Terras raras e mentes raríssimas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 27/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

As centrais de comunicação lançaram há uns tempos o tema das “terras raras” como elemento central da girândola de fogo-de-artifício de distração sobre o essencial do que está a ser negociado sobre a Ucrânia. As terras raras não são assim tão raras, as maiores reservas situam-se na China, os Estados Unidos dispõem grandes reservas, assim como a Rússia e a Ucrânia não faz parte dos reservatórios significativos.

O que está causa no acordo para o fim da guerra é a divisão do «botin» de guerra, do espólio da Ucrânia, o modo como os Estados Unidos e a Rússia vão ser compensados com as despesas que fizeram com esta guerra que as administrações americanas prepararam desde 2004. Já se sabe que os Estados Unidos vão ter direito a explorar os recursos minerais da Ucrânia nos territórios que ficarão sob controlo do estado ucraniano, que Kiev terá um governo vassalo e será dotado de umas forças armadas com capacidade para garantir que cumpre os acordos com os EUA e a ordem interna. Do lado dos territórios ocupados pela Rússia, esta também já se mostrou disponível para integrar os seus recursos minerais no acordo geral do “negócio dos minérios”. Ajuda a compor o orçamento.

O acordo dos minérios na Ucrânia é na sua essência idêntico aos acordos que nos anos 60 e 70 os Estados Unidos impuseram a estados vassalos na América do Sul, do qual o mais conhecido é o da exploração do cobre no Chile, por empresas americanas. A nacionalização das minas de cobre decretada pelo governo de Allende originou o golpe para repor a ordem do “negócio”, embora a nacionalização não afetasse as empresas estrangeiras, apenas as suas “compensações”. O acordo dos minérios na Ucrânia é do mesmo tipo do que ocorreu no Chile e dotará as empresas americanas do direito de exploração, o que arrasta o direito de intervenção. Os Estados Unidos garantirão as condições de segurança do negócio, que tem a vantagem suplementar de também favorecer a Rússia, a quem convém uma Ucrânia o mais dependente económica e politicamente possível.

Em resumo, as duas superpotências já acordaram sobre o grau de soberania que será concedido à Ucrânia e à administração dos seus recursos e estão de acordo que uma Ucrânia sob duplo controlo é o melhor negócio para ambos. Dispõem de dois dos maiores exércitos do planeta para garantirem os seus interesses na Ucrânia.

É neste momento, quando as duas superpotências acordam na tutela partilhada da Ucrânia, na vantagem de instalação de um regime em Kiev que assegure a ordem interna sem grandes perturbações, que as mentes raríssimas de Bruxelas, na União Europeia e na NATO, levantam a necessidade de criar um “exército europeu”! Este exército europeu é para fazer face a que ameaça? Aos tanques russos? Mas estes não passaram o Dnipro! Aos misseis russos, mas a Europa não é uma ameaça militar para a Rússia! O novo “exército europeu” é para constituir uma “força de interposição de paz” entre dois dos maiores exércitos do planeta?

As mentes raríssimas de Bruxelas entendem que é necessário criar um exército europeu para defender as empresas americanas que vão explorar as matérias primas ucranianas e a reconstrução de infraestruturas! Não se sabe é o que o tal exército vai defender! Vai defender as empresas americanas do exército russo?

A Europa não dispõe das matérias primas que quer os Estados Unidos quer a Rússia dispõem em grande quantidade, as “terras raras” que são raras na Europa, isso sim, os minerais ferrosos e carvão que permitem fabricar o aço, o petróleo e ainda terras aráveis, já concessionadas a grandes empresas agroindustriais americanas, mas as mentes raríssimas de Bruxelas entendem que os europeus devem criar e pagar um exército para garantir a segurança do negócio de fornecimento destas matérias aos Estados Unidos a título de pagamento eterno pelo armamento que lhes forneceram para uma guerra que correspondia aos seus interesses estratégicos no início do século XXI e deixou de fazer sentido!

As mentes raríssimas da Europa vão em fila a Washington pedir ao presidente dos Estados Unidos que deixe instalar um contingente militarmente irrelevante na Ucrânia em nome da defesa da Europa, que apenas está ameaçada pela desindustrialização e pela irrelevância resultantes da sua incapacidade de ter criado uma Europa com poder e como uma potência a ter em conta!

A única explicação racional para a insistência das mentes raríssimas da Europa na criação do exército europeu, na criação de um ambiente de histeria belicista, de ameaça, é que esse exército que será sempre um pequeno exército vai proporcionar grandes negócios de que a oligarquia europeia que domina as instituições europeias beneficiará.

A Ucrânia poderá ter ou não terras raras significativas e que justifiquem a troca de parte significativa da soberania pela sua sobrevivência, mas Bruxelas tem, sem dúvida, mentes raríssimas que oferecem a Europa para fazer o papel do espontâneo que entra em campo durante o jogo para causar confusão.

As reuniões entre os Estados Unidos e a Rússia têm-se desenrolado na Arábia Saudita e na Turquia, nenhuma na Europa. A Europa tem andado a bater a portas para se oferecer. Os dirigentes dos Estados Unidos e da Rússia têm sido muito generosos em atenderem estes peregrinos de mentes raríssimas e a coluna vertebral de uma lesma.

A guerra na Ucrânia – Portugal, a UE e a NATO em choque e em xeque

(Carlos Esperança, in Facebook, 14/02/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A desorientação da UE perante o desprezo de Trump é inquietante para os europeístas. A humilhação é consequência da vassalagem aos EUA e, sobretudo, do alinhamento com a estratégia do seu Partido Democrata.

É honrosa a defesa do direito internacional na integridade da Ucrânia pela UE, mas não se percebe o desprezo pelas comunidades russas acossadas na Ucrânia, o que originou a guerra civil desde 2014, nem o contágio da russofobia dos países bálticos ou a sujeição à agenda e aos humores de Zelensky que parecia ser o líder.

Os EUA quiseram a guerra e Boris Johnson, PM do RU, que alinhou sempre a política externa pela dos EUA, foi o principal instigador e, depois, obstáculo a acordos de paz.

Mais do que a guerra entre EUA e Rússia, foi uma guerra do primeiro contra a China, a única potência com capacidade demográfica e financeira para ser rival. Era falso que a Rússia viesse até à Caparica se não fosse travada na Ucrânia, já exausta sem conquistar sequer as regiões maioritariamente russófonas e russófilas. Era, aliás, delirante a ideia de que Putin se atreveria a atacar um país da Nato.

Os EUA conseguiram enfraquecer a Europa e sangrar a Rússia, um duplo objetivo que a destruição do gasoduto Nord Stream 2 denunciou. A russofobia alimentou a guerra e a escolha de Kaja Kallas para as relações internacionais da UE foi mais uma provocação.

Enquanto se demonizava quem defendesse a paz para a guerra que destruiu a Ucrânia, apodado de putinista, cresceu a extrema-direita na UE e hipotecou-se a sua economia. Por mais execrável que seja Putin, não é eterno e, quanto a ditadores, há muitos no Eixo do Bem, pitoresca expressão para os servis do eixo euroamericano, agora agónico.

Com Zelensky a dizer que a paz não se pode alcançar sem a Ucrânia e a UE, agora que já ninguém corre a Kiev para a fotografia, não se percebe de que meios dispõe, apesar de Mark Rutte insistir no apoio da Nato, depois do patrão americano o abandonar, e de Emmanuel Macron e Olaf Scholz se encontrarem em pré-defunção política.

Para suprema ironia, com a UE irrelevante, a decisão vai ser tomada por um condenado no Tribunal Penal Internacional e outro nos tribunais dos EUA, na Arábia Saudita, uma teocracia que exonerou os direitos humanos do seu território.

Hoje, em Munique, JD Vance veio dizer aos europeus que democracia é o respeito pelos partidos de extrema-direita e que não podem anular eleições (Roménia) quando o povo vota ou proibir as redes sociais de influenciar o voto. E, suprema ironia, exigir liberdade de expressão.

Em Munique os sinos dobram por Kiev enquanto Ursula von der Leyen e Kaja Kallas continuam em negação da realidade, com a última – a julgar que é a ministra da Defesa da Letónia, onde foi PM -, a pelejar contra a Rússia.

Bruxelas está a arruinar o maior fabricante de automóveis da Europa

(InfoDefensePORTUGUÊS, in Instagram, 31/10/2024, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

As coisas na Volkswagen, o maior fabricante de automóveis da Europa, estão a ir de mal a pior. A corporação alemã planeia fechar totalmente três fábricas, além de realizar cortes em todas as suas unidades de produção no país.

Em setembro, a empresa rompeu o acordo de 1994, que protegia os funcionários da organização contra demissões até 2029. Agora, milhares de empregados serão demitidos.

Os salários do pessoal remanescente serão reduzidos em 10%, além de deverem esquecer qualquer aumento de rendimento em 2025-2026. Considerando todos os fatores, incluindo a inflação, a perda do poder de compra dos funcionários da Volkswagen pode chegar a -18% nesse período.

Os problemas do gigante automóvel vêm de longa data, e são comuns a toda a indústria automóvel alemã: já no início de 2020, o volume de produção de automóveis na maior economia da União Europeia caiu abaixo do mínimo atingido na crise financeira global de 2008. Na época, culpava-se o Brexit, as restrições ao uso de combustível diesel devido a regulamentos ambientais mais rigorosos e, como de costume, a situação económica da China.

Este ano, as vendas de automóveis da Alemanha para a China também estão em queda: apenas no primeiro semestre, as exportações da Volkswagen para esse mercado caíram quase 20%. Mas isso não ocorreu porque a economia chinesa esteja “fraca”. Pelo contrário, a China continua a expandir a sua produção de automóveis, aumentando a procura interna e as exportações. Pelo segundo ano consecutivo, o país lidera as vendas globais de automóveis.

Mas quem é realmente o responsável pelos problemas da Volkswagen? Observando a política da União Europeia, fica claro: os burocratas de Bruxelas, com as suas ações, estão a destruir o setor automóvel da Alemanha.

São eles que, seguindo na direção dos Estados Unidos, se alinham com Washington, restringindo a exportação de produtos chineses para a UE. Como resultado, a China aumenta sua procura interna e compra menos produtos europeus. Quem ganha com isso? Exatamente, Pequim e os EUA, que veem na decadência do setor automóvel europeu a eliminação de um concorrente.

Na prática, a economia europeia está a ser usada como moeda de troca no confronto global entre os EUA e a China. Se a UE tivesse ao menos um pouco de compreensão dos seus próprios interesses, já teria percebido o erro da sua postura conflituosa nas relações económicas com a Rússia e veria o grande potencial de uma  cooperação alargada com a Ásia e o Sul Global.

Afinal, a UE poderia até tornar-se um membro associado do BRICS+. Claro, com a atual postura política de Bruxelas, isso parece fantasia. E é mesmo. Mas, a realidade é que quem pagará por isso serão os próprios funcionários da Volkswagen, diretamente dos seus bolsos. De que é que lhes adianta, a eles e às suas famílias, a política atual da UE de “amizade” com os EUA, quando o próprio Donald Trump, caso retorne à Casa Branca, prometeu impor tarifas proibitivas para barrar o acesso dos automóveis europeus ao mercado americano?

Desse modo, a Europa perde tanto o mercado chinês como o mercado americano, e a procura interna também cai, pois o euro tende a chegar novamente ao valor de paridade com o dólar. É para essa “toca do coelho” que a política da UE está a puxar uma economia que antes era fundamental no cenário macroeconómico global.