Diz que é uma espécie de “frente progressista”

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 21/05/2019)

Francisco Louçã

(Mas que grande imbróglio. Há dois Costas, o Costa cá dentro para consumo interno e o Costa lá fora, para consumo externo?! Fico na dúvida: qual deles é o Mr. Hyde e qual deles é o Dr. Jekyll? 🙂

Comentário da Estátua, 21/05/2019)


Se procurar na comunicação social portuguesa, dificilmente encontrará uma referência à “frente progressista” que Costa terá proposto a Macron para o próximo Parlamento Europeu. Não deixa de ser surpreendente. Os arautos do “nós somos Europa” escondem meticulosamente este imbróglio de alianças com que dividem a sua própria família política e que os parece levar para terra incógnita. As eleições devem ser um “referendo” ao Governo, resume Carlos César, mas apresentar aos crédulos eleitores um plano para a União Europeia, isso já parece estar fora de cogitação pelos seus mais ardentes defensores. Mas olhe que merecia.

Uma recente insinuação pública sobre esta “frente” terá sido a mensagem que o primeiro-ministro português enviou a um comício eleitoral do partido de Macron, em que sugere que “as forças progressistas (se) devem unir para permitir a mudança necessária”. Qual mudança, isso logo se verá. A fórmula até poderia ser interpretada como um rendilhado diplomático mas, interrogado sobre o assunto, Costa enviou à Lusa uma nota em que explica que, no seu entender, “a Europa precisa de uma grande frente progressista” e está “empenhado em ajudar a construir as pontes necessárias”. O encontro desta segunda-feira entre Macron e Costa em Paris confirma este vaivém para uma prometida convergência. Tudo desejos e boas intenções?

Ao contrário da discrição com que o assunto é tratado neste cantinho à beira-mar plantado, a imprensa francesa diz que a preparação do casamento já vai em juras solenes e aliança no dedo. Garance Pineau, um dos chefes do empreendimento de Macron, diplomata e responsável pelas consultas com outros partidos, veio a Lisboa e registou que o PS está “muito interessado” na “frente”. As mensagens emitidas do Largo do Rato confirmam-no. O Partido Socialista Europeu esclareceu seraficamente que “não está incomodado” com esta iniciativa. Ela parece ambiciosa, pretendendo juntar alguns dos socialistas (que tinham 185 deputados, mas estão em perda) com os eleitos de Macron e dos partidos seus aliados (ninguém sabe quantos serão), que por sua vez prometeram integrar uma aliança com os liberais (atualmente 69 deputados) para enfrentar a direita europeia do PPE (que tem agora 216 deputados, mas divididos entre os merkelianos e a extrema-direita do Grupo de Visegrado).

Ora, o projeto é duvidoso pelo menos por três razões. A primeira é que se trata em todo o caso de uma inversão de rumo, pois implicaria que Macron e Costa procurassem vencer o PPE de Merkel e deixassem de buscar a sua complacência para entendimentos do dia a dia. Havendo uma coligação governamental na Alemanha entre a CDU e os social-democratas, esse putativo afastamento parece atrevimento. A segunda é que chamar a isto “frente progressista” é uma bizarria. Os liberais, que já assinaram com Macron um protocolo que curiosamente declarava que pretende “romper com o bipartidismo” europeu entre os socialistas e a direita merkeliana, são conduzidos por Mark Rutte, o primeiro-ministro, e representam o tradicional programa neoliberal da direita. Seria mais fácil vê-los numa associação com Passos Coelho do que com Costa, pelo que chamar a isto “progressista” é em qualquer caso um floreado extravagante. A terceira razão é que esta frente divide os socialistas. Estes já foram destroçados em França pelo sucesso inicial de Macron e pode até admitir-se que Costa despreze os seus camaradas locais. Mas em Espanha isto é um problema, porque Macron se aliou ao Ciudadanos, e não vejo como possa haver um grupo europeu que tenha simultaneamente o PSOE, que está no Governo, e esse partido de direita, na oposição, sendo, por sua vez, aliado da extrema-direita na Andaluzia. É uma salganhada impossível, o que significa que, se Macron leva os seus, o PSOE fica de fora.

Assim, a “frente progressista” pode vir a ser uma frente (juntando partidos tão diferentes mas afastando uma parte dos socialistas), mas duvido que seja progressista (os liberais defenderam arduamente sanções contra Portugal e é de esperar que voltem a fazer o mesmo na primeira oportunidade) e, sobretudo, que configure uma alternativa razoável para a União Europeia. A não ser que o programa neoliberal à Rutte e Macron seja o novo oásis. Só que isso não se pode dizer em Portugal, pois não? Alguém se poderia lembrar de perguntar se esta aliança em Bruxelas não é o contrário do que promete o Governo em Lisboa, que por isso mesmo quer ser plebiscitado no meio da santa ignorância sobre estas aventuras casamenteiras. Entretanto, em Portugal o PS continua a repetir a promessa de um “novo contrato social europeu”. Mas isso vai ser com os liberais? Será que houve milagre da reconfiguração das almas e Macron deixou de ser o presidente dos milionários, Renzi o homem do ataque à segurança social, Rivera o nacionalista espanholista e Rutte o arauto dos mercados?

Como dizia Tyrion Lannister no último episódio do “Game of Thrones”, “não há nada no mundo mais poderoso do que uma boa história. Nada a pode travar. Nenhum inimigo a pode vencer”.

A questão é que, neste caso, a história da “frente progressista” não é boa, não é nova e nem sequer sei se chega a ser uma história, pois já aterra com um cadastro demasiado pesado. Talvez seja simplesmente a prova da incoerência dos seus inventores, reduzidos à manobra por falta de um projeto apresentável. Por alguma razão a escondem meticulosamente dos eleitores.


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Textos de circunstância

(Vítor Lima, in blog Grazia Tanta, 08/05/2019)

A – A CRISE DO PAGAMENTO AOS PROFESSORES

A História parece ir repetir-se…
Em 2008 com o começo da crise financeira o governo Sócrates sentiu-se obrigado a nacionalizar o BPN (o banco do gang Cavaco) e o BPP entrava em bancarrota.
Em março de 2011 a imprensa e a direita animaram um pequeno grupo – Geração à Rasca – a conseguir gigantescas e inconsequentes manifestações contra o governo Sócrates, gerador de um deficit monumental. Em 6 abril, uma reunião de banqueiros decide passar para o Estado a gestão da (sua) crise financeira.
Dias depois, o PEC-4 (plano de estabilidade e convergência, versão 4) é chumbado na AR, Sócrates demite-se e seguem-se eleições de onde resulta o advento da sinistra dupla Passos/Portas, apostada em ir para além da troika; um tombo enorme nas bancadas do PS (que entraram em hibernação) e do BE; e afinal, da grande manifestação de 11/3 resultara um reforço de uma direita cavernosa.
E veio a troika… para ficar, privatizar, exportar trabalhadores, cortar em rendimentos, uma vez que toda a gente andaria a viver acima… das suas possibilidades.
Em 2018/19 é o tempo de glória das ordens profissionais reivindicativas, da pulverização de sindicatos corporativos, cada qual a pretender uma notoriedade que as velhas centrais não conseguem; mesmo que frequentem uma palhaçada chamada Concertação Social.
É evidente que o governo Costa só se constituiu com o apoio do BE/PC, reanimados depois das eleições de 2015; mas as reparações dos estragos de 2012/14 com a troika e o seu funcionário Passos ficaram por fazer e a perda de poder de compra mantém-se no contexto de uma sufocante carga fiscal e de encargos com a dívida, que não baixam.
Mas a História, por vezes parece querer repetir-se; e o esquecimento permite o surgimento de farsas.
A ausência de capacidade política na esquerda política e sindical permite um diktat recente na AR, com uma votação que obriga o governo a reparar as perdas de rendimento dos professores, o que estragará os equilíbrios financeiros do Centeno.
Esperar inteligência no Pavilhão das Aves Canoras sito em S. Bento é tão provável como esperar que camaleões cantem Verdi. E assim, vemos o PSD e Cristas em acelerada marcha atrás no seguimento da apresentação do ás de trunfo pelo Costa.
Poderiam ter aproveitado para encontrar a alternativa financeira acabando com as PPP que engordam nas estradas privatizadas, grupos de saúde que beneficiam do sub-investimento no SNS, numa lógica de privatização encapotada também extensível às áreas da educação e da assistência social; e, criar fórmulas avançadas de autogestão e não de estruturas verticais com um ministro no topo.
Poderiam não ser indiferentes ao volume de gastos militares, às mordomias da classe política (bem… aí estariam a dar tiros no pé), às muitas miseráveis pensões, à aproximação entre o salário mínimo e o salário médio, à precariedade, ao uso e abuso das contratações de trabalhadores temporários, a soldo das parasitárias ETT, ao caos que se vive na Segurança Social.
Como é habitual, em Portugal, pouco vai bem e muito vai mal.


B – QUERES UMA CASA PARA VIVER? 

Recorre ao “direito real de habitação duradoura”! 
Os avatares de turno nos serviços governamentais, para evitarem o confronto com as obrigações constitucionais relativamente à habitação, inventaram mais uma inutilidade: a que dá por aquele nome. Passamos a exemplificar.
Queres uma casa em Lisboa? O preço médio de venda por m2 é de € 2231 e por uns reles 100 m2 terás de pagar apenas 223000 €, e o inevitável IMI. Não é fácil …
Mas o governo teve um rasgo de inteligência! Tu assinas um contrato, vitalício, em que tomas de aluguer essa casa, entregando como caução 10 a 20% daquele valor; coisa pouca para ti, uns reles 22300 a 44600 €. E a renda mensal, claro!
Tal contrato, protege-te do despejo. Se decidires mudar de ares nos primeiros dez anos, o senhorio devolve-te aquele dinheiro (se não estiver falido ou recheado de penhoras). Passados esses 10 anos, o senhorio pode aboletar-se a 5% da caução por ano, o que significa que ao fim de 30 anos do início do contrato, o senhorio, para além das rendas mensais se apropriou do teu “investimento” inicial. Fantástico!
Tens duas alternativas:
1 – Borrifas-te nesta “oportunidade” idiota vinda do governo e utilizas o valor da eventual caução na compra de uma casita;
2 – Ou fazes um contrato de aluguer nas condições que o governo criou alugando um andar em Figueira de Castelo Rodrigo. Ali, a tal habitação de 100 m2 vale apenas 10600 €; pelo que a caução que terás de desembolsar é de 530 a 1060 €
Dir-me-ás que não há trabalho em Figueira de Castelo Rodrigo ou que as deslocações diárias para vires trabalhar em Lisboa ou arredores, são muito longas. É verdade.
Dir-te-ão que tens de criar o teu próprio projeto! Que tens de te revestir de empreendedorismo! De ser verdadeiramente competitivo! Conversa parva em que só parvos acreditam!
Toma nota: os governos existem para te enganar e te roubar e, só raramente resolvem problemas nas nossas vidas.
Há um século havia um operariado organizado e uma cultura de luta que apertava com os capitalistas. Claro que nesse contexto, os últimos tinham de garantir que o produto teria de ser suficiente para manter a plebe numa contestação não revolucionária, sem prejuízo da acumulação de capital que permitisse a distribuição de rendimentos entre os seus vários setores (acionistas, gestores, finança e classe política).
Ora, com o neoliberalismo, os sindicatos vão pouco além de figurantes na Concertação Social; estão pulverizados em pequenas unidades corporativas; e, pode verificar-se que a parcela do trabalho no produto social tem vindo a decrescer.
Por outro lado, hoje a acumulação de capital proveniente da indústria ou da mais-valia é minoritária, sobretudo nos países capitalistas avançados. O que lhes interessa como forma prática de reproduzir e acumular capital está na área financeira, com poderosos computadores a avaliar as subidas e descidas dos títulos; com a criação de capital a partir do nada através das titularizações. Daí se pode partir para algo de terrífico; a redução do rebanho humano para o que não puder ser substituído por máquinas e robots (por exemplo, escravos sexuais… admitindo que não encontram formas mecânicas de substituir pessoas para essas práticas).
Claro que a financiarização da economia introduz novos e mais poderosos fatores de instabilidade e crises de altos e baixos, como a que vimos acontecer de 2008, com o devotado apoio de Obama para evitar que os grandes bancos implodissem.


C – QUANDO  UM  PATETA[1],  APANHA SOL  NA  CABEÇA, DÁ  NISTO

Primeiro, porque julga que a França ainda é uma grande potência; depois, porque tendo sido secundarizada pela Grã-Bretanha na partilha do Médio Oriente, nos acordos Sykes-Picot, ainda pretende ter um papel a desempenhar na região. Talvez fosse melhor aconselhar o Rothschild baby[2] a satisfazer as reivindicações dos coletes amarelos e deixar-se de imbecilidades e inconveniências;
A França, que tem bombas atómicas, não admite que o Irão as tenha e, nem sequer mísseis balísticos para se defender do cancro regional chamado Israel, para o qual o Irão é o inimigo a abater. O Irão não pode ter mísseis mas a entidade sionista pode ter 50 bombas atómicas clandestinas e… construídas com a ajuda da França?
Na Síria diz ele, de acordo com resolução da ONU não deve haver tropas estrangeiras; mas se forem francesas ou americanas a resolução não se aplica…
Claro que o Irão apoia o Hezbollah e o Assad. E a presença de bases dos EUA no Golfo Pérsico, nas ilhas de Mansura e Diego Garcia, no Djibouti bem como as bombas atómicas nos armazéns de Incirlik visam a paz regional ou, são para ameaçar o Irão e defender a fortaleza sionista? E as enormes vendas de armas do comercial Trump aos sauditas servem somente para satisfazer a vaidade do MbS?
Alguém se recorda de condenações ocidentais pela invasão do Iémen por sauditas e pelos emiratos do Golfo?
O homem está preocupado por não haver um governo no Líbano passados oito meses das eleições. Na Bélgica isso também acontece por vezes; mas isso não incomoda a França que, pelos vistos ainda não se curou das taras colonialistas face ao Médio Oriente;
Oh Jean-Yves vai-te f….


D – A  ESTÓRIA  DO  “EMBARRILADO”

Diz-se que alguém foi embarrilado se enganado ou burlado. Há, um sentido literal claramente aplicado ao bispo Gellert cuja estátua está colocada em Buda e virada para Pest, do outro lado do Danúbio; e que nos inspirou para esta foto.

Gellert era bispo de Csanad, na Hungria, cerca do ano 1000 e meteu-se numa disputa entre cristãos e pagãos; e foi apanhado pelos últimos que decidiram contribuir decisivamente para a sua futura nomeação como santo padroeiro do país. 
Para o efeito foi usada uma técnica de aproveitamento criativo da gravidade. Face ao grande declive sobre o Danúbio, os pagãos embarrilaram o Gellert e puseram-no a rebolar até ao rio, onde acabou os seus dias, sem a intervenção salvadora de qualquer anjo, arcanjo ou mesmo marmanjo.


[1]  Jean-Yves Le Drian, chefe da diplomacia francesa; de um país de segunda linha que julga ainda estar no pódio.

https://www.noticiasaominuto.com/mundo/1186440/franca-ameaca-irao-com-sancoes-se-falhar-dialogo-sobre-programa-balistico

[2] Também conhecido por Macron


Fonte aqui

Após o tempo das catedrais, o tempo da indecência, da hipocrisia e da incompetência

(Por Rémy Herrera, in Resistir, 2204/2019)

Uma catedral incendiou-se. Uma das mais belas, na ilha de la Cité, coração ancestral de Paris; uma das mais imponentes, erigida na Idade Média central, ao longo de quase dois séculos (provavelmente entre 1163, sob Luís VII, o Piedoso, e 1345); uma das mais grandiosas, construída graças aos talentos de gerações de arquitectos da nova arte gótica e às mãos de ouro de uma multidão de artesãos e operários dos ofícios tradicionais, posteriormente àquelas de seus companheiros que a restauraram no século XIX depois de o génio de Victor Hugo – o mesmo que celebrou os sans culottes e abriu a porta para os communards – reanimou o apego popular por esta obra-prima. É o monumento mais visitado da Europa: 20 milhões de pessoas por ano passam pelo seu claustro e 13 milhões entram na igreja. Mas os seus sótãos incendiaram-se e o fogo devorou 100 metros da “floresta” de 1.300 troncos de carvalho da sua estrutura, as suas telhas de chumbo e o seu grande pináculo. 

QUEM DÁ MAIS? 

As brasas do incêndio mal haviam sido extintas pelos nossos bombeiros e os bilionários já, como pragas recônditas, desembainhavam suas carteiras polpudas. Os “líderes da caravana” acotovelavam-se uns aos outros a fim de pagarem um belo “golpe publicitário” e, para quem tem fé, um ingresso na tribuna de honra e alojamento particular no paraíso. As doações afluíram numa colecta obscena. Os leilões alçaram-se no salão de vendas do espiritual. Ouçam, ouçam, boa gente, prosternai-vos aos pés de vossos senhores, dai-lhes graças por sua bondade, agradecei-lhes por sua generosidade e alinhai-vos sob a bandeira da unidade nacional! 

Indecência repugnante no seu mundo onde tudo é mercadoria e comunicação, onde tudo se monetiza, compra-se, vende-se, recompra-se, revende-se, avilta-se, corrompe-se, prostitui-se, põe o dinheiro! 

À minha direita, 10 milhões de euros oferecidos pelos irmãos Martin e Olivier Bouygues, mestres da construção, da TF1, das telecoms (e até do petróleo canadiano e gás do off-shore da Costa do Marfim), através do seu holding familiar SCDM. Ambos recebem mais de 100 milhões de dividendos por ano, apaixonaram-se pelas vinhas de Château Montrose no Médoc (compraram 130 milhões de euros) e desejariam de desfazer-se do seu iate de 62 metros pelo “preço convidativo” de 59,95 milhões. O império Bouygues factura 33 mil milhões de euros e tem mais de 115 mil assalariados. 

Aqui, 10 milhões de euros de Marc Ladreit de Lacharrière, proprietário da sociedade financeira Fimalac, para “o esforço nacional de reconstrução” e “o pináculo, símbolo da catedral”. 

O importante neste jogo é que os licitantes se mostrem, sejam vistos e mantenham sua posição. Então, quando o martelo sela toda transferência de propriedade, o leiloeiro continua. 

Cem milhões de euros ofertados pela família Pinault através do grupo Kering (antigamente Pinault-Printemps-Redoute) da holding Artemis. A fortuna de François Pinault, presente sobretudo no luxo, na cultura e na distribuição, proprietário do Château Latour, de Yves-Saint-Laurent e de Christie’s, entre outros, ultrapassa os 30 mil milhões de euros. Ela mais que duplicou desde a chegada ao poder de Emmanuel Macron e corresponde a 31 vezes o valor do donativo… 

Quem oferece mais? Deste lado, a família Bettencourt-Meyers doa 200 milhões de euros! Isto representa 0,2% da capitalização do mercado de acções da L’Oréal, a empresa (fundada por um colaboracionista sob a ocupação) actualmente é a número um mundial em produtos cosméticos e da qual a sra. Françoise Bettencourt-Meyers é herdeira. Ao vosso bom coração, senhoras e senhores! 

E ainda 200 milhões de euros colocados no cesto pela família Arnault, que mobilizará, para “ajudar a reconstrução”, suas “equipes criativas, arquitectónicas e financeiras”! Bernard Arnault, à frente do maior grupo de luxo do mundo, a LVMH, também actuante na grande distribuição, nas finanças e na imprensa, é o homem mais rico da França. Esta doação de 200 milhões é apenas 0,25% de sua fortuna, estimada em 73,2 mil milhões de euros (contra 46,9 há um ano). 

ALMAS CARIDOSAS 

Todos eles, informa-se, ficaram sinceramente comovidos e afectados pela terrível tragédia. Alguns comoveram-se até às entranhas, alguns mesmo choraram. Que almas caridosas! 

E não esqueçamos as pessoas jurídicas que acorreram e espontaneamente trouxeram socorro logo que souberam do drama. Breve écran publicitário: o grupo informático CapGemini (doação de um milhão de euros), La Française des Jeux recentemente privatizada e já generosa (2 milhões de euros [para a lotaria da Páscoa!]), o banco Credit Agricole (5 milhões), a farmacêutica Sanofi (10 milhões), assim como o banco Société Générale e a seguradora Axa, BNP Paribas e seu balanço de 2 mil milhões de euros, ou seja, duas vezes as despesas das administrações públicas do país (20 milhões), tanto como o grupo de publicidade JCDecaux, a petrolífera Total e seus 209 mil milhões de facturação – mas que não pagou nenhum imposto entre 2009 e 2014 – (100 milhões)… 

Uma vez que se trata acima de tudo de aparecer na bela fotografia da família capitalista, outros formularam “promessas de doação” sem precisar o montante: o grupo de obras públicas Vinci, o fabricante de pneumáticos Michelin, o especialista de gases industriais Air Liquide… Todos eles estão lá! A própria [confederação patronal] Medef apelou a todos os empresários a que participassem na colecta. 

Gestos tão tocantes:   a companhia de seguros Groupama dará de presente carvalhos das suas florestas privadas para a nova estrutura (caso ela seja em madeira), a siderúrgica ArcelorMittal aço para consolidar a construção, o grupo Saint-Gobain materiais de construção, a companhia aérea Air France o transporte gratuitos dos actores oficiais que participarão na “reconstrução”. E o Château Mouton Rothschild? O produto da venda de caixas de vinho… 

E a liga de futebol profissional francesa. E o rei de Krindjabo do reino Sanwi . E a Apple, o fundo de investimento norte-americano KKR e a associação French Heritage Society de Nova York, a University of Notre Dame de Indiana… Com certeza, Walt Disney (que ganhou US$300 milhões em receitas com seu Corcunda de Notre-Dame )… Eles se empurram diante do portão. 

Não faltava neste quadro senão a Ubisoft, o editor de jogos vídeo originário do [departamento de] Morbihan, que anuncia uma doação de um pequeno meio milhão de euros (apenas) para a reconstrução, mas com um bónus, para festejar à sua maneira a Semana santa: uma oferta de telecarregamento gratuito do seu jogo emblemático Assassin’s Creed Unity [Unidade de credo dos assassinos] – permitindo uma visita virtual e aventurosa a Notre-Dame. 

Mil milhões de euros desbloqueados em 48 horas – mais um jogo vídeo gratuito – é o Natal na Páscoa! Não joguem mais, a taça está cheia! Melhor: o Vaticano, tão rico quanto Creso e mesquinho como Harpagon, parece que manterá sua bolsa bem fechada… Mas declarou-se pronto a disponibilizar “seus conselhos técnicos” e “seu savoir-faire mundialmente reconhecido”. 

Ao exibicionismo dos bem-nascidos e dos poderosos veio acrescentar-se a hipocrisia repugnante e a incompetência crassa dos governantes que eles escolheram para nós. Pois esta orgia de beneficência é organizada nos meandros de um Estado que tolera as mais odiosas rapinas e incivilidades, desde a evasão fiscal – pudicamente qualificada de “optimização” e que alimenta tantos peritos – até a fraude em grande escala.

Quaisquer que sejam as estimativas, mesmo as mais baixas, os montantes envolvidos na fraude fiscal, que são tanto insultos à nação quanto receitas que fazem falta ao Estado, seriam suficientes para cobrir défices públicos, inclusive os locais. 

Como se isso não bastasse, eis que todos os salvadores miraculosos de Notre-Dame poderão a pedido beneficiar de vantajosas reduções de impostos – pelo menos para o que eles consentiram pagar em França. Desde uma lei relativa ao financiamento das actividades culturais de 2003 (dita “lei Aillagon”, do nome do ministro da Cultura do governo Raffarin na época do presidente Jacques Chirac), as sociedades podem deduzir 60% das suas despesas a favor do mecenato, com possibilidade de escalonamento da dedução fiscal ao longo de vários anos. 

A redução fiscal pode mesmo atingir 90% (no limite da metade do imposto devido) quando a doação se refere à compra de um bem cultural considerado como “um tesouro nacional” ou apresenta “um interesse maior para o património nacional”). Está claro, a empresa mecenas, investindo no mercado da arte, não contribuirá nestas condições com mais do que 10% das suas doações. 

Em princípio esta medida de redução de 90% não se aplica no caso da “reconstrução de Notre-Dame”. Contudo, quando a catedral ainda estava em chamas, houve vozes a reclamar um gesto incitativo do Estado. Afinal de contas, Notre-Dame não é um “tesouro nacional”? Foi o que ousou pedir, por exemplo, o autor da lei em causa, o ex-ministro Jean-Jacques Aillagon – que hoje está reconvertido e tornou-se o conselheiro do Sr. François Pinault, coleccionador de obras de arte diante do eterno, a fim de esclarecê-lo nos seus judiciosos investimentos. Sem dúvida é puro acaso! Estas pessoas são sem vergonha, mas elas têm escrúpulos: Aillagon retira sua proposta e Pinault, indignado com a suspeita de querer ganhar dinheiro ao doar, renunciou rapidamente à sua dedução fiscal. Quem o imitará? 

Finalmente, incompetência aflitiva de um presidente da República e do seu governo. Sem saber nada, sem que tivesse sido feita qualquer perícia técnica nem realizado qualquer consulta, o comediante Emmanuel Macron declama: “reconstruiremos ainda mais bela catedral e eu quero que isso seja feito dentro de cinco anos”. Ora, só a avaliação dos danos exigirá muito mais tempo quando se compreende que é a totalidade do telhado que cobre a nave, coro e transepto da catedral Notre-Dame que foram devastados, que algumas das abóbadas do tecto ameaçam entrar em colapso, que a estrutura do conjunto do edifício (passeios incluídos) foi fragilizada pelo despejar de toneladas de água, que as próprias pedras talhadas podem ter sido danificadas pelo calor do incêndio… Por que não destruir ainda mais o direito do trabalho para fazer mourejar noite e dia aqueles que se dedicarão a “reconstruir”?

PROEZAS ARTÍSTICAS DE UM GENERAL 

Cinco anos, isso conduzirá exactamente a 2024, ou seja, à organização dos Jogos Olímpicos de Paris. Seria este o objectivo oculto? Isto seria realmente medíocre! Qual a relação entre Notre-Dame e uma competição desportiva, por famosa que seja? O actor-presidente mostra-se resoluto, nomeia de imediato um “Senhor Reconstrução”. Um arquitecto? Que ideia tola! Um restaurador de monumentos históricos? Seria bom! Um historiador da arte? Nada disso! Era preciso um militar para “reconstruir” Notre-Dame – tal como aqueles que se voltam contra os coletes amarelos –, um general do exército, na pessoa de Jean-Louis Georgelin, cujas proezas artísticas consistiram outrora em servir nos paraquedistas, em passar pela escola de formação do U.S. Army Command and General Staff College do Kansas e em participar na força de estabilização na Bosnia-Herzegovina. Retorno à aliança da espada e do aspersório (alliance du sabre et du goupillon), como nos bons velhos tempos! 

Sob os olhares maliciosos das gárgulas apotropaicas a vomitarem os vícios para fora da Igreja, as goelas dos exploradores, dos fraudadores, dos poluidores, dos usurários regurgitaram seus lucros. Num estalar de dedos, alguns maços de notas terão bastado a um punhado de reis privados, fortunas da França cobiçosas de nichos fiscais, para jogarem sobre a mesa do banquete o equivalente a mais de três vezes o total do orçamento que o Estado consagra anualmente à restauração dos monumentos do património nacional (300 milhões de euros). Um orçamento do património lamentavelmente negligenciado desde há décadas, abandonado à tal lotaria popular, a tais boas obras de bilionários filantrópicos. Será preciso que o Louvre também arda para que finalmente o Estado (dono da Notre-Dame e das obras de arte que se encontram no interior) lembre que ele existe? 

E eis que subitamente, como por obra do Espírito Santo, os capitalistas que demolem o país e cavam as desigualdades sociais, metamorfoseiam-se em “construtores” de catedrais e em garantidores da “unidade nacional”. “O mal que fazem os bons é o mais prejudicial dos males”, pôde escrever o autor de Zaratustra. Tudo isso arrisca-se a terminar muito mal. Talvez antes mesmo de o monumento reabrir aos peregrinos e turistas o seu Portal do Julgamento Final. A Grande Jacquerie de 1358 eclodiu logo após a inauguração de Notre-Dame… 

Há muito tempo atrás (no primeiro século, o início da era cristã, é o que parece indicar o “pilar dos Nautas” encontrado em 1711 nas fundações do altar de Notre-Dame), um templo pagão galo-romano, de escala impressionante para a época, elevava-se no local exacto da actual catedral. Este templo era dedicado a Júpiter, de que Emmanuel Macron pensa ser um descendente directo. Ao anunciar a “reconstrução” de Notre-Dame, o presidente jupiteriano quer marcar seu século; faz disso um assunto pessoal. Entre os dois braços do Sena, ele pensa estar em casa. Pior: no clímax do calendário litúrgico, nesta semana especial da Páscoa, nosso sátiro nacional também se toma pelo filho de Maria – que venceu a morte e ressuscitou para a vida. Não se irá “reconstruir” Notre-Dame; não se fará senão a restauração, a reparação dos danos. Pois a mais admirada das 93 catedrais da França, que havia resistido às vicissitudes dos últimos 856 anos, foi, sob seu pequeno reinado, definitivamente perdida. É o que ainda não chegou a compreender aquele que ficará na história como o estafeta dos mercadores do templo.


Fonte aqui