Rússia – a charneira inesperada?

(João Gomes, in Facebook, 10/03/2026)


Há momentos na história em que as engrenagens da geopolítica parecem mover-se segundo planos cuidadosamente calculados. E há outros em que esses planos se revelam, afinal, um exercício de imaginação demasiado otimista. O conflito recente que envolve o Irão e a coligação formada por Israel e pelos Estados Unidos parece pertencer claramente à segunda categoria.

Quando a escalada começou, o argumento apresentado por Trump era simples: neutralizar rapidamente uma ameaça considerada intolerável. Havia negociações em curso, é verdade, mas também havia a convicção – expressa de forma particularmente confiante por Trump – de que qualquer confronto, se necessário, seria curto e decisivo. O Pentágono, segundo diversas análises estratégicas divulgadas nos meses anteriores, partilhava uma avaliação semelhante: uma pressão militar suficientemente intensa poderia levar o Irão a recuar rapidamente. A realidade, porém, decidiu seguir outro guião.

A resistência iraniana revelou-se mais sólida do que muitos analistas previam. Não apenas pela capacidade militar demonstrada, mas também por uma certa disciplina estratégica que deixou no ar a sensação de que nem todas as cartas foram ainda colocadas na mesa. Teerão respondeu, resistiu e manteve uma postura que mistura firmeza e cálculo – sugerindo que a sua estratégia talvez não seja ganhar uma guerra total, mas sobreviver a ela com suficiente capacidade de continuidade.

Esse ponto é central. Para o Irão, a lógica política pode não estar em prolongar indefinidamente o confronto, mas sim em parar no momento certo. Não por falta de meios ou por colapso da resistência, mas por uma razão mais estrutural: preservar o ritmo de modernização tecnológica e económica necessário para os seus projetos estratégicos futuros. Entre eles, naturalmente, o programa nuclear que Teerão insiste em apresentar como tendo objetivos energéticos e não militares. Uma guerra prolongada poderia comprometer esse horizonte.

É neste cenário – paradoxalmente – que surge a figura da Putin. A Rússia, que muitos imaginavam estar apenas a observar à distância, e a lucrar futuramente com a possibilidade de vender o seu petróleo – face à crise colocada no Estreito de Ormuz – aparece agora como potencial mediadora. Não era necessariamente o papel esperado.

Putin telefonou a Trump e ofereceu-se para mediar o conflito. Trump ainda não respondeu, mas ontem – ao divulgar que “a vitória estava para breve” já anunciava um pensamento diferente; as vitórias para Trump nunca são no terreno – são sempre no mediatismo televisivo!

A política internacional raramente segue a lógica simples do ganho imediato. Para Moscovo, apresentar-se como mediador oferece algo muito mais valioso: estatuto. Se conseguir transformar-se no eixo que permite uma saída diplomática – salvando a face de Washington, preservando a sobrevivência estratégica de Teerão e evitando uma conflagração regional – a Rússia ganha aquilo que realmente procura: reconhecimento como o polo indispensável na arquitetura de poder global que é e sempre foi e que a Europa não tem reconhecido.

A guerra Israel-EUA contra o Irão foi iniciada sob o impulso da iniciativa estratégica de Israel e Washington e pode terminar com a Rússia a desempenhar o papel de charneira diplomática. IS já depois de Trump ter anunciado a eventual retirada de sanções à Rússia para que esta pudesse fornecer petróleo ao Mundo e diminuir o impacto dessa guerra. Putin prefere a paz ao lucro – o que demonstra a sua posição consciente do que esta guerra está a provocar nos mercados.

Quanto a Israel, o quadro é particularmente delicado. O país demonstrou, mais uma vez, uma extraordinária capacidade de resistência sob pressão – algo profundamente enraizado na sua própria história nacional. Contudo, o desgaste de um conflito prolongado será inevitável. A sociedade israelita, que já vive há décadas sob a tensão permanente da segurança, enfrenta novamente um dilema existencial: até que ponto a lógica da confrontação permanente pode coexistir com um projeto político estável para o futuro.

Alguns setores ideológicos continuam a invocar a ideia de uma “Grande Israel”, uma visão maximalista que imagina uma expansão territorial ou estratégica muito além das fronteiras atuais. Mas a realidade política do Médio Oriente contemporâneo é muito menos permissiva para tais ambições. A região tornou-se demasiado complexa, demasiado multipolar e demasiado interdependente para que projetos dessa natureza encontrem viabilidade real. O projeto sionista não tem viabilidade – por muito que se esforcem os que o defendem.

Assim, o conflito que começou com promessas de resolução rápida transformou-se numa equação muito mais complicada. Washington procura uma saída que não pareça uma retirada. Teerão calcula o momento adequado para preservar as suas capacidades estratégicas. Israel mede o custo humano e político de uma guerra prolongada.

E, no meio dessa engrenagem, surge Moscovo – não como protagonista inicial, mas como a inesperada peça de ligação entre forças que já não sabem exatamente como travar o movimento que iniciaram.

A história tem destas ironias. Às vezes, a porta de saída de uma guerra aberta por uns acaba por ser construída por aqueles que tantos criticam por ações que – noutra região – são a expressão da defesa da sua segurança global.

João Gomes

Boa tarde!

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A diplomacia do risco assumido

(João Gomes, in Facebook, 22/12/2025)


Macron quer falar com Putin porque não há soluções sem diplomacia…

A União Europeia decidiu, finalmente, assumir riscos. Não riscos calculados, não riscos estratégicos, mas riscos no sentido mais europeu do termo: adiar decisões difíceis enquanto se transforma o adiamento numa virtude política. Chamemos-lhe, com propriedade, diplomacia do risco assumido – assumir riscos que não se controla, com dinheiro que não se tem, para um desfecho que não se consegue desenhar.

Durante quatro anos, a UE foi acumulando camadas de exceção: pandemia, inflação, energia, guerra. Cada crise foi tratada como transitória, cada solução como temporária, cada dívida como irrepetível. Hoje, descobre-se que o temporário se tornou estrutural e que a exceção virou método. O empréstimo de 90 mil milhões à Ucrânia é apenas o capítulo mais recente dessa narrativa.

Promete-se financiamento como quem promete estabilidade: com solenidade, comunicados bem redigidos e datas projetadas para um futuro suficientemente distante para não coincidir com eleições decisivas. O problema é que, desta vez, o futuro já começou a pedir garantias.

A UE quer emprestar, mas não quer usar os ativos russos. Quer apoiar, mas não quer assumir o custo político. Quer emitir dívida, mas espera que os mercados não façam demasiadas perguntas. E, acima de tudo, quer continuar a falar de vitória sem ter de definir o que isso significa – nem quando.

O resultado é um exercício de malabarismo financeiro digno de nota: emitir dívida conjunta baseada num orçamento pressionado, com reembolso dependente de reparações de guerra que só existirão se a guerra terminar da forma “correta”. É uma engenharia elegante, mas assente num pressuposto frágil: a História colaborar com o PowerPoint.

Entretanto, Emmanuel Macron redescobre a diplomacia. Não por súbita conversão pacifista, mas porque os agricultores franceses bloqueiam estradas, o Mercosul ameaça implodir consensos internos e a dívida europeia começa a deixar de ser um conceito abstrato. Dialogar com Putin surge, assim, menos como escolha moral e mais como instinto de sobrevivência política.

A França percebe aquilo que Bruxelas ainda evita dizer em voz alta: não há financiamento infinito para guerras sem horizonte. Cada euro prometido fora é um euro explicado dentro. Cada emissão de dívida exige coesão política. E cada adiamento torna a fatura mais pesada – financeira, social e democrática.

A diplomacia do risco assumido é isto: avançar sem mapa, financiar sem garantias, prometer sem fechar. Confiar que os mercados serão pacientes, que os cidadãos compreenderão e que o conflito, de alguma forma, se resolverá antes que o calendário político chegue à porta.

Mas a UE enfrenta agora uma saída extremamente difícil. Se cumpre a promessa, arrisca-se a transformar um empréstimo improvável numa dívida permanente, com juros pagos a instituições financeiras que não participam na retórica solidária. Se não cumpre, perde credibilidade estratégica e expõe a fragilidade do seu próprio discurso.

Durante quatro anos, os problemas foram sendo empurrados para a frente com habilidade técnica e coragem retórica. Hoje, empilharam-se ao ponto de se tornarem indivisíveis. Guerra, dívida, agricultura, comércio, legitimidade política – tudo converge no mesmo ponto.

A diplomacia europeia assumiu riscos. O problema é que, desta vez, não escolheu quais. E quando o risco deixa de ser opção e passa a ser condição, a diplomacia transforma-se apenas numa gestão elegante do inevitável.


Putin abre as zonas cercadas aos jornalistas ocidentais

(João Gomes, in Facebook, 30/10/2025)


Numa reunião recente com militares russos, o presidente Vladimir Putin surpreendeu ao propor o acesso de jornalistas – incluindo repórteres internacionais e ucranianos – às zonas de combate onde, se encontram unidades ucranianas cercadas. A declaração, transmitida pela televisão estatal russa, surgiu acompanhada de uma oferta insólita: a suspensão temporária das hostilidades por “duas, três ou seis horas” para permitir a entrada controlada da imprensa nas áreas de encirclement.

Putin afirmou estar disposto a garantir a segurança dos jornalistas durante a visita, desde que, segundo as suas palavras, “não haja provocações do lado ucraniano”. A proposta, feita em tom informal mas público, evocou o precedente de Azovstal – a siderurgia de Mariupol onde, em 2022, soldados ucranianos resistiram semanas antes de se renderem. O presidente russo sugeriu que uma exposição mediática direta poderia influenciar “a liderança política da Ucrânia” na decisão sobre o destino das tropas atualmente cercadas.

A intervenção incluiu também referências técnicas e simbólicas: o ensaio bem-sucedido do torpedo nuclear “Poseidon” e o agradecimento pessoal de Putin a soldados que, segundo disse, lhe enviaram ícones religiosos como presente de aniversário. O ambiente da reunião combinou, assim, elementos de ação militar com gestos de humanização e apelo à narrativa de transparência.

Até ao momento, não há confirmação de que o Moscovo tenha formalizado convites a organizações de imprensa estrangeiras, nem de que o cessar-fogo temporário tenha sido implementado. No entanto, o simples facto de a proposta ter sido feita publicamente – e amplamente difundida pelos meios estatais russos – representa uma abertura retórica pouco comum.

Num conflito marcado pela censura, pela propaganda ocidental e pelo controlo rígido da informação, o convite de Putin, ainda que condicionado, pode ser lido como um sinal de autoconfiança e de tentativa de legitimação política perante a opinião pública internacional. Ao declarar-se disposto a receber jornalistas ocidentais nas zonas mais sensíveis do conflito, o Kremlin procura transmitir a imagem de que não tem nada a esconder – e de que domina militar e moralmente a situação no terreno.

Se essa promessa se concretizar, poderá constituir um dos raros momentos de contacto direto entre a imprensa internacional e as realidades da frente leste, quebrando o cerco informativo que tem marcado a guerra.

Até lá, o gesto permanece simbólico – mas, ainda assim, significativo como expressão de uma Rússia que tenta demonstrar força e, ao mesmo tempo, abertura política.

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