que fazer… 

    Olaf Scholz. A sua passagem pelo governo alemão terá sido das mais desprestigiantes para a Alemanha, provavelmente só ultrapassável pelo atual chanceler Frederic Merz, que quer conduzir a Alemanha como se fosse uma empresa de gestão de  ativos financeiros. 

    Com ele os Verdes tiveram a maior influência num governo alemão. Deu aos Verdes duas pastas importantes como a economia e os negócios estrangeiros. O resultado foi simplesmente desastroso na economia e na energia, e desprestigiante para o governo em política externa. Nas últimas eleições pensou que continuava a governar, mas saiu pela porta dos fundos arrastando os sociais-democratas para um resultado medíocre de terceira força política. Uma situação que começa a ser mais frequente na Europa.

    Estes podem ser considerados os  dois principais coveiros recentes do Projeto  Europeu. Com Ursula von der Leyen à frente da Comissão Europeia, fecha-se um trio absolutamente incompetente na condução da Europa nos últimos anos.

    Pode e deve dizer-se que a maioria dos chefes de governo dos restantes países membros da União Europeia são igualmente desta extração, mas é razoável afirmar-se que se os líderes de França e da Alemanha fossem políticos com verdadeira dimensão política e sentido europeu, os restantes líderes seguiriam a França e a Alemanha. 

    Conclusão: A França e a Alemanha falharam onde não podiam ter falhado dadas as suas responsabilidades especiais no Projeto Europeu: na política energética, na imigração, na guerra na Ucrânia e, como cereja no topo do bolo,  na escolha e recondução de Ursula von der Leyen como Presidente da Comissão Europeia,  uma figura política  de segundo ou terceiro  plano,  cuja utilidade foi apenas executar a agenda política da coligação de Liberais/Socialistas/Verdes.

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    Trump, a União Europeia e o Brasil

    (Carlos Esperança, in Facebook, 01/08/2025)


    Trump é o exemplar perfeito do que um governante não deve ser, mas pode. E é o mais poderoso PR do país mais forte, violento e dominador do mundo!

    Não havendo em países democráticos tamanha concentração de poderes num só homem, e excedendo este os poderes legais que detém, só a resposta adequada dos países vítimas e a solidariedade entre si, podem evitar a catástrofe em que precipita o mundo.

    Urge reconhecer que os EUA não são já uma democracia, e que, ao contrário de outros regimes autocráticos e de tenebrosas ditaduras teocráticas, tem o mais desequilibrado e megalómano dos líderes. Neste momento, é o mais danoso e assustador de todos.

    A UE, com população, PIB e desenvolvimento aproximados aos dos EUA, devia ser o travão aos intoleráveis desmandos de Trump, mas o que sucede é a enorme covardia dos atuais líderes da mais auspiciosa integração de nações de todos os tempos – a UE.

    A solidariedade com o Brasil e o Canadá devia ser uma exigência ética e um passo para a sua própria sobrevivência. O Canadá é vítima do aumento das tarifas pelo duplo crime de ter votado no Governo que Trump quis impedir e que aceitou reconhecer a Palestina como Estado. E a UE que capitulou nas suas tarifas assimétricas calar-se-á agora.

    Acontece o mesmo com o Brasil, submetido à mais dura prova contra o ataque à sua democracia, tarifas brutais para os seus produtos porque não impede os seus Tribunais de julgar o autor de uma tentativa de golpe fascista, o seu amigo Bolsonaro.

    O Acordo de Associação entre o Mercosul, de que o Brasil é o país mais importante, e a UE continua por entrar em vigor enquanto a UE vê fugir a China e ostraciza a Rússia na prossecução de uma política externa de que Trump se afastou.

    E quanto a princípios éticos estamos conversados. A UE, tão assertiva na defesa das fronteiras da Ucrânia, parecendo às vezes que é Zelensky o presidente da CE, é tão timorata a defender as fronteiras da Síria ou a opor-se ao expansionismo da Turquia e de Israel e a repudiar as ameaças dos EUA à Gronelândia!

    Quanto a Portugal não vale a pena falar. Se a política externa da UE é pusilânime, a de Portugal é um nojo. Nas condições para reconhecer o Estado da Palestina, as exigências são todas sobre a Palestina e nenhumas sobre Israel. Segue os países mais covardes da UE. Só o PR, agora paquete de Montenegro, consegue designar como prudência a abjeção.

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