Tanques em vez de carros

(Por João Oliveira, in Avante, 20/03/2025)


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A maior em­presa de ar­ma­mento da Ale­manha, a Rhein­me­tall, anun­ciou um plano de re­con­versão in­dus­trial no sen­tido de re­di­re­ci­onar para o sector do ar­ma­mento a pro­dução que ac­tu­al­mente des­tina ao sector au­to­móvel. A isso acres­centou ainda a in­tenção de com­prar fá­bricas de au­to­mó­veis para lhes dar o mesmo des­tino.

Da pro­posta não constam pre­o­cu­pa­ções com os tra­ba­lha­dores nem ga­ran­tias dos seus di­reitos, de­sig­na­da­mente quanto à ma­nu­tenção de postos de tra­balho, sa­lá­rios, car­reiras ou con­di­ções de tra­balho.

Este caso é um exemplo fla­grante das ori­en­ta­ções po­lí­ticas da União Eu­ro­peia e das con­sequên­cias prá­ticas que se pre­tende que elas te­nham de ime­diato.

Trans­forma-se a guerra em motor da eco­nomia e faz-se do mi­li­ta­rismo e da cor­rida aos ar­ma­mentos a re­fe­rência para a ori­en­tação dos re­cursos pro­du­tivos. Re­cusa-se e apaga-se o papel dos Es­tados na de­fi­nição da po­lí­tica eco­nó­mica, in­cluindo da po­lí­tica in­dus­trial, dei­xando essas de­ci­sões nas mãos dos grupos eco­nó­micos e fi­nan­ceiros. Ao mesmo tempo dis­po­ni­bi­lizam-se avul­tados re­cursos pú­blicos para aqueles ob­jec­tivos de forma a que o ne­gócio se faça sem risco e com ga­ran­tias de ren­ta­bi­li­dade.

A sa­tis­fação das ne­ces­si­dades so­ciais nos mais va­ri­ados do­mí­nios é pos­ter­gada para se­gundo plano, a co­meçar pelos tra­ba­lha­dores e pela con­si­de­ração dos seus di­reitos. Aqueles que ontem ex­plo­ravam o tra­balho alheio na pro­dução de au­to­mó­veis, ex­plorá-lo-ão amanhã na pro­dução de tan­ques e carros de com­bate com a benção do mesmo poder po­lí­tico, que a partir dos go­vernos na­ci­o­nais ou das ins­ti­tui­ções da União Eu­ro­peia, es­tiver de turno ao seu ser­viço.

E a partir de Bru­xelas a men­sagem é clara. Para as mul­ti­na­ci­o­nais ha­verá apoios e planos bi­li­o­ná­rios de 800 mil mi­lhões de euros como o «Re­Armar a UE». Para os tra­ba­lha­dores ficam re­ser­vados os planos de des­pe­di­mentos, for­mação e re­qua­li­fi­cação pro­fis­si­onal, sub­sí­dios e apoios so­ciais tem­po­rá­rios.

Às classes ex­plo­ra­doras servem-se pri­vi­lé­gios em ban­dejas de prata, à classe tra­ba­lha­dora servem-se balas e pa­li­a­tivos.

As pri­o­ri­dades e op­ções po­lí­ticas têm de ser ou­tras e também os tra­ba­lha­dores do sector au­to­móvel em Por­tugal pre­cisam de outra res­posta.

Ga­rantir os postos de tra­balho e de­fender e apro­fundar os di­reitos dos tra­ba­lha­dores. Re­forçar e de­sen­volver a ca­pa­ci­dade de pro­dução in­dus­trial. Ori­entar a po­lí­tica eco­nó­mica e a pro­dução in­dus­trial em função da sa­tis­fação de ne­ces­si­dades so­ciais e do de­sen­vol­vi­mento na­ci­onal em vez dos lu­cros das mul­ti­na­ci­o­nais. Com­binar a pro­dução in­dus­trial, a po­lí­tica de mo­bi­li­dade e trans­portes e a pro­tecção am­bi­ental, por exemplo pro­mo­vendo a me­lhoria das redes de trans­portes pú­blicos co­lec­tivos e o re­forço da sua co­ber­tura e ca­pa­ci­dade de res­posta.

Estas são al­gumas das re­fe­rên­cias que as­sume a po­lí­tica al­ter­na­tiva pela qual con­ti­nu­amos a bater-nos. Al­ter­na­tiva que re­cusa a ori­en­tação «tan­ques em vez de carros» e lhe con­trapõe a de «paz e pro­gresso em vez de guerra e ex­plo­ração».

Fonte aqui.

Um pequeno passo atrás para Zelensky – um enorme recuo para os seus apoiantes

(António Gil, in Substack.com, 05/03/2025)

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E ao 4º dia Zelensky não ressuscitou, apenas pediu meia desculpa, disse que queria a paz e por isso assinaria o que se recusou a assinar 3 vezes. Assim sendo, a comédia continua mas já não é ele nem sua equipa amadora que escreve o guião.

Há danos colaterais e não me refiro aqui aos ingénuos que se apressaram a celebrar a ‘dignidade’ de Zelensky, esses não contam para nada. Oh sim, a sua rendição devolveu-o – e também aos líderes europeus, mais um canadiano – à sua estatura natural. Afinal, tanto barulho para nada!

Efectivamente, se era para acabar assim, mais valia todos eles terem-se poupado a tantas vergonhas e terem até – quiçá – rebobinado o discurso triunfalista como andaram 3 anos a debitar, 24 horas por dia, 7 dias por semana dizendo ‘agora é que a Rússia vai ver como elas lhe mordem’ Os imbecis do costume acreditariam e escusavam, todos eles, de passarem por mais uma depressão.

Isso seria porém pedir demais, é claro. É provável que ainda o façam, no entanto, agora que tudo se tornou muito claro porque o importante não é ganhar nem a guerra nem a paz mas convencer seus súbditos mais idiotas que no fim ‘os bons vão ganhar’, tal como acontece nos filmes.

No fundo, acredito, todos respiram de alívio porque ninguém queria de facto a continuação na guerra e certas bravatas, se fossem cumpridas, acabariam por precipitar a queda mais que certa dos patéticos ‘líderes’.

Mas isto vai deixar marcas. Para começar, Zelensky cederá a Trump o que já tinha cedido a Starmer. Macron, sentir-se-á despeitado, ainda mais que o britânico, já que nunca foi sequer convidado para comer tal bolo.

Meloni já disse que jamais enviaria soldados e Merz…bom que pode ele dizer? Ainda nem tomou posse e certamente sentiu-se feliz por Scholz ter de fazer o seu último passeio dos tristes, papel idêntico aliás, ao de Trudeau.

E assim, até a ‘famosa’ proposta de paz europeia ( com o Canadá a bordo) se desfez em fumo antes mesmo de ser apresentada a Trump que, de qualquer forma, nunca lhe ligaria nenhuma.

Fonte aqui.

Para o povo nada, para o militarismo tudo

(João Oliveira, in Diário de Notícias, 25/01/2025)


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Se um país quiser investir em habitação, saúde, educação, transportes, infraestruturas, se quiser apoiar a actividade produtiva ou o desenvolvimento científico e tecnológico, se quiser aumentar salários e pensões ou combater a pobreza e a exclusão social, isso só pode ser feito desde que não sejam ultrapassados os limites do défice orçamental e da dívida pública fixados pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (na formulação revista e reforçada pelos diversos mecanismos de controlo económico e orçamental que estão hoje ao dispor da União Europeia).

Se quiser investir em equipamento militar, armas, munições, tecnologia militar ou no prolongamento de uma guerra aprovada pela UE – nomeadamente a guerra na Ucrânia – não precisará de se preocupar com os limites do Pacto porque a Comissão Europeia vai criar uma excepção para esses gastos.

É este absurdo político que resulta das palavras da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, quando afirmou recentemente que irá propor a ativação da cláusula de derrogação (do Pacto de Estabilidade e Crescimento) para os investimentos em Defesa.

Vinte anos depois da aprovação do Pacto, a racionalidade económica e orçamental dos seus critérios continua por explicar. Mas estão bem à vista as consequências e os fins da sua aplicação. E é também evidente que essa aplicação não é a mesma para todos nem para tudo.

As consequências dos critérios do Pacto estão à vista na queda do investimento público, na degradação dos serviços públicos, no agravamento do atraso relativo de Portugal face às principais potências da UE, na crescente dependência externa, na contenção dos salários.

Os fins a que se destina a aplicação do Pacto ficaram especialmente à vista com as políticas dos PEC e das troikas em Portugal, entre 2008 e 2015. Foi em nome dos seus critérios que se impuseram medidas draconianas de controlo político e económico, de entrega de empresas e sectores económicos estratégicos a multinacionais, de drenagem de recursos nacionais para as grandes potências da UE, de aprofundamento da exploração dos trabalhado- res em benefício dos grandes grupos económicos e financeiros.

Quando se tratou de aplicar o Pacto de Estabilidade a Portugal, Irlanda, Grécia ou Espanha para satisfazer os interesses dos megabancos e especuladores internacionais não se poupou nada. Quando são as potências da UE, como a França, a assumir abertamente que não vão cumprir os seus critérios, nada acontece.

As declarações de Von der Leyen sobre a excepção para os gastos com o militarismo mostram que a prioridade da UE é a aventura belicista e militarista. Esse é o ponto de partida para novas medidas de favorecimento dos grupos económicos e das multinacionais, apresentando a guerra como motor de uma economia concebida como economia de guerra.

A resposta aos problemas dos povos fica para trás e nem como excepção é considerada.

Quem não aceitar este caminho que levante a voz contra o Pacto!

Eurodeputado

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico